Left Behind
15 Capítulo 15 - Stand By Me (Parte 2)
Notas iniciais
Capítulo 15 — Stand By Me (Parte 2)
E L L I E
Minha boca abriu-se involuntariamente e tive que arregalar os olhos para acreditar no que estava vendo. Os cabelos rebeldes cor de areia e olhos grandes… Como não o reconhecera antes?
— Isaac… — sorri, não contendo a animação de encontrá-lo novamente. — Eu achei que você estava…
— Será que dá pra deixar isso pra depois? — ralhou uma voz feminina — Não temos tempo pra isso!
Isaac virou-se e assumiu um semblante preocupado. Notei que uma das mulheres amparava um homem caído ao chão e as outras ajoelhavam-se ao lado. Reconheci o homem como o tio de Isaac e a mulher era sua mãe, porém as outras eram desconhecidas. O braço do homem parecia gravemente ferido e o sangue manchava suas roupas. Com pesar, percebi que se tratava de uma mordida.
Isaac correu para o lado do tio e segurou seu braço.
— O que vamos fazer? — perguntou, olhando aflito para a mãe.
Carl e eu nos entreolhamos, talvez tendo a mesma ideia em mente.
— Talvez possamos ajudar — informei, chamando atenção do grupo.
— Como? — perguntou a mãe de Isaac, em desespero.
— Conhecemos alguém que foi mordido e teve a perna amputada — contou Carl.
— Amputada? — repetiu o homem fracamente.
A mulher ergueu os olhos.
— Você tem certeza de que vai funcionar?
— Mãe, não temos outra escolha — disse Isaac. — Eu vou procurar algo para cortar.
Ele levantou-se apressado e sumiu em um dos cômodos.
Aproximei-me do grupo e ajoelhei-me ao lado da mulher e retirei a mochila das costas. Suas mãos tremiam violentamente enquanto tentava estancar o sangue que escorria pelo braço do irmão.
— É Melissa, certo? — perguntei com a voz calma. Ela afirmou com a cabeça. — Eu tenho certeza de que vai dar certo. Hershel é o nosso amigo que perdeu a perna. Ele está bem e saudável, como se nada tivesse acontecido.
Ela balançou a cabeça, deixando uma lágrima escorrer pelo rosto sujo. Notei que Isaac tinha muitas das feições da mãe.
— Nós vamos precisar de lençóis, certo? Algo para estancar o sangue? — perguntou a garota que eu havia salvado mais cedo. Parecia ter a mesma idade de Isaac. — Eu vou checar os quartos.
A outra mulher segurou o ombro de Melissa, tentando tranquilizá-la. Logo Isaac retornou com um serrote pequeno e a garota carregando um lençol e um travesseiro, onde apoiou a cabeça do homem.
— De onde você tirou isso? — perguntou Melissa com espanto quando o garoto se aproximou com a lâmina.
— De uma caixa de ferramentas no porão…
— Ah, meu Deus — a mulher irrompeu em lágrimas, assustada demais com a ideia. Sua pele parecia mais pálida do que antes.
Isaac abaixou-se ao seu lado e entregou a ferramenta à mulher. Estava prestes a dizer algo quando o sofá que bloqueava a porta afastou-se com o peso dos errantes que a empurravam. Imediatamente ele correu para a entrada, assim como a outra mulher ao lado de Melissa.
— Alguém precisa segurá-lo — falei, impedindo Carl de se levantar para ajudar. A garota também ficou onde estava.
— Mãe, você vai ter que fazer! — gritou Isaac com dificuldade devido ao esforço para segurar a porta.
— Não — Melissa balançou a cabeça. — Não, não, não, eu não consigo…
— Mãe, você precisa, não temos escolha!
— Eu não posso! — repetiu ela, aflita.
Não conseguia imaginar o que ela sentiria ao cortar o braço do próprio irmão… Desesperada como estava ela nunca conseguiria. Suspirei pesadamente, já me arrependendo do que diria.
— Eu faço — anunciei. Melissa pareceu ainda mais espantada, porém me entregou o serrote com as mãos trêmulas.
Prendi os cabelos para trás e ergui as mangas da blusa.
— Ellie, você tem certeza? — perguntou Carl, preocupado.
Balancei a cabeça.
— Eu consigo — falei, tentando convencer a mim mesma. — Só… Fique do meu lado.
Ele afirmou com a cabeça e lançou-me um olhar encorajador.
Lembrei-me de todas as vezes que eu havia visitado minha mãe no hospital e a observara cuidar de pacientes em estados mais graves que aquele. E de quando Sam e eu assistíamos às gravações de suas cirurgias, tendo as mais hilárias reações nas partes nojentas. Naquele momento, eu não acreditava que poderia ter qualquer reação do tipo. Senti-me responsável pela vida daquele homem e de repente não ficou tão difícil entender a devoção de minha mãe ao seu trabalho…
— Certo preciso que o segurem.
Melissa depositou ambas as mãos em seus ombros enquanto Carl e a outra garota seguravam suas pernas. Ele estava pálido, com os olhos entreabertos, mas estava acordado.
— Isso vai doer pra caralho — informei.
— Apenas faça garota — murmurou fracamente.
Segurei seu braço direito e posicionei o serrote há poucos centímetros acima da mordida. Tentei controlar a tremedeira em minhas mãos, o que parecia quase impossível. Eu estava prestes a fazer a coisa mais assustadora da minha vida.
Sem mais demora forcei a lâmina contra a pele e comecei a serrá-la em um movimento de vai e vem. O homem gritou e contorceu-se, porém depositei todas as forças em segurá-lo com uma das mãos e serrar com a outra. Ele se remexia violentamente e seus urros de dor era o que mais me assustava.
— Droga, segurem firme! — ralhei, quando ele quase se soltou de minhas mãos.
O sangue manchava tudo à minha frente, dificultando uma visão direta do que estava fazendo, porém continuei o trabalho sentindo a carne rasgar-se diante da lâmina, rompendo nervos e vasos e fazendo o líquido vermelho escuro eclodir como um rio de sangue, encharcando minhas roupas e a tapeçaria. Senti os respingos quentes em meu rosto, contudo nada fez com que eu parasse. De repente a superfície de seu braço tornou-se dura e percebi que havia chegado no osso. Continuei repetindo os movimentos rapidamente, aplicando ainda mais força. Eu ouvia os gritos horrorizados do homem e os gemidos dos mortos do lado de fora estourando em minha mente como vários disparos.
Isaac por fim conseguiu lidar com os errantes na porta, bloqueando-a com uma estante pesada. Quando pareceu seguro se afastar ele ajoelhou-se ao meu lado e ajudou-me a segurar o braço do tio.
A lâmina por fim tornou a alcançar o tecido muscular e em pouco tempo já não havia mais nada ligando as duas partes do braço. Larguei o serrote e agarrei os lençóis brancos, enrolando-o apressadamente em volta do que restara do membro. A essa altura o tio de Isaac já havia perdido a consciência, o que facilitou o trabalho.
Com uma faca cortei uma tira do lençol e a amarrei firmemente em volta do braço, apertando o nó com todas as forças que consegui reunir. O fluxo de sangue diminui consideravelmente, porém não parou de manchar o lençol. Por fim apoiei as mãos nos joelhos dobrados e respirei profundamente. Tudo ao alcance de meus olhos estava mergulhado em sangue e minhas mãos ainda insistiam em tremer descontroladamente.
— Você está bem? — perguntou Isaac.
— Nunca estive melhor — menti, forçando um sorriso.
Ele voltou o olhar para o tio com o coto enrolado desajeitadamente no lençol e respirou com dificuldade. Puxou um objeto branco do bolso da calça e o levou à boca. Notei que se tratava de sua bombinha de ar.
— Você conseguiu — disse Melissa fracamente. Parecia presa em um tipo de estado de choque. — Obrigada…
Balancei a cabeça, embora não me sentisse satisfeita com o trabalho. Eu sabia que o tio de Isaac perdera muito sangue e se não o levássemos para a prisão rapidamente para receber os cuidados de Herhsel, ele não sobreviveria.
— Bem, acho que agora é uma boa hora para nos dizer quem são — sugeriu a outra mulher, levando as mãos à cintura, aparentemente cansada pelo esforço.
— Eu sou Ellie, e este é o Carl — respondi.
— Nos conhecemos em Woodbury — esclareceu Isaac.
— Oh — aquilo pareceu sensibiliza-la. — Nesse caso acho que já conhecem John e Melissa… Eu sou Joyce e esta é minha filha, Barbara — ela indicou a garota de cabelos escuros.
— Obrigada por me salvar, mais cedo — comentou Barbara, sem jeito. Forcei um meio sorriso em resposta.
— Vocês estão sozinhos?
Busquei o olhar de Carl. Não sabia se ele se sentia confortável para contar sobre a prisão.
— Não, temos um grupo grande. Mas acabamos nos perdendo deles… — explicou. — Vamos encontrá-los assim que conseguirmos sair daqui.
A mulher assentiu, olhando para trás.
— Acho que deveríamos fazer silêncio agora — ela indicou a porta, onde os mortos ainda lutavam para entrar, sem sucesso. — Uma hora eles têm de ir embora.
— Certo… Eu vou procurar algo para me limpar — informei, levantando-me.
Segui para o andar superior e Carl me acompanhou em silêncio. Ao chegar no piso de cima abri a primeira porta à esquerda, encontrando um banheiro, então abri a segunda e encontrei o que queria. Segui para os fundos do quarto e abri a janela, colocando a cabeça para fora.
— Você acha que Michonne conseguiu? — perguntei, observando um grande grupo de errantes vagando pela rua, sem destino, enquanto outros se aglomeravam em nossa porta. — Ainda não acredito que deixamos ela para trás.
— Ela conseguiu — disse ele, quando voltei para dentro. — Michonne sabe se cuidar melhor que ninguém. Ela vai nos encontrar.
— É, bem, eu acho que só nos resta esperar por ela e seu pai. Não acho que vamos conseguir sair daqui com todos aqueles errantes lá fora.
Ele balançou a cabeça.
— Eu vou ficar aqui de vigia, caso alguém apareça — informou.
Assenti e deixei o quarto, voltando ao banheiro. Puxei a toalha de rosto pendurada ao lado da pia e comecei a esfregá-la nos braços, porém não tive muito sucesso. Ouvi passos nos degraus e aproximando-se do banheiro e logo Isaac parou diante da porta aberta; trazia uma garrafa com água nas mãos e um semblante um pouco mais tranquilo que anteriormente.
— Ei, acho que vai precisar disso — ele me estendeu a garrafa.
— Obrigada — aceita-a e girei a tampa, derramando o mínimo possível na toalha. Em seguida fechei o recipiente e o apoiei sobre a pia. Ergui o olhar para Isaac enquanto me ocupava em limpar o sangue dos braços. — Acho que temos muito o que conversar, não é?
— Com certeza — assentiu ele cruzando os braços e apoiando-se no batente da porta. Ele franziu o cenho assumindo uma expressão preocupada de repente. — Sam não está com você? Eu quero dizer, ela está…
— Viva — completei, percebendo o alívio em seu rosto. — Depois que fugimos de Woodbury encontramos essas pessoas que nos acolheram.
— Então vocês tem um acampamento?
— Na verdade, temos uma prisão — expliquei.
— Prisão? — repetiu ele. — Espera não é a mesma prisão que… — ele parou, parecendo refletir por alguns segundos. Eu apenas comprimi os lábios, sabendo que ele estivera presente no dia em que o Governador atacara o lugar. — Ah, droga… Então vocês estavam lá, atirando em todo mundo?
Acabei rindo com sua reação.
— Sam estava. Eu tive que ficar escondida — contei. — Mas depois que todos fugiram ela foi para Woodbury com um grupo e no caminho acabaram encontrando os caminhões, mas todos estavam mortos. Ela me disse que não encontrou você.
— É, bem, nós conseguimos fugir antes de todos baterem em retirada e… Espera, o que você quer dizer com todos estavam mortos?
Ergui as sobrancelhas.
— O Governador… Ele atirou em todo mundo. Matou o próprio pessoal e depois foi embora. Karen foi a única sobrevivente.
Ele parecia perplexo.
— Eu sabia que tinha algo errado com aquele cara, mas eu não imaginava que fosse tão grave — comentou, esfregando a parte de trás da cabeça. — Eu só estou aliviado de termos conseguido fugir antes… Minha mãe achava que eu estava errado sobre ele até que contei o que ele tinha feito com… — Ele parou a frase e desviou o olhar, não precisando completar. — Bem, eu consegui convencê-la e nós fugimos logo depois do tiroteio na prisão.
Lancei-lhe um meio sorriso.
— Que loucura… Mal dá pra acreditar que saímos todos vivos dessa — ele riu. — Sam vai ficar feliz em te ver.
Terminar de limpar-me e deixei a toalha suja sobre a pia, deixando o banheiro e seguindo para as escadas, pensando em abrir um dos enlatados em minha mochila; estava começando a ficar faminta. Isaac seguiu-me pelos degraus.
— Me ver? — repetiu ele, como se parecesse impossível. — Eu não acho que vamos seguir o mesmo caminho.
— O que quer dizer com isso? — parei subitamente, franzindo o cenho e virando-me para ele. Isaac balançou a cabeça, com desânimo.
— Ellie, eu ajudei o Governador a atacar a prisão, o lar daquelas pessoas…
— Não ouse se culpar por isso.
— Não é culpa, é só… Eu não acho que seja uma boa ideia.
— Isaac, eles nos acolheram. Acolheram Sasha e Tyreese que também estavam com o Governador — contei. — E todas aquelas pessoas que haviam ficado na cidade, escondidas, estão na prisão agora. São boas pessoas, eles vão aceitá-los, não importa o que tenham feito. — Fiz uma pausa e ele abriu a boca para falar, porém cortei-o, continuando. — E além do mais, você salvou nossas vidas. Se não fosse por você, Sam e eu ainda estaríamos apodrecendo naquele porão. Você vem conosco quando voltarmos para lá.
Ele baixou a cabeça e suspirou pesadamente.
— Tudo bem — falou por fim. — Mas ainda não acho que seja uma boa ideia.
Virei-me novamente e voltei a descer os degraus, alcançando o piso térreo.
— Não importa. Você não está em posição de escolher — brinquei, tirando um meio sorriso de seus lábios.
Ele se dirigiu à mãe que acompanhava Joyce e Barbara enquanto ascendiam algumas velas. A casa realmente começara a ficar mais escura. Espiei brevemente pela pequena fresta deixada entre a cortina e a janela e notei que a pouca luz do dia se esvaíra, levando as densas nuvens consigo e dando espaço para as estrelas. Os mortos do lado de fora já não empurravam mais a porta, porém ainda vagavam ao redor da casa. Imaginei que Michonne não nos encontraria tão cedo e na pior das hipóteses teríamos que passar a noite ali.
Procurei minha mochila e encontrei-a sobre a tapeçaria manchada. Peguei-a pela alça, notando que John havia sido transferido para um sofá vago e parecia ter recobrado a consciência. Moveu levemente a cabeça e minha direção e estreitou os olhos cansados. Imaginei que diria alguma coisa, como me amaldiçoar por ter arrancado fora metade de seu braço, porém apenas ergueu o polegar da mão que lhe restava. Repeti o gesto, com um sorriso triste e afastei-me lentamente, voltando ao degraus e deixando o grupo a sós.
Enquanto subia, pendurei a mochila em um ombro e a abri, retirando um dos poucos enlatados que havia conseguido na busca. Parei por alguns segundos apenas para abri-lo com a faca e certa dificuldade e voltei a subir as escadas.
Dirigi-me ao quarto onde deixara Carl, porém não o encontrei. A janela permanecia aberta e o vento frio fazia as cortinas dançarem.
— Carl? — chamei, olhando para o corredor vazio através da porta entreaberta.
— Aqui — sua voz não estava tão distante. Virei-me na direção de onde vinha e caminhei até a janela, inclinando-me para fora. Ele estava sentado no telhado que cobria o andar inferior. Franzi o cenho e deixei a mochila de lado, levando apenas o enlatado aberto quando me esgueirei para fora.
Desci cautelosamente pelas telhas, que para a minha sorte não eram íngremes demais, e sentei-me ao seu lado.
— Viu alguma coisa? — perguntei, olhando para o céu noturno.
— Nada — respondeu, desanimado. Voltou a atenção para a lata em minhas mãos, estreitando os olhos. — Ervilhas?
— É… Eu ficaria mais contente se fossem feijões, mas tudo bem — dei de ombros, oferecendo as ervilhas. Carl juntou uma porção com os dedos e levou a boca. Imitei-o, sentindo o gosto pouco saboroso dos grãos.
Comemos em silêncio, apenas observando a escuridão do céu e a diversidade de estrelas preenchendo-o. Por alguns poucos segundos senti-me grata por tudo estar tão abandonado. Quando o mundo ainda era o mundo, era impossível enxergar tantas estrelas e constelações. As luzes da cidade impediam aquela vista maravilhosa.
Quando a lata por fim se esvaziou, Carl deixou-a de lado sobre uma das telhas.
— Ei, achei que tinha dito que ia se limpar — disse ele. Ergui uma sobrancelha e olhei para as próprias mãos. Ele riu. — Estou falando do seu rosto. Está todo respingado.
Esfreguei os dedos na bochecha e percebi que ele falava a verdade quando voltaram manchados. Tentei desajeitadamente livrar-me dos respingos.
— Melhor? — perguntei depois de esfregar uma boa parte do rosto. Carl comprimiu os lábios para segurar o riso.
— Agora está todo manchado.
Suspirei frustrada.
— Vou procurar um espelho...
— Espera, eu te ajudo — riu ele, virando-se para mim. Ele puxou a manga do casaco, cobrindo a mão e ergueu-a, tocando minha pele. Com leveza ele limpou as manchas restantes e parecia concentrado no que fazia, porém tudo em que eu conseguia prestar atenção era em seus olhos cruelmente azuis que estavam um pouco perto demais. Quando terminou ele baixou a mão lentamente e só então pareceu perceber o quão próximo estava. Ele não se moveu, continuou olhando-me como se estivesse em transe. Eu podia sentir sua respiração fazendo cócegas sutis em minha pele e isso fez com que minhas bochechas queimassem e uma sensação estranha brincar em meu estômago — e eu ao menos sabia o motivo para aquela reação. Ergui uma sobrancelha e encontrei seus olhos novamente, sentindo o ar gélido cortando minha pela, porém o frio, os errantes vagando na rua logo abaixo de nós ou qualquer outra coisa parecia ter importância naquele momento.

Carl por fim ergueu a mão novamente e senti o tecido de sua blusa deslizando em meu queixo.
— Tinha esquecido dessa... — ele engoliu em seco e desviou o olhar.
Pisquei algumas vezes tentando entender o que havia acontecido ali, porém decidi que era melhor continuar não sabendo. Virei-me para o céu novamente e cruzei os braços sobre os joelhos, sem saber o que dizer. Ficamos em silêncio por alguns minutos — que pareceram horas — apenas com meus pensamentos fervendo em meu cérebro. Balancei a cabeça, decidindo ignorar tudo aquilo.
— Ahn — comecei, sem jeito. — Eu acho que vamos ter que passar a noite aqui…
— Sim — concordou ele, apressadamente. — Não seria uma boa ideia tentar sair para procurá-los agora.
— Com certeza — assenti. — Se quiser entrar, eu vou ficar por aqui vigiando…
— Não vou deixar você sozinha… — começou ele, porém pigarreou — Quero dizer, eu também quero ficar, caso algo aconteça…
— Certo — falei, por fim.
Encolhi-me em meu moletom e abracei os joelhos, sentindo meu corpo tremer levemente. De repente a presença de Carl fazia com que eu me sentisse estranha, talvez… Envergonhada? Decidi que não gostava daquela sensação e queria que ela acabasse o mais rápido possível, pois eu teria que passar uma noite toda ao lado do garoto e não gostaria nem um pouco de passá-la no total silêncio. Contudo, foi exatamente o que aconteceu… Pelo menos até que me cansei de esperar que ele começasse algum assunto aleatório, como sempre.
Estiquei as pernas e deitei-me sobre as telhas, sentindo-me instável e desconfortável, porém minhas costas já não aguentavam ficar curvadas. Por fim apoiei a cabeça nos braços dobrados e encarei o céu.
— Agora é sua vez — falei. Ele se virou, confuso e eu apenas continuei fitando as estrelas. — Me fale sobre a Lori.
Desviei o olhar para ele notando um tom surpreso em suas feições.
—Tudo bem, acho que é justo… — comentou, lembrando-se de nossa conversa mais cedo, quando lhe contei sobre minha mãe. — Todos dizem que Judith se parece muito com ela — ele olhou vagamente para o horizonte. — Ela era… Uma boa mãe. Eu só não sabia disso enquanto ela era viva.
Engoli em seco, pensando em todas as vezes que eu guardara magoas de minha mãe, e de tosas as brigas tivemos, que mesmo que poucas, foram marcantes. Gostaria de poder consertar aquilo, mas já era tarde demais.
— Como ela morreu? — Dosei o tom de voz, tentando não ser tão indelicada, porém ele parecia já esperar por aquela pergunta, apesar de demorar alguns instantes para responder.
— Quando Judith nasceu ela teve algumas complicações — explicou. — Maggie teve que… — ele parou, parecendo incapaz de continuar.
— Tudo bem, eu entendi… — falei. Eu sabia o quão doloroso era reviver lembranças como aquela e acabei por me arrepender de ter perguntado. — Desculpe, eu não devia ter falado sobre isso.
Ele balançou a cabeça.
— Eu queria falar sobre ela — revelou. — É uma coisa que não faço há muito tempo. Eu só não queria que fosse tão difícil… lembrar...
— Acho que entendo como se sente — comentei. — Mas lembrar é a parte fácil. Esquecer é que é difícil.
— Não é algo que dá para esquecer — disse ele. — Eu não quero esquecer o que aconteceu com minha mãe.
— Eu também não, mas ao mesmo tempo não quero lembrar — liberei o ar com força pelas narinas.
— Isso não faz o menor sentido — ele riu sem humor.
— Talvez um dia faça… — continuei. — Talvez um dia tudo o que aconteceu com o mundo e com as pessoas faça algum sentido.
Carl franziu o cenho, pedindo silenciosamente uma explicação.
— Meu pai sempre dizia que tudo acontece por uma razão — continuei. — E no fim das contas ele poder estar certo…
— Você acredita mesmo nisso?
Demorei a responder e passei alguns momentos encarando o véu negro acima de nós, coberto por pontos brilhantes e infinitos… Se eu acreditava? Era difícil negar uma sentença como aquela quando eu estava diante daquela imensidão de incertezas que era o céu. O universo, o mundo, as pessoas… Nada existia ou acontecia por acaso.
— Eu tenho que acreditar.
Carl optou por permanecer em silêncio e eu o acompanhei, não dizendo mais nada. Comecei a refletir sobre a conversa, mas logo senti-me consumida o suficiente por todas aquelas lembranças e passei a fitar o céu novamente. Para não ficar entediada, passei a contar as estrelas. Minhas pálpebras começaram a pesar e uma leve ardência tomou conta de meus olhos. Fechei-os após perceber que já havia contado a mesma estrela repetidas vezes e deixei-me levar pelo cansaço, adormecendo.
A noite fora conturbada e fria, porém nada fez com que eu acordasse. Somente voltei a abrir os olhos quando as primeiras luzes da manhã tomavam o horizonte. Cada centímetro de meu corpo doía e tremia. Levantei-me desajeitadamente esfregando os olhos e sentindo a lateral de meu rosto marcada. Estreitei os olhos para Carl ao meu lado; estava deitado sobre as telhas frias e dormia profundamente. Desviei o olhar para a rua abaixo de nós, não querendo acordá-lo. Notei que já não havia mais errantes em nossa porta, eles haviam se espalhado pelo bairro, e apenas meia duzia vagava pela rua estreita.
Estava pensando em ir até a sala verificar Isaac e seu grupo quando a movimentação ao longe me chamou a atenção. Estreitei os olhos e ergui o pescoço e só então percebi que se tratava de três pessoas avançando pela rua e eliminando os errantes mais próximos.
Estendi a mão e chacoalhei o garoto ao meu lado.
— Carl, acorda — intensifiquei o movimento. — Carl!
Ele se virou bruscamente, erguendo a arma em uma das mãos.
— Ei, calma, abaixa isso!
Carl abriu os olhos, confuso e encarou-me com olhos sonolentos. Apontei para o horizonte, indicando o grupo que aproximava.
— São eles… — constatou incrédulo.
Abri os lábios em um sorriso.
— Sim — afirmei, reconhecendo Michonne com sua katana em riste e Daryl ao seu lado, apontando a besta para os mortos ao redor. Pela primeira vez, durante todas aquelas horas longe do grupo, senti-me segura. — Vamos pra casa.
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