Lealdade sem Fronteiras #1

11 Capítulo 11 - vs Mayra (Parte 2)


Notas iniciais
"Havia anos que eu não via Mayra. A última vez havia sido quando eu tinha dez anos, ainda estávamos na escola, última semana de aulas, então eu não sabia sua equipe. Apenas um Pokémon era de meu conhecimento. Logo, batalhar naquele momento era para mim uma surpresa atrás da outra. Mas mesmo que eu desconhecesse todos eles, o maior susto foi, na verdade, foi ver o que eu já conhecia e descobrir que, entre nós dois, eu era a única que realmente sentia falta dos tempos antigos."

Meiko "H". Ketchum

Admito que eu estava bastante preocupada com Pidgey. Mesmo que ele pudesse agora descansar dentro da Poké-Ball, eu ainda não deixava de me sentir culpada por sua dor. Se eu tivesse sido mais cuidadosa… Talvez aquele final pudesse ter sido diferente.

Eu segurava não só a Poké-Bola dele, como também a de Magi. Encarava ambas sem conseguir pensar em outra coisa que não fosse a minha própria memória.

Aquele ano que passei com Mewtwo fora claramente traumático. Mudou não só meu modo de ver o mundo como também um pouco a minha personalidade. No entanto, eu só mudara de verdade por causa de algo além do Estresse Pós-Traumático. Eu não me lembrava de quase nada que passara com ele, não até acabar visitando a Caverna de Cerulean, onde fiquei tanto tempo presa por conta dele. Antes disso, eu só tinha flashes de memória, e muitas coisas eu só sabia por conta dos meus Pokémon. Eu cresci com eles. Eles me conheciam mais do que eu mesma.

Agora, eu tinha Pidy também… Ele poderia me ajudar a lidar com tudo, certo?

— Não sei se já acabou de demonstrar carinho com aberrações ou mesmo se sua mente voltou para o planeta terra, todavia, temos uma batalha a acabar. Essa coisa aí não vai morrer se esperar. — Mayra sorriu como sempre sorrira, o escárnio lentamente a preencher seu rosto. — Ou vai? Nunca se sabe. — deu de ombros. — Talvez Henry Ketchum tenha morrido de esperar a família se importar com ele.

Olhei para o objeto que estava em minhas mãos, imaginando Pidgey lá dentro. Eu sabia que, de novo, meu rosto estava coberto não só pelo capuz, mas pela sombra que ele causava. E sabia também que minha expressão estava tão sombria quanto. Ergui meu olhar lentamente. Ela não podia ter dito aquilo. Não se atrevera a dizer.

— O que você disse? — minha voz soou inexpressiva, de alguma forma.

— Que seu pai morreu por culpa sua e de sua mãe. Onde vocês estavam quando ele resolveu entrar naquele lugar? — ela não estava brincando.

Eu preferia que estivesse.

Sem mais palavras, peguei uma Poké-Ball. Embora estivesse pensando em mandar Spyke, ele me ajudaria a ficar calma, eu estava cansada daquilo. Cansada de ouvi-la falando coisas da qual não sabia. Fechei meus olhos, liberando meu próximo Pokémon, e, quando os abri, Magi me olhava nos olhos, vendo como eu estava. Eu ainda acreditava que ela, uma hora ou outra, me deixaria agir assim como eu sentia ser necessário.

Cada tipo de Pokémon tem uma capacidade única, assim como cada Pokémon tem sua capacidade exclusiva também. Todo Pokémon Elétrico pode carregar sua energia para aumentar seus ataques, no entanto somente um Voltorb, por exemplo, conseguiria manter essa carga e usá-la para explodir no adversário, sem necessariamente usar o movimento Explosão ou Autodestruição como outros Pokémon precisariam.

Sendo um tipo Psíquico, Magi era capaz de usar a Telepatia como todos os outros, ademais, sendo uma Alakazam, evoluída de um Abra, ela pode se Teleportar sem ter o movimento. Assim que a coloquei no campo, ela olhou para mim e eu pude ouvir sua voz calma e reconfortante na minha mente.

Ela lhe disse algo que afetou seu emocional, concluiu.

Eu ergui o olhar para encarar o outro lado. Não queria dizer em voz alta, então deixei meus pensamentos claros para ela. Eu precisava pensar em cada palavra para que ela entendesse.

Preciso acabar com isso. De uma vez por todas. Estou cansada de perder para ela, olhei para minha Pokémon determinada, Nós somos mais fortes agora. Assim que acabarmos com esse Magcargo... Faremos nosso máximo.

Magi simplesmente continuou me observando e lentamente seguiu até o campo. Tytos, que já parecia entediado, soprou seu apito ao ver que eu tinha parado de conversar com minha Pokémon.

Visão do Futuro.

Fingi deixar Mayra tentar atacar primeiro. Ela pareceu feliz.

— Cortina de Fumaça! Em seguida, às doze horas, Brasas! — mandou.

Magi e eu encaramos aquela fumaça até as fracas labaredas de fogo vir em nossa direção. Ela, com um movimento da colher, se Teleportou para outro lugar do campo, enquanto eu corri para a esquerda. O tempo que Magcargo levava para atacar era considerável, o que nos significava uma vantagem para desviar.

— Espere mais um pouco! — pedi, deixando meu plano claro em minha mente.

Mayra continuou mandando.

— Arremesso de Rochas! Doze horas! — ordenou.

— MAGI! AGORA! — avisei.

Eu não precisava de mais palavras. Meu plano estava claro em minha mente. Assim que as três rochas subiram no ar, uma a uma, ela seguiu minha imaginação como se ela fosse vívida.

A primeira pedra foi partida ao meio com um Corte Psíquico. A energia que Magi criava concentrando seus Poderes Psíquicos nas colheres de transformava em feixes roxos, que cortavam o ar conforme ela movimentava as colheres, parecia até mesmo brandir uma espada. Os mesmos feixes atravessaram a pedra e seus restos, não restando nada além de poeira e pedacinhos pequenos ao chão.

A segunda veio com mais velocidade por ser menor, porém nada que a repetição do movimento anterior não tenha destruído. A última, de tamanho e velocidades médios, foi a que eu imaginei algo mais complexo.

Magi levou um tempo para conseguir pegá-la com seu movimento Confusão, era um ataque fraco para um feito grande. Ainda eu segui ordenando mentalmente cada movimento, fazendo-os eu mesma para ajudá-la a compreender. Fingi pegar a pedra com o mesmo mover de mãos que ela fazia, como se eu segurasse colheres. A pedra diminuiu a velocidade, envolta em uma aura rosada. Girei meu corpo, fazendo a pedra girar com certa distância de mim, e assim que cheguei à direção necessária, fiz um com o braço esticado como se estivesse jogando para frente.

Magi conseguiu a direção perfeita do arremesso, jogando direto de onde ela tinha vindo. A fumaça ainda atrapalhasse um pouco nossa visão, entretanto, não nossa audição. Conseguimos ouvir um impacto alto e o grito de susto de Mayra.

A névoa preta baixou aos poucos e pudemos ver que a pedra havia acertado Magcargo em cheio, direto em sua cabeça estranha, e o jogado com força para trás. Por pouco ele caíra de pé, e lentamente rastejava até o campo de novo, quando uma luz estranha invadiu nossa visão, nos cegando por um momento, e o som de um trovão estrondoso fez o chão tremer. Quando voltamos a olhar para lá, Magcargo está desmaiado e Mayra apoiada no chão, de joelhos, como se tivesse caído.

Eu sorri, sabendo que a touca tornava meu rosto sombrio e fazia meu sorriso ficar do mesmo jeito. Olhei para minha Alakazam.

Por pouco, eu disse em minha mente, me referindo à Visão do Futuro.

Ainda falta um, Magi sendo realista como sempre.

Você consegue, eu pensei, ao mesmo tempo em que olhamos para o próximo Pokémon e eu hesitei, outra coisa passando pela minha cabeça. Já eu não tenho certeza se consigo…

Era bípede, tinha um focinho curto cor creme, assim como a parte abaixo do corpo, que tinha riscas semelhante a degraus, escalonada. Seus membros eram curtos, pareciam fortes. Seu corpo, rosa e um pouco gordinho, era até mesmo fofo. Suas "mãos" estavam para trás, de uma maneira quase formalmente humana. Havia algo como um achatado colar colorido espinhoso em seu pescoço, que variava de vermelho e branco. Tinha uma cauda de tamanho médio. A coroa que usava na cabeça era como uma concha espiralada, com dois chifres perto da base e uma pedra vermelha residindo no centro. Seus pés e mãos tinham poucas de garras, enquanto as mãos também tinham um polegar com a falta delas.

Eu não precisava prestar muita atenção para reconhecê-lo. Mesmo que uma boa parte da minha memória tivesse ido embora com tudo, eu ainda lembrava-me dele, pois Rex nunca deixara de me falar como eu havia gostado daquele meu Pokémon.

— Loow… — murmurei e, assim que ele me viu, arregalou os olhos, as patas amolecendo e caindo ao seu lado, sem toda aquela seriedade. Virou-se para Mayra em dúvida, diferente de mim, ela não era compreensiva, o que significa que não iria ligar para a antiga conexão que aquele Slowking e eu já tivemos uma vez.

— Vamos, Slowking! Não hesite! Dança da Chuva e Pulso de Água!

Loow olhou de Mayra a mim e hesitou de novo. Seus olhos brilharam azuis e uma voz mais baixa e de tom diferente de Magi, mais sério e grave, soou na minha mente.

Perdoe-me… Eu tenho que fazer isso, ele comunicou, erguendo as patas, seu corpo brilhando com uma aura azul água.

Eu estava paralisada. Queria me mover, queria atacar, entretanto… ele já tinha sido meu Pokémon! Eu não podia fazer aquilo!

Mei?, chamou Magi e eu olhei para ela. Concentre-se.

Assenti fracamente, entendendo sua ordem. Fechei os olhos. Inspirei profundamente enquanto erguia os braços, esticados. Depois os baixei na frente do corpo, expirando. Abri os olhos apenas quando senti que estava em posição de luta, com os pés afastados na largura dos ombros e as mãos em defesa.

Olhei para Magi. Ela sempre acompanhava meus movimentos, com uma sincronia exclusiva nossa. Por algum motivo, eu sempre sentia que aquilo só nos deixava ainda mais unidas. Como se a cada luta, nos tornássemos uma.

Visão do Futuro, mandei, ao mesmo tempo em que Slowking terminava seu movimento.

Os olhos de Magi brilharam. Eu senti sua energia psíquica, mesmo de onde eu estava, ser concentrada em grandes quantidades e de repente sumir.

Slowking, ainda determinado, juntou as patas na frente do corpo e criou uma esfera azulada, mesmo pequena parecia poderosa, e lançou em nossa direção.

— Intercepte com Corte Psíquico!

As colheres nas mãos de Magi brilharam, e ela cruzou o ar com elas. Uma energia roxa em formato de crescente saiu dali e seguiu, semelhante a uma lâmina, voando até a esfera.

A colisão foi visivelmente forte, entretanto, o Corte Psíquico partiu a esfera, que se espalhou em uma enorme onda e caiu na terra já molhada, resultando em outra poça de água qualquer.

Mayra estava agitada.

— Confusão! — mandou, e depois completou com seu sorriso de sempre. — Nos dois.

Hesitei, dando um passo para trás. Não adiantou. Eu ainda tinha esperança de Loow lembrar que éramos grandes amigos, mas lembrando ou não, ele não estava hesitando em atacar. Minha visão de repente girou com violência, eu não sabia o que era em cima, embaixo, direita ou esquerda. Minha cabeça doía, latejava com força descomunal, e eu me sentia prestes a vomitar ou bater contra a parede. Senti meu corpo perder equilíbrio e senti-me cair sobre algo, ainda assim eu não sentia como se estivesse no chão. Era como se meu corpo girasse de todas as formas possíveis.

Ainda que a dor começasse a diminuir em conjunto com a ânsia de vômito, abrir os olhos ainda era uma coisa distante para mim.

Mei?, chamou uma voz na minha cabeça e levei um bom tempo para lembrar que estava numa batalha, com Magi me ajudando. Tudo bem?

Abri meus olhos lentamente, fazia uma careta. Meu capuz havia caído, eu sentia a chuva me molhar por completo, deixando meus cabelos grudados ao meu corpo e ainda uma parte cobrindo minha visão.

Já estive melhor, respondi depois de um tempo e levantei, percebendo que estava suja de lama. Mayra deu uma risada.

— Oops. Parece que ela sujou as calças. — caçoou.

— CORTE PSÍQUICO! — gritei, irritada.

Magi atacou imediatamente. A crescente seguiu rápido contra Slowking, que se encolheu e recebeu o ataque como pôde. Seus pés escorregaram para trás, no entanto, ele permaneceu de pé, firme e forte.

Dessa vez, se Loow recebeu o que pareceu uma ordem telepática, pois não houveram palavras antes de seu ataque seguinte. A parte superior da cabeça de Slowking brilhou, sua concha inteira parecia brilhar, em azul e sua cabeça ficou cercada por algo como um escudo reflexivo transparente. Em seguida, depois de alguns passos para trás ganhando impulso, disparou a si mesmo contra nós como um míssil.

Sua velocidade não era das melhores, é claro, podíamos facilmente desviar. Quando Magi se Teleportou para longe, ele apenas seguiu reto, vindo na minha direção. Eu corri, realmente cri que ele não me acertaria. Como poderia com uma velocidade daquelas?

Eu realmente não esperei o que ele fez em seguida.

Eu corri para a esquerda e dei a volta nele, desviando com facilidade, no entanto, o Slowking veio na minha direção mesmo assim, usando os próprios poderes psíquicos para se virar para a direção contrária, e me atingiu em pleno estômago.

Ainda que tivesse sentido meu corpo ser jogado para trás, com toda a dor que eu sentia não havia como comparar algo como cair no chão e algo como ser atingida diretamente por um movimento como o Cabeçada Zen, que tinha uma força base de 80.

Eu não conseguia respirar. Sentia a chuva cair no meu rosto e atrapalhar ainda mais minha desesperada tentativa de recuperar o fôlego. Turva se tornara minha visão, que, quando se ajustava, era somente por alguns segundos e logo voltava a estar como estava antes. Ouvi Magi me chamando novamente, eu já não sabia se era por Telepatia ou não, minha audição também parecia completamente prejudicada pela dor, como se esta fosse tamanha ao ponto de afetar os receptores de sentidos do meu cérebro.

Tudo o que fiz foi rolar para o lado. Grunhi, ou não, não sei. Conforme eu recuperava os sentidos, eu percebia que a dor não era nada em comparação ao meu susto. O susto de perceber que meu antigo amigo, antigo melhor amigo, já não se importava mais com minha saúde.

O que Mayra havia feito com ele?

O ódio voltou a me consumir. Magi continuava me chamando. Dessa vez era a raiva que me impedia de escutar o que ela tentava tanto me dizer. Apenas me levantei, meu corpo protestando, quase gritando, contra meu esforço, e eu sem dar a mínima. Encarei o Slowking — por que eu o chamava de Loow ainda? Ele não era mais o mesmo Pokémon — e lentamente balancei a cabeça. Ele pareceu confuso, sem entender. Não era por menos. Ele não me vira depois de Mewtwo me sequestrar.

Joguei para trás o capuz, que tinha colocado instintivamente depois da queda, deixando a chuva cair sobre o meu rosto. Meu cenho estava franzido, enxergar em meio ao aguaceiro era complexo, realmente, ainda assim, eu tinha certeza que o que mais chamava a atenção do olhar preocupado de Magi era o ódio refletido nos meus olhos. Encarei Mayra um longo instante e me voltei de novo para minha Alakazam.

Mandarei tudo Telepaticamente. Porém, esteja pronta para me Teleportar para onde eu mandar. Por enquanto, vamos manter Slowking ocupado.

Minha Alakazam me observou, calada. Eu semicerrei os olhos, sabendo o que viria a seguir, sabendo que ela me mandaria me controlar novamente. Dessa vez ela entendeu e assentiu. Viramo-nos para a batalha. Slowking começava a preparar sua cabeça para um novo Cabeçada Zen, mas a luz e o estrondo do Visão do Futuro voltaram, agora impedindo nosso adversário de atacar.

Aproveite! Corte Psíquico!

Ela correu da direção de Slowking, ainda enquanto tudo estava brilhando, e eu aproveitei a oportunidade, correndo até o meio do campo também, seguindo principalmente pela direita, à beira da linha que separava o lado de fora do campo e o interior. Eu já era louca para todos, estava pouco me lixando se o Líder reclamaria da minha invasão agora ou não. Eu não buscava mais a insígnia. Eu buscava vingança.

Havia apenas uma ideia em minha mente.

Magi via meu plano ainda na minha cabeça, eu deixava tão claro quanto conseguia. A primeira a ser vista por Slowking fui eu. Ele se assustou, esperava por Magi, e veio na minha direção. Magi apareceu com um Teleporte atrás dele e cortou, com um forte Corte Psíquico. Ele hesitou, olhando para trás, e carregou um Pulso d'Água.

Agora, mandei.

Magi me obedeceu, me Teleportando para mais perto do outro lado do campo, enquanto fazia o que eu tinha imaginado — todos os meus comandos eram mais imaginários do que realmente falados telepaticamente — e usava, à distância, um Corte Psíquico. A bolha que Slowking criava estourou sem nem ao menos estar pronta, o envolvendo na onda grande, e a energia do corte o atingiu.

Mayra não sabia que Magi e eu tínhamos algo além de uma união Treinadora e Pokémon. Magi literalmente me mantinha sã. Quando em momentos de fúria, no qual eu ficava tão cega pela raiva que não mais via o que fazia, ela usava seus poderes Psíquicos para segurar meu corpo, me impedir de seguir em frente. Quando criança, de acordo com o que Rex tentou me contar, eu dei a ela esse nome porque achava que seus poderes eram com base de magia, mágica, não algo complexo como um QI elevado que levasse a poderes como aqueles. “Magi” vinha de Magia, Mágica.

E, como verdadeiras mágicas, nós tínhamos aquela carta na manga. Um simples consentir de Magi e eu estava livre para fazer o que eu queria. Desde apenas batalhar a me deixar ser comandada pela minha fúria. Magi, naquele momento, entendia meus motivos.

Eu podia agir com impulsividade.

Enquanto Magi continuava mantendo Slowking ocupado — ela estava fazendo um ótimo trabalho, Teleportando e atacando, mas eu sabia que logo se esgotaria — eu simplesmente corri até a beirada do campo e, ainda por ali, segui até a área técnica de Mayra. Ela estava tão concentrada nos Pokémon, irritada com o fato de não estar se dando bem como previra antes, que não me viu chegando.

Tampouco viu o soco que eu dei em seu rosto.

Ela cambaleou perplexa para trás. Seu rosto estava vermelho, eu não sabia se de dor ou fúria. Não que eu me importasse. Ouvi a luta de Slowking e Magi ainda acontecendo atrás de mim, entretanto, tinha mais o que me preocupar.

— O QUE?! — ela se assustou. — VOCÊ É LOUCA! — Mayra gritou, furiosa, e olhou para o Líder de Ginásio. — Tytos! Não vai fazer nada?!

Eu não olhei para ele. Dei alguns passos para trás.

Magi, Confusão. Use seus poderes para arrastar Slowking no chão. Depois, arremesse-o. E me avise.

Eu não sei ao certo se ela me entendeu. Novamente não dei importância. Mayra virou-se para mim de novo, o Líder não parecia querer interferir. A batalha dos Pokémon ainda acontecia. Mesmo sem olhar, eu quase podia sentir a dor de Magi levando alguns dos ataques. Ainda assim, continuei ali, esperando. Mayra berrava, me xingava, mas nada conseguia realmente passar pelos meus ouvidos, como se qualquer som fosse só um ruído distante.

Eu me sentia em transe, como se nada pudesse me fazer me mover senão aquilo que eu esperava ansiosamente. Só esperando o momento certo. Ela veio na minha direção, arrumando o vestido no caminho. Provavelmente estava pretendendo resolver aquilo por conta própria.

Foi então que eu senti.

Magi não precisava realmente me dizer mentalmente que estava fazendo o que mandei. Eu podia sentir, como se uma parte de mim avisasse, quando era a hora de fazer o meu plano. E era agora.

Eu me abaixei como pude, quase chegando a deitar no chão, e fiz questão de prestar atenção em Mayra. Vi ela estranhar o que eu estava fazendo, mas sua expressão não durou muito tempo. O arremessado e desesperado Slowking veio voando e bateu direto contra o corpo da treinadora que, sem muita oportunidade de desviar, foi jogada para trás.

Levantei. Não sentia que aquilo era o suficiente, nem mesmo sentia que iria me satisfazer em algum momento, e tentei dar um passo adiante, para continuar a com aquilo. Alguma coisa me impediu. Minhas pernas não funcionaram, como se algo as prendesse contra o lugar onde estava.

Não, não algo… Alguém.

O olhar de Magi era claro.

Aquele era o limite.

Respirei fundo, tentando voltar a mim mesma. Quando sentiu que eu não faria mais nada, minha Alakazam me soltou e eu caminhei até seu lado. Posicionamo-nos em linha reta e juntas fizemos uma reverência profunda para Tytos e Mayra.

— Obrigada pela honra de batalhar neste ginásio. — pronunciei como sempre fazia, em respeito ao meu adversário e ao juiz. Mas chegava a ser cômico pelo que eu havia feito antes.

Quando Magi e eu voltamos a ficar eretas, notei que ela se mantinha de pé enfrentando o que eu via em seus olhos, a exaustão. Olhamos para Mayra, que levantava da lama ainda mais suja do que eu. Ela retornou Slowking que, depois de tantas pancadas contra o chão, estava desmaiado. Ela deveria, em respeito, fazer o mesmo que eu. Era o que tínhamos aprendido. Mas Mayra apenas semicerrou os olhos e não se moveu.

Não deu a mínima atenção.

Ergui meu rosto, deixando o que restava da chuva cair nele, e voltei a colocar meu capuz, já encharcado. Só então, naquela hora, sem toda a adrenalina da batalha, eu sentia as dores de tudo. Desde o ombro dolorido da pedra que ali batera até a exaustão no meu corpo inteiro.

Ao meu lado, as pernas de Magi fraquejaram e ela caiu de joelhos, sem mais conseguir resistir ao cansaço. Tentei pegar a Poké-Ball, mas esta caiu ao chão quando soltou do meu cinto. Com a adrenalina da luta, eu não sentira nada, no entanto, agora que tudo voltara ao normal, eu percebia a estridente dor no meu polegar direito. Eu quase não tinha movimento nele, e foi assim que percebi que tinha algo errado.

Na hora do "frenesi", não percebi que fechei a mão com meu polegar dentro dela na hora do soco. E aquele era o resultado. Com a mão esquerda, retornei Magi e olhei para os outros.

Mayra gritava e gritava com Tytos, que parecia completamente desdenhoso quanto a ela. Aiden observava de perto, quieto. Olhei para a arquibancada, somente para perceber que Dan já estava praticamente ao meu lado.

— Eu tenho tantas perguntas! — disse ele, empolgado, quase dando pulos de excitação. Segurava-se apenas por não querer parecer estranho e por conta da dor. Notei que Pichu não estava mais no seu colo. Supus que o pequenino já tivesse acordado.

Eu dei um sorriso mínimo. Como ele conseguia ficar tão alegre? Eu tinha acabado de estragar qualquer chance minha de ganhar uma insígnia.

— Eu sei que tem. — o que mais eu diria? Eu já previa suas perguntas e sabia bem que a principal era sobre os meus olhos.

Dan viu que eu segurava meu braço e franziu o cenho, estranhando.

— O que houve? Parece algo além daquela pedra. — perguntou, agora preocupado.

— Acho que quebrei o polegar. — tentei tratar como algo sem importância, mas não pude evitar a careta seguinte.

— Atenção, crianças. — chamou Fist, e por um momento ele quase pareceu um professor.

Todos nós o encaramos e ele indicou para que ficássemos à sua frente. Fizemo-lo, formando uma linha reta, apesar dos nossos corpos não estarem muito eretos. Aiden era o primeiro da direita e fazia o possível para não apoiar em uma das pernas. Mayra, logo em seguida, segurava o braço esquerdo junto ao peito, eu podia ver que ela estava com uma dor forte. Dan, ao meu lado, parecia normal, porém eu estava ciente de sua fratura nas costelas, de sua respiração irregular. Enquanto eu fazia o possível para não mexer meu braço direito, para não mover nada relacionado ao meu dedão ou o ombro.

Depois de um longo momento caminhando na nossa frente, de um lado a outro, Tytos parou, suas mãos para trás e seus pés na distância dos ombros novamente. Indicou para que eu e Mayra déssemos um passo à frente. Fizemo-lo.

— O que diabos vocês fizeram aqui? — ele perguntou, e eu estranhei o fato de ele não estar mais com tanta autoridade na voz. Na verdade, parecia quase curioso. — Eu não esperava que vocês fossem... — Fist foi interrompido por uma voz estridente.

— Ela me deu um soco enquanto eu batalhava de verdade! Foi isso o que houve! — Mayra gritou novamente e olhou para mim, como se esperasse uma reação minha. Permaneci calada. — Viu? Ela nem mesmo tem argumentos!

O Líder de Ginásio encarou Mayra como havia me encarado antes.

— Até onde entendi, ela está calada por eu não ter lhe dado o direito de falar ainda, diferente de você, que acaba de agir de maneira desrespeitosa, tanto quanto antes. — ele semicerrou os olhos. Depois lentamente olhou para mim, como se ainda avaliasse a situação. — Ketchum. Explique-se.

Eu tentei não ficar surpresa. Não esperava que ele me desse aquela oportunidade. Somente me curvei com total respeito, sabendo o erro que havia cometido. Fechei meus olhos enquanto falava.

— Perdoe-me, senhor. Sei que cometi um erro ao invadir o campo de batalha e, ao desrespeitar uma das regras, é provável que eu perca a oportunidade para receber a insígnia. Mas eu aceito isso. — voltei a minha posição anterior, ainda evitando olhá-lo nos olhos. Não por medo, apenas por intuito de continuar com meus gestos de respeito. — Eu fiz o que eu queria. Estou satisfeita. E aceito, com pesar quanto a minha demonstração desnecessária e desonrosa, o que vier.

— Belo soco lá. Só não deixe o polegar na palma da mão na próxima. — murmurou.

Minha respiração falhou.

O que?!

Eu estava tentando me recuperar daquela frase quando ele voltou a se afastar e nos encarar. Olhou desde o ginásio, até o campo onde estávamos e então nós novamente.

— Embora tenham me dado um bom trabalho em ambos os campos de batalha, não deixarei de cumprir o que devo fazer por obrigação. — ele tirou do bolso dois objetos redondos e lustrosos. — Dan Young.

Dan, quase pulando de alegria, foi até o Líder. Parecia apreensivo, mesmo assim. Era óbvio que era fácil irritar aquele Líder e a última coisa que Dan queria era estragar aquele momento onde ele recebe a insígnia.

— Oi? — ouvi a voz de Dan. Mesmo tentando ser respeitoso, eu ainda ouvia a euforia controlada vindo dele. — Que-quero dizer… Senhor?

— É óbvio que a cultura de Johto muda um pouco para a de Kanto, então não vou cobrar formalidades que demonstrem honras de sua parte. Ainda assim, sua honra veio de sua coragem em se sacrificar pela vitória, apesar de estranhamente defender um Pokémon ao fazê-lo, eu acho justo lhe dar a recompensa por ganhar este ginásio. A Insígnia da Vitalidade. — Fist entregou a Dan, que aceitou alegremente.

Por um longo instante eu achei que ele iria chamar Mayra. Afinal, eu desrespeitara as regras e atacara minha adversária com grande desonra a um lugar como o campo de batalha de um ginásio.

— Meiko Ketchum. — ele pronunciou e tudo pareceu se tornar em câmera lenta e eu quase me senti engasgando em minha própria respiração.

Andei até sua frente, parando ao lado de Dan, que me fitava com um sorriso no rosto.

— Senhor. — abaixei brevemente a cabeça.

— Apesar de claramente desobedecer as regras que impus e desonrar um local quase sagrado como é um Ginásio Pokémon, você ainda manteve respeito a mim, à luta ao final e reconheceu seu erro, diferente de Mayra — ele desviou o olhar até ela — que não só gritou e questionou minha autoridade como também provocou a adversária até que esta perdesse o controle, contribuindo para uma confusão como essa. No final, ainda achando que estava certa. — ele voltou seu olhar para mim. — Aqui está sua Insígnia da Vitalidade.

Ele entregou em minhas mãos e, depois da mais profunda reverência e mais respeitoso agradecimento que consegui fazer, eu a encarei com um sorriso. Era em um formato quase quadrado, com uma pequena curva nos lados esquerdo e direito. Era branca, cortada por uma linha preta, que caía ao lado direito como se sobrasse um pouco. Não demorei a reconhecer. Era uma representação da roupa que o Líder usava. Um kimono com faixa preta.

Aquela insígnia brilhava com os raios de sol que surgiam depois da chuva. Mas nada superava a luz da alegria que eu sentia no peito. Eu realmente conseguira. A Insígnia da Vitalidade. Do Ginásio de Cerulean. Do Líder de Ginásio Tytos Fist, especialista em Pokémon tipo Lutador. Olhei para Dan e ele sorriu para mim do mesmo jeito.

Quem diria que, no final das contas, eu me sentiria tão bem por conseguir aquilo com ele do meu lado.


Depois de alguns minutos, Dan e eu caminhávamos para a saída do ginásio. Havíamos entrado para, por pura diversão, observar Mayra e Aiden arrumando a bagunça. Tytos, assim como combinado, havia pedido para Dan e eu escolhermos se iríamos deixar que Aiden e Mayra recebessem a insígnia. Nossa escolha foi a mesma.

O resultado do "não"? Mayra com o rosto da cor avermelhada do cabelo e Aiden com um olhar quase tão mortal quanto o de Rex para Dan. Não pude evitar outro sorriso sombrio para Mayra, enquanto Dan apenas deu de ombros dizendo "Você me odiou primeiro."

Agora, seguindo para a saída, não deixamos de admitir que nos sentíamos satisfeitos com aquela escolha. Vingados, até mesmo, depois do que passamos.

Enquanto observávamos Mayra e Aiden ajudando no ginásio, descobrimos que eles tinham na equipe, respectivamente, um Cacnea e Aipom, que estavam ajudando a destruir o entulho que caíra com a destruição do teto e desobstruir um pouco o ginásio.

Estava conversando trivialidades com Dan quando, pouco antes de sairmos pela porta, ele tocou meu ombro esquerdo e me virou para encará-lo.

— Sabe... Aproveitando seu temporário bom humor — ele deu um sorriso, brincando. Eu evitei uma careta. Não tinha nada de errado com meu humor, tinha? — Que tal me contar o que há com seus olhos? — apontou para o meu rosto, sem nunca soltar a lateral do corpo com da outra mão. — Eu podia jurar que a cada golpe que você levava, eles mudavam de cor.

Eu desviei o olhar. Dan percebera a estranha relação entre as batalhas e meus olhos, agora eu não podia mais esconder. Encarei-o com seriedade, já sabendo que sua reação seria como a de qualquer um que percebia que eu conversava com Pokémon.

— Ele sempre foram assim. — comecei, já deixando claro que não era algo que eu pudesse controlar. — Minha mãe diz que nasci com eles brancos, assim como você viu quando estávamos a caminho da Caverna de Cerulean. — eu fazia meu máximo para manter meu foco apenas na conversa, não no que ela poderia me causar, como as memórias indesejáveis que já espreitavam a minha mente. — Mas com a chegada de Rex... As coisas mudaram. Ele me mordia de início, como qualquer Pokémon recentemente capturado... Então meus olhos se tornaram pretos. — olhei para onde os outros estavam, prestando atenção se estavam me ouvindo ou observando. Aiden estava ocupado ordenando os Pokémon, Fist treinava sozinho e Mayra falava no telefone do ginásio. Voltei a fitar Dan. — Aos poucos Rex foi mudando, e meus olhos também. Se ele acidentalmente me queimava nos treinos, meus olhos ficavam vermelhos. Se ele me lambia, ficavam roxos... — minha voz foi sumindo conforme o entendimento surgia no rosto de Dan.

— Mordida, preto. Lambida, roxo. Ataque tipo Fogo, vermelho... — ele encarava os dedos, eu quase podia ver as engrenagens trabalhando na sua cabeça. — Fomos atacados por um Supersônico e um Autodestruir. Você ficou com olhos brancos. — assenti, ele continuou, quase parecendo delirar. — E conforme batalhava, mudavam. Ataque Rápido, brancos. Ventania, azul da cor do céu. Confusão, rosa... Eles seguem a tipagem do movimento que você leva!

Assenti novamente. Diferente do que eu esperava, Dan pareceu empolgado com aquilo. Eu estranhei, franzindo o cenho e semicerrando os olhos. Estaria ele animado para espalhar por aí que ele conhecia a genocida mais conhecida do Mundo Pokémon e que ela era uma aberração ainda mais do que todos imaginavam?

— Isso é incrível! Você é… É como Arceus! Mas tendo o poder de todas as placas ao mesmo tempo… — a voz de Dan se perdeu em murmúrios animados, ele realmente estava delirando agora.

Eu apenas fiz uma careta.

— Eu nunca pensei por esse lado e... Não me parece agradável. — indiquei a saída e juntos seguimos para lá.

Novamente fiquei quieta, pensativa. Dan estava empolgado, alegre com a nova insígnia, não parava de falar. Aquilo me fazia feliz, me roubava um sorriso pequeno e tímido.

Aproveitando aquele bom humor e fácil distração, eu cutuquei Young com minha mão boa.

— Ei. Eu gostei da sua atitude no ginásio. — ele olhou para mim, parando na calçada comigo, e eu continuei falando. — Proteger o Charmander… Aquilo foi uma verdadeira demonstração de…

— PARADOS AÍ!

Uma voz alta e grave, vagamente eletrônica, me interrompeu e eu olhei na direção, mas não sabia exatamente para onde olhar.

Como se estivessem ali perto o tempo todo, diversas viaturas e motos surgiram com sirenes e luzes piscando de um jeito ensurdecedor e ofuscante em meio ao escuro da noite. Soldados e mais soldados saíram dos carros, carregando consigo cassetetes, armas de fogo e, em uma linha de frente, escudos. Cercavam não só a mim e Dan como também todo o perímetro do Ginásio.

Eu não precisava me esforçar para saber o que viria a seguir. Um homem, sem escudo ou armas, se posicionou a frente. Segurava um alto falante, dessa vez não o usou.

Não precisava. Sua voz, sua frase, seu tom, tudo invadiu meu ouvido com efetividade, fazendo meu coração parar de repente.

— Meiko Ketchum, você está presa!

Notas finais
Konbanwa, minna-san! Tudo bem? Gostaram? Espero que sim! Aceito comentários com todo o amor possível, e até impossível. Comentem caso vejam um erro, caso tenham teorias, dicas, sugestões, opiniões, qualquer coisa! Eu não mordo! (Não garanto quanto ao Croconaw do Aiden) Até mais! Obrigada por lerem.