Left Behind

10 Capítulo 10 - Home


Notas iniciais
Heey walkers! Que saudade de vir aqui no Nyah! Com a volta das aulas não tenho tido muito tempo pra escrever, até peço desculpas pela demora. Mas agora com o fim de semana chegando tive um tempinho pra colocar as coisas em dias. E o carnaval ta aí, AMEM! ~ netflix vai bombar aqui em casa Queria agradecer a todos por ter votado em LB no Emmy Awards, já faz um tempinho que a votação acabou, mas eu preciso muito mesmo agradecer pelos 1036 votos! Eu ainda não acredito, sério, vocês são os melhores gente! Ah, e é claro, parabéns para todos que participaram! Enfim, fevereiro chegou finalmente! Só quem é walker de verdade entende o que é esperar por esse mês! CHEGA LOGO DIA 14, PELAMORDEDEUS Ufa, chega de enrolar né, vamos ao capítulo... Espero que gostem, boa leitura! ♥

Capítulo 10 — Home

E L L I E

A fraca luz solar preenchia vagamente a cela quando o portão de grades de ferro foi reaberto. Era muito cedo, embora eu não pudesse reclamar… Estava acordada há horas.

Sam rapidamente levantou-se, pulando do beliche. Esfreguei os olhos enquanto me sentava no colchão e encarei o homem parado diante da cela que parecia ponderar se entraria ou não, mas logo deu um passo adiante decididamente e foi acompanhado pelo restante do grupo. De repente o pequeno aposento parecia ainda menor.

Pela postura rígida e olhar centrado eu pude deduzir que o homem parado diante de nós era o tal líder do grupo, Rick, seguido de perto pelo garoto asiático e a jovem mulher de cabelos curtos. O velho que havia suturado meu ferimento também adentrou a cela, mancando em suas muletas e acompanhado por Carl e Carol. A última a adentrar o recinto foi uma mulher alta, pele cor de chocolate e longos dreadlocks.

— Quem são vocês? — começou Rick.

Sam e eu nos entreolhamos antes de minha irmã se pronunciar.

— Meu nome é Samantha — ela dirigiu o olhar a mim, insegura. — E está é minha irmã, Ellie.

— Vocês conhecem Michonne? — ele gesticulou a mulher negra com a cabeça.

Lembrei-me vagamente de Sam ter dito seu nome pouco antes de ter apagado. A tal Michonne era familiar, tinha a mera impressão de já tê-la visto antes.

— Elas estavam em Woodbury — afirmou a mulher. Sua voz era estranhamente baixa, mas ao mesmo tempo possuía um tom ameaçador.

Rick nos encarou em busca de respostas.

— Estavam? — repetiu. — Como saíram de lá?

— Houve um tiroteio — explicou Sam. — Estavam todos ocupados demais para prestar atenção em nós, então escapamos com a ajuda de um… Amigo.

O homem soprou o ar pelas narinas com certo divertimento.

Nós causamos o tiroteio — revelou. Franzi o cenho encarando-o com confusão.

— Por quê?

— O Governador sequestrou Glenn e Maggie — ele apontou o garoto asiático e a mulher ao seu lado. Glenn tinha severas marcas no rosto inchado, indicando que havia levado uma bela surra. — Nós fomos atrás deles.

— Espera… Então foi você que... — Sam parecia totalmente perdida por alguns segundos. — Foi Merle… Foi ele quem bateu em você?

— Como você sabe disso? — perguntou Glenn.

— Eu ouvi — respondeu Sam, atordoada.

— Você ouviu tudo e não fez nada para impedir?

— Eu não tive tempo — continuou ela. — Alguém me acertou por trás e eu apaguei… E quando acordei… — sua voz falhou. Apurei a audição, tentando decifrar o que havia ocorrido… Eu não sabia sobre aquela parte da história.

Rick e o restante do grupo estavam curiosos também, mas encarar o chão em silêncio parecia muito mais atraente para Sam.

— O que houve? — perguntou Carol, com delicadeza.

— Eles estavam com nosso pai — continuou ela, então me lançou um olhar de cumplicidade. Meus olhos arderam e encheram-se de água ao lembrar-me da cena. Balancei a cabeça negativamente… Era um assunto muito delicado, eu simplesmente não conseguia conversar abertamente sobre a morte de meu pai. — Eles nos seguraram e o Governador... — ela fraquejou novamente, engoliu em seco e forçou-se a continuar. — Matou ele… Matou o papai.

Carol nos lançou um olhar melancólico enquanto o restante do grupo parecia não saber reagir com tal informação.

— Eles nos prenderam em um tipo de porão — tomei coragem para prosseguir com a história. — Foi quando o tiroteio começou e nós escapamos.

Rick mantinha as mãos na cintura e seu olhar pesava as informações, talvez avaliando se deveria ou não acreditar que eram verdadeiras.

— Não temos pra onde ir — disse Sam, recuperando-se.

Rick ficou em silêncio por alguns segundos, apenas olhando de Sam para mim. Por fim balançou a cabeça negativamente.

— Rick — interrompeu o velho de cabelos brancos, em tom repreensivo. — Não vamos ter essa discussão de novo.

Olhei de relance para Carl que observava o pai atentamente, mas logo baixou o olhar para mim e lembrei-me dele ter dito algo sobre outro grupo que Rick havia mandado embora. Eu temia que o mesmo acontecesse a nós… Não éramos um grupo, estávamos sozinhas e pelas poucas horas em que permanecemos do lado de fora tudo acabara extremamente errado. Eu bem podia imaginar o que aconteceria caso fôssemos forçadas a ficar meses sobrevivendo à própria sorte.

— Por favor — pediu Sam, tentando convencer o líder. — Não vamos criar confusão, podemos caçar nossa própria comida… Só precisamos de um lugar pra ficar.

— Elas sabem tudo sobre Woodbury, Rick — contribuiu Glenn. Eu podia enxergar uma voracidade contida inutilmente em seu interior. — Precisamos delas. — Eu podia facilmente imaginar o ódio de Glenn pela cidade e pelo Governador, mas acima de tudo por Merle. Ele parecia desesperado por vingança e provavelmente usaria nosso conhecimento sobre Woodbury para obtê-la.

Rick fitou o chão, suspirou então voltou a nos encarar e balançou a cabeça, dessa vez positivamente.

— Tudo bem. Vocês podem ficar — anunciou. Senti um peso abstrato deixando meus ombros, um alívio momentâneo. Ao menos não teria que lutar por minha sobrevivência diariamente, teria um lar novamente.

— Obrigada — não pude conter o agradecimento. Rick encarou-me parecendo brevemente perdido por alguns segundos.

— Carol e Beth vão acomodá-las… E Hershel vai verificar seu ferimento — ele esfregou a parte de trás do pescoço e suspirou pesadamente antes de deixar o aposento seguido de Glenn e Michonne, dando lugar a Carol e à garota loira que havia nos entregado os enlatados no dia anterior. Ela adentrou o recinto carregando um bebe nos braços, o que me fez dar um passo para trás involuntariamente. Beth sorriu, como se estivesse acostumada a tal reação.

— Achei que nunca mais veria um bebe — comentei quando ela se aproximou. A pequena garota mexia nos cabelos loiros de Beth, concentrada.

— Essa é a Judith — explicou, passando-a para o colo de Maggie.

— É sua? — perguntou Sam.

— Não… — negou Maggie, sem jeito. — É filha do Rick. — Então ela deixou o aposento com Judith nos braços e eu me perguntei quem seria sua mãe. Lancei um rápido olhar a Carl e decidi que não era a hora certa para fazer a pergunta.

Beth e Carol dobraram os cobertores e guiaram Sam para uma cela no andar inferior, seguidas de perto por Carl, enquanto Hershell pediu que eu me sentasse no beliche para verificar o ferimento. Ergui a barra da camiseta e me deparei com um curativo cobrindo os pontos, o qual Hershell puxou com leveza e analisou a sutura. Senti um leve incomodo quando passou o indicador pelas linhas entrelaçadas.

— Está curando — anunciou. — Vai poder tirá-los em alguns dias.

Sorri brevemente, aliviada com a notícia.

— Ainda não agradeci por ter cuidado de mim.

— Não se preocupe com isso — ele se ergueu nas muletas. — Mas eu gostaria de saber como aconteceu.

Baixei a camiseta e suspirei.

— Nós encontramos dois homens na floresta… Um deles atirou em mim, mas acho que tive sorte — expliquei. — Se não fosse por Sam teríamos morrido ali mesmo.

Hershell assentiu com pesar e começou se movimentar para deixar a cela.

— É melhor descermos agora.

Balancei a cabeça e levantei-me pegando a revista em quadrinhos e a lanterna de Carl para enfim segui-lo pelas escadas. Senti-me tentada a ajudá-lo a descer, mas o velho homem parecia não apresentar nenhuma grande dificuldade apesar de ter de segurar as muletas com uma mão e o corrimão com a outra enquanto pulava pelos degraus. Uma repentina curiosidade transpassou minha mente a respeito de como ele havia perdido a perna, mas novamente, não era o momento certo para perguntar.

Tentei não olhar para dentro das demais celas enquanto caminhava; não me sentia totalmente confortável em meio a aquelas pessoas. Avistei Carl parado diante das grades enferrujadas e lhe estendi a revista e a lanterna.

— Já terminou? — perguntou surpreso.

— Acabou mais rápido do que deveria — comentei. — Eu realmente preciso encontrar a continuação dessa história.

— Se algum dia encontrar me avise. — Ele sorriu de lado e acenou com a cabeça antes de ajeitar o chapéu e afastar-se para uma das celas.

Lancei um rápido olhar para dentro de nosso novo quarto totalmente vazio a não ser pela presença do beliche velho e uma cadeira aparentemente desconfortável antes de seguir o som das vozes e atravessar o portão que separava o bloco de celas de uma área que dispunha de mesas e prateleiras guardando os suprimentos. Glenn sentava-se e uma das mesas e esfregava a testa com as pontas dos dedos. Diante dele Maggie balançava a pequena Judith nos braços enquanto Carol e um homem que eu ainda não havia visto sentavam-se na mesa ao lado. O homem tinha os cabelo loiros e compridos penteados para o lado e um grande bigode cobria sua boca. Trajava um dos macacões escuros de presidiário, o que me fez deduzir que talvez já estivesse na prisão desde o começo.

— Bom dia senhorita — cumprimentou ele e não pude negar ser atingida por certo espanto diante de tamanha animação.

— Bom dia! — tentei seguir o mesmo tom, porém sem muito sucesso. Seus lábios encobertos pelo bigode curvaram-se em um sorriso.

— Vocês são realmente muito parecidas — comentou ele, olhando de Sam para mim de maneira sugestiva. — E bonitas, devo acrescentar.

— Axel — Carol lhe cutucou com o cotovelo, falando como uma mãe que repreende um filho por ter feito algo que ele sabe ser proibido. Em troca o homem riu, descontraindo um pouco mais o ambiente.

Notei que Carl juntou-se ao grupo acompanhado de Hershell, que se limitou a parar em meio à passagem do portão e acomodar-se perto de Maggie.

Avistei Sam na mesa seguinte, acompanhada por Beth que servia cereais em duas tigelas dispostas sobre a superfície de metal. A loira terminou o serviço e com um breve sorriso afastou-se em direção à Maggie e tomou Judith nos braços. Sam, porém, continuava sentada com os dedos das mãos cruzados sustentando seu queixo e ambos os cotovelos apoiados nos joelhos. Mantinha um semblante concentrado e não pareceu notar quando me aproximei.

— Em que está pensando? — perguntei, cruzando os braços e apoiando o quadril na mesa.

— Eles atacaram Woodbury — respondeu ela sem tirar os olhos do chão, a voz baixa o suficiente para que somente eu pudesse ouvi-la.

Ergui uma sobrancelha tentando seguir sua linha de pensamento, então ela ergueu o olhar para mim.

— Você e eu conhecemos o Governador o suficiente para saber que vai ter uma retaliação.

— Como pode ter tanta certeza? — questionei enquanto me sentava diante da mesa e levava uma colher cheia com cereais até a boca. — Talvez ele nem saiba sobre essa prisão…

— Ele sabe — afirmou a voz de Michonne, que eu não havia percebido se aproximar. Ela cruzou as pernas e encostou-se contra a parede transferindo seu olhar enigmático de mim para Glenn no canto oposto da saleta. — E ele virá.

O asiático pareceu notar a ênfase de Michonne, pois retribuiu seu olhar e pude notar uma leve tensão tomando conta do clima.

— O que quer que eu faça? — começou ele. — Rick é quem deveria estar aqui para...

— Não, Glenn — interrompeu Hershell. — Ela tem razão, temos que começar a agir.

— E o que podemos fazer? — perguntou Carol.

— Vamos defender a prisão — Glenn se levantou e dirigiu-se às prateleiras de onde tirou um pedaço de giz branco após revirar várias caixas. Caminhou até o centro da sala e abaixou-se, passando a riscar o chão com várias linhas, formando quadrados e retângulos menores. Logo percebi que se tratava de um mapa.

Carl abaixou-se diante dele e apontou alguns cruzamentos no desenho indicando outras passagens e salas. Olhei de esguelho para Sam que retribuiu e imaginei se estaria pensando o mesmo que eu: o quanto aquela prisão era grande e o quão bem aquelas pessoas a conheciam. Não pude deixar de refletir que talvez houvessem passado por mais situações difíceis naquele lugar do que imaginava.

— Certo — disse Glenn por fim ao desenhar o último cômodo e em seguida o apontou, direcionando o olhar a Carl. — Você disse que encontrou o grupo do Tyreese aqui?

— É… — respondeu o garoto, incerto.

— Nós limpamos o lugar — insistiu Glenn.

Carl balançou a cabeça e apontou outra direção no mapa improvisado.

— Ele pensou ter vindo por aqui.

O asiático suspirou avaliando a suposição. Todas as atenções focavam-se na discussão e eu tentava acompanhá-los mesmo ainda estando confusa sobre quem seria o tal Tyreese e seu grupo e qual quadrado desenhado no mapa representava qual ala da prisão; a qual eu não havia visitado por completo.

— Ou seja, tem outra brecha — Glenn esfregou a testa novamente. — Toda a frente da prisão é insegura. Se os errantes simplesmente entraram vai ser moleza para homens armados.

— Por que tem tanta certeza de que ele atacará? — questionou Beth, como se toda a movimentação do grupo fosse precipitada. — Vai ver vocês o assustaram.

Não pude evitar um breve riso diante da inocência de Beth em relação a um homem como o Governador, o que atraiu todos os olhares em minha direção.

— Vocês não o conhecem, não é mesmo? — interrogou Sam, aparentemente surpresa com tal pergunta.

— Ele tinha aquários cheios de cabeças — Michonne pronunciou-se antes que alguém pudesse responder — de errantes e humanos. Troféus... Ele virá.

Apesar de não ter conhecimento sobre os tais aquários não me surpreendi com sua alegação, esperaria até mesmo coisas piores do Governador.

— Vamos atacá-lo agora — sugeriu Glenn.

— O quê? — surpreendeu-se Beth.

— Ele não vai estar esperando — insistiu o asiático. — O atraímos até uma moita e metemos uma bala em sua cabeça.

— Não somos assassinos — declarou Carol seriamente, parecendo horrorizada com tal sugestão.

Glenn levantou-se e mancou até Michonne.

— Você sabe onde fica o apartamento dele… Você e eu podemos terminar com isso esta noite.

Aparentemente desconfortável a mulher desviou o olhar.

— Eu mesmo o mato — continuou Glenn. Por fim Michonne o fitou por alguns segundos e balançou a cabeça positivamente. — Está bem.

— Ele não sabia que vocês iriam da outra vez e olha só o que aconteceu — interveio Hershell. — Quase foram mortos, Daryl foi capturado e você e Maggie quase executados.

Em poucos segundos tive a real compreensão do tiroteio em Woodbury e pude vislumbrar Glenn e Maggie passando por situações parecidas com a nossa.

— Não pode me impedir — desafiou o asiático aproximando-se de Hershell.

— Rick nunca autorizaria.

— Acha mesmo que ele esta em condições de tomar alguma decisão? — retrucou Glenn.

— Pense bem nisso — insistiu o velho. — T-Dog perdeu a vida aqui, e Lori também. Os homens que estavam aqui… Este lugar não vale mais mortes. O que estamos esperando? Se ele vem mesmo para cá, é melhor cairmos fora.

— E ir aonde? — indagou Glenn com mais agressividade.

— Passamos o inverno na estrada... — lembrou Hershell.

— Isso quando você tinha duas pernas e não havia um bebê chorando e atraindo errantes toda hora.

O velho suspirou e fitou o garoto a sua frente por alguns segundos.

— Não podemos ficar aqui.

— Não podemos fugir — opôs-se Glenn e após instantes de tensão, Maggie girou nos calcanhares e deixou a sala sem dizer uma palavra.

Era uma encruzilhada. Um beco sem saída, e por mais que parte de mim desejasse ficar e esperar pelo Governador para enfim pôr um fim em sua miserável vida, a outra parte sabia que o pequeno grupo não daria conta dos grandes números de soldados da cidade, que, quando chegassem, acabariam com tudo. Uma grande frustração me tomava por dentro, acabara de restabelecer uma nova base, um novo lar, e tudo para que fosse arrancado de meus braços pelo Governador, novamente.

O restante do grupo também não parecia nada satisfeito com a situação. Glenn afastou-se de Hershell aparentemente perdido antes de retomar o foco.

— Muito bem, vamos ficar. Vamos defender o lugar — ele se abaixou novamente, avaliando o mapa. — Carl e eu vamos às tumbas, temos que achar a outra brecha.

O garoto do chapéu assentiu.

— Vão precisar de ajuda — prontificou-se Michonne.

— Não, se acontecer algo preciso de você aqui.

Ela balançou a cabeça em concordância, então Glenn parou por alguns instantes olhando para todos os lados do cômodo e para todos os presentes.

— Quem está vigiando? — indagou com indignação e, não obtendo resposta, levantou-se e passou a mancar pela sala. — Droga.

— Espera — chamei, fazendo-o parar. — Eu posso fazer isso.

Sam franziu o cenho para mim enquanto o resto do grupo se entreolhava.

— Sei que ainda não confiam em nós, mas se estou aqui eu quero ser útil — continuei.

— Não — interferiu Sam. — Ainda não está completamente curada. Devia repousar mais

— Bem, eu só vou ficar parada, observando — insisti. Eu entendia a preocupação de Sam, mas não conseguiria ficar incapacitada em uma cama enquanto o Governador possivelmente marchava em nossa direção e o grupo preparava a prisão para o ataque.

— Não vai ter problemas se ficar de vigia — complementou Hershell e eu o agradeci mentalmente. — Só deve evitar fazer esforços.

Eu assenti e minha irmã finalmente concordou. Por fim, Glenn balançou a cabeça.

— Certo. Você pode subir na torre norte, vai ter uma visão melhor de lá — ele gesticulou para Carl que se prontificou na mesma hora.

— Eu mostro o caminho — disse o garoto. Ele ajeitou a pistola no coldre e dirigiu-se à saída da pequena sala.

— Espere — Glenn abriu uma porta à esquerda que eu não havia notado antes, adentrou o aposento e demorou alguns segundos antes de voltar com meu rifle de caça em mãos. — Leve isto com você, e grite se vir alguma coisa suspeita.

Assenti feliz por recuperar o Jhonny, e ainda mais feliz por saber que o grupo confiava o suficiente em nós para devolver nossas armas. Lancei um ultimo olhar a Sam antes de seguir Carl pelos corredores escuros que levavam ao grande pátio cimentado da prisão. O sol brilhava intensamente sem a presença das nuvens por perto e era um dia particularmente quente, porém o vento soprava em meus ouvidos à medida que me deslocava pelo pátio. Atravessamos a grande área limitada pelas cercas e paramos diante dos portões enquanto Carl puxava o molho de chaves do bolso e os abria. Caminhamos pela passagem cercada que separava os mortos de nós e Carl me guiou até a torre mais próxima.

— É aqui — anunciou ele. — Tem certeza de que está bem pra fazer isso?

Cobri os olhos com a mão, tentando focar a visão no garoto.

— O que? Ficar parada observando a vista? Não, isso é demais pra mim, acho que preciso repousar mais… — brinquei, arrancando-lhe um sorriso. Carl ficava extremamente belo quando mostrava o conjunto de dentes brancos, mas infelizmente preferia escondê-los por trás dos lábios; e quando davam ao ar da graça, era apenas por poucos segundos. Eu não podia culpá-lo por não sorrir frequentemente, aquele era um gesto muito raro no mundo atual. — Eu cuido disso. — Completei e ele assentiu, já se afastando.

Adentrei a torre escura e notei que havia uma porta dando passagem para o lado de fora, mas estava trancada. Tentei evitar respirar o ar impregnado com o cheiro podre de mofo e morte e subi os degraus de concreto lentamente, repousando a mão sobre o ferimento suturado. Logo alcancei o último lance de escadas e empurrei o alçapão, saindo para uma pequena cabine iluminada através das grandes janelas de vidro. Empurrei a porta e parei diante das barras de ferro que cercavam a pequena plataforma, apoiando ambos os braços no cercado e observando a vista. Era possível ver tudo dali, com certeza aquele era o melhor lugar da prisão. Os grandes campos verdes forrados de árvores e vegetação espalhavam-se pela paisagem e o azul claro pintava o céu diurno enquanto o sol espantava as nuvens. Os errantes tomavam conta do solo, amontoando-se nas cercas ou caminhando perdidos pela mata… Já faziam parte da nova paisagem.

Do lado oposto era possível enxergar toda a prisão, grande e cinzenta, com altos edifícios erguendo-se ao longe. Glenn e Hershell conversavam no pátio enquanto Carol e Axel cuidavam das defesas. Tudo ficava muito menor visto de cima; chegava a ser engraçado, pois normalmente eu era a “baixinha” do grupo, e agora estava acima de todos.

Puxei o rifle das costas e posicionei-o, apoiando o cano na barra de ferro e estreitando o olho através da luneta. Não havia nada de incomum, apesar dos inúmeros errantes espalhando-se pela floresta. Girei o rifle lentamente, tentando captar algum detalhe anormal até que parei diante da visão de Rick sobre a ponte que cruzava o pequeno lago, à oeste da torre; o que ele estava fazendo do lado de fora?

Observei confusa enquanto o homem olhava atentamente para frente com as mãos pousadas sobre a cintura. Em seguida ele ergueu um dos braços e movimentou a mão no ar, como se estivesse apalpando algo invisível.

— Mas que diabos… — murmurei, sem entender a situação. O líder do grupo estaria ficando louco? Vendo coisas? Ergui os olhos da luneta por alguns segundos para ter certeza do que via e voltei novamente; Rick continuava tocando o nada, e dessa vez parecia falar sozinho também. Logo ele baixou a mão e atravessou a ponte, adentrando a densa vegetação. Talvez ele estivesse mesmo vendo algo e fora apenas verificar… Ou estava simplesmente delirando e correndo perigo do lado de fora. Decidi não interferir, um homem como Rick parecia saber se cuidar muito bem sozinho.

Balancei a cabeça e continuei a vigia pelo restante da manhã, permanecendo na torre pelo que pareceram horas… Eu não me incomodava, era uma bela visão, e ao menos estava ajudando em algo.

Logo notei que Glenn deixava a prisão a bordo de uma caminhonete branca, provavelmente para fazer a ronda pelo lugar e descobrir se havia mesmo outra brecha nos muros. Enquanto isso, os demais integrantes do grupo espalhavam-se pelo pátio, mas eu não conseguia ver Sam em meio a eles. Minha irmã era uma pessoa difícil de lidar, e provavelmente não tentaria se aproximar daquelas pessoas tão cedo, preferia ficar recolhida na cela.

Enquanto isso Hershell vinha mancando pelo campo, atravessando a grama alta e parando diante da cerca. Não demorou muito e Rick aproximou-se do fazendeiro. Tentei não pensar no que estava havendo ali e concentrei-me em voltar à vigia; estava rondando a paisagem sem muita atenção quando o vi: alto, trajado com o casual colete por cima da camisa social, o sorriso sínico estampado no rosto, e o mais estranho, uma atadura cobrindo um de seus olhos. Todos os meus instintos aguçaram-se e resisti à terrível vontade puxar o gatilho.

— Ri… — meu grito foi interrompido quando uma mão tapou minha boca brutalmente e me puxou para trás. No mesmo instante em que caí ouvi o estouro de um tiro ecoando pela prisão, seguido por mais, poucos instantes depois.

O homem me agarrou por trás, prendendo meus braços e tapando minha boca enquanto eu tentava desesperadamente me desvencilhar. Com dificuldade consegui abrir os lábios o suficiente para cravar os dentes com força na palma de sua mão. Senti o gosto metálico do sangue invadindo minha boca, mas consegui me soltar. O homem urrou de dor e em seus poucos momentos de fraqueza virei-me e o empurrei para trás com todas as forças que pude reunir. Seu corpo chocou-se contra as janelas da cabine enquanto eu corria para o rifle caído sobre a plataforma, mas antes que pudesse alcançá-los senti minhas pernas sendo puxadas e com um baque surdo caí violentamente contra o chão. Uma dor terrível tomou conta de meus ossos nasais e logo o sangue quente escorreu por cima de meus lábios.

Os tiros ainda ecoavam pelo lugar, mas eu estava incapacitada pelo homem que me puxava para si e utilizava de toda a sua força para prender-me contra o chão. Suas mãos agarraram meu pescoço e em desespero ergui o único braço livre e alcancei o rifle, batendo-o contra a cabeça do homem de imediato. Ele se desequilibrou para o lado, praguejando e dando-me tempo suficiente para me levantar novamente, mas logo ele se pôs de pé e prensou meu corpo contra as barras de ferro enquanto eu tentava empurrá-lo com o rifle posicionado horizontalmente. Travávamos uma luta empurrando um ao outro quando uma ideia me ocorreu. Parei de fazer força contra o rifle e esquivei-me para o lado; imediatamente o peso que o homem exercia contra mim foi transferido para as barras de ferro que cercavam a plataforma, fazendo-o perder o equilíbrio. Aproveitando o momento, depositei minhas últimas forças empurrando-o para o abismo; observei em choque quando o corpo de meu agressor atingiu o chão e os errantes mais próximos trataram de terminar o trabalho, dilacerando-o.

Atordoada, apoiei-me nas grades e alcancei o rifle, tentando ignorar a dor no nariz e no ferimento de bala que provavelmente havia sido aberto, pois o sangue já manchava minha camisa. Posicionei-me com dificuldade, tentando encontrar alguém em quem mirar no campo aberto quando uma saraivada de tiros atingiu o chão, próximo demais aos meus pés. Arremessei o corpo para o lado, encobrindo-me sob a proteção da cabine enquanto mais balas perfuravam a plataforma. Os tiros vindos em minha direção cessaram por um instante e tive a oportunidade de olhar de esguelha e encontrar o atirador posicionado na torre oposta. Ele alternava a mira entre mim e o grupo no pátio… A preocupação me atingiu em cheio ao lembrar-me das pessoas lá embaixo. Estariam todos vivos? Sam estaria segura?

Antes que eu pudesse revidar o atirador voltou sua mira para mim, dessa vez atingindo a parede pela qual eu me esgueirava. Dobrei os joelhos, respirando pesadamente e esperando a oportunidade certa para atingi-lo. Quando ele finalmente mudou a mira, apontei o rifle em sua direção com rapidez. Não podendo escolher o ponto certo apenas puxei o gatilho e atingi uma de suas pernas. O homem entregou-se ao chão, mas logo ergueu-se e disparou incontáveis tiros em minha direção.

Não demorou muito para que o tiroteio cessasse. Olhei rapidamente para a mata e avistei o Governador parado ao lado de um veículo. Com a arma em mãos, disparou mais alguns tiros para o alto, sem mira alguma, e mordeu o lábio inferior com prazer enquanto o fazia.

Continuei abaixada, encostada contra a parede e respirando com dificuldade devido às vias respiratórias danificadas. O sangue encharcava minhas roupas e meu rosto; o suor deslizava por minha testa. O distante som de um veículo aproximando-se captou minha atenção. Pensei por alguns instantes que talvez seria Glenn retornando, porém a van logo surgiu pela estrada de terra, negando minha hipóteses. O veículo vinha em alta velocidade e se aproximava cada vez mais dos portões; quando pensei que iria parar para evitar a batida ele acelerou e chocou-se contra as grades, arrebentando-as e as arrastando consigo até parar em meio ao gramado. Logo uma rampa desprendeu-se da parte traseira do veículo e pousou no chão, liberando a passagem para os inúmeros errantes descerem para campo.

Instantaneamente o tiroteio começou novamente. Esgueirei-me pela parede o suficiente para conseguir concentrar a mira na cabeça do homem posicionado na torre, mas antes que eu puxasse o gatilho ele foi atingido por outra bala e caiu morto sobre a plataforma. Aproveitei a oportunidade para deixar a proteção das paredes e aproximar-me do cercado, apontando o rifle para os homens escondidos entre a vegetação. O Governador adentrava o veículo estacionado ao lado e seus homens se recolhiam, mas eu não desistiria tão facilmente. Apertei o gatilho, perfurando o para-brisa no momento em que o carro começou a se movimentar. Não satisfeita, puxei a pequena alavanca recarregando a arma e voltando a mirar no veículo em movimento, dessa vez acertando a lataria. Repeti o processo inúmeras vezes até que o carro desaparecesse pela estrada de terra.

— Droga! — praguejei, frustrada. Tivera a oportunidade perfeita para acabar de uma vez com o Governador, mas não conseguira acertar sequer um tiro no meio de sua testa.

Baixei o olhar para o campo tomado pelos errantes e passei a disparar contra eles. A caminhonete de Glenn de repente avançava pelo gramado em direção à Hershell; incapacitado em meio aos mortos. Atirei em alguns deles enquanto o asiático resgatava Hershell com a ajuda de Michonne. O trio logo adentrou o veículo e partiu para a segurança do pátio.

Maggie, Carol, Sam e Carl atiravam contra os mortos, tentando liberar a passagem para fechar os portões. Decidi que era hora de deixar a torre, pois já não havia tantas balas restantes no rifle. Avancei pela cabine e deixei-a pelo alçapão, descendo os degraus apressadamente, porém com dificuldade. Todos os meus músculos doíam, o ferimento em meu abdômen ardia novamente, como se estivesse em brasa e eu já não conseguia puxar o ar pelas narinas, tomadas pelo sangue. Esgueire-me pelos degraus na escuridão deparando-me com a porta que dava passagem para o lado de fora da prisão aberta, provavelmente por onde o homem havia entrado. Depositei todo o meu peso contra a pesada porta para impedir os errantes que se aproximavam de adentrar a torre e rapidamente puxei a maçaneta da segunda porta e deixei o aposento.

Mancando pelo corredor entre as duas grandes cercas que se erguiam nas laterais, avancei em direção ao portão mais próximo. Carl já se aproximava com Sam em seu encalço, ele rapidamente destrancou a passagem no exato momento em que não consegui mais suportar o peso do corpo. Sam segurou-me de imediatado e me puxou para dentro do pátio, fechando o portão logo em seguida.

— Ah meu Deus, Ellie, você está bem? — perguntou, em desespero.

— Eu tentei avisar… — minha voz falhou devido a respiração ofegante. — Um homem entrou na torre e… — fiz uma pausa, puxando o ar para dentro dos pulmões pela boca. — Ele está morto. Eu o empurrei…

— Não tem problema — ela tentou me consolar enquanto me apoiava por cima dos ombros e avançávamos em direção ao grupo. — Você precisou, certo?

Me limitei a balançar a cabeça e continuei a puxar ar pela garganta, com dificuldade. Logo alcançamos o pequeno grupo que olhava perplexo através das grades. Toda a frente da prisão fora tomada, estávamos agora presos, à mercê dos errantes. Olhei para trás e notei com pesar o corpo de Axel caído sobre uma poça de sangue e perfurado em diversos pontos.

Mas apesar de todos os problemas e de toda a dor que carregava, apenas uma coisa me importava no momento, um desejo primitivo: ter a cabeça do Governador flutuando em um aquário, bem diante de meus olhos.

Notas finais
O que acharam meus amores? Vejo vocês nos comentários, beijão!