Lealdade sem Fronteiras #1

16 Capítulo 16 - Versus Smeargle


Notas iniciais
"Se meus pais não fossem como eram e não trabalhassem com o que trabalhavam, talvez nós pudéssemos ter uma conversa normal envolvendo a Meiko. Mas nem mesmo ela era 'normal', mentira o próprio nome, inventara coisas para fingir não ser conhecida. Por mais que ela quisesse saber sobre tudo, ela não podia me julgar. Mei tinha teto de vidro, mesmo que naquele momento o mais frágil fosse o meu."

Dan Young

Uma voz surgiu no quarto, como se sempre estivesse ali.

— Vocês dois são realmente uma dupla e tanto, mas... — Era Scott, que havia surgido na porta de repente. — Os planos da T.O não se limitam apenas à destruição.

Só então eu percebi que Sawk estava me chamando havia algum tempo, querendo mostrar a presença de Scott. Enquanto Rex parecia prestes a atacar, rosnando de novo. Squirtle havia se escondido atrás de mim.

— O que quer dizer com isso? — Mei perguntou, avaliando Scott como tinha costume de fazer comigo.

— Eu prometo que digo assim que resolvermos tudo. Vocês querem falar com a família de vocês? — perguntou ele.

Mei assentiu. Eu apenas fiquei quieto, e ela me encarou por isso. Queria ter a facilidade dela em não responder e continuar parecendo normal. Mas não era normal que eu ficasse calado. Pelo contrário, acho que metade das vezes eu não sabia calar a boca.

— Pode ser. — Eu dei de ombros, e na verdade estava mentindo. Não queria, nem um pouco, explicar como era tudo com meus pais e eu.

— Vamos então? Nós conseguimos estabelecer uma conexão segura e oculta o suficiente para os policiais não te encontrarem, Mei, e encontramos facilmente o número dos seus pais também, Dan. — disse ele.

Eu assenti. Mei levantou e colocou o tênis enquanto eu guardava os desenhos no bolso.

— O quanto você estava ouvindo? — perguntei.

— Apenas a parte onde vocês disseram um dos planos da Team Orbis. Pelo menos, fico feliz que vocês estejam discordando dos ideais deles, moço, tendo em vista que seria injusto entrar para nossa equipe concordando com planos completamente opostos aos nossos. Seria como forçá-los, e queremos que escolham vocês mesmos.

Mei acabou de colocar o tênis e nós seguimos Scott. Fechamos nossas portas, levando as chaves, nossas Poké-Balls e nossos Pokémon. Sawk caminhava com Rex à frente, atrás apenas de Scott. Ao meu lado, Mei parecia observar tudo, mas não demorou a se sentir insegura, ou pelo menos acho que foi isso o que sentiu, e começou a ficar cabisbaixa, evitando olhares. Acho que ela sentia falta do capuz, pois sua jaqueta não tinha dessa vez.

Nervoso, mexi no meu boné, que já estava certo e eu apenas queria ter certeza disso. Nós éramos os únicos ali sem as roupas da equipe. Sempre as mesmas cores, o mesmo símbolo. Mesmo tudo parecendo tão estranho, eles agiam com naturalidade, como se aquela fosse apenas uma casa, escola ou trabalho de todos.

Nós passamos por vários lugares, sempre com corredores. Uma sala, parecia algo como uma enfermaria, com Pokémon e pessoas deitadas em seus leitos hospitalares. Em outro lugar, parecia uma cozinha e então, uma sala enorme com vários lugares para sentar, provavelmente um salão de refeição. Havia outros quartos, várias lugares que havia objetos que eu não conhecia e mais outros em mesma quantidade com alvos, sacos de pancadas, itens de batalha… Uma variedade enorme, além de uma arena. Além daquelas, havia também algumas que só continham consoles com tudo o que eu poderia achar de complicado na tecnologia.

Scott nos disse que, caso aceitássemos entrar para a equipe, haveria um passeio, apresentando cada lugar, porém também nos disse que aprenderíamos sozinhos, pois, por mais perdidos que ficássemos, em qualquer parte da base havia um banheiro, e isso impedia qualquer incidente desagradável.

Quando chegamos, descobrimos que a sala era uma das menores em comparação às outras. Era pequena e retangular, com um banco extenso e vários telefones em frente a eles, contei pelo menos uma dúzia. Claro, não eram telefones antigos. Havia uma tela para cada um, o gancho e o fone ficavam na lateral da tela, e também havia os espaços que podiam ser enviados objetos pequenos, como Poké-Bolas e itens de Pokémon. Aquele tipo de telefone só era encontrado em algumas casas de famílias com mais dinheiro e Centros Pokémon.

Em uma ponta do banco, a mais distante, havia outro membro da equipe. Ela tinha o cabelo castanho escuro, curto, na altura dos ombros. Estava usando um microfone, que demorei a lembrar o nome. Um headset, eu acho. Consistia de um objeto que envolvia a orelha, como um fone, mas tinha um microfone seguindo até perto da boca. Ela assentiu para Scott, que, como sempre, deu um sorriso e olhou para Mei.

— Está tudo pronto, moça. Aquele telefone agora é o mais seguro. — Ele olhou para mim. — E Dan, nós andamos observando e parece que ninguém sabe que é você quem está com ela. Pode ligar aos seus familiares à vontade.

Meiko pareceu encarar ele, mas seguiu até a garota, que tinha aproximadamente a idade de Scott, e pareceu conversar. Eu não me movi.

— Não quer falar com seus pais? — perguntou-me Scott. — Pode ficar tranquilo, essa sala tem isolamento acústico. Não é possível ouvir nada lá de fora daqui e nada daqui lá de fora. Talvez Mei aceite sair enquanto você fala com eles.

— Não. Depois eu falo com eles. — disse eu. Não estava nada ansioso por aquilo. Preferiria simplesmente me distrair com qualquer outra coisa.

Do outro lado da sala, Mei já estava usando o telefone, enquanto a membro caminhava até nós. Minha amiga esperava algo, talvez sua mãe não estivesse em casa naquela hora. No entanto, poucos segundos depois, ela deu um sorriso que eu raramente via. Growlithe, ao seu lado, latiu e balançou o rabo, alegre. De longe, eu não conseguia ver muito da ligação de vídeo, mas sabia que havia uma mulher na tela. As duas começaram a conversar, não dava para ouvir bem, ainda assim não procurei me aproximar.

Scott saiu com aquele membro da equipe, dizendo que nos deixaria a vontade, e fechou a porta atrás de si. Apenas ignorei e sentei na beirada do banco, ainda prestando atenção na minha amiga. Mei, que ainda estava em ligação, estava quase radiante. Muito diferente de toda a atmosfera sombria que ela parecia carregar todo o tempo, Ketchum não estava séria como ficava durante seus dias na jornada, nem distante como eu havia notado que ela ficava quando queria esconder alguma coisa. Pelo contrário, Meiko parecia empolgada. Não era exatamente como se ela deixasse de carregar consigo aquela seriedade, eu sentia que ela ainda estava lá em algum lugar, mas pelo menos havia deixado ela de lado por um tempo Já havia passado alguns minutos e sua leveza não desaparecia.

Eu estava pensando seriamente em sair e procurar por Scott, fingir ir ao banheiro e desaparecer, quem sabe descer pela descarga, quando Mei olhou para mim e acenou para que eu me aproximasse. Eu balancei a cabeça, fazendo um gesto de que iria sair e ela chamou de novo. Acabei cedendo e indo. Mei era teimosa, não me deixaria escapar.

Ao chegar lá, descobri como era a mulher da ligação, afinal. Seus olhos eram castanho escuro, não eram de cor de movimentos Pokémon como os de Mei, o que indicava que aquilo ou era algo vindo de seu pai ou que apenas ela tinha. Seu cabelo também era castanho escuro, que também não lembrava muito o completo negro da filha. A única semelhança entre as duas eram suas feições, delicadas e elegantes, e a cor clara da pele. A mulher também tinha algumas rugas, mas bem leves, quase imperceptíveis. Seu cabelo estava preso, e sua roupa era elegante, parecia cara. Exatamente como eu imaginava uma Ketchum.

Não era apenas ela olhando para nós. Havia um Pokémon também. Era bípede, com um pelo marrom e branco. Em sua cabeça, havia uma estrutura semelhante a uma boina, que parecia abaixar suas orelhas marrons, cor que também envolvia seu pescoço, olhos e em forma de duas listras ao redor dos pulsos e outra nos tornozelos. Tinha apenas três dedos nos quatro membros. Como estava de frente, eu não conseguia ver direito como era a ponta, mas pelo visto sua cauda era bem longa. Ele segurava um giz de cera e pintava em um papel sobre a mesa que o telefone estava, quase como uma criança humana.

— Mãe, Smeargle, — começou Mei — esse é Dan, meu amigo e companheiro de jornada. — Meiko olhou para mim. — Dan, essa é minha mãe, Hitomi Ketchum. E esse é um dos Pokémon dela, Smeargle.

O Pokémon parou de pintar e olhou bem para mim. Depois passou algumas páginas do caderno que usava, com uma considerável habilidade para um Pokémon, e começou a desenhar algo novo. Usava um lápis agora.

A mãe de Mei olhou para a filha com uma expressão fechada.

— Ele sabe? — questionou.

Mei assentiu.

— Sabe. Tudo. — A seriedade naquela conversa me assustava um pouco. Eu me sentia falando sobre uma organização secreta.

Se bem que, tecnicamente, eu estou mesmo entrando em uma…

Hitomi ergueu uma sobrancelha, olhando para mim.

— E não quis correr, querido? — Hitomi sorriu e eu percebi que era uma brincadeira.

— Não, senhora. — neguei. Mei olhou para mim curiosa. — Na maior parte do tempo, pelo menos. — Ela riu e Mei acabou não aguentando e riu também. Era tão raro aquilo, ela feliz e descontraída, que eu me sentia um intruso naquele lugar.

— Não precisa me chamar de senhora. Não há necessidade de formalidades. Sou apenas Hitomi. — comentou Hitomi, sorrindo. — Diga-me. De onde és?

— Pallet Town. — respondi.

Ela assentiu.

— Cidade de grandiosas lendas… — acrescentou ela. Mei desviou o olhar, como se a parede fosse repentinamente interessante. — Aposto que você será uma também. — Sorriu e eu fiquei feliz por não ficar vermelho com facilidade como Meiko.

— Hum… Valeu… Quero dizer, obrigado. — gaguejei, sentindo vontade de bater minha cara na parede e pedir para Smeargle pintar uma nova.

— Cuide bem de minha filha, por favor. — Hitomi disse de repente, e não foi só eu que me assustei.

— Mãe! — contestou Meiko, corando.

— Infelizmente eu não posso fazê-lo. — A Sra. Ketchum continuou, ignorando Mei. Seus olhos demonstravam melancolia, enquanto sua expressão, seriedade. — Ela não quer que eu me envolva em toda essa confusão mais do que já me envolvi e sinto muito por isso acabar por envolver você também. Mei me contou que foi por pura vontade sua, então… — Ela se afastou, pegando certa distância da tela. De repente, ela fez algo que eu nunca esperaria. Curvou-se, assim como Meiko fazia às vezes. — Muito obrigada por acompanhar minha filha nessa difícil jornada. — Logo em seguida, ela se aprumou novamente e voltou a se sentar ao lado do Pokémon Pintor.

Por que aquilo era tão normal para as pessoas de Johto e tão estranho para pessoas de Kanto? Como podia ser tão diferente a cultura de um lugar para outro?

Tirando-me das minhas perguntas internas, Smeargle olhou para mim de novo, olhou para o desenho e o ergueu para que eu olhasse. Eu franzi o cenho. Para um desenho tão rápido, Smeargle era ótimo. Era bastante detalhista e realista. Foi fácil descobrir o que ele tinha desenhado. Com aquele boné e aqueles olhos claros, era óbvio que ele tinha me desenhado. Mas eu nunca achei que ficaria tão bonito em um desenho. Realmente pedir para Smeargle pintar um novo rosto para mim era a melhor ideia.

O Pokémon abriu uma nova página e voltou a desenhar. Só então eu notei que, enquanto desenhava, sua longa cauda, com a ponta semelhante a um pincel, também se mexia no ar. O "pincel" estava limpo, sem tinta alguma, mas não parava de fazer movimentos. Talvez reflexos dos movimentos da pata.

Vendo que eu o observava, Hitomi olhou dele para mim.

— Smeargle sempre desenha pessoas que acaba de conhecer, não é? — Ela sorriu. O Pokémon deu algo como um sorriso também ao ouvir e voltou ao seu caderno.

A mulher limpou a garganta.

— Enfim. Estávamos conversando, Mei. — disse, olhando para a filha. — O que exatamente aconteceu? — Mesmo que parecendo acreditar que a filha é inocente, a Sra. Ketchum estava bastante desconfiada.

Olhei para Meiko, com uma silenciosa pergunta se deveria sair ao indicar a porta com um gesto. Como em resposta negativa, Mei segurou minha mão. Eu resolvi segurar de volta, de maneira firme.

— É uma longa história, então… Vou resumir um pouco. — pausou, respirando fundo. — Eu estava na Floresta de Viridian. — hesitou. De repente, me ocorreu que talvez a mãe dela não aprovasse o que ela fazia. — Procurando por meu pai.

— Meiko. — advertiu a mulher. Apenas o nome, pronunciado daquele jeito, fez minha amiga estremecer. Ainda assim, ela apenas aguentou firme e continuou.

Hikari continuou rápido. Contou tudo o que aconteceu lá, como quando me encontrou enquanto procurava pelo pai. Explicou sobre o tempo na floresta ter chamado a atenção dos guardas, sobre o ginásio de Pewter e também o Monte Lua. Ao terminar a última parte, Mei levantou um pouco do cabelo, mostrando na testa um ferimento já curado, mas ainda cicatrizando. Aquilo fez a expressão de Hitomi mudar um pouco, apesar de continuar calada. Aidna que me esforçando, não descobri o que aquela expressão podia significar. Meiko continuava falando. Estava na parte em que o ginásio de Cerulean ainda demoraria a abrir. No entanto, ela hesitou na frase seguinte.

— Nós visitamos a… Caverna de Cerulean — Mei tentou falar rápido, mesmo parecendo lutar para fazer as palavras saírem. Novamente eu vi o brilho de algo que não consegui identificar passar pelos olhos da mãe dela — e depois fomos ao ginásio. Quando saímos de lá, a polícia apareceu para me prender.

Smeargle encarou a folha que desenhava, pensativo. A Sra. Ketchum pediu para que eu contasse o que havia acontecido, pela minha versão. Eu ainda estava temeroso, pois ela parecia avaliar cada palavra minuciosamente. Obedeci, ainda assim, suas ordens. Contei tudo. Desde o início de minha jornada até a floresta de Viridian. Assim como Meiko, eu também tinha meus momentos de hesitação.

— Tentando recuperar meu mapa... eu encontrei um corpo. — Mei me encarou ao ver que eu hesitei. — Era de uma menina. Squirtle estava muito agitado, então logo saí dali. Acho que era a antiga Treinadora dele. Encontrei Mei pouco depois, batalhando, bastante ocupada, bem longe dali. O cadáver parecia ter dias que estava ali, enquanto Meiko só parecia cansada do próprio local desgastante, não de ter feito algo errado...

Falei do Ginásio de Pewter, do Monte Lua novamente e de como a ajudei. Claro, ocultei a parte de ter ouvido a conversa de Mei. Mesmo que fosse o motivo pelo qual eu tivesse começado a viagem com ela, não falei que desconfiava que Mei fosse um Pokémon. Quando eu disse que sugeri a irmos para a Caverna de Cerulean, pude ver os olhos de Hitomi se estreitarem. Eu quase saí correndo.

— Eu não sabia de nada! — acrescentei rápido. — E fiquei confuso com o que aconteceu lá. Eu juro, eu nunca imaginaria que parte do que aconteceu estivesse relacionado aquele lugar. E ainda não sei de verdade o que aconteceu. Eu só estava lá dentro com a Mei, ela de repente pareceu entrar em desespero e desmaiou. Eu a levei para fora e depois disso, não falamos mais sobre o assunto até muito tempo depois.

A mãe de Meiko assentiu, pelo visto consegui convencê-la.

— Tudo bem. Deixem-me pressupor o que aconteceu verdadeiramente e depois fazer as perguntas que me vierem em mente. — disse ela. — Vocês se conheceram na Floresta de Viridian na mesma época que o corpo dos noticiários foi encontrado, mas não se envolveram nisso. A jornada de vocês juntos começou no Monte Lua. Lá, foram atacados por pessoas que não conheciam, que chegaram a explodir uma parte da montanha, o que resultou no que vi na mídia também. — Meiko e eu assentimos. — Como eram essas pessoas?

— Não sabemos direito. Usavam uniformes, achamos que imitando Palkia. Só que recentemente descobrimos que a T.O que tanto diziam era Team Orbis. Eles são membros dela. — respondi.

Hitomi balançou a cabeça. Nada disse sobre, como se simplesmente a menção de uma "equipe" a fizesse. Apenas continuou deduzindo. Smeargle, agora, coloria seu desenho.

— Vocês acordaram no hospital de Cerulean, pois lembro de duas vítimas, de acordo com as notícias. O Ginásio estava fechado, então você — Encarou-me e eu quase estremeci — sugeriu de irem à Caverna de Cerulean. — Fitou Mei. — Como você está? Como reagiu?

Pelo visto, não precisávamos dizer. Ela sabia que algo havia acontecido. Mei apenas evitou seu olhar.

— Eu… Eu não me lembro do que houve lá. Pelo menos, não quando fui com Dan. Lembro de estar com medo de ir, lembro do barco e… só. Não lembro nem de atracar na ilha. Depois do barco, minha mente é apenas... escuridão. Só tem escuridão na minha cabeça até o momento que acordei e estávamos voltando. Dan disse que eu surtei, desmaiei de puro terror. Eu não sei dizer o que aconteceu comigo, mas eu sei que parte das minhas memórias voltou. É como se eu tivesse um sonho e, quando acordei, sabia que não era um sonho, porque sabia que não era imaginação e muito menos que havia acabado de acontecer. Eu não me lembrei de tudo, só do que passei lá e alguns outros detalhes que não lembrava antes. Ainda assim, muita coisa eu ainda não lembro. — Meiko olhou para a mãe. Quanto mais ela falava, mais forte apertava minha mão. Só então eu entendi o porquê de eu estar ali. Não era para dar forças às suas explicações. Era para lhe dar forças. — Eu desmaiei lá dentro, Dan me ajudou a sair. Porém ele não sabia de nada. Nem eu imaginava que iria me lembrar de Mewtwo, tampouco com tamanha intensidade, ao ponto de desmaiar. Quando voltamos para Cerulean, eu não conseguia pensar na jornada. Fiquei uma semana em um hotel. Magi me ajudou com o medo, Leaf me confortava e os outros me distraíam.

A Sra. Ketchum apenas assentia, entendendo. Àquela altura, ela apoiava o queixo em uma das mãos, sua expressão ainda era bastante séria. Ela quase parecia minha mãe quando encontrava um empecilho no trabalho, com aqueles olhos inteligentes frenéticos, como se as engrenagens de sua mente estivesse a toda potência. Ao mesmo tempo, os olhos de Hitomi apresentavam certa melancolia e distância. Ela até podia estar com a mente frenética como a que mamãe ficava, mas seus olhos lembravam o de Meiko, que tanto guardavam toda a sua tristeza. A pergunta que veio a seguir foi ligeiramente baixa.

— O que se lembra de sua infância, filha? — Hitomi a avaliou. Se sua compostura não fosse tão orgulhosa, eu poderia jurar que estava desanimada.

Meiko a encarou com certo espanto, como se não esperasse aquela pergunta. Eu pude ver seus olhos, naquele momento vermelhos, perderem seu brilho e se tornarem quase opacos com tamanha distância. Sua mente parecia estar em qualquer lugar, menos no momento atual. Mei abaixou a cabeça, pensativa. Seu esforço para lembrar era visível.

— Eu me lembro... da escola. Lembro tudo de lá, eu acho, até chegar aquele dia que ele apareceu. — Pelo modo que a Hikari falou, eu tinha certeza que ela se referia a Mewtwo.

— Antes disso. — especificou Hitomi. — Antes da escola. Antes de Johto. Do que se lembra?

Mei franziu o cenho, a resposta demorou ainda mais.

— Nada. Continua vazio.

Hitomi suspirou e encostou-se à cadeira, cruzando os braços. Balançou a cabeça e deu um sorriso para a filha, como se tentasse tranquilizá-la. Um esboço de sorriso apareceu no rosto dela, mas eu sabia que aquilo não sairia tão cedo da cabeça dela. Talvez nem da minha. Por que era tão importante para a sra. Ketchum que Mei se lembrasse de quando era criança? Por que se lembrar do passado quando devemos viver o agora?

Encarei minha amiga. Eu aceitaria, se tivesse essa opção, perder a memória no lugar dela. Na verdade, a amnésia seria bem vinda no meu caso.

É estranho. Quem se lembra de tudo, quer esquecer, e quem esquece, procura se lembrar.

Hitomi falava, levei um tempo para entender que ela voltava a fazer suposições.

— Um conjunto de fatores chamou a atenção da polícia para Cerulean. Uma explosão no Monte Lua, um acidente em um passeio turístico, e você ainda ficou mais de uma semana por lá, o que aumentou as chances de ser encontrada e interrogada. E eu soube de um caso vandalismo para com uma máquina de adoção de Pokémon, também. — Para alguém que estava sabendo de tudo só naquele momento, Hitomi era bastante inteligente. Ao ponderar sobre o vandalismo, ela olhou para Meiko com um olhar expressivo. Era incrível sua capacidade de esconder as emoções sem parecer fria. O momento passou e sua expressão estava normal. — Quem vocês encontraram no Ginásio de Cerulean? — ela perguntou.

— Mayra — respondeu Mei — e um garoto que não gosta de Dan, Aiden. Nós batalhamos, mas as regras eram estranhas. Mayra e eu brigamos.

Mayra e Mei brigarem era blasfêmia. Aquele soco que Mei deu em Mayra ganharia uma luta fácil. Ela parecia tentar deixar aparente que era apenas agressão verbal. O que fazia sentido. Eu nunca diria a minha mãe que dei um soco em alguém sem mais nem menos.

— Eu cheguei a conhecer Tytos Fist. Ele é um Líder de Ginásio bastante… peculiar. — disse a mãe de Mei, com a voz receosa. Era óbvio que ela estava diminuindo a situação também. — Você sabe que pode ter sido Mayra que chamou a polícia, certo? — acrescentou, olhando para a filha.

Mei assentiu, quieta. Hitomi continuou falando.

— A polícia te encontrou na saída do ginásio. Para não envolver o garoto, fingiu que havia o sequestrado. — Ela voltou a se encostar ao encosto da cadeira. — É bastante arriscado, filha. — Antes que Mei respondesse, Hitomi prosseguiu. — Depois, na entrada da delegacia, você agiu com respeito às vítimas. Talvez até tenha ganhado o fator da dúvida. Tudo faz bastante sentido — Fez uma breve pausa — exceto você fugir. — sua desaprovação era visível. — O que eu te disse sobre isso? Eles não podem te acusar sem pegá-la em flagrante, você pode diminuir sua pena por bom comportamento. Por que fugiu? E de onde está ligando?

— Mãe... — Meiko começou e foi interrompida, pois a mulher não parou.

— Tem noção do que está em perigo aqui? Kanto não tem leis contra prisão perpétua, Meiko. E se a matarem em plena tentativa de prisão, será como se tivessem cumprido seu dever, você não tentando escapar ou não. Comemorarão. O autor será um herói e, você, apenas um bandido morto. Eu não ligo por você me colocar em perigo em ligar, mas se você pretendia apenas me contar que desobedeceu ao que eu pedi que fizesse, era melhor não ter ligado.

— Senhora Ketchum. — interrompi, depois de tomar coragem. — Mei não fugiu. Invadiram o lugar que ela estava. As mesmas pessoas que nos ajudaram a conseguir esse telefone. — Eu falava rápido, para que ela parasse que acusar minha amiga. Não gostava daquilo, Mei não havia feito nada errado. — É outra equipe, que se diz inimiga da Team Orbis. Estamos na base da Equipe Fermata. Foram eles que atacaram a delegacia e fizeram Mei fugir. Se ela tivesse ficado, seria como uma tentativa de fuga de qualquer forma.

Hitomi apenas nos encarou por longos minutos. Enquanto isso, Smeargle fitava seu desenho pronto e saiu correndo, como se empolgado, sumindo de vista. A mulher suspirou e assentiu.

— Tudo bem. Vocês têm razão. Não há por que culpá-la.

— Inclusive, era sobre isso que eu queria falar, mãe. — Mei conseguiu voltar a conversar. — Eles querem que eu entre na equipe...

— Não. — disse ela, antes mesmo que Mei pedisse ou concluísse a frase. Aquilo não intimidou Meiko. Talvez a coisa que ela esperava ser pior já passara.

—… e, em troca, eles podem recuperar minha memória. Os Elgyem e Beheyeem podem acessar minha mente, acessar a memória perdida e trazê-la de volta. Além de me apoiarem nos tribunais.

A Sra. Ketchum parecia cética. Nada disse.

— Por favor. — implorou Meiko. — Você sabe o quanto eu queria tanto isso.

— Há momentos em que você confia de menos, outros que confia demais… Era tudo tão mais fácil antes… — A voz de Hitomi soou baixa, e ela suspirou novamente. Cogitei se ela não pensava em Meiko antes de tudo acontecer. Talvez Mei tivesse mudado muito depois do trauma. Eu só não conseguia saber se Meiko confiava menos ou mais quando criança. Talvez fosse por isso que ela tanto queria que minha amiga recuperasse a memória, seria como recuperar parte de si. Mas Hitomi parecia preferir que ela recuperasse normalmente.

— Você está mesmo pronta para se lembrar de tudo, filha? — A mãe dela se preocupou.

Mei deu de ombros.

— Ainda que eu ache que nunca estaria, me lembrar de tudo de uma vez sem surtar em uma caverna ou sem passar o resto da minha vida desconhecendo quem eu era antes do meu trauma... — Mei abaixou o olhar para as próprias mãos. — Deve ser bem melhor.

A Sra. Ketchum assentiu e encarou algum ponto longe da vista da câmera do telefone. Depois do que pareceram longos minutos, ela voltou a olhar para nós.

— Tudo bem. Mas no mínimo sinal de que há algo errado... SAIA DAÍ.

Mei assentiu, sorrindo levemente.

— Sim, senhora. — Mei começou a levantar para desligar a ligação.

— E Meiko... — interrompeu Hitomi. — Eu te amo.

Mei sorriu ainda mais, pela primeira vez chegando a mostrar os dentes. Eu me sentia hipnotizado por aquele tão sincero sorriso.

— Eu também te amo, mãe. — Mei tirou um envelope do bolso, colocou na abertura que enviava para o destinatário, esperou alguns segundos, enquanto uma luz preenchia o buraco e sumia, e desligou. Depois levantou.

— O que era aquilo? — perguntei.

— O bilhete. Achei melhor explicar por carta. — disse-me ela, depois apontou para outro telefone. — Não vai ligar para os seus pais? Eles podem estar preocupados com tudo o que está acontecendo.

Duvido muito, pensei comigo mesmo.

Squirtle se sentou no banco e me esperou. Eu sentei ao lado dele, Mei um pouco distante. Eu podia ver que ela estava curiosa para saber como eram meus pais, provavelmente por eu ser descendente de Red.

Mas eu não estava nem um pouco ansioso para falar com eles.

Comecei a digitar o número. Mesmo que nunca pretendendo ligar, eu acabara por memorizar o número do trabalho dos meus pais. Coloquei na viva-voz. Meu coração batia forte, estava, ao mesmo tempo, pulando de nervosismo e ajoelhado pedindo para nenhum dos dois atender enquanto trabalhavam… com aquilo.

Quando atenderam, percebi duas coisas: Uma, era primeira vez que eu fazia aquilo, ligava para eles. E duas, eu não queria estar fazendo.

Puxei mais meu boné, escondendo minha expressão. Eu odiava aquilo, até gostava de demonstrar alguma coisa, mesmo que não fosse algo real, mas naquele instante era a única coisa que me dava coragem de falar com meus pais.

Quem apareceu foi minha mãe também. Eu também não havia puxado quase nada de mamãe. Seu cabelo era bastante claro comparado ao do meu pai, um louro ligeiramente escuro, e o dele sendo o castanho escuro que eu tinha. Apenas meus olhos eram como os dela, claríssimos. Os dela, quase como ouro. Os meus, quase como mel. Estavam frenéticos, suas feições eram meio infantis, apesar da idade. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo, uma máscara cirúrgica branca pendurada no pescoço.

— Dan! — exclamou minha mãe ao me ver na tela. — Quanto tempo, filho! Lan, venha! — chamou pelo meu pai, olhando para algum lugar longe. Atrás dela, eu só via uma parede branca. Ela realmente estava trabalhando. — É o Dan! — Ela voltou a olhar para mim. — Já está viajando, não está? Fez algum amigo? Está feliz? — perguntou.

Como sempre, nada realmente relacionado à Jornada Pokémon em si.

— Sim. — Minha voz soou fria. Olhei para Mei e fiz um sinal para ela vir. Mesmo hesitante, ela se aproximou. — Estou viajando com ela. — Olhei para Mei. Não sabia como ela se apresentaria, então apenas foquei em apresentar minha mãe antes. — Essa é minha mãe.

— Eu sou Hikari. — Mei deu um sorriso tímido. — É um prazer conhecê-la, senhora.

— O prazer é meu, querida. Eu sou Sophia Young.

— Mãe. — disse eu, com certa pressa. Não queria que ela fugisse do assunto, como sempre fazia, e fosse para aquele em especial. — Quero pedir uma coisa.

Uma movimentação no vídeo me interrompeu. Outra cadeira foi posta ao lado da de minha mãe. Era alguém que quando colocou a cadeira no lugar, foi possível ver que usava uma luva cirúrgica... E a luva estava ensanguentada.

Como se sentisse algo errado, Squirtle se escondeu atrás de minha perna, embaixo do banco. Por sorte, a câmera só pegava da minha barriga para cima, então era impossível que eles percebessem que meus Pokémon estavam ali. Sawk estava sentado em cima das pernas, distante de nós. Parecia até mesmo que ele também sentia que não deveria aparecer.

Por que eu tinha que ligar logo enquanto eles trabalhavam?

Meu pai sentou na cadeira. Ele também estava com uma máscara abaixo do rosto.

— Daniel, oi, filho. — Meu pai sorriu, suas feições, mesmo parecendo rígidas, assumiam um sorriso até bonito. Mei olhou para mim surpresa, não sabia que meu nome não era apenas "Dan". Eu apenas a ignorei. — Como você está?

— Bem. — respondi rapidamente de novo. — Preciso de suas autorizações para uma coisa.

— Não é como se você precisasse realmente. — alfinetou minha mãe. Sua voz havia mudado de amor para algo como uma ironia ácida. — Nunca procurou nossa aprovação para a jornada.

Senti algo quente tocar minha mão e apertar. Disfarçadamente olhei para baixo e quase sorri ao ver que Mei estava segurando minha mão de novo. Voltei a olhar para a tela. Agora eu sabia como ela se sentia. Sentir a mão dela segurando a minha me dava coragem, como se não importasse o que viesse, eu soubesse que não estava sozinho. Não respondi minha mãe.

— Eu quero entrar para um grupo, algo como uma associação. Eles ajudarão eu e Hikari com algumas coisas e disseram para pedirmos aos nossos pais.

— Você não nos liga, não dá notícia, não atende nossos telefonemas quando está em casa, só fala conosco quando nosso vizinho consegue te convencer, desobedece nossas ordens de não sair em jornada, se recusa a seguir o que achamos ser o melhor para você e agora liga pedindo autorização para algo que nem sequer sabemos do que se trata?

— Sinceramente? — perguntei. Estava me irritando. Talvez tenha apertado a mão de Meiko acidentalmente, pois havia fechado a outra mão em um punho. — Sim.

— E ainda espera uma resposta afirmativa?

— Não. Não preciso da permissão de vocês.

— Com licença... — pediu Mei, parecendo cuidadosa. Ela estava apertando minha mão firme, como se tentasse me acalmar, e agora falava com educação para interromper a briga. — Minha curiosidade é maior que eu e, se não se importar que eu saiba, eu gostaria de perguntar uma coisa, senhora.

— É claro que não me importo, vá em frente. — Minha mãe corou, hesitante. Eu sabia que ela não esperava algo tão repentino. — Mas antes, posso fazer uma pergunta também?

Mei avaliou minha mãe. De repente percebi que aquele olhar da minha amiga era idêntico ao da mãe dela. Era como se eu visse Hitomi ali ao meu lado.

— É claro.

— Por que seu rosto é tão familiar? Você é famosa? — Minha mãe inclinou a cabeça.

Mei apenas deu um sorriso. Fiquei tentado a perguntar como ela conseguia sorrir de forma tão bela mesmo quando era forçada.

— Eu sou confundida com uma pessoa famosa. É natural que tenha tal sensação. — O tom de Mei era respeitoso ao ponto de não parecer cuidadoso. — Minha vez, senhora?

Minha mãe assentiu em silêncio, esperando. A voz de Mei soou até inocente para mim.

— O senhor e a senhora trabalham como médicos? — Mas mesmo que Meiko fosse apenas uma criança, ainda não deixaria de ser a pior pergunta possível.

Não. Droga, não. Aquele assunto não. Por que, Meiko?!

— Não. — Minha mãe riu. — Você se interessa por ciência?

Porra, aquele assunto não!

— Não muito. — admitiu Mei, sorrindo sem saber no que se metia. — Tira um pouco da graça dos mistérios da natureza.

— Ah, mas resolver os mistérios é meu trabalho. — Meu pai falou, e olhou para minha mãe. Se eu não estivesse entrando em desespero, poderia ter reparado melhor em seu olhar apaixonado. — Nosso trabalho.

Minha mãe assentiu sorrindo.

— Nós fazemos… — começou minha mãe e eu interrompi a conversa.

Levantei, soltando da mão de Mei, e rapidamente disse:

— Eu tenho que ir. — desliguei apertando no botão e caminhei até a porta.

— Dan? — Mei chamou atrás de mim enquanto eu seguia até a porta. — O que foi isso?

Eu não respondi. Sawk me seguiu, assim como Squirtle. O Growlithe de Meiko parou na minha frente, rosnando. Talvez aquele cachorro chato percebesse algum tipo de raiva no meu corpo ou comportamento.

— O que foi? — perguntei. Mei colocou a mão no meu ombro e me virou para encará-la.

— O que acabou de acontecer?

Apenas desviei o olhar. Meiko esperou. Eu não responderia tão fácil assim, mesmo que aquele olhar me assustasse tanto. Como ela conseguia aquilo? Encarar-me como se estivesse vendo dentro da minha alma?

Abaixei um pouco o boné, nervoso. De repente tinha pegado a mania dela. Nós ficamos daquele modo um tempo até Mei suspirar.

— Eu não vou insistir, mas espero que você me conte um dia. Eu contei tudo sobre mim e acho justo que me conte sobre você também.

Assenti fracamente e abri a porta. Scott, que esperava do lado de fora, se aproximou.

— E então? — perguntou Otero.

— Eu vou entrar na equipe. — disse eu, fechando as mãos. Já pretendia, e já tinha meus motivos. E agora, com Mei, tudo faria ainda mais sentido. — Eu quero justiça com o que aquelas pessoas fizeram conosco no Monte Lua.

— Eu também vou entrar na equipe. — Mei disse, sua voz, como sempre, soava suave e baixa, oposta a minha que era rígida e alta. — Eu quero a ajuda de vocês para recuperar minhas memórias.

Scott sorriu. Seu sorriso vacilou, como se ele estivesse pensativo.

— Eu conversei com o Líder da Equipe Fermata. E nós decidimos que não há justiça em pedir a ajuda de vocês e impedir suas jornadas. Por isso, como é culpa nossa Mei estar sendo perseguida… Nós talvez tenhamos uma possível solução temporária para este caso.

Mei ficou quieta, enquanto eu comecei a ficar agitado.

— Uma solução? Qual?! — questionei animado.

— Não é uma solução ainda, porém podemos procurar um meio de fazer se tornar algo a nosso favor nos tribunais. Aliás, não nós, todavia o advogado dela se conseguirmos o que for suficiente e enviarmos a ele.

— O que quer dizer? — Mei perguntou, meio baixo.

— É mais fácil vocês virem por si só. — Scott acenou e começamos a seguir ele.

Não fomos muito longe dessa vez. Entramos em uma das salas que havia aqueles enormes consoles. A mesma pessoa que estava mexendo no telefone agora estava ali. Deu um sorriso para nós.

— Esqueci de lhes apresentar. — disse Scott. — Essa é a Sally. Ela será a pessoa especializada em tecnologia que sempre fará o possível para ajudar a vocês em suas missões caso vocês entrem na Equipe.

— É um prazer. — disse ela, com um sorriso.

— O prazer é meu. — respondi. Mei apenas assentiu em cumprimento. Era visível que ela estava focada em ver o que tanto Scott dizia sobre uma solução para sua segurança durante a jornada.

— Senhorita Ketchum, você se lembra dos lugares que passou em Unova? — perguntou Sally. — Algum detalhe?

Se a resposta era para ser sim, então as esperanças já morreram ali. Mei balançou a cabeça sombriamente.

— Não. Minha memória se limita a flashes de outros momentos. — respondeu ela. Os flashes deveriam ser as partes da caverna, que ela lembrava, e o resto havia se passado fora dali. — Tudo o que sei é o que me contam.

— Então não se lembra das câmeras? — questionou Sally.

— Câmeras? — Mei não pareceu entender.

Sally se virou para o console. Ela era a única sentada em frente a ele. Nós três estávamos de pé, e os Pokémon esperavam do lado de fora. Eu não sabia quanto à Mei ou Scott, mas eu não fazia à mínima ideia do que se tratava a sequência de botões que ela apertava. Ao longe, alguns metros na frente do console, havia uma enorme tela, de pelo menos dois metros de cumprimento e um e meio de altura. A qualidade da imagem era alta, invejável a muitas televisões de último modelo lançado.

Embora a alta qualidade da tela ajudasse, a imagem que apareceu não era das melhores. Chuviscava levemente, como se fosse uma câmera velha e/ou danificada. No entanto, a imagem estava nítida o suficiente para eu sabia que era Mei lá, ao longe. Seu cabelo preto balançando com a brisa era inconfundível, e ela conseguia ser ainda mais branca nas imagens, o que só dava mais contraste aos seus machucados, que percorriam todo o corpo. Suas roupas estavam bem rasgadas e encardidas, pelas cores poderiam ter sido uniformes de alguma escola de Johto, mas àquela altura já estavam quase irreconhecíveis. Havia até mesmo algumas manchas de sangue. Era quase doloroso assistir aquilo e pensar que aquela era Mei.

Havia várias câmeras e ângulos diferentes. Um deles até mesmo a mostrava de frente.

— Não faz diferença vocês terem as gravações. — Mei disse, depois de um tempo. Sua expressão estava distante, e eu sabia que ela ficava assim quando queria esconder suas próprias emoções semelhantes a tristeza. — Eles também têm, e elas são as provas de que eu fiz o que fiz.

— Nós achamos que você mesma poderia apontar para nós algo que não perceberíamos sozinhos. — Scott disse, parecia desanimado.

— Sim — insistiu Sally —, eu achei que você se lembraria de algo que nós podemos encontrar nos vídeos e assim usar em prol da sua defesa.

Mei balançou a cabeça.

— Eu não me lembro de quase nada do que aconteceu. Eu não posso apresentar uma defesa quanto a mim mesma se sequer sei realmente o que aconteceu na minha visão.

— Você foi sequestrada. — disse eu, encarando a tela onde os vídeos passavam em um looping infinito.

Apesar de eu saber que havia bem mais que aquilo, eles evitavam passar a parte que Mei cometia o genocídio. Na verdade, passavam apenas a parte que Mei tirava todos de suas casas, e até algumas que ela simplesmente estava andando sozinha em meio à destruição que Mewtwo causava.

— Sim, Dan. — Mei soava cansada. — Mas ninguém acredita nisso. Por que um Pokémon iria sequestrar uma criança?

— Você foi controlada para fazer aquilo. — olhei para ela.

— É, mas…

— Então você não era você.

— Não, ainda assim…

— E sua expressão era de alguém em transe. — eu me sentia falando sobre algo de um filme, era estranho pensar que tudo aquilo era real. Ainda assim, eu não podia deixar minha ideia sumir logo naquela hora.

— E-Eu não sei, eu não me lembro. — Mei pelo visto não gostava de ouvir tantas perguntas seguidas.

Eu me aproximei de Sally e apontei para a tela lá no fundo.

— Pode colocar naqueles vídeos que ela está de frente? — Depois de mexer em poucos botões, Sally fez o que pedi. Mas a qualidade ainda não permitia ver nada do que eu queria. — Não tem como puxar zoom no rosto dela e deixar mais nítido, não é?

— Não duvide de mim. — Sally começou a freneticamente mexer naquele console.

Mei tocou meu ombro de novo, me fazendo prestar atenção nela.

— O que está fazendo? — perguntou ela.

— Espere aí. — disse eu, voltando a me concentrar. O rosto de Mei no vídeo agora estava mais próximo, e aos poucos era possível ver sua expressão.

Ou sua falta de expressão.

Mei não esboçava nada. Nem raiva, nem medo, nem dor, nem prazer, nada. Seu olhar estava fixo. Aos poucos, Sally foi conseguindo nitidez nos outros vídeos também. Mei sequer olhava no rosto das pessoas, como se seus movimentos fossem involuntários, não algo que ela tinha em mente que estava fazendo. Seus olhos eram tão fixos que ela parecia precisar virar todo o corpo para olhar para o lado. Aquilo definitivamente não era normal. Nos momentos que Mewtwo chegava perto de acertá-la, ela sequer piscava. Era como um robô, programado apenas para aqueles movimentos que fazia, não para reagir a qualquer outra coisa.

Ao meu lado, a Mei de dois anos depois deixou a mão cair do meu ombro e apertou o próprio braço, apreensiva. Olhei para Scott.

— Esse não é o olhar de um assassino. Talvez de uma pessoa louca, com problemas mentais, algo assim, não de um assassino ou terrorista. — falei com certeza.

Mei me encarou como se decidisse entre me agradecer e me espancar.

— Obrigada pela parte que me toca, mas que tal apenas dizer "Pessoa sofrendo um trauma profundo"? — sugeriu ela. Apesar do comentário, não parecia confortável com o rumo da conversa.

— Ele não deve estar completamente errado. — disse Scott, se aproximando mais da gente e encarando a tela.

Meiko o encarou cética, como se ele concordasse com o que ela levou como ofensa. Já eu sabia que era outra coisa. Era estranho ouvir alguém dizer que eu não estava errado em um momento que eu me sentia um louco, mas eu sabia que ele estava concordando com minha estranha ideia de observar a expressão dela.

— Temos alguma gravação de algum criminoso que tenha feito coisas semelhantes? Para comparar? Ainda que seja um tiro no escuro, pode se tornar um argumento de defesa.

— Sério? — perguntei.

— Sim. — Mei acabou admitindo, sua expressão estava longe de um sorriso ou do alívio. — Se acreditassem que não foi algo intencional, eu não iria direto para a cadeia, mas a possibilidade de eu ser internada em uma clínica é bem grande. — Mei puxou a ponta da jaqueta, sua tensão só aumentava. — E eu já passei, e ainda vou passar, com psicólogos e psiquiatras o suficiente por conta do meu TEPT. — Mesmo que não gostando da ideia, Mei apenas abaixou o olhar e admitiu outra coisa em seguida com um suspiro. — No entanto, é melhor do que ser presa pelo resto da minha vida.

— E quanto à jornada? — perguntei.

Scott foi quem me respondeu.

— Nós podemos usar estas gravações como argumento, e apresentar fatos sobre o que houve em Viridian, porque conseguimos registros de entrada e saída da floresta. — Scott cruzou os braços. — A garota que vocês encontraram morta entrou na floresta três dias antes da Mei entrar. Encontraram o corpo dois dias depois de a moça sair da floresta e descobriram que havia uma semana que a menina estava morta, e apenas tres dias que a senhorita Ketchum havia saído de lá. Mas eles ainda acreditam que o que aconteceu em Cerulean é uma prova da violência dela.

— Isso significa que…? — Eu não havia entendido nada.

— Não há provas que indicam homicídio em Viridian Forest. Ela morreu antes que eu entrasse. — Mei resumiu. Sequer olhava para nós.

— Então por que estão te procurando ainda? — Eu ainda não tinha entendido.

— Exceto a resistência à prisão? Violência. Além das mesmas desconfianças de sempre.

Sally, depois de um tempo mexendo nos consoles, falou:

— É claro que Meiko não é a única acusada de genocídio terrorista, talvez a única criança, porém, em questão de imagens... Ela é a única que temos. Mas podemos conseguir mais com o tempo, só precisamos voltar a contatar as fontes certas. — A tela lá no fundo desligou e Sally girou a cadeira até poder olhar para nós. — Quando conseguirmos, o melhor método para livrar ela da acusação de fuga é dizer que sequestramos ela. Este lugar não é de conhecimento de humano algum senão os que fazem parte do nosso meio. Podemos tomar a culpa para nós e não sermos perseguidos.

— Alguma ideia de quanto tempo precisaria para isso? E para eles liberarem Mei em sua jornada? — Scott perguntou.

— Algumas semanas. — respondeu Sally.

Eu balancei a cabeça. Estava completamente perdido.

— Espera um minuto. Eu preciso entender tudo. — Olhei para Scott. — Há provas que Mei não matou a menina em Viridian e temos provas que podem tornar duvidoso o caso de Unova.

Mei assentiu e eu continuei falando:

— Mas as acusações de violência permanecem, então ela faria a jornada vigiada.

Todos assentiram.

— E para conseguir isso, temos que esperar "algumas semanas"?

— Sim, moço. — Era Scott agora. — Não temos nenhum vídeo de comparação para o caso de Unova. Precisamos dele para mandar uma carta. Até recebermos, enviarmos para o advogado dela e ele então decidir adicionar ao caso, levará uma ou duas semanas.

Olhei para Mei, que me encarava em completo silêncio.

— E o tempo até a Liga Índigo começar?

Ela apenas deu de ombros. Sua voz soou mais baixa.

— Há tempo o suficiente para esperar.

Scott colocou a mão em nosso ombro e sorriu.

— Enquanto isso, como já aceitaram entrar para a equipe, chegou a hora de nós aceitarmos vocês. — convidou.

Olhei para Mei novamente. Ela também não parecia ter entendido.

— O que quer dizer? — perguntei.

Scott nos observou com atenção.

— Vocês farão testes.

— "Testes"? — perguntou Meiko.

— Sim, moça. — respondeu ele. — Vocês aceitaram nossa oferta, agora é hora de saber se vocês também são o que queremos.

Scott sorriu, mas eu não. Algo me dizia que aquilo não seria fácil. E pela expressão de Meiko, ela pensava a mesma coisa.

Notas finais
Oi, gente! Tudo bem com vocês? Espero que tenham gostado do capítulo. Já sabem, né? Comentários são sempre bem vindos, mas se não comentarem, o Rex, o Charmander e principalmente o Croconaw vão morder seus pés durante a noite! Até mais! Amo vocês ♥