Leah - I See You
24 Capitulo 24 - O começo do tumulto.
Notas iniciais
Eu senti que algo ruim acontecera quando o celular dele vibrou e Sr.Trizolli exclamou um "Derick" aflito do outro lado da linha. O jeito como sua testa vincava cada vez mais a cada frase também me avisou sobre o quão péssimas as notícias eram. Deus, sabia que tudo estava calmo demais!
—Un civile? — Ouvi ele murmurar, o tom sério e centrado. Trizolli lhe respondeu, mas mesmo esforçando-me para escuta-lo, não consegui compreender direito, apenas alguns nomes, Don e Manuela. -Bene, Grazie, Trizolli.
Derick voltou para a cama, a expressão calculadamente centrada. Preocupei-me.
—O que foi? O que aconteceu? — Inquiri, ansiosa. Ele suspirou, cansado.
—Você estava certa. Aconteceu outro ataque.
—Algo sério? — Preparei-me para o pior após ele sentar-se em minha cama pondo a cabeça entre as mãos. Sua linguagem corporal era tão expressiva que meu coração se apertou. Fiquei de joelhos na cama, indo até ele e segurando seus ombros, tentando transmitir conforto. Agoniava-me vê-lo daquele jeito.
—Você sabe que o consigli já foi lobo, não é? — Assenti, mesmo sabendo que ele não veria. -Então, eles se transformaram para conseguir deter os malditos parasitas. Eles foram bem pondo em conta o tempo que não se transformam, mas como nada é um mar de rosas na minha vida, o pai do Klaus acabou sendo mordido e... Bem, você sabe.
Arfei, arregalando os olhos.
—Ele morreu?!
—Não, Clearwater, ele virou o primeiro hibrido transformado através de mordida. — Ironizou ele. Rolei os olhos. -É claro que morreu, ora!
Dei um soco em seus ombros, irritada com seu tom irritante.
—Idiota! — Xinguei-o, voltando para a minha posição inicial, encostada na cabeceira. Ele suspirou novamente, mas nada respondeu. -Como vai contar a Klaus? — Perguntei, após alguns segundos de silencio desconfortável.
—Eu não sei. — Murmurou. -Ele pode não ter sido um bom pai, mas ainda... Ainda era o pai dele, não é? Não sei como ele reagirá, não sei como contar, não sei como melhorar isso! O que eu faço, Clearwater?! — Exclamou, tirando o rosto das mãos e virando-se para mim, encarando-me com nervosismo. Pisquei, surpresa por sua exasperação.
—A primeira coisa que tem que saber é que não há eu nessa jogada, e sim nós. Conjunto, grupo, via de mão dupla, okay? Todos estamos juntos nessa. — Expliquei, fitando-o com intensidade. -A segunda é que não importa como ele reagirá, nós vamos ajudá-lo com o que pudermos, sem medir esforços. Nós somos família e a família sempre ampara seus membros. A terceira é que você tem que parar de tentar levar o mundo nas costas. Você não é o centro do universo, Abbado. — Claro que centro do meu universo era uma coisa a parte. -É uma pessoa comum com problemas comuns e dificuldades comuns. Você não é o responsável por toda tragédia que acontecer. Klaus entenderá isso.
Ele revirou os olhos.
—Porque é muito comum uma pessoa poder se transformar em lobo e estar preocupado com o que parassitas sugadores de sangue irão fazer em sua antiga cidade, sim, isso é muito comum, Leah! — Debochou ele, revirando os olhos.
—Pare de focar em coisas que não tem importância, idiota!
—Claro, perdono. Continue com seu discurso motivacional. — Zombou ele.
—Você é tão insuportável que eu não sei como consigo te aguentar! — Grunhi, levantando-me e andando pelo quarto.
—Talvez porque tem o mesmo nível de insuportabilidade. — Retrucou, cruzando os braços.
—Claro, porque eu estava sendo muito insuportável tentando te consolar, não é?
Ele sorriu aquele sorriso azucrinante.
—Eu não me lembro de ter te pedido para fazer isso.
—Não é uma coisa que se pede, Abbado, se sente!
—Oh, e Leah Clearwater sabe alguma coisa sobre outros sentimentos que não sejam raiva e indiferença? Essa é nova. — Caçoou, arqueando as sobrancelhas. Encarei-o pasma.
—O que você disse? — Questionei-o, indignada com tal afirmação. -Você realmente acha o que acabou de dizer?
Ele suspirou, levantando-se e caminhando até mim. Os olhos em um tom escuro de azul, arrependido e confuso.
—Olha, eu não quis...
—Não, você está certo, está certíssimo! Eu é que não deveria mesmo ter tentado te ajudar, idiota! Mas, tudo bem, vou deixa-lo bem quietinho sendo esse otário sozinho! — Enfureci-me, abrindo a porta e saindo em um rompante. Desci as escadas em velocidade recorde e me sentei na bancada da cozinha, controlando-me para não socar o rosto de meu imprinting idiota!
Mamãe e Seth não estavam em casa (ainda bem), e o silêncio que se propagou pela casa pareceu pesar toneladas.
Odiava seu lado debochado e idiota, odiava me magoar tão fácil com o que ele dizia, odiava ser tão simples para ele poder me machucar!
Depois de um tempo em que nenhum de nós dois teve a iniciativa de alguma reconciliação, ele saiu pela janela sem dizer nada.
Gemi, frustrada com toda aquela coisa, e fui a meu quarto novamente, encontrando-o vazio. Joguei-me em meus lençóis, sentindo o cheiro de seu perfume, e a sensação de conforto doloroso me tomar. Por que ele tinha que ser tão idiota? Tão malditamente orgulhoso ao ponto de não aceitar ajuda de ninguém, nem mesmo de mim? Argh! Maldito lobo italiano!
Respirei fundo, buscando me acalmar e não me manter em divagações raivosas por muito tempo. Sabia que ele não me esperaria para contar a Klaus e, contando com seu gênio irritante recém ativo com nossa briga, era fato que seu humor não estaria dos melhores, o que não era nada bom para Klaus também. Rosnei para as paredes. Alfa idiota! Ergui-me em um pulo, tranquei as portas e despachei-me para a casa de Emily.
Eles estavam todos do lado de fora, conversando animados, rindo escandalosamente, agindo normalmente, sem nenhum vestígio de tristeza ou abatimento em suas expressões. Deduzi que Derick ainda não havia contado nada a ninguém ainda e suspirei aliviada.
Emily acenou para mim, animada como sempre. Acenei com a cabeça em resposta e procurei por Der no amontoado de pessoas. Ele estava encostado a uma árvore não muito longe dali. O semblante pensativo, as sobrancelhas unidas enquanto ele franzia a testa. Dei o primeiro passo para ir até ele, porem Allan me parou, passando a minha frente e encarando-me com seriedade.
—Ele está daquele jeito desde que chegou da sua casa. Algo está acontecendo, você sabe, e eu preciso te perguntar: Ruim demais ou podemos aguentar? — Inquiriu em voz baixa. Pelo olhar que ele me mandava deu para entender rapidamente sobre o que ele falava.
—Derick é quem deve explicar. — Respondi igualmente silenciosa. Ele passou a mão pelos cabelos negros, desarrumando-os.
—É ruim demais, então. — Afirmou. Os olhos vagaram pela pequena reunião de almoço e depois voltaram para mim. -Quem de nós?
Pisquei, surpresa por sua perspicácia, e refleti por um momento, decidindo se contaria a verdade ou não.
—Klaus. — A sinceridade ganhou no final. Ele assentiu uma vez, agora demonstrando aflição.
—Isso não vai ser fácil... Klaus, ele... Ele já passou por muita coisa. — Revelou, mirando Klaus a alguns passos de distância. Ele gargalhava, e meu coração se apertou. Klaus quase nunca gargalhava, eram raras as vezes que isso acontecia. Seria muita maldade estragar aquela felicidade. -Quando ele vai contar?
Dei de ombros.
—Eu não sei, ele está especialmente irritante hoje. Vou falar com ele. — Falei, já saindo. Desviei-me dos garotos e acenei para Jake e Reneesme que conversavam com Sam. Jake e Seth inquiriram com os olhos, vendo algo em minha expressão que me denunciava, porém não parei para explicar, apenas segui até Derick.
Ele me ouvira chegar, é claro, mas não levantou o olhar para mim. Continuou lá, encarando o chão com concentração exagerada.
—Quer que eu conte? — Indaguei, vendo que ele não falaria nada tão cedo. Minha fala atraiu sua atenção, seus olhos faiscaram.
—Acha que não consigo fazer isso? — Sibilou, cruzando os braços. Bufei, revirando os olhos.
—Acho que não precisa fazer tudo sozinho.
—Bom, Clearwater, eu sou o alfa desse bando e é minha obrigação fazer isso sozinho. — Retrucou ele, debochado.
—Desculpe, Alfa, mas estava só tentando lhe dizer que você não está sozinho, eu estou aqui, não precisa...
—E se eu quiser ficar só? — Cortou-me, o riso irritante nos lábios. Um sentimento ruim passou por meu coração, um calafrio pela lembrança.
—Ninguém quer ficar só. — Disse friamente, vendo sua expressão zombadora ruir por um segundo. -Só queria oferecer ajuda para facilitar uma coisa difícil para você. Tentei duas vezes, e você me conhece bem o bastante para saber que não haverá uma terceira. Faça o que tiver que fazer como quiser, Alfa. — Dei-lhe as costas, sentindo uma pontada no peito e uma fraqueza repentina me abater, porem a sensação foi rapidamente esquecida, pois Klaus estava parado atrás de nós com uma expressão curiosa. O sangue parou de fluir por meu corpo por um segundo.
—Por que estão brigando? Que coisa difícil? — Ele questionou-nos inocentemente. O fitei sem saber o que dizer. Derick também permaneceu em silêncio. -Qual é? Por que estão me olhando com essa cara? Estou sujo? — Brincou, o sorriso leve. Quando não respondemos nada ele se preocupou. -O que aconteceu, galera? Outro ataque em casa?
Olhei para Derick e ele encarava Klaus de modo extremamente culpado. Aquilo amoleceu minha raiva. Ele assentiu e Klaus empalideceu, o olhar brilhando entendimento sofrido.
—Papà? — Murmurou, a voz quebradiça. Derick assentiu de novo, lentamente.
—Nik, eu... Me desculpe, foi um ataque... Ele se transformou e... Foi mordido. Eu lamento muito. — Abbado sussurrou, o pesar aparecendo em cada sílaba.
Klaus ficou ali, parado, a expressão de choque passando em seu rosto apenas por um momento, para depois o ódio cego tomar o lugar.
Seu corpo começou a tremer violentamente, o sinal claro de uma transformação vindo.
—Está tudo bem, Klaus. Se acalme! Você pode aguentar! — Exclamei, vendo-o perder o controle cada vez mais. Ele balançou a cabeça, negando com ferocidade.
—Eu.não.consigo! — Exasperou com dificuldade, cerrando os dentes e pondo as mãos na cabeça, tentando se situar. Seu estado acabou chamando a atenção de todos e quando percebi uma rodinha confusa se formava ao nosso redor.
—Ele não consegue se controlar, temos que levá-lo para a floresta! — Derick ditou, o comando alfa não passando despercebido por mim. Logo Joseph e Allan já praticamente carregavam Klaus sentido a floresta enquanto ele soltava rosnados cada vez mais altos.
De repente, um uivo rasgou o ar, alto, perigoso. Derick correu atrás deles, seguido por Sam, Jake e os garotos. Fui também, o coração apertado pelo comportamento atípico de Klaus.
Achar o caminho até eles foi rápido, não era difícil seguir o cheiro deles nem ouvir os rosnados irritados de Klaus. Estavam em meio a uma área sem muitas árvores, porém com diversas flores, um pouco escondida, como a clareira em que lutamos anos atrás. Me aproximei, tentando fazer o mínimo de barulho possível, tomando cuidado para não incitar ainda mais a raiva dele. Todos os garotos se transformaram, e rodearam-no como em uma caçada.
—Vocês são idiotas ou o que? — Sibilei, entrando no meio círculo deles, irritada com tamanha estupidez. -Não veem que agindo assim apenas conseguirão deixá-lo mais nervoso? — Sentia que para resolver aquele problema não eram precisos transformações, e sim palavras, consolo. Ignorei os uivos de aviso de Jake e Seth e o latido preocupado de Derick, e fitei os grandes olhos verdes de Klaus. Eles eram selvagens e raivosos, assim como seus caninos afiados arreganhados. -Ei, Klaus? Sou eu, okay? — Ele rosnou ameaçadoramente. -Sou eu, Leah. Está tudo bem. Ninguém vai te machucar, ninguém vai te ferir, okay? — Os olhos do lobo varreram o círculo ao seu redor, como se dissesse "Acha mesmo que esses lobos me encurralaram para nada?". Rolei os olhos. -Eles não vão fazer nada. São todos idiotas retardados, você sabe, Klaus. — O lobo bufou, balançando a cabeça, negando. -Vamos, cara. Eu sei que está sofrendo, sei que dói, sei que é melhor ficar como lobo e deixar os instintos te dominarem, mas isso não é certo. Não deixe a dor te controlar desse jeito. Lute contra ela. Você é mais forte que isso, eu sei que é. Controle o lobo! — Ordenei firmemente, chegando mais perto. Klaus recuou, mostrando-me seus dentes novamente em intimidação. Rejeitei sua ação e me aproximei mais. Derick guinchou, agoniado. -Eu vou te ajudar. Você não está sozinho, nunca estará. Agora, Niklaus Bordin, tenha coragem e controle o lobo! Agora! — Decretei, fitando-o com determinação. O lobo piscou, confuso, e se afastou um pouco, uivando um choramingo, e logo após voltou a forma humana.
Ele ofegava, cansado, assustado e nu. Constatei que no fervor da notícia ele havia se transformado sem nem tirar suas roupas, acabando por rasga-las.
Os outros voltaram também, parecendo impressionados por ter dado certo. Revirei os olhos. Estou fadada a viver cercada de idiotas!
Sam rapidamente apareceu com uma de suas bermudas escondidas na mata e ele a vestiu depressa, corando. Sorri para seu constrangimento e ele sorriu tristemente de volta, aproximei-me e ele, hesitante, apertou-me em um abraço. As lagrimas molharam minha blusa enquanto eu afagava seus cabelos como meu pai fazia comigo. -Vai ficar tudo bem, Klaus. Estamos com você.
—Desculpe por ter rosnado para você, foi rude. — Sussurrou, controlando um pouco o choro. Sorri, balançando a cabeça.
—Vamos para casa, Bordin. Você precisa descansar. — Disse, gentilmente puxando-o de volta.
Todos foram para a casa de Emily, menos Allan, Klaus, Derick e Joseph que me seguiram em silêncio para a minha casa.
Acomodei Klaus em meu quarto e continuei consolando-o até ele cair no sono em minha cama, o rosto inchado e vermelho pelas várias crises de choro.
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