Leah - I See You
34 Capitulo 34 - Guerra Civil
Notas iniciais
Ficamos lá, no completo silêncio, por minutos e mais minutos. Eu sabia que ele ainda não estava pronto para voltar, Klaus não gostava de mostrar fraqueza na frente das pessoas e seu lado frágil tinha sido muito aflorado ao despejar todo receio que havia dentro dele para mim. Por isso, esperei seu tempo com uma paciência até então desconhecida, acarinhando seus cabelos de leve. Ele ronronava baixinho, o que me fazia pensar se estava fazendo carinho em um lobo grande e perigoso ou em um manhoso gatinho.
—Alguém já ouviu o seu lado da história? – Ele perguntou de repente, em um tom tão baixo que eu duvidei se queria que eu escutasse realmente.
—Que história? — Inquiri, mesmo já desconfiando ao que ele se referia. Endireitei a postura, estalando meu pescoço. Era uma troca justa, afinal. Um voto de confiança mutuo.
—Emily e Sam.
—Já, sim.
Senti o movimento que ele fez ao encolher os ombros. O vento salgado e gelado soprou mais forte, anunciando a chuva que se aproximava.
—E ainda te acham culpada?
—A vida não é um mar de rosas, não é, Nik? – Fiz graça, tentando animá-lo um pouco e ganhar tempo para refletir sobre o assunto. -Mas isso não me incomoda, pelo menos não mais. Eu já me afetei muito com essas fofocas, mas agora eu tenho estado ocupada demais salvando o pelo pulguento dos meus filhotinhos. – Desarrumei seus fios em brincadeira. Ele sorriu. -Mas, falando sério agora. Na realidade, eles não me culpam. Apenas não aceitaram a minha reação. Queriam que eu tivesse sofrido calada, aceitado a humilhação de Sam. Eu me recusei a fazer esse papel.
—Preferiu ser a megera que a mocinha. – Concluiu sozinho. Sorri com sua definição.
—Eles queriam me moldar e quando me opus, deram chilique. Tudo piorou quando virei loba também. Foi como se o universo estivesse me apoiando, mostrando que eu não estava errada. Eles sempre disseram que eu deixava Sam para baixo quando o insultava e culpava com meus pensamentos compartilhados, a hipocrisia é que eles nem sequer perceberam que faziam a mesma coisa comigo bem antes, todo minuto de todo dia, com aquelas imagens felizes de imprintings certos, amor resolvido, família bonita, Leah invejosa. Minha sina é sempre estar envolta à idiotas, fazer o quê?
Dei de ombros. Ele gargalhou com vontade, mas logo parou indignado.
—Ei! Nós não somos idiotas!
—Claro que não. – Revirei os olhos.
Seus olhos me encararam discretamente, eu podia sentir as ondas de curiosidade lutando contra a timidez dentro dele.
—Por que você parece tão conformada com isso? Posso te conhecer a pouco tempo, mas sei que isso não condiz com a sua personalidade.
Eu ri novamente.
—Não estou conformada, só estou sendo sincera. Se alguém tiver coragem o bastante de apontar o dedo na minha cara para dizer que eu estive sendo errada em minhas ações por todo esse tempo eu não vou me calar, claro que eu vou me defender. Eu nunca me calei, não vai ser agora que vou o fazer. – Seu olhar e sua testa franzida demonstraram sua confusão. -Sabe qual é o problema das pessoas, Nik? A hipocrisia. Elas podem ser boas em tudo e terem realmente um bom coração, mas a hipocrisia sempre é algo que as pega pelos pés. É realmente muito fácil apontar um culpado para as coisas que não acabaram como a gente queria. Todo mundo faz isso. O problema começa quando uma maioria acha que pode silenciar uma pessoa, magoar e a pisar, pensando que isso não irá ter uma resposta. É obvio que vai! Eu só queria proteger a mim e a meu coração, não me arrependo de nada. E eles não davam a mínima para o que eu sentia de verdade, sejamos sinceros. Até hoje é assim.
—Por que continuou na matilha então se não se sentia bem lá?
Precisei de um pouquinho a mais de tempo para responde-lo. Nunca havia parado para pensar nisso.
—Meu pai. – Suspirei, aproveitando da maresia. Papai também amava a praia. -Ele considerava tão honroso ser um lobo, vivia nos contando histórias, parecia prever que seriamos transmorfos, sabe. É realmente uma pena ele não ter podido ver eu e Seth nos transformando. Continuei na matilha por ele. Parar de me transformar seria quase como deixar a memória dele ir. Quebrar o laço que tínhamos. Papai era meu melhor amigo.
Ele se sentou corretamente.
—Seu pai também, com certeza, tem orgulho de vocês dois, Principessa.
Sorri, agradecida.
—Ele teria gostado de vocês, teria mesmo.
Lembrar de papai havia me deixado um pouco melancólica. As lembranças iam e voltavam em imagens turvas e sentidas. Meu coração se apertou naquela saudade conhecida. Klaus, parecendo sentir o clima um pouco pesado, voltou a indagar:
—Já contou a Derick toda a história?
—Ainda não.
—Ele tem vontade de saber. Os garotos já contaram incontáveis vezes, mas ele quer... sei lá. Acho que quer ouvir da sua boca. Na minha opinião, ele tem ciúmes.
—Ciúmes de Sam? – Franzi a testa, confusa.
—Não dele, necessariamente. Da sua história com ele, do sentimento e do que representou para você. Ele tenta esconder, mas com a nossa ligação fica meio difícil.
O vento gelado passou mais forte, desarrumando meu cabelo e levando areia pelo ar.
—Eu nunca reparei isso nos pensamentos dele. Ele também nunca me disse nada.
Ele riu baixo, chamando minha atenção. O que diabos era engraçado?
—Claro que não reparou. Acho difícil reparar alguma coisa quando estão tão perdidos um no outro. Às vezes, eu penso que o cérebro de vocês vira geleia assim que se juntam.
Gargalhei e estava pronta para rebater quando meu celular vibrou em uma notificação, tirei meus dedos de seus cabelos para apenas confirmar a foto de Derick no visor.
—Já estão voltando? Está quase na hora da fogueira. Não quer tomar um banho antes? Eu preciso trocar suas ervas. – Derick disparou sem nem me deixar falar “oi”.
—Já estamos voltando, Rick. Me espere em casa, sim?
—Estarei no seu quarto. Conseguiu fazê-lo falar?
Klaus revirou os olhos, me fazendo ter que segurar a risada.
—E você ainda dúvida? Claro que consegui.
Sua risada rouca fez meu corpo se arrepiar, porem eu sentia que algo estava faltando em seu tom, uma nota de preocupação camuflada.
—Volte logo, okay? Ainda precisamos matar o restinho daquela saudade, Amore. Estou ficando louco sem a sua boca me...
—Alexander!
Klaus gargalhou alto ao mesmo tempo que minhas bochechas esquentaram como o inferno. Grunhi, irritada!
—Você tem problemas?! Klaus consegue te ouvir, panacão!
Me recusei a fitar a expressão maliciosa de Niklaus, pois sentia que ele ia fazer alguma gracinha.
—Ah, qual é! Todo mundo sabe que papai e mamãe se pegam escondido em qualquer oportunidade que encontram.
Foi a vez de Derick gargalhar pela provocação de Klaus.
—Você está rindo do quê, seu idiota? Eu vou acabar com você quando chegar em casa!
—Amore Mio, eu mal posso esperar!
Abri a boca indignada com a cara de pau de meu imprinting.
—Abbado idiota! – Praticamente rugi, desligando a chamada. -Vamos embora antes que acabe sobrando para você, Niklaus!
Levantei-me, limpando a sujeira de minhas roupas. Ele acompanhou meu movimento com um sorriso jocoso nos lábios.
—Aliás, feliz aniversário, otariozinho! — Disse entredentes, andando sem esperá-lo. Ele passou seu braço por meu ombro, acompanhando meu passo facilmente.
—Obrigado por se importar desse jeito.
Sorri, mesmo sem querer ceder.
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A água quente massageava meus ombros gentilmente, o vapor tomava quase todo o cômodo dando uma sensação relaxante, totalmente diferente das ondas de inquietação que vinham do lado de fora.
—Você pode andar logo? Estamos atrasados e eu estou cansado de ficar sentado na sua cama olhando para o teto!
Suspirei frustrada, ensaboando meu cabelo calmamente. Ele já estava duro de tanta sujeira, um nojo!
—Se estiver incomodado, saia! Ninguém está te obrigando a ficar aqui. Vá dar uma volta por ai enquanto eu acabo.
—Tão delicada quanto um coice de mula! — Dramatizou, pude até ver seus olhos rolando. Sua voz estava abafada pela porta. -Sério, Leah, se Sam e os outros me olharem com cara de bunda pelo nosso atraso, eu juro que a coisa vai ficar feia e eu não vou me segurar.
—Eu vou tomar meu banho bem tranquila e fingir que você não está me apressando só porque está pensando na cara feia de Sam caso cheguemos atrasados. Eu tô cagando para o Sam e sua pontualidade nesse momento.
Ele riu baixo, não dizendo mais nada. Terminei meu banho em alguns minutos, me secando e trocando com demora só de pirraça. Quando abri a porta do banheiro, Derick me encarava indignado.
—Você passou quarenta minutos tomando banho! Dio mio, Leah!
Pisquei, fazendo-me de inocente.
—Eu estava suja e fedendo! Me respeita!
—Estamos atrasados para um caralho! Se você tivesse chegado mais cedo do seu passeiozinho com Klaus, poderíamos ter sido pontuais e ter tirado mais um argumento deles. Mas não, você decidiu demorar e agora eles ficarão falando até os dentes caírem porque só estavam esperando um vacilozinho depois de toda a confusão de antes.
Fitei-o pelo espelho, penteando meus cabelos. Eles já estavam grandes demais também, logo precisaria cortá-los de novo, infelizmente. Sentia falta de poder deixá-los crescer. Sentei-me perto dele para que pudesse colocar as ervas e a faixa em volta de minha costela.
—Então sua chatice horrível é por uma pitadinha de ciúmes somada a preocupação do que eles vão fazer? Derick, Derick, você é um alfa bobinho. — Brinquei, sorrindo grande com a carranca dele. Com a mesma delicadeza de antes, ele amarrava e cuidadosamente encostava em minha pele, ainda com uma cor estranha, com seus dedos levemente ásperos fazendo uma massagem boa, melhorando um pouco as dores da região.
—Eu não estou com ciúmes! Eu nem reclamei que você passou a tarde toda com ele, conversando sobre algo que eu não faço ideia do que seja, em um lugar afastado, muito menos falei algo sobre o cheiro dele estar todo em você como se tivessem se abraçado mais de uma vez. Não, não, eu nunca disse nada! Eu não estou com ciúmes de você! E isso é uma calunia tão grande que eu nem posso me expressar direito! Eu também não estou preocupado? Quem está preocupado aqui? Só porque qualquer deslize pode nos mandar ao fogo aberto? Não, nada a ver! Eu sou o alfa, eu não preciso de...
Encarei-o calada, tramando uma estratégia de aproximação enquanto sentia ele abaixar minha blusa sem nem me olhar, concentrado em seu monologo. Sorri, acabando com o espaço entre nós quando ele finalmente ergueu seu olhar, e beijando amorosamente seus lábios, o interrompendo. Ele suspirou e depois de míseros milissegundos retribuiu ao carinho, me puxando para seu colo e aprofundando sua língua em minha boca. Conti o gemido que queria desprender de meus lábios só por desfrutar de todo aquele turbilhão de sentimentos que de meu coração jorrava. Eu podia sentir quão nervoso e agitado ele estava, o quanto precisava de um apoio. Algo para se segurar. Ficaria imensamente feliz em exercer o papel de seu porto seguro nas horas de tempestade. Separei-nos com um selinho demorado, acarinhando sua bochecha. Tentando transmitir alguma paz.
—Está tudo bem, Rick. — Murmurei, numa distância boa para que apenas nossos lábios se roçassem. Seu corpo se arrepiou em um tremelique. Sorri ainda mais. Ele respirou fundo.
—Não, não tá. Me desculpe por despejar tudo assim em você. Eu só...
Beijei-o novamente, de forma rápida, mas intensa, amando calá-lo daquela maneira.
—Shii, eu entendo. As coisas podem estar turbulentas agora, mas vai ficar tudo bem. Você vai ver. Nós daremos um jeito.
Ele me abraçou apertado, seu nariz delicadamente cheirando meu pescoço. Abracei-o também, ouvindo com atenção seu coração já não tão acelerado como antes, sua respiração mais estabilizada.
—Vamos agora? Os meninos foram na frente e Allan está com muita vontade de socar o Paul.
—Não vamos perder a diversão, vamos? — Respondi, puxando-o para irmos. Ele foi sem nem reclamar, agarrando firme meus dedos.
Mamãe e Charlie estavam assistindo televisão confortáveis na sala. Passamos por eles normalmente, mas com o aviso de cuidado entendido pelo olhar de mamãe. Foi engraçado perceber que Charlie ainda mantinha certo receio em minha presença, por mínima que fosse.
—Se ver que algo está indo para o caminho errado, me alerte, sim? Minha cabeça está tão cheia que não estou conseguindo raciocinar direito. — Ele suspirou, o olhar longe.
—O que aconteceu hoje mais cedo?
Ele riu de lado, e eu sabia que ele estava se perguntando como eu sabia que algo havia acontecido. Nossa ligação se firmava e fortalecia a cada dia que passávamos juntos. Não era surpresa alguma. Rolei os olhos.
—Só estou cansado, entende? Cansado de ver as pessoas que eu amo se ferirem sem que eu possa fazer nada. Tudo desmoronando aos poucos. Me sinto tão impotente! Você, Trizolli, Klaus, meu pai.
Encolhi os ombros.
—Sei que é difícil, mas é assim que o destino age. Você não pode se culpar, Rick. Já conversamos sobre isso. Somos telespectadores quanto as decisões dos outros.
—Sim, eu sei! — Ele passou sua mão livre por seu rosto, logo a subindo desarrumando seus cabelos. -Mas eu... Eu não consigo explicar! É só uma angustia, um sentimento de que algo ruim vai acontecer! Trizolli não me liga há dias e eu... Eu estou preocupado!
Suspirei, não sabendo o que fazer para ajudá-lo, e me odiando por isso.
—Eu não... Não sei o que dizer para fazer melhorar. Sou péssima nisso! Me desculpe. Mas saiba que eu sempre vou estar aqui, para toda e qualquer coisa. Você pode contar comigo. — Me envergonhei pela patetice de minhas palavras, mas era o máximo que conseguia fazer no momento. Mirei o caminho a nossa frente, já podendo ouvir o crepitar da fogueira e o som distante de vozes conversando.
—Acredite, saber que você estará comigo já é uma injeção de confiança e tanto.
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O silêncio constrangedor que se instalou após alguns minutos de nossa chegada não foi o que eu estava esperando nem em um milhão de anos. Todos os lobos estavam presentes, todos os anciões, todos os imprintings, e, para a minha total surpresa, até os Cullens. Os meninos estavam agitados com a presença de vampiros assim tão perto, mas eu me mantive próxima, concentrada a cada mínima reação, pronta para interferir se algo ruim começasse a surgir. Entretanto, absolutamente nada estava indo para frente. Nada mesmo, literalmente. Encarei todas as criaturas naquele círculo grande e estranho, ansiando que alguma alma viva se manifestasse.
—Alguém pode falar o motivo da palhaçada ainda não ter começado? Já estamos assim há minutos! — Resmunguei, revirando os olhos. Derick e os meninos sufocaram gargalhadas.
—Leah! — Jake me repreendeu, o olhar severo. Dei de ombros.
—O que eu estou dizendo de errado? Todo mundo aqui fica olhando com cara de palerma um para o outro e nada mais acontece! Temos o aniversário do Klaus ainda para cantar parabéns, se puderem ser mais rápidos eu agradeceria muitíssimo.
—Leah, cale a boca. — Paul amolou, ganhando um rosnar nada amistoso de Allan. Empurrei-o com o ombro, num óbvio aviso para se manter quietinho.
—Vá se ferrar, porque eu não falei com você. — Respondi, sorrindo irônica para ele, mas voltando meu olhar a Sam. -Qual o motivo da reunião?
Sam demorou um pouco para se manifestar, trocando um olhar rápido com Billy e um demorado com Emily. Derick apertou ainda mais seus dedos nos meus.
—O motivo da reunião é sabermos o que faremos agora. O perigo é algo concreto e está vindo nos pegar. Precisamos de um plano e de uma boa estratégia. — Ele discursou com uma calma estranha, naquele tipo orgulhoso que eu conhecia bem. -Não há caminhos para fugas nesse ponto, já que trouxeram os inimigos para as nossas terras mais uma vez.
Senti o peso da indireta, inconformada com a clara implicância. Toda calma que havia mantido estocada para durar até o final da reunião evaporou como mágica. Tomando as dores de meus meninos, rosnei para ele. Jake me olhou com aquele olhar de alfa mau novamente, mas o que me trouxe a mim novamente foram as mãos tensas de Rick em meus cabelos, num carinho contido.
—Lasciagli dire quello che vuole ora, la voce è con lui. Quando sarà il nostro turno, diremo tutto ciò che vogliamo. Ho bisogno della tua pace, Amore Mio. (Deixe-o dizer o que ele quer agora, a voz está com ele. Quando chegar a nossa vez, diremos tudo o que queremos. Eu preciso da sua paz, meu amor.) — Ele falou normalmente, em um tom de voz alto o suficiente para que todos ouvissem, mas discreto o bastante para eu apenas acenar, me remexendo ao seu lado. Não entendi o porquê de ele querer falar comigo em italiano, apesar de compreendê-lo perfeitamente, porém não expus minhas dúvidas. Estava mais ocupada triturando Sam com o olhar. Seth me fitou preocupado e até um pouco confuso, assim como Emily. Sam retornou a falar:
—No último ataque, aquela mulher deixou bem claro que irá voltar para nos pegar. Precisamos decidir como acabaremos com eles antes que eles acabem com a gente.
Carlile e os outros sugadores de sangue concordaram com acenos fracos de cabeça.
—Precisamos ser realistas, o que está faltando agora além de uma estratégia boa é o preparo. — Derick disse, o tom leve e despretensioso, como se não quisesse causar mais estresse.
Sam fechou a cara.
—Preparo?
—Está claro quão despreparadas as duas matilhas estão, Sam. E eu digo isso com todo respeito, sem nenhuma gracinha. Vocês ainda não têm o treinamento necessário para...
—O que quer dizer com isso?! Que eu não sei treinar o meu bando corretamente? Que eu não sou um bom alfa?
Derick suspirou cansado. Minha vontade de voar em Sam apenas aumentou.
—Não estou dizendo nada disso. Não tem nada a ver com ser um bom líder, apesar da sua estratégia na pequena luta de antes ser um tema que devemos botar em pauta para discussão. Tem a ver com ter mais conhecimento. Qual é, até meses atrás vocês não sabiam e nem tinham interesse em saber de outras matilhas como a de vocês. Não tinham nem uma explicação para que Leah fosse uma loba, diziam que ela não teria um imprinting. Não é só no preparo dos lobos que a matilha é leiga, sejamos sinceros. — O amargor na sua voz no final da frase não passou despercebido por ninguém. Acariciei o dorso de sua mão com o polegar, sentindo-o repetir o gesto em mim.
—E o que você sugere, italiano? Quer liderar a todos nós sozinho? Nos juntar em uma única matilha e derrotar os sanguessugas como em um passe de mágica?! Vocês fugiram de casa para cá e ainda querem ter alguma moral sobre a nossa matilha? — Ele debochou, destilando veneno em cada uma de suas palavras. Soltei a mão de Derick em tempo recorde, me levantando.
—Pode ter certeza que ele seria um alfa mil vezes melhor que você mesmo pensando com esse seu cérebro de ervilha! Ele está tentando te ajudar, tentando resolver as coisas! Você acha que teria sobrevivido para ver o dia raiar amanhã se ele não houvesse sentido quando forasteiros entraram no seu território? Eles iam nos pegar de surpresa, acabar com a gente! — Rugi, apontando para seu peito. Vi pela visão periférica quando Seth e Klaus levantaram-se simultaneamente e me puxaram pelo braço para me sentar de novo. Ignorei-os completamente. -E não fale como se fosse ser capaz de pensar em uma solução boa o bastante para salvar uma matilha se estivesse no lugar dele. — Sorri maldosa, se ele ia tocar na ferida de Derick, eu tocaria na dele também. -Você não consegue nem controlar o seu próprio lobo aqui no bem bom, quanto mais uma matilha grande em perigo ao lado da toca dos sanguessugas.
Ele rosnou alto agora, o rosto vermelho em fúria, o corpo tremendo.
—Leah, saia daí agora! É uma ordem! — Jacob se levantou, Allan, Joe e Paul seguiram seus passos. A imposição da ordem alfa pesou em meu corpo de modo forte, quase me fazendo ceder, mas consegui lutar contra. Defender meu imprinting era mais importante que qualquer ordem alfa.
—Controle-a, Abbado. Ou eu não vou mais me segurar e...
—E o quê? Vai se transformar e me atacar? Ou vai me bater? Eu não tenho medo de você!
—Principessa, siediti, per favore. Lo gestirò. (Princesa, sente-se, por favor. Eu cuido disso.) — Derick pediu, ainda sentado no mesmo lugar. Encolhi os ombros, um pouco intimidada com seu tom em sua língua mãe, como uma garotinha pega fazendo travessuras.
—Mas, Derick, ele...
—Lo so. Questo finisce adesso, Amore. (Eu sei. Isso termina agora, Amor.)
Assenti, dando um último olhar enviesado a Sam, voltando a me sentar ao lado de Derick.
—Como você quer nos guiar se não consegue nem se defender sem precisar da ajuda do seu imprinting? — Sam tentou continuar com suas ofensas de antes novamente. Imediatamente, fitei Derick, implorando com o olhar para me deixar falar mais e tirar aquele arzinho debochado de novo. Rolei os olhos quando ele me cortou com apenas um levantar de sobrancelhas.
—Creio que não conseguiremos resolver o assunto hoje. Peço a todos aqui que possamos fazer outra reunião amanhã. Com os nervos mais calmos, talvez cheguemos em um consenso. — Ditou polidamente, como um diplomata. Todos acenaram que sim, aceitando sem nem pensar duas vezes. Menos, obvio, Sam. Carlisle e Edward trocaram um olhar impressionado ao encararem Derick, como se o enxergassem pela primeira vez e aprovassem completamente a postura e as ações dele.
—Não! Temos condições ótimas de resolver tudo ainda hoje! Você só está dando para trás porque sabe que seu planinho não vai colar mais!
—Só um soco, por favor! Vai ser rápido! — Supliquei baixinho, meus punhos doendo pela força com que os apertava. Klaus riu contido ao meu lado. Rick apenas apertou os olhos rapidamente ao me olhar, mas eu pude ver o flash de divertimento em suas írises.
—Não estou dando para trás. Estou só te dando a chance de pensar nas suas atitudes e no modo com que está agindo atualmente. — A calma de Derick estava passando, podia ouvir a explosão vindo.
—Claro que sim. O bom Derick Abbado quer me dar a chance de...
Rick balançou a cabeça de modo engraçado, dando uma risada fraca e rude.
—Olha, cara, eu tentei conversar com você como uma pessoa civilizada, tentei mesmo, mas você não está colaborando nem um pouquinho com isso. Vamos ser mais claros, então. Essa guerra não vai ser vencida se você continuar com seu pensamento mesquinho e orgulhoso! Isso não se resume a você, Sam! São vidas inocentes em jogo!
—Não ache que só por ser o imprinting dela tem o direito de apontar o dedo na minha cara e me dizer o que tenho que fazer! — Sam cuspiu, se levantando. Derick continuou sentado, o ar tão intimidador que mesmo olhando-o de baixo ainda era muito mais imperativo que Sam.
—É exatamente por isso que acho que tenho esse direito. Eu prezo pela vida dela, pela felicidade dela. Eu quero passar cada dia da minha vida ao lado dela e não quero que esse tempo seja escasso por um erro crasso desse. Você tem um imprinting, tem família, é o alfa de uma matilha, já passou da hora de parar de se comportar como um menininho orgulhoso pela presidência da turma. A morte é real, Sam, é dura. Se você morre em batalha isso trará consequências. Cara, você vai ter um filho. Como pode ser tão impulsivo mesmo sabendo que um serzinho inocente daquele pode acabar nascendo sem pai por culpa sua?! Como pode ser tão impulsivo tendo em mente que tem uma matilha atrás de você?! Você tem responsabilidades!
—Quem você pensa que é? Acha que pode chegar aqui e...
—Eu posso! Posso e vou continuar falando até você aprender, porque ela ainda não é da minha matilha. Ela ainda vê em Jacob um líder bom. E Jake é um seguidor seu, apesar da matilha que criou. Se você faz merda, Jake irá atrás. E ela ficará no meio disso. Ela enfrentará perigos bobos e infantis por culpa da má administração do seu poder de alfa. Não pense que estou fazendo isso por você. Tenho muito respeito e gratidão por todos daqui, mas me dou o direito de ser egoísta também, se não quiser ouvir meus conselhos quando ela não estiver envolvida diretamente nas suas decisões, o problema é todo seu. Agora, enquanto Leah estiver na matilha de Jacob eu não vou aceitar mais que a segurança dos lobos esteja ameaçada. Eu vou intervir, e você não irá gostar disso, Sam. Não irá mesmo.
O silencio caiu com tudo. Todos muito impressionados para sequer respirar mais alto que o normal.
—Amanhã, na casa dos Cullens, poderemos conversar melhor. Feito? — Rick perguntou, esperando a confirmação de todos e assim que as teve se levantou. -Espero que não andemos em círculos novamente. Não gosto da sensação de voltar ao ensino infantil. — Seu olhar profundo encontrou com o meu ainda embasbacado pela discussão. -Verrai con me, amore mio? (Você vem comigo, meu amor?)
Pisquei, me levantando e aceitando sua mão estendida.
—Você sabe que sim.
Não me despedi de ninguém, tampouco Derick o fez. Apenas seguimos de volta com Klaus, Joe e Allan em nosso encalço, comentando sobre a cara de panaca de Sam, Paul e Embry.
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