Left 4 Dead - Morte à Espreita

9 Deixada para morrer - Parte 8


Dia da Infecção + 19

Os dias em Fairfield eram sempre igualmente mórbidos. Haviam dúzias e mais dúzias de zumbis para matar e nenhuma outra pessoa por perto. Nenhum sinal de vida ou esperança. Era possível ouvir uivos e gritos, mas não conseguia se determinar de onde viam. A morte estava em todo lugar naquele cidade abandonada por Deus.

O dia já havia partido e a noite viera imperar. O céu estava carregado de nuvens raivosas, ansiosas em despejar uma chuva torrencial sobre aquelas terras e talvez limpar toda aquela impureza acumulada. Os relâmpagos anunciavam que elas não teriam que aguardar muito tempo mais.

Zoey estava sozinha no terraço do prédio onde a neta de Bill um dia vivera, trabalhando em algumas dinamites. Estava prendendo pequenas lâmpadas e pilhas a cada uma delas. Um ruído metálico se evidencia e Zoey empunha sua pistola magnum. Ela respira aliviada ao ver Bill subindo a escada de incêndio com uma mochila de mantimentos cheia nas costas.

– Jantar!
– Bom saber que você está feliz em me ver. Só para sua informação, eu estou muito bem, Zoey.
– Pode deixar o sarcasmo de lado. Você sabe que eu me preocupo com você, Bill... só que eu estou morrendo de fome.
– É... eu sei... Você estava certa. Aquele mercadinho tinha bastante alimentos conservados. Nosso estoque está renovado.

Bill pousa a mochila sobre uma pilha de caixas e retira um pacote de biscoito dela. Ele arremessa o biscoito para Zoey.

– Biscoitinho para as crianças.
– Muito engraçado, Bill.

Enquanto Zoey senta-se numa cadeira e começa a comer, Bill começa a analisar as dinamites em que jovem trabalhava.

– Para que essas lâmpadas nas dinamites?
– Eu um truque que aprendi com os militares... os mortos-vivos parecem sentir-se atraídos por luzes piscantes e chamativas...
– Então você coloca uma dessas numa dinamite e atrai os zumbis para o meio da explosão. Muito bem pensado, menina. Só tome muito cuidado ao manusear as dinamites...
– Pode deixar... Eu não sou só um rostinho bonito, sei me virar muito bem.

Zoey pega seu rifle M40A3 e começa a limpá-lo e revisar sua munição. Bill começa a guardar os mantimentos num guarda-roupas.

– Bill... você sabe que estamos quase ferrados, não é?
– Me conte uma novidade, garota.
– É sério. Eu acho que chegou a hora de seguirmos em frente... não tem mais suprimentos por perto... talvez devêssemos procurar por um novo esconderijo com melhores condições...

Bill baixa a cabeça, pensativo. Antes que ele possa manifestar uma resposta, a conversa é bruscamente interrompida pelo som de tiros. Zoey ergue seu rifle e usa sua mira telescópica para identificar a origem.

– Vêm da cafeteria há duas esquinas daqui. São duas pessoas.

Bill pega seu rifle e o aponta na direção do estabelecimento.

– São sobreviventes, Bill. Não tem como zumbis saberem usar armas, certo?
– São sobreviventes por enquanto, Zoey. Os tiros vão atrair uma horda e a cafeteria não tem saída nos fundos.
– Eles vão ser cercados. Temos que fazer alguma coisa, Bill.

Bill fica olhando para a cafeteria com um olhar pensativo.

– Bill!
– Certo. Pegue os molotovs, a caixa de fósforos, a metralhadora AK-47, as pistolas M9 e nosso kit de munição.
– Ok. Vou recolher tudo bem rápido.
– E Zoey...
– Sim?
– Não esqueça suas dinamites.

Com suas armas separadas e devidamente carregadas, a dupla desce do terraço do prédio pela escada de incêndio e vão parar num beco apertado e imundo. Eles seguem correndo pelas sombras dos becos até alcançar a entrada dos fundos de uma loja de ferramentas para obras.

– Não acenda as luzes. Ligue sua lanterna e dê uma olhada por aí para não sermos pegos de surpresa.
– Certo, Bill.

Bill abre cuidadosamente uma das janelas da frente do estabelecimento e observa os zumbis em ação. Eles quebram as janelas e começam a invadir a cafeteria, se amontoando ao redor dela. Algumas cadeiras são jogadas contra eles e tiros são disparados. Tiros de metralhadora que deixam a parede marcada por balas. Aparentemente eles não tinham muito jeito com armas. Zoey se aproxima de Bill.

– Tudo limpo, Bill.
– Está vendo o bujão de gás atrás da bancada? Vou jogá-lo contra a horda. Quero que você abra a porta para mim e esteja preparada para atirar neles.
– Ok. Metralhadora preparada.

Bill sinaliza até três com os dedos da mão esquerda e então Zoey, com a ajuda de um pé-de-cabra encontrado sobre uma cadeira de pernas tortas, abre a porta de madeira da loja. A porta abre com um estrondo e atrai a atenção dos mortos-vivos. Eles vêem um bujão acinzentado ser jogado sobre eles e explodir ao ser atingido por um preciso tiro da pistola M9 de Bill. A explosão dissipa a horda parcialmente, deixando muitos dos mortos-vivos mutilados.

– Molotovs! Agora!

Dois molotovs são acesos com fósforos e lançados, fazendo com que os zumbis restantes fossem consumidos por chamas.

– Vá ver se eles estão bem e traga-os para cá, Zoey. Metralhadora em mãos e tome cuidado.
– E você?
– Estarei dando cobertura. Lembre-se: não tente ser uma heroína. Faça apenas o que for possível.

Zoey começa a correr, esquivando-se dos mortos-vivos que moviam-se a esmo enquanto eram consumidos pelas chamas. Ela irrompe pela porta da frente da cafeteria e quase é atingida por um tiro de escopeta.

– Qual é o seu problema, Francis?

Havia dois homens se escondendo atrás de uma mesa virada. Um deles tinha um corpo atlético e marcado por tatuagens, um cavanhaque e cabelos loiro-escuro e usava uma jaqueta com desenhos de caveiras e cobras e o texto “Hell’s Legion”. Ele segurava a escopeta que quase arrancara a cabeça de Zoey. Ao seu lado estava um homem negro, com um rosto comum, vestindo uma camisa branca manchada com sangue, uma calça preta, uma gravata vermelha e sapatos pretos e visivelmente gastos.

– Eu apenas vi algo se mexendo... poderia ser um zumbi, caramba!

O homem negro se levanta e caminha em direção a Zoey.

– Obrigado pela ajuda com os zumbis lá fora. Eu sou Louis e o babaca ali se chama Francis.

– Babaca é o corno do seu pai!

– Ele é sempre simpático assim?
– A maior parte do tempo sim. Mas no fundo é uma boa pessoa. Me manteve vivo até agora.

– Certo. Eu me chamo Zoey. Temos que dar o fora daqui. Este lugar virou chamariz para zumbis.
– Só aponte o caminho, doçura.

Zoey leva Louis e Francis para fora, onde se deparam com Bill atirando freneticamente com suas pistolas tentando conter o avanço de uma horda faminta por carne. A loja de ferramentas havia sido tomada por mortos-vivos e depredada em meio a sua selvageria. Zoey entra em ação e abre fogo com sua metralhadora.

– O que vamos fazer agora, Bill?
– Não podemos voltar pelo mesmo caminho, Zoey. Teremos que dar a volta pela escola e despistá-los o melhor que pudermos. São só esses dois?
– Sim.
– Essa é sua equipe de resgate? Um velho gagá que esqueceu de morrer? Acho que estávamos melhor por conta própria, Louis.

Bill se move repentinamente e agarra Francis pela jaqueta.

– Escuta aqui, seu moleque arruaceiro. Enquanto você ficava pichando paredes e quebrando vidraças eu estava na guerra do Vietnã vendo bons homens morrerem para proteger o seu futuro. Eu sou muito mais do que você é e do que quer que pretenda ser. E caso não tenha notado eu acabei de livrar seu rabo de ser devorado por uma horda de zumbis. Se você quer bancar o machão e morrer, vá em frente. Apenas saia do nosso caminho.

Os dois se entreolham por alguns intermináveis segundos preenchidos com uma atmosfera de tensão. Por fim, Bill solta Francis, que se apruma e recarrega sua escopeta.

– Tudo bem. Se o velho for tão bravo com os mortos-vivos também, então ele pode ser uma boa aquisição pro grupo.
– Não sou uma “aquisição”. Estou liderando vocês para um lugar seguro. Venham atrás de mim.

Bill recarrega suas pistolas e corre até a uma grade a poucos metros dali, escalando-a com uma facilidade surpreendente. Louis se aproxima de Francis.

– Tente não chatear o cara, Francis. Ele só está querendo nos ajudar. E precisamos de toda ajuda possível para sair dessa merda de cidade.
– Eu cuido do meu, e você do seu, Louis.

Francis entrega uma metralhadora M-16 para Louis.

– Acho melhor você começar a atirar.

Francis começa a disparar contra os zumbis com sua escopeta tática. Ele destroça o rosto de uma mulher de vestido florido que se aproximava ameaçadoramente de Zoey.

– Mexa-se, doçura. Hora de pular a cerca.

Louis ajuda Zoey a pular a grade e em seguida se joga para o outro lado também. Zoey começa a disparar contras os zumbis e consegue tempo para que Francis pule a grade também. Eles seguem correndo por um pátio apertado e acimentado até alcançar um pequeno parque postado diante de uma escola primária. Zoey sobe um escorregador e consegue uma visão melhor dos zumbis em seu encalço. Ela começa a disparar contra eles. Francis derruba algumas latas de lixo para tentar dificultar um pouco o caminho dos zumbis. Louis e Bill arrombam a porta da escola com um chute.

– Rápido! Junte quantas cadeiras conseguir próximo a porta!
– Certo.

Francis e Zoey correm em direção a escola, mas Zoey tem sua perna segura por um zumbi com apenas a parte superior do corpo.

– Ahhhhh!

Francis dispara duas vezes sem dó contra o zumbi, transformando-o em uma mancha escura de sangue, carne e ossos. Ele puxa Zoey pelo braço e ambos se jogam dentro da escola. Os zumbis seguem sua corrida desenfreada em direção ao banquete quase certo. Bill fica diante da porta, com um sorriso confiante em seu rosto. Assim que a horda se aproxima o bastante, ele acende seu ultimo molotov e transforma as cadeiras num imenso paredão de fogo. Alguns zumbis, os primeiros do grupo, se chocam contra ela e morrem queimados. Os outros páram e ficam a olhar para o fogo sem saber o que fazer. Louis observa a cena, curioso.

– Para todos os efeitos eles estão mortos... mas parecem ainda responder a alguns estímulos básicos, como medo, dor e fome...
– Deixa a pesquisa cientifica para depois, doutor Fleming.
– Vamos embora, rapazes.

O quarteto de sobreviventes segue andando pelas salas de aula e corredores até encontrarem uma saída, uma porta avermelhada de madeira apodrecida. Havia o corpo de um homem apoiado contra ela. Francis começa a andar em sua direção.

– Cuidado, garoto. Ele pode despertar a qualquer momento.
– Eu sei me cuidar, velhote. Louis, me dê cobertura.
– Certo.
– Acho que ele era o vigia desta escola...
– Ele é um homem morto agora. E eu gostei das botas dele.

Francis se agacha e pega as botas do defunto para si, amarrando os cadarços gastos com gosto.

– Agora sim eu estou confortável.
– Você podia morrer confortável agora, seu idiota.
– Que isso, doçura. Não é pra tanto.
– Tente respeitar um pouco os mortos.

O grupo deixa o local silenciosamente, verificando cuidadosamente se os zumbis haviam tentado dar a volta na escola. Aparentemente ainda não haviam pensado nisso. O quarteto caminha analisando cada movimento meticulosamente. A tensão é tão grande que todos tem um sobressalto quando Louis acidentalmente esbarra numa lata de lixo, derrubando-a.

– Credo. Você quase nos matou de susto.
– Silêncio, Zoey. Tem uma série de becos se seguirmos e dermos a volta naquela loja de doces.
– Acha que é uma boa idéia se enfurnar em becos apertados, velhote?

– Se ninguém fizer nenhuma besteira chegaremos vivos ao meu esconderijo. Agora, vamos em frente.

Bill sai andando na frente, seguido por Zoey e Louis. Francis fica olhando para a loja de doces, que tinha um enorme cartaz sobre uma promoção de rosquinhas.

– Podíamos pelo menos levar algumas rosquinhas...

Francis recarrega sua escopeta e aproveita para contar a munição que lhe resta. O grupo dá a volta na loja e segue caminhando pelos becos, sem saber que eram fixamente observados por um figura sombria postada no terraço de um prédio.

– Ei, doçura. Espero que vocês tenham um pouco de munição para dividir...
– Não se preocupe, senhor rebelde. Temos bastante munição no nosso esconderijo. E pare de me chamar de doçura. Meu nome é Zoey.
– Certo, doçura.

Louis havia passado a caminhar mais junto a Bill. Ele ajeita sua gravata vermelha antes de iniciar uma conversa.

– Senhor...
– Pode me chamar de Bill, rapaz.
– Ok, Bill. Eu me chamo Louis e o cara com quem você se estranhou se chama Francis.
– Como consegue ser amigo dele?

– Não sou... mas ele sabe usar uma arma e me ajudou a sobreviver até agora...
– Entendo...

Bill acende um charuto. A fumaça incomoda um pouco Louis, mas ele prefere não fazer nenhum comentário.

– Pelo que percebi o senhor já serviu no exército... você tem contatos lá dentro... sabe o diabos aconteceu pro mundo virar esse inferno...?
– Sim, Louis, eu tenho meus contatos, mas infelizmente não pude saber o que realmente estava acontecendo. Era um segredo mantido nos mais altos escalões e estava fora do meu alcance...

– Nós procuramos por centros de evacuação, mas todos os que encontramos estavam em ruínas...
– Também procurei por postos de evacuação militares sem sucesso... algo deu muito errado durante a evacuação... a infecção saiu totalmente de controle e se espalhou mais rápido do que o esperado.

– Francis disse para eu me acostumar a viver nesse inferno... mas eu insisto que ainda devemos ter esperança... estou certo, não é?

Bill medita por um instante sobre o que dizer. Ele dá uma forte baforada e expele fumaça como se fosse uma chaminé.

– Nós nunca devemos perder a esperança, certo? Há algum lugar lá fora onde poderemos viver como pessoais normais novamente. Só temos que encontrá-lo.
– É isso mesmo. É bom saber que eu não sou o único cara otimista que sobrou.

Bill não tinha muita certeza se ainda havia algum lugar seguro no mundo. O mundo todo podia estar morto agora. Mas ele não queria diminuir o otimismo do rapaz. Por enquanto isso poderia mantê-lo vivo.

O grupo atravessa uma rua onde havia uma ambulância destruída colidida contra um ônibus escolar. Eles descem por um túnel engarrafado com diversos carros inutilizados. Haviam cabeças de mortos penduradas com correntes nas laterais de um caminhão tombado. Zoey se perguntou quem poderia ter feito tal maldade, então se lembrou que o mundo já era um inferno muito antes da infecção.

Uma fina chuva começa a banhar a cidade e o céu fica escuro e raivoso. O quarteto de sobreviventes acaba indo parar em um novo beco. Eles se deparam com uma pilha de zumbis mortos a tiros. Seus corpos não mais expeliam sangue, mas sim um estranho tipo de gosma esverdeada e viscosa como Bill constata ao revistar um dos corpos.

– Olha só. O velho se excita com corpos de defuntos? Diz ai... tu ficou assim por causa da seca no Vietnã ou tu já curtia uma suruba mórbida desde cedo?

– A juventude de hoje só tem pensamentos pervertidos... é por isso que estamos na situação atual...

Bill esfrega a mão suja com gosma na jaqueta de Francis, que se afasta rapidamente, enojado.

– Velho maluco... eca.

– Aposto que você vai fazer um grande sucesso com as garotas com seu novo perfume...

– Pessoal... vocês ouviram isso?

Zoey havia interrompido a conversa, preocupada. Francis estava procurando a origem do som, um choro agudo e esganiçado.

– Pode ser um sobrevivente...

– Uma criança ou algo assim, talvez?

Zoey começa a andar seguindo o som e pára diante de uma porta de metal com uma maçaneta claramente enferrujada.

– Vem de trás dessa porta...

– Vamos dar uma olhada então, Zoey. Louis e Francis, cuidem da retaguarda.

– Pode deixar, velhote mandão.

Zoey empunha sua metralhadora e dá um passo para dentro da sala assim que Bill abre cuidadosamente a porta.

– Onde você está? Não tenha medo. Estamos aqui para ajudar...

Zoey e Bill adentram a sala mais alguns passos. O choro se intensifica e parece vir do fundo da sala. O ambiente estava muito escuro e haviam móveis jogados por todo o lado. Zoey acende sua lanterna e começa a iluminar o ambiente a procura de alguém. Ela encontra uma mulher no fundo da sala, mas Bill logo a força a desviar sua lanterna. Um trovão ilumina rapidamente o ambiente e Zoey percebe que havia uma Witch ajoelhada e choramingando no fundo da sala.

– Luzes apagadas, Zoey. Witchs são muito perigosas e sensíveis.

Do lado de fora da sala, Francis ainda se esforçava em limpar a gosma em sua jaqueta. Louis assistia a tudo sorrindo quando nota passos vindos do outro lado do beco.

– Ouviu isso, Francis?

– Ouvi o que?

Louis acende sua lanterna para enxergar melhor na semi-escuridão do beco e vê uma lata de lixo rolando e um zumbi surgir cambaleando. O morto-vivo sente o cheiro de carne fresca e começa a correr atrás de Louis. Logo mais três zumbis entram na corrida e num instante uma horda de zumbis já está correndo atrás de Francis e Louis. Francis saca sua escopeta e começa a disparar contra os zumbis mais próximos. Louis corre atrás de Zoey e Bill na sala logo a frente para alertá-los do perigo e acaba iluminando a sala acidentalmente com sua lanterna. A Witch começa a gritar de raiva, um grito absurdamente incômodo, e se levanta exibindo ameaçadoramente suas enormes garras. Zoey empurra Bill e Louis para fora.

– Corram pra caralho!

Bill e Louis saem rapidamente da sala. Zoey corre logo atrás e fecha a porta atrás de si. Ela e Bill passam a ajudar Francis a conter a alvoroçada horda. Louis se apóia contra a porta para mantê-la fechada até que a Witch abre um rombo na mesma com suas garras. Louis se afasta assustado e começa a disparar contra a infectada especial, que tentava de qualquer jeito arrombar a porta emperrada.

– Morre, porra! Morre! Morre logo! Morre logo, caralho!

A Witch dura bastante, mas acaba sucumbindo a saraivada de tiros a queima roupa. Porém os problemas não morrem com ela. Os zumbis começam a surgir de ambos os lados do beco, deixando o grupo de sobreviventes sem rota de fuga. Três zumbis com uniformes de guarda de trânsito chegam bem próximo ao grupo quando eles rapidamente recarregam suas armas. Felizmente, Francis dá um golpe com sua escopeta e os afasta, dando tempo para que Bill exploda suas cabeças com tiros precisos de suas pistolas M9. Louis rola algumas latas de lixo e faz alguns zumbis atrapalhadamente tropeçarem, ganhando mais segundos preciosos.

– Não vamos sobreviver se continuarmos aqui.

– Agora me conte algo que eu não saiba, doçura.

– Teremos que escolher um dos lados e abrir cam... Arghhhhhh!

Bill se vê envolto por uma espécie de língua gigante. Pertencia a um infectado especial que ele nunca vira antes e que agora estava postado em uma escada de incêndio. Suas roupas lhe davam o aspecto de um desses viciados que viviam jogados nos becos das grandes cidades e toda vez que ela tossia, o que ele fazia muito, um gás esverdeado era espalhado no ar. Respirar aquele gás fazia os pulmões arderem, mas o que estava realmente acabando com Bill era o aperto forte da língua, que parecia prestes a quebrar suas costelas.

– Segura a onda, velhote.

Francis dispara cinco vezes com sua escopeta e consegue fazer o infectado especial tombar. Sua morte libera mais do estranho gás esverdeado no ar, além de espalhar sangue para todos os lados. Bill despenca desajeitado no chão e Francis o protege dos zumbis com tiros de escopeta.

– Levanta rápido, velhote. Já cansei de proteger seu rabo.

– Vamos sair logo daqui!

Zoey explode as cabeças de três mulheres que pareciam prostitutas.

– Você tem um nome para essa aberração também, Bill?

– Esse é novo para mim, Zoey. Vou chamá-lo de Smoker.

– Era só o que me faltava! Vai querer levar ele pra casa e alimentá-lo também?

– Se a comida for você, quem sabe?

Louis joga uma tampa de uma lata de lixo sobre dois zumbis e ganha tempo para recarregar sua metralhadora com a munição que Francis acabara de lhe passar.

– Dinamite!

Zoey lança uma de suas dinamites com luzes piscantes numa das saídas do beco, atraindo todos os zumbis para lá.

– Mas por que diabos tem uma lâmpada numa dinamite?

– Protejam-se!

A explosão da dinamite dizima os zumbis, liberando o caminho para uma das avenidas principais. O grupo sente o impacto da explosão e fica aturdido por alguns segundos. Louis nota um helicóptero passar voando em direção a avenida e acaba sendo o primeiro a correr para ela.

– Louis! Espere pela gente!

Mas Louis não dá atenção. Ele corre pela avenida, ziguezagueando entre carros abandonados, grita e atira para o alto tentando atrair a atenção do piloto, mas sem obter sucesso. Ele pára alguns metros depois, ofegando de cansaço.

– Mas que droga... era nossa chance...

Então, repentinamente, um Hunter emerge dos terraços dos prédios e se atira sobre Louis, sua mais nova presa. O Hunter efetua seu primeiro golpe e Louis sente um corte ser aberto em seu peito, o sangue surgindo lentamente.

– Sai de cima dele, seu filho da puta!

Zoey surge correndo e chuta o queixo do Hunter, fazendo-o cambalear para trás. Ela abre fogo com sua metralhadora e vai fazendo o Hunter recuar até que ele tomba, morto, sobre um táxi. O alarme do táxi acaba sendo ativado e seu som se espalha por todos os becos, lojas e prédios das proximidades. Francis e Bill alcançam Zoey, que ajudava Louis a se levantar.

– Eu acho que você acaba de fazer um convite para todos os mortos da região, doçura.

– Você está bem, Louis?

– Vou sobreviver... isso se sairmos logo daqui.

Era possível ouvir centenas de passos vindos das mais diversas direções. Janelas eram quebradas, sombras se mexiam nos becos, grades eram derrubadas. Eram muitos mortos-vivos a caminho. O grupo de sobreviventes vai recuando até alcançar uma grade que fechava aquela rua.

– Estamos cercados.

Bill olhava para todas as ruas e lojas próximas, sua mente aguçada trabalhando rapidamente buscando uma solução para o problema. Zoey, Francis e Louis pareciam tão perdidos quanto ele. Então um urro se sobrepõe a correria dos zumbis e um homem musculoso mas de maneira disforme surge na esquina. Sua cabeça era pequenina e seus olhos negros eram inconfundíveis para Zoey.

– Um Tank...

– Um o que?

Bill fitava os olhos da criatura, incrédulo. O Tank usa seus braços desproporcionais para abrir caminho em meio a horda, jogando zumbis para todas as direções. A cada passo dado seus urros de ódio parecem mais poderosos e assustadores. Louis tentava fazer seu braço parar de tremer para ter alguma mira decente.

– Correr ou atirar?

Bill nada respondera. Continuara fitando os olhos da monstruosidade que vinha em sua direção. Louis olha desesperado para Bill.

– Correr ou atirar?!?!

O Tank soca um carro para fora de seu caminho. O veículo passa por cima dos sobreviventes e destrói a cerca que fechava a rua.

– CORRAM!

Os quatro sobreviventes correm com toda força que suas pernas permitem. Atrás deles, os mortos-vivos se engalfinham por uma chance de obter alimento fresco. Bill lidera o grupo e entra no primeiro beco que encontra.

– Direita!

Francis dispara contra dois zumbis no peito e acompanha o grupo, que segue por uma viela a direita. Louis derruba os varais que ficavam ali, fazendo com que as roupas atrapalhem o caminho dos zumbis.

– Esquerda! Esquerda!

Bill parecia conhecer as redondezas como a palma de sua mão. O grupo atravessa uma outra avenida, sobe num carro sem pneus e salta sobre uma cerca de madeira.

– Direita! Esquerda!

As paredes dos prédios ao redor começam a tremer e a rachar. O Tank estava chegando mais perto. Ao dobrar uma esquina em mais um apertado beco, Francis vislumbra a assombrosa criatura esmagando os zumbis em seu caminho com as mãos. Ele resolve recarregar sua escopeta enquanto corre.

– Direita!

Louis dispara uma rajada de tiros contra os zumbis, mas apenas fere-os, sem matá-los definitivamente. Um clarão criado por um trovão ilumina o beco, revelando que haviam dezenas de zumbis correndo em direção a eles na outra extremidade. Eles estavam cercados. Bill aponta para uma escada de incêndio de um prédio.

– Subam por ali! Estaremos seguros lá em cima.

Zoey entrega sua metralhadora para Bill e Louis a ajuda a subir a escada com rapidez. Bill olha para trás, esperando por Francis, que havia parado e estava apontando sua escopeta para o vazio.

– Vamos lá! Vamos lá!

Três zumbis surgem na esquina, atirados contra um muro e feito em pedaços. O Tank surge, saltando e destruindo tudo em seu caminho, e seus olhos se encontram com os de Francis.

– Come chumbo, seu porra!

Cinco tiros de escopeta a queima-roupa no peito e o Tank nem ao menos dá sinal de que sentiu dor. O monstro agarra um dos mortos-vivos que tentavam passar correndo e arremessa-o contra Francis.

– Arghhh.

Francis vê sua escopeta cair fora de seu alcance e sente sua costelas partirem ao se chocar violentamente contra uma das paredes. O Tank urra e inicia uma nova investida contra Francis, mas Bill o afasta atirando com sua metralhadora direto nos olhos do monstro.

– Corra, Francis!

O Tank ignora a dor nos olhos e agita seus braços em todas as direções, tentando destruir tudo em seu caminho. Do meio da escada, Louis e Zoey disparam suas armas contra o Tank e contra qualquer zumbi que se aproxima. Bill se esquiva de um dos golpes do Tank com uma cambalhota e ajuda Francis a correr em direção a escada. O Tank arranca um pedaço de uma parede e arremessa-a contra a escada, quase acertando Francis e Bill enquanto subiam. Francis geme de dor, mas segue correndo pela escada. Bill atira nos zumbis com sua metralhadora para evitar que subam atrás deles. Quando ele se vira, dá de cara com zumbi prestes a mordê-lo. A cabeça do zumbi explode, espalhando sangue para todo o lado. Bill olha para cima e vê Zoey disparando com duas pistolas.

– Vamos logo, Bill!

Bill nota que a metralhadora estava sem munição e segue correndo, passando por Zoey. O Tank limpa o sangue em seus olhos e começa a enxergar um pouco melhor. Ele salta sobre a escada de incêndio e começa a escalá-la. A escada começa a ceder com o peso e Zoey perde momentaneamente o equilíbrio ao tentar voltar a subir.

– Minhas armas!

Zoey fita as armas despencarem escada abaixo. Ela não tem muito tempo para pensar e segue correndo. O Tank continua escalando, mas a escada não resiste e desaba. Zoey corre e salta, e Francis a segura pelo braço.

Eles assistem o Tank atingir o solo e ser soterrado por ferro e escombros.

– Você escapou de uma queda e tanto, doçura.

Francis se esforça e puxa Zoey para o terraço do prédio, ignorando a dor de seus ferimentos. Ela nota que eles haviam ido parar no esconderijo de Bill. Bill joga sua metralhadora num canto e limpa a poeira de suas roupas. Zoey, Francis e Louis se sentam sobre algumas caixas, exaustos.

– Não acredito... nós conseguimos. Nós conseguimos.

Bill acende um cigarro.

– Apenas sobrevivemos mais um dia, Louis... a guerra por nossas vidas continua.

Louis e Zoey carregam Francis até uma cama improvisada feita com caixas de papelão. Bill pega seu binóculo e verifica as ruas. Os zumbis estavam cercando o prédio, mas não sabiam como subir. Zoey pega um kit de primeiros socorros, tira a camisa de Francis e começa a tratar de seus ferimentos.

– Você estava doida para me ver sem camisa, não é, doçura?

Zoey aperta um dos ferimentos e faz Francis gritar de dor.

– Mas uma palavra e eu vou deixar você se juntar aos zumbis lá embaixo.

Louis nota o SOS pintado no chão e então olha para o céu, pensativo. As primeiras gotas de chuva começam a cair para lavar a alma dos sobreviventes e renovar suas energias para os árduos dias que viriam. Eles tinham que ser fortes para sobreviver, pois haviam sido abandonados... e deixados para morrer.

Notas finais
Espero que o texto esteja bom. A seguir começa o segundo arco: "Sem piedade"! Até a próxima atualização ^^
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.