Leah - I See You
45 Capitulo 45 - Problemas de Almas-Gêmeas
Notas iniciais
Quando cheguei aos tropeços com os olhos embaçados e o peito apertado, mamãe me deu seu colo sem inquirir nada e me acolheu em seus braços como a garotinha indefesa que eu me sentia. As palavras duras ecoavam como um mantra em minha cabeça, deixando tudo escuro, ruim.
—Está tudo bem, meu bebê. Vai dar tudo certo. – Suas mãos apaziguavam enquanto enxugavam as lagrimas em meu rosto que insistiam em cair sem a minha permissão.
—Por que ele me tratou daquele jeito? Por que me disse aquelas coisas? – Senti vergonha por minha voz sair tremida daquele jeito, vergonha por estar chorando daquele jeito, por estar tão vulnerável que manter a fachada dura exigia força demais, a força que eu não tinha no momento.
—Shii, bota para fora, querida. Sua mãe está com você. – Ela me embalou por horas, até eu cair no sono ainda com esperança de ouvir Derick bater a nossa porta com um pedido de desculpas.
Mas, ele não veio.
Não vi Derick por seis dias e meio após nossa briga. No primeiro dia, pensei que tudo ainda estava muito recente, então era aconselhável dar mais um tempo para que ele conseguisse se acalmar e eu também. No segundo, estranhei sua ausência até nos treinos comigo e os garotos, mas me mantive paciente. No terceiro, meu coração se quebrou quando encontrei seu olhar em meio à reunião do conselho e ele fingiu não me ver, embora Allan, Joe e Klaus estivessem sentados comigo envolta da fogueira. A situação arrastada era pior do que um fim imediato. Ele estava tão desposto a nos afastar assim?
—Por que não tenta conversar com ele agora? – Allan inquiriu, afagando meus ombros como forma de consolo. Apreciei sua boa vontade e a tentativa de apaziguar as coisas.
—Derick nem me disse um oi, o que te faz pensar que ele falaria comigo agora? Não quero ouvir mais grosserias, se ele quiser falar comigo normalmente vou estar aqui.
Al não tocou mais no assunto, preferindo se abster quando seu alfa nos olhou por um milésimo de segundo antes de o chamar para discutir estratégias com Jake e Sam. Todo mundo notou que a nossa relação tinha sido estremecida, e eu senti quando os olhares julgadores caíram sobre mim junto com as perguntas implícitas de “O que você fez agora, Leah?”. Derick, se percebeu, fingiu não notar e continuou com seu teatrinho profissional entre os alfas e anciões.
No quarto dia, passei o dia todo em meu quarto enrolada aos lençóis com seu cheiro fraquinho e lagrimas presas pela saudade e tristeza que esmagavam meu peito. Sentia-me mole e doente, pensando ser até algum dos sintomas da magia quando os envolvidos se separam, mas logo descartei a hipótese. Eram apenas as reações do meu corpo em resposta ao meu coração quebrado. Mamãe ficou preocupada e bateu na porta de hora em hora querendo alguma resposta, entretanto eu não queria preocupar ninguém, nem responder perguntas, só gostaria de ficar quieta no meu canto, dolorida pelas palavras tão iguais às de anos atrás, pelo medo de perder uma parte de mim tão importante, sangrando pelas lembranças, por não me sentir suficiente.
Cinco dias depois, Nik resolveu intervir perguntando para mim o que tinha acontecido realmente, já que seu alfa não queria nem tocar no assunto com nenhum deles. Eu expliquei, com muita hesitação, o motivo da briga, as palavras que machucaram ambos os lados e me permiti sentir o aconchego da irmandade pelo abraço caloroso de Klaus. Ele me jurou tentar conversar com Derick, porém eu não deixei. Se Derick quisesse falar comigo já teria o feito. Falar minha conclusão em voz alta doeu mais do que imaginei, ao mesmo tempo em que acentuava todas as dúvidas soterradas por mim antes. Ele não sentia minha falta? Estava tão magoado ao ponto de nem me mandar uma mensagem, um só sinal de vida? O afastamento repentino me machucava tanto, será que não era o mesmo com ele? Talvez eu estivesse certa, talvez nosso sentimento não estivesse no mesmo patamar, talvez ele... Talvez ele estivesse cansado da bagunça conturbada que eu era.
No sexto, faltei ao treino com Allan e neguei o convite do sorvete que Nik havia feito para me animar. Disse que estava tudo bem a Seth quando ele se sentou ao meu lado no sofá e lhe dei a permissão, que ele tanto queria, para ir a uma festa da galera de sua turma às oito da noite. Jake me ligou preocupado por eu não ter comparecido ao exercício grupal, inventei alguma desculpa esfarrapada que pareceu colar e logo voltei à letargia. Às nove da noite, desisti de encarar o celular com uma esperança idiota e me aprontei para a ronda. De repente, todo aquele sentimento ruim, toda aquela nuvem negra pairava por minha cabeça novamente. Ela instigava pensamentos que me faziam mal, crenças que me desestruturavam e agulhavam ainda mais meu coração já tão cansado de apanhar.
Nem vi quando deixei a magia fluir e me transformei. A lua brilhava altiva por entre as nuvens carregadas, era uma noite bonita sem estrelas. O vento frio acarinhava meu pelo, mas eu não conseguia sentir o prazer de antes. Faltava algo e esse sentimento me amedrontava tanto! Não queria aquilo.
Dei-me a liberdade de seguir com a ronda no meu próprio ritmo, sem correrias ou afobação. Tentei apreciar o cheiro bom da mata protegida ao meu redor, todavia todo perfume que sentia me remetia a Derick e logo a tristeza retornava. Busquei distanciar meus pensamentos para o azul do riacho que fazia um barulho tranquilizante, porém a luz da lua junto ao tom de azul da água àquela hora da noite lembrava tanto a cor bonita de seus olhos.
Sentei-me em frente ao desfiladeiro que costumávamos pular em uma daquelas buscas incessantes por adrenalina na adolescência. Só para respirar por um minuto, esfriar a cabeça. A maresia era boa, refrescante, aliviava as ideias. O movimento das ondas era lento e me fez refletir em tudo. Das palavras que dissemos um para o outro, das magoas que guardamos, do quanto a nossa insinceridade feria o nosso relacionamento.
Todo mundo sabia que imprinting era uma versão louca e lupina de almas gêmeas, e é uma verdade universal que almas gêmeas ficam juntas para sempre. O problema é que ninguém nunca disse se elas seriam felizes para sempre.
—Oi.
Prendi a respiração quando reconheci sua voz após tantos minutos em silêncio. Ele não estava transformado, por isso não o senti se aproximar, mas estava distraída o suficiente para não o ouvir andar até mim. Franzi minhas sobrancelhas o quanto pude.
Oi? Nós não nos vemos a mais de seis dias e ele me diz oi? Sem nenhum telefonema antes, nenhuma mensagem, apenas uma aproximação repentina no meio da noite, era isso? Queria gritar e bater em sua cabeça grande e dura, fazê-lo sentir a dor que eu sentia em meu peito, entretanto me parei. Estava magoada demais até para rosnar.
—Eu estava andando para esfriar a cabeça e senti que precisava vir aqui, acho que a lua quis que conversássemos, finalmente.
Que conversa estranha era aquela? A lua não tinha nada a ver com a babaquice dele. Ignorei-o, prendendo minha atenção nas ondas se chocando com as pedras de modo violento.
—Tá... tá tudo bem com você?
A risada inconformada saiu quase em um ganido de incredulidade. Bem? Se eu estava bem? Eu definitivamente não estava bem! Pelo menos, não quanto ele parecia.
—Será que pode se transformar de volta para que possamos falar direito um com o outro?
Falar direito um com o outro ou maximizar tudo o que já tínhamos dito antes? Não queria mais brigas, não queria mais sentir aqueles sentimentos ruins. Virei a cabeça para encará-lo, a dúvida estampada em meus olhos. Meu coração teve a audácia de se acelerar ao encontrar o olhar dele. Ele tirou a camiseta preta larga que vestia, oferecendo para mim.
—Você pode vestir se quiser, eu só... Só quero ouvir a sua voz.
Pisquei por um momento, me sentindo uma idiota ao ficar hesitante por sua proposta de ajeitar as coisas depois de tanto tempo querendo exatamente aquilo.
—Eu prometo que só vamos conversar. Eu também não quero brigar com você, estou cansado dessa distância. Eu sei que não ando merecendo muito, mas, por favor, fala comigo.
Ele se virou de costas, embora eu não tivesse exigido, e eu me transformei de volta, pegando a blusa em sua mão e passando rápido por meu corpo. A barra pegou quase a metade de minhas coxas, curto e leve, me deixando envergonhada quando ele se voltou para mim, os olhos sérios focados em meu rosto. Meu cabelo, um pouco crescido, escapava de minha orelha e esvoaçava pelo vento constante.
—Oi, Leah. – O começo de um sorriso fez sua expressão amenizar um pouco a seriedade, mas não acalmou meu coração. Ele me chamara de Leah. Nada de amore ou principessa. Senti falta do apelido carinhoso que sempre escorria com amor por seus lábios.
—Oi.
—Quer dar uma volta? Ir à praia, talvez? Você gosta tanto de lá. — Ele inquiriu, as mãos nos bolsos da calça, a tatuagem bonita em seu braço nu. Arqueei uma sobrancelha, querendo saber onde Derick queria chegar.
—Eu sei que você não gosta da sensação dos floquinhos de areia nos seus pés.
—Com certeza, posso ignorar essa parte se você quiser ir.
—Acho melhor ficarmos aqui. – Esfreguei meus braços, mais pelo costume de fingir sentir frio do que pela sensação térmica, na verdade. -Estou no meio da minha ronda, em todo caso. Não posso sair da floresta.
Ele assentiu, encabulado, balançando-se para lá e para cá. Estava nervoso.
—Você... tirou o anel.
Olhei para minha mão, reparando em como meu dedo agora ficava estranho sem o brilho característico da pedrinha azulada. Franzi as sobrancelhas, confusa com seu questionamento e sua expressão triste de repente.
—Eu não posso me transformar com ele, né. Não tirei por causa da briga, se é o que está pensando. Ele é importante para mim.
Cor de rosa clarinho pintou suas bochechas quando compreensão transpassou por seus olhos.
—É claro, me desculpe.
Dei de ombros, trocando o peso de uma perna para outra. O clima estava muito estranho, desconfortável. Nós dois não sabíamos para onde olhar para fugirmos daquela aflição. Eu não gostava da gente assim, não era natural.
—Você não me ligou mais.
—Olha só o que você tá me dizendo. — Balancei a cabeça, com raiva. -Você não me atendia, eu ligaria para que? Além de que achei que tivesse deixado claro que não queria falar comigo quando ignorou a minha presença na fogueira. — Joguei, sem paciência para aquela enrolação. Ficar comendo pelas beiradas me irritava mais do que a nossa falta de jeito.
—Eu não ignorei a sua presença, só... Não estava pronto para termos essa conversa. Estava confuso, envergonhado e magoado, não queria acabar discutindo de novo.
—Pode acreditar, você não foi o único magoado nessa história. Eu estava confusa com tudo o que aconteceu, machucada, mas, ao contrário de você, eu tentei me aproximar, resolver as coisas e você... Você se afastou. Não enviou nem uma mísera mensagem, cagou para a minha existência e cortou nossa relação como se fosse fácil, como se não... como se não se importasse. — Não queria, porém a magoa transpareceu em minha voz.
O silêncio reinou por alguns minutos. Era tão dolorosamente bom estar perto dele, apesar de toda aquela frustração. Era ótimo sentir o cheiro fresco de novo, ouvir o coração dele pulsando no peito no mesmo ritmo que o meu. Entretanto, não era hora para pensar nisso. Joguei um pouco do orgulho de lado para dar à coragem um minutinho de liberdade e externar meus medos.
—Aquilo que você disse, o jeito como falou aquelas coisas... que não precisávamos de um tempo, que aquilo ia terminar naquela hora, você pensou realmente em terminar? — Você faria isso comigo? Engoli a seco, respirando fundo seu perfume para acalmar meu coração aflito.
—Terminar? — Sua expressão realmente parecia confusa. -Terminar o que?
—O que nós temos. Nosso namoro, relacionamento, eu sei lá!
—O que você tá dizendo? Leah, é claro que não! De onde você tira essas ideias? — Ele se sentiu no direito de parecer quase ofendido com a ideia. -Eu nunca nem pensei em acabar com nada entre a gente, isso é loucura!
Me indignei com sua reação.
—Foi você quem disse isso no meio de uma discussão, queria que eu interpretasse como?
—Eu pensei que você ia entender! Não queria a gente separado, só queria terminar aquela discussão logo.
—E depois ficou seis dias inteiros me evitando. Você é muito coerente, Derick! — Ri com escárnio enquanto ele espremia os olhos.
—Eu não queria... olha... — Ele me encarou, respirando fundo e esfregando os cabelos. -Eu não faria isso com você, tá bom? Nunca com você.
Não queria, mas meu coração vagabundo já começou a dar sinais de perdão.
—Você parecia cansado. De mim, da vila, dos vampiros, dos meninos. Na verdade, pareceu mesmo que toda a discussão foi um pretexto para terminar comigo de uma vez. — Não escondi meus sentimentos, revelei o que parecia na minha versão e não me senti mal por isso.
—Eu estava cansado de tudo, mas o tudo das situações, não dos meus laços, não de nós. Desculpe se te fiz pensar que ia te deixar, nunca foi a minha intenção.
Mordi os lábios, franzindo a testa, tentando entender tudo o que estava acontecendo, para onde aquela conversa nos levava.
—Foi muito difícil ficar esses dias sem você, não ache que eu não senti a sua falta, que eu não contava os minutos no relógio para a hora dos treinos. Eu quebrei um pouquinho a cada hora que seu cheiro saía do meu quarto. Eu quase corri de volta para você quando faltou ao treino grupal. Não pense que eu não me importo com o que temos.
Fiz questão de olhar fundo em seus olhos, buscando a sinceridade de suas palavras. Se ele se sentiu assim, então por que não falou comigo antes?
—Uma mensagem dizendo que estava bem. Era só disso que eu precisava.
Ele passou a mão em seu cabelo naquele seu tique nervoso.
—Como acha que eu me senti quando você disse que precisa se proteger de mim? Como acha que é ouvir da mulher da sua vida que ela compara você ao ex idiota dela? Como acha que é conviver com essa insegurança toda, mesmo com provas e mais provas de que eu sou diferente? Eu sei que não deveria ter explodido daquele jeito por conta de uma idiotice minha, mas...
—E como você acha que eu me senti quando você disse que nosso imprinting não devia ter acontecido? – Ele me encarou, os olhos expressivos brilhando arrependimento e indignação. –Você nem estava me ouvindo no meio daquela bagunça! Só falou, falou e falou, sem pensar que estava me machucando e mesmo assim eu dei o seu tempo, dei o seu espaço. – Respirei fundo, buscando controlar aquele sentimento. –Olha, eu sei que estava errada, sei que a minha insegurança atrapalha, sei que sou desconfiada demais, sei que escondo o que sinto, e que tudo o que eu disse e não disse machucou você! Eu sei de tudo isso! Mas não... Só não... Você não precisava ter jogado isso em mim, porque eu já sabia.
Respirei fundo, tentando afastar as lembranças dolorosas da mente. Por favor, não põe a culpa em mim. Não fala que nossos problemas são por causa do que eu não falo. Não diz que eu enveneno a nossa relação. Por favor, não confirma, não me dê razão.
—A gente precisa conversar sério. Todas as nossas brigas são por causa dos sentimentos que mantemos aqui dentro e não externamos. Isso tá machucando a gente e eu não quero que chegue ao limite.
Ele se aproximou, passos tão lentos que parecia temer que eu me afastasse. E uma parte de mim queria me afastar mesmo, queria correr de seu cheiro e me entulhar na bolha de sentimentos ruins de antes, me puxava à culpa, à tristeza. Seus dedos acariciaram minha bochecha e levantaram meu queixo para cima, prendendo meu olhar ao seu.
—A culpa é nossa, amor. Nós dois somos idiotas, esquentados, escondemos nossos sentimentos, guardamos o que nos incomoda e depois ficamos chateados e não dissemos o porquê de estarmos chateados.
Meu coração se aqueceu, como se o calor o remontasse novamente, em uma onda de primeiros socorros, porque ele não jogava o fardo para mim, ele dividia. Não queria, mas o sentimento ruim esmoreceu. Era nossa culpa, eram os nossos problemas, era nosso. Éramos nós, não mais sozinhos.
—Eu sempre critiquei essa sua coisa durona de guardar para você, mas eu também guardei. Me entupi com todas as dúvidas e aflições até explodir do pior jeito possível e te magoei. De novo.
Abri a boca para dizer que naquela briga nós dois dizemos coisas que magoaram, mas ele me calou, balançando a cabeça.
—De todas as coisas que eu poderia dizer, eu disse que nossa magia não devia ter acontecido, disse que você não era da minha alcateia, usei minha voz alfa com você. E isso é errado de tantas formas diferentes! Eu me apaixonaria por você de qualquer jeito, com ou sem magia. E eu amo tanto o jeito que a nossa magia aconteceu. Não mudaria nada do meu passado, se fosse para estar aqui com você. E sobre a alcateia, você é tão parte dela quanto eu. Na verdade, é ainda mais ativa nela do que eu. É para você que os meninos correm, é pela sua motivação que eles lutam, é em você que nos apoiamos quando tudo está mal. Então, eu queria me desculpar.
—Derick, eu...
Seu olhar determinado fez com que minha frase morresse no meio do caminho.
—Eu errei, sim. E vim aqui pedir perdão, porque não fui compreensivo como deveria ter sido. Eu fugi, me isolei, não atendi suas ligações, te deixei sozinha e fui um completo babaca. Eu sempre pedi para que você conversasse comigo, que confiasse em mim e me contasse suas aflições, e quando você me conta, quando busca por mim para te ajudar a desabafar, eu respondi soltando os cachorros em você e isso não foi nem um pouco certo. Eu disse que iria te ajudar e falhei, disse que não te machucaria e machuquei vez atrás de vez, eu não sou nem digno de vir aqui pedir perdão, mas eu...
Abracei seu corpo com força, sem parar para pensar, só seguindo meu instinto e a minha saudade, e ele me apertou igualmente forte. Falta transbordando de ambos os lados.
—Estava com tanta saudade! – Surpreendentemente, eu quem confessou baixinho em seu ouvido. Ri, quando ele estreitou ainda mais seu aperto, levantando meus pés do chão. –Me desculpa também. Eu não devia comparar, eu nem sei o porquê de ter te dito aquilo. Não pense que eu ainda guardo sentimentos antigos, meu coração é todo seu, Derick. Todo seu.
—Nós dois erramos. Nós dois iremos mudar, nós dois seremos melhores. Juntos, certo?
Sorri, adorando a sensação boa de leveza. A luz dele era capaz de afastar até a mais cinzenta nuvem de meus pensamentos.
—Juntos.
—Desculpados?
Ele me colocou de volta ao chão, sorrindo meigo para mim e arrumando meu cabelo atrás da orelha.
—Desculpados.
Rick assentiu, o riso aumentando nos lábios enquanto entrelaçava nossos dedos.
Depois de desculpados, Derick me prendeu em um abraço e não soltou mais, matando a saudade que sentia em seu peito. Não falamos nada, nem uma palavra por minutos inteiros, e não era mesmo necessário. Era íntimo e confortável, bom demais estar envolta por ele. Sentir o cheirinho dele tão perto, o aperto gostoso de seu abraço, deus, era tudo o que eu poderia querer. Mas, infelizmente, não poderia passar a noite toda em seus braços, ainda tinha que terminar a ronda.
—Eu odeio quebrar a nossa bolha, odeio mesmo, mas eu tenho que ir, Rick. É o meu turno agora. Estou no meio de uma ronda e eu ainda nem terminei a metade do perímetro. — Avisei, sem nem tentar sair do quentinho de seu corpo. Ele me apertou mais, o rosto enfiado em meu pescoço nos deixando em uma posição estranha e, provavelmente, desconfortável para ele.
—Não quero desgrudar de você nunca mais. Fica assim só mais um pouquinho, por favor.
Eu expulsei uma risada meio frouxa por conta do aperto do abraço, porém não reclamei nem um pouquinho do seu excesso de carinho.
—Preciso ir! — Resmunguei, estalando beijos com barulhinhos engraçados por todo seu rosto quando ele finalmente nos desgrudou um pouco. Ele devolveu todo meu afeto com um beijo gostoso na minha bochecha e um selinho carinhoso. Só um selinho, nada além disso, e eu me senti grata porque mesmo tendo o perdoado, ainda era muito cedo para esquecer as palavras que feriram. Precisava de mais tempo antes de tudo voltar ao normal novamente e era bom ver que ele me entendia. -Eu não quero ir! — Grunhi, viciada pelo cheiro de sua pele. Der riu, segurando meu rosto e acarinhando minhas bochechas.
—Quer companhia? Assim, nós ficamos juntos e você termina sua ronda. Todo mundo sai ganhando.
Ganhei outro beijo, agora na testa, e sorri.
—Claro que quero. Mas, você não está com sono? Vou acabar um pouco tarde, você tem que dormir.
Ele sorriu daquele jeito torto que me deixava tonta.
—Nem se eu quisesse ia conseguir dormir agora, Principessa. A imagem de você só usando a minha camisa vai ficar na minha mente por anos. — Piscou um olho para mim, rindo quando minhas bochechas coraram.
—Para de gracinha! — Mais fingi um resmungo do que resmunguei, de fato. -A gente precisa conversar.
Ele suspirou e afagou uma última vez minhas costas, encarando meus olhos.
—Precisamos, mas não agora. Temos que organizar nossas ideias primeiro antes de colocar os pratos na mesa.
—Você está certo. — Concordei, abaixando os olhos quando o vi desabotoar sua calça para que pudesse se transformar.
—Sua janela vai estar aberta para mim essa noite? — Foi fofa a forma que a voz dele vacilou ao me perguntar, quase como se estivesse acanhado. Eu entendi nas entrelinhas a frase que brilhava em seus olhos.
—Nunca tranquei ela, na verdade. Ela sempre esteve aberta. Eu te esperei todos os dias. — Fui sincera, percebendo pela primeira vez que nunca, em meio a toda aquela discussão, fui dormir sentindo raiva dele a ponto de trancar a janela e impedir sua entrada.
—Desculpe. — Ele tentou articular alguma continuação, mas eu percebi quão arrependido ele estava, então dispensei seu pedido com um sorriso fraco.
—Já passou, Der.
Derick não pareceu concordar, porém deu-se como satisfeito por enquanto, se embrenhando em meio à mata para me dar a privacidade necessária para a transformação. Meu coração sentiu a sua magia quando ele mudou de forma e com o clima amenizado, apreciar do frescor da mata ao seu lado passou a ter um brilho muito mais especial. Era alivio aquilo em nosso peito, o sentimento conjunto que batia totalmente sincronizado entre nós, era ar puro depois de uma nuvem de fumaça. Mas também, era medo do futuro, de como reagiríamos ao sermos totalmente sinceros pela primeira vez em muito tempo, de como seria o caminho mais à frente.
—Eu tento não pensar muito. — Ele falou, esfregando sua cabeça carinhosamente em meu pescoço.
—Então, não pensaremos, pelo menos por agora.
Ele resmungou uma concordância, começando a corrida sem me avisar, como sempre. A situação não pesou durante toda a ronda, sempre com um ar de diversão e carinho. Derick sempre arrumava uma desculpa para esfregar sue pelo no meu, fazendo carinho, e eu fingia reclamar, mas só fingia, e ele sabia muito bem disso. Na volta para casa, devolvi sua blusa e coloquei minhas roupas escondidas no tronco da árvore enquanto ele se vestia também. Andamos lado a lado por algum tempo, aproveitando da brisa friazinha da madrugada. seus dedos roçaram nos meus e eu nem raciocinei antes de segurar sua palma na minha e entrelaçar nossos dedos. Ele acarinhou o dorso de minha mão com seu dedão e suspirou, sorrindo sincero para mim. Os olhos brilhantes transmitindo uma calma sem fim, como se só pelo fato de estarmos juntos ali de mãos dadas fosse o mundo de tão perfeito para ele.
—Eu senti falta até do jeito como eu me arrepio quando você me toca, até do modo como as batidas do seu coração influenciam o ritmo do meu. — Se abaixou para me deixar um cheiro no pescoço e um beijo demorado na bochecha, diminuindo o ritmo de nossos passos.
—Parece que falta algo, não parece? Quando você não está por perto. Parece que nosso coração desaprendeu a bater do jeito certo. — Concordei, sabendo muito bem do que ele falava. Sorri boba para o nada. -Senti falta de conversar com você até de madrugada. Mesmo antes da briga, sentia falta de quando só conversávamos sobre qualquer coisa.
—Meus dias sem a suas conversas estranhas não tem o mesmo brilho, Amore. Também sentia falta.
Respirei fundo, desentrelaçando nossos dedos para agarrar-me ao seu peito, enrolando-o num abraço apertado.
—Me promete que amanhã iremos conversar sem brigar, sem mágoas, sem clima ruim e sem segredos? Me promete que tudo vai continuar bem quando terminarmos de falar?
Ele selou a lateral de minha cabeça e assentiu.
—Eu prometo.
—Me dê a sua palavra que não vai mudar comigo em nenhuma hipótese. Mesmo se não gostar do rumo da conversa.
Der me segurou, procurando espaço para olhar em meus olhos.
—Eu dou a minha palavra, Single. Confia em mim.
Fechei os olhos, afetada pela intensidade de seu olhar, agarrando o tecido de sua blusa com força.
—Eu confio tanto em você, tanto, tanto.
Senti sua aproximação sem nem ter que abrir os olhos. Seus lábios tocaram os meus de maneira calma e acolhedora, assegurando suas palavras com o carinho presente no ato. Sua mão acarinhou meu maxilar e o puxou para baixo, levemente, só para o encaixe das bocas ser mais eficaz, nada de aprofundar, apenas transmitir amor. Suspirei, rendida.
—Então, descansa. Porque você é o amor da minha vida e eu não quebraria a confiança da minha principessa.
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