Leah - I See You
23 Capitulo 23 - O casamento do século.
Notas iniciais
As semanas passaram voando e quase nada mudou. Com a chegada rápida do casamento de Emily e Sam tudo ficou meio tumultuado e confuso. Derick e os meninos passavam a maior parte de seus dias na minha casa. Por conta da festa de casamento ser na casa da Emily e das muitas pessoas desconhecidas irem e virem por lá, eles se sentiam mais à vontade conosco. Com essa convivência avantajada, acabamos nos aproximando mais e, quando percebemos, já estávamos nos tratando como se nos conhecêssemos há séculos. Era quase impossível não se render a familiaridade e aconchego que a matilha Italiana expelia. Eu me sentia bem com eles.
Klaus era o mais afastado dos quatro, isso era fato. Estava explicito em sua linguagem corporal que ele não estava conseguindo se acostumar com toda aquela mudança do mesmo jeito que os outros. Por isso, meu instinto ficava enchendo-me o dia todo, instigando-me a fazê-lo se sentir melhor. Então, passei a conversar mais com ele e, bom, ele não me repelia. Senti-me extremamente feliz quando vi-o se soltar aos poucos. Ele me contou muitos podres não só de Allan, mas de Joseph e Derick também. Coisas que fizeram os três mirarem-no com uma expressão pouco amistosa e muitas gargalhadas borbulharem por minha garganta.
Klaus era uma pessoa extremamente bondosa e carinhosa, mas podia ser cruel quando queria. O olhar divertido dele enquanto contava com detalhes o quanto era engraçado ver os parasitas correndo amedrontados e gritando agoniados quando seus membros eram arrancados fez-me ter uma pequena noção disso. Ele era doce, muito doce, e um pouco retraído, não era de falar muito de si mesmo. Parecia ter alguma dor escondida, uma daquelas fortes, e bem... de dores eu tinha experiência o bastante para não tocar no assunto enquanto ele não quisesse contar.
Já Joseph se mostrou ser exatamente o contrario, como Derick havia dito. Ele amava falar sobre si mesmo, mas não de um jeito superior, ele apenas falava, e falava, e falava, de qualquer assunto que viesse em sua cabeça. Se assemelhava muito a Seth nesse quesito. Não era de muita surpresa ele ter se mancomunado a Embry, Paul, Collin, Brady e Seth quando teve a chance.
Allan tinha aquele ar maroto e bad boy que me lembrava os galãs de cinema dos anos 70. Ele tinha milhões de histórias de confusões para contar e se orgulhava de cada cicatriz que possuía. Elas eram como "prêmios" para ele, marcas de ganho, o significado de alguma vitória. Ele era extremamente competitivo e facilmente irritável. Seu temperamento era como uma bomba relógio. Podia ser calmo e compreensivo em um minuto, e perigoso e destruidor em outro. Porem, sua lealdade gritante e irmandade evidente para com Derick apagava toda e qualquer briga ou má-criação.
Dona Stella era praticamente a minha mãe em olhos azuis e cabelos loiros. Seu olhar era materno e sua postura forte. Ela tinha aquela aura madura e sábia dos anciões do conselho e o sorriso carinhoso de uma mulher generosa. Sua fala era firme e as rugas ao redor dos olhos não atrapalhavam sua beleza. Ela amava contar como Derick era quando criança e se mostrou outra ótima fonte de informações vergonhosas sobre a matilha italiana.
—Não acredito que ele fez isso! — Exclamei entre gargalhadas. Dona Stella concordou, sorrindo também.
—Pois acredite, meu bem. Derick não era nenhum santinho e seu alvo principal era Paollo. Coitado do garoto!
Derick bufou, mostrando seu desagrado.
—Ele está longe de ser um coitadinho, madre. A senhora sabe o quanto eu me controlava para não arrancar todos os dentes daquele otário aos socos. Aquele cara é tão insuportável! — Ele resmungou. Sorri.
—E você é muito suportável, não é, Perdizione? É um amorzinho. — Impliquei, sorrindo. Ele apertou os olhos em falsa irritação.
—O sujo falando do mal lavado, Principessa?
Mostrei-lhe a língua e ele gargalhou, fazendo meu coração se acelerar.
Se as semanas que antecipavam o casamento estavam confusas, no tão esperado dia tudo ficou ao avesso. E, consequentemente, excepcionalmente pior para mim.
Estava irritada. Muito irritada.
Odiava aquelas pessoas estranhas espalhando seus perfumes pela casa e fazendo-me sentir constantemente aquela sensação de tumulto. Meu instinto gritava para que fosse para um lugar mais calmo, mas, como dama de honra, deveria ficar com a noiva junto com as outras. A maquiadora e o cabeleireiro me puxavam e embonecavam sem parar, as imprintings conversavam animadas com Emily e soltavam gritinhos de excitação a todo momento, o vestido palha rendado de corpete apertado me deixava sem ar e o salto irritante em meus pés machucava meu calcanhar.
Decididamente, casamentos são um saco!
Bufei, tentando contar até mil e esquecer-me de toda aquela chateação, mas sabia que não seria possível. As exclamações histéricas estavam por toda parte e ninguém, infelizmente, poderia me salvar daquilo. Mamãe estava ajudando com os preparativos e Seth e os garotos estavam com Sam na casa do Billy, Dona Stella estava se arrumando na minha casa junto com Joseph, Klaus e Allan, e Derick, bem, eu não sabia onde Derick havia se enfiado! Ele não havia falado comigo no dia anterior e nem tinha dado sinal de vida hoje de manhã.
Estava irritada com tudo... e morrendo de saudades daquele idiota.
—Pronto, querida. Terminamos. — A mulher que me maquiava avisou com o sorriso gentil nos lábios. Não estava com humor para ser simpática, portanto, não sorri de volta. Ela não pareceu se abalar. -Acho que alguém não gosta de casamentos. — Cantarolou ela, olhando-me sugestivamente.
—Isso não é da sua conta. — Retruquei, dando de ombros. A maquiadora piscou, surpresa, e depois sorriu, deixando aparecer algumas rugas ao redor de seus olhos.
—Irritação não faz bem para a pele, sabia? O que aconteceu para deixá-la assim? Mal de amor, é? — Insistiu ela.
—Talvez, literalmente, a ausência dele. — Murmurei, fitando o celular pela enésima vez. O que aquele otário está fazendo?
—Talvez se melhorasse seu humor ele estaria presente.
Bufei novamente, rolando os olhos e esforçando-me para não coçar meu olho e borrar todo aquele trabalho. Ela não tinha culpa de meu imprinting ser um babaca de marca maior.
—A senhora não tem que maquiar Clair também?
Ela fez um gesto com a mão, dispensando-me.
—Já fiz isso. Você foi a ultima.
Franzi as sobrancelhas.
—Então falta pouco para essa tortura acabar? — Deixei escapar antes que pudesse segurar minha língua. Arregalei os olhos ao ouvir a gargalhada da maquiadora preencher o ambiente.
Emily se virou para mim pela primeira vez depois de ter se arrumado completamente. O vestido branco reluziu com as minúsculas pedrinhas cristalinas refletindo a luz do sol quase poente, seu cabelo devidamente preso e cacheado com delicadeza se agitou, fazendo um pouco de seu perfume doce (demais) ocupar o quarto. As mangas compridas rendadas, o corpete levemente apertado, a saia lisa e um pouco grudada encrustada de brilhinhos, deixavam-na com o mesmo ar suave e simples de sempre. A barriga ainda não aparecia muito bem, mas se você olhasse com um pouco mais de atenção veria o pequeno relevo em seu ventre. Ela estava bonita e o vestido combinava com seu estilo. Claro que eu não era a pessoa que havia indicado aquele vestido para ela. Na maioria das provas, eu era aquela que sentava no sofá e esperava pacientemente enquanto ela rodopiava e provava os mais diversos modelos.
—Leah, isso não foi educado! — Kim repreendeu-me singelamente, a voz murmurada. Rolei os olhos.
—Apesar de realmente não me importar com o que você acha educado ou não, Kim, não foi exatamente isso o que eu quis dizer. — Dei de ombros. -Agradeço por me convidar para ser sua dama de honra, estou muito feliz por isso, e blá, blá, blá, mas odeio toda essa arrumação. Você sabe, Emily. — O celular em meu colo vibrou, anunciando uma mensagem nova. Peguei-o completamente afobada, esperando ser alguma noticia dele, mas, para minha total frustação, era apenas uma promoção de uma maldita operadora! -E onde, infernos, aquele miserável se enfiou?! — Esbravejei, irritada.
Emily suspirou aliviada e soltou um sorriso leve.
—Oh, bem. Agora sei de onde vem toda essa irritação. Não sabe onde Derick está?
Neguei, tentando controlar meu temperamento.
—Aquele alfa otário não me deu noticias desde ontem! Desde ontem! Perguntei aos meninos e eles não sabiam onde ele estava. Que tipo de alfa deixa seu bando sem noticias? — Meu celular finalmente tocou, impedindo-me de exclamar mais um pouco sobre quão idiota meu imprinting era. Dessa vez a foto de Derick apareceu no visor, fazendo meu coração acelerar. Eu me lembrava daquele dia. Ele havia me atacado com cocegas infinitas e infantis, pegando-me completamente desprevenida e quase me matando de tanto rir. Enquanto me recuperava de sua tentativa de homicídio e sorria pela lembrança de suas risadas, ele encostou seus lábios em minha bochecha e tirou a foto em meu celular, colocando, sem a minha permissão, no perfil de seu número nos contatos.
—Olá, Principessa Mia, pode vir aqui fora um pouco? Sei que você está se preparando, mas...
—Seu bastardo idiota! Onde é que você se meteu? Como pôde não falar comigo ontem?! — Interrompi-o, nem ligando se seria grosseria. -Onde passou a noite? Está tudo bem? O que aconteceu? Por que não me deu noticias? Onde é que você estava com a cabeça para não falar comigo nem com seu bando?!
Ele riu, deixando-me ainda mais nervosa.
—Isso tudo é saudade, Perdizione? Você me ama demais, não é? As vezes, isso fica tão estampado na sua cara.
—As vezes, você se ilude tanto, Mio Bene. — Desdenhei, rindo com escárnio.
Uma coisa era meu coração aceitar e se conformar com o sentimento com A que nutria pelo Alfa mais idiota do universo, outra coisa era aceitar e confirmar para Derick que eu tinha esse sentimento com A dirigido a ele. Ele bufou e eu quase podia ver seus olhos se revirando.
—Okay, garota irritante. Vai poder vir aqui fora ou não? Tenho que te contar uma novidade.
Ignorei sua provocação.
—Já está quase na hora de começar a cerimonia, Derick. Por que você não vem aqui? É bem mais fácil para você entrar do que para eu sair.
—Acha que se eu pudesse entrar ai já não teria entrado? Dona Sue não me deixa nem chegar perto da porta de entrada! Ela está me mantendo do lado de fora da casa! Disse que se ela deixasse eu entrar, não seria justo com os outros, pois eles também querem entrar para poderem matar um pouco da curiosidade de Sam. Eu avisei para ela que é um assunto importante, mas... Eu vou parar de falar sobre como ela me intimidou, porque ela está me encarando agora. — Terminou ele, o tom levemente assustado. Ri de seu amedrontamento.
—Nós dois sabemos que paredes e portas trancadas não conseguem te impedir de entrar em um lugar quando você quer. — Sugeri suavemente.
—O que quer dizer?
—Tem uma sacada na janela, Derick. Você tem problemas de visão? — Ranhetei, sem paciência. Ele bufou novamente e depois se aquietou, eu sabia que ele estava procurando qual dos lados da casa havia uma sacada porque não havia reparado antes. Era típico.
Três segundos depois ele desligou sem me dizer nada. Levantei-me, me equilibrando nos saltos altos. As garotas e a maquiadora me encararam inquisidoras, mas não me expliquei, apenas abri a porta da sacada.
Ele já estava lá em baixo.
—Você me irrita e eu te odeio. — Disse ele com uma carranca fofa em seu rosto.
—A reciproca é completamente verdadeira. — Respondi, deixando um sorriso involuntário se espalhar por meu rosto.
—Se você me odiasse tanto como sempre diz, não estaria tendo um ataque do coração quando não retornei suas trinta e seis ligações perdidas. — Ele alfinetou, arqueando a sobrancelha em desafio.
—Eu não estava tendo um ataque do coração e não sou eu que sempre digo que te odeio! É você! Alias, se me odeia tanto como sempre diz, por que está aqui? — Revidei, raiva fervendo nas veias. Nunca iria me acostumar com o conflito de sentimentos dentro de mim em relação a Derick. Sempre estávamos em uma linha tênue entre o ódio mortal e o afeto igualmente grandioso.
Estranhamente, um sorriso doce apareceu em seus lábios, espalhou-se por seu rosto e abrilhantou sua expressão. Seus olhos se tornaram tão carinhosos que toda indignação desapareceu, como em um passe de mágica.
—Porque você me acalma, Clearwater, mesmo que eu esteja irritado com você, mesmo que você esteja irritada comigo... E isso é tão irritante! — Explicou ele, a voz suave. Suspirei, revirando os olhos. Por que mesmo ainda tentava brigar com ele? -Alias, Principessa, se você fosse menos irritante já saberia o porquê de suas ligações não terem sido atendidas.
—Porque você é um babaca? — Sugeri, sorrindo angelicalmente.
—Não, engraçadinha. — Ele rolou os olhos. -Porque arranjei um emprego e, de praxe, arrumei uma casa para morarmos. Pode dizer. Eu sou muito foda!
Sorri animada com a noticia.
—Isso é ótimo, Derick! Os garotos ficarão muito felizes! Dona Stella vai surtar! Todo mundo vai surtar! — Exclamei, extremamente contente por eles. Claro que minha alegria não tinha nada a ver com o fato de que se ele alugou uma casa por aqui e arrumou um trabalho, seu tempo de estadia em La Push seria maior. Porque isso seria errado, muito errado.
Ele riu também.
—Tecnicamente, eles já sabem. Eu falei para Joseph pelo celular, o que é quase a mesma coisa que gritar a noticia para La Push inteira. E sim, eles surtaram. — Confirmou ele. -Quero dizer, quase todos surtaram. Klaus não ficou muito feliz, você deve saber. Ele ainda não se acostumou com a nossa nova realidade... — Seus olhos perderam um pouco do brilho. -Mas, não é como se eu pudesse repreende-lo, não é? Não estou fazendo o suficiente e...
—Não. — Interrompi-o, incapaz de deixa-lo dizer qualquer outra coisa depreciativa sobre si mesmo. -Olhe só para o que você fez. Você está na América, Derick! Algum dia pensou em ao menos vir para cá passar as férias? Você conseguiu achar uma tribo estranha em outro continente, conseguiu dar a sua matilha uma chance. Fez tudo o que estava a seu alcance! Você os salvou, Derick!
—Não salvei a todos. — Retorquiu, fazendo meu coração se apertar com seu tom. -Mas, obrigado por me apoiar.
—Rick... — Murmurei, vendo-o se afastar aos poucos. Um sorriso leve apareceu em seus lábios, grande o suficiente para acalmar meu coração por hora, mas pequeno o bastante para não chegar a seus olhos.
—Não se preocupe, Principessa. Eu estou bem. Ontem eu só não te liguei nem dei noticias, porque já estava tarde quando voltei para casa. Eu ainda fui te ver, mas você estava dormindo e eu seria incapaz de te acordar. Acredite, eu gosto do meu pescoço onde ele está. — Ri de sua gracinha mesmo sabendo que essa era uma de suas formas de fazer-me esquecer do assunto anterior. -Apenas tente ser amigável e simpática até a hora de entrar, certo? As pessoas que não te conhecem não tem culpa de sua fácil irritabilidade. — Rolei os olhos, ignorando sua implicância. -A propósito, você fica maravilhosa nesse vestido. — Elogiou-me, dando-me uma de suas piscadelas cafajeste e virando as costas, correndo para o outro lado, longe de minha visão.
Suspirei, fechando a porta da sacada e voltando para a mesma poltrona de antes. Odiava quando ele ficava daquele jeito, triste e fingindo sorrisos. Fazia com que o instinto se tornasse quase insuportável de controlar, deixava-me aflita.
—O que é? — Rosnei impaciente e curiosa pelos olhares fixos delas em mim. Elas piscaram, parecendo atônitas.
—Só ficamos um pouco surpresas com o quanto você pode ser carinhosa quando quer. — Emily respondeu por elas, dando de ombros. Era estranho vê-la fazer aquilo. Parecia ser um hábito muito indiferente para a doce Emily fazer.
—E dai?
Ela sorriu, deixando mostrar as covinhas em suas bochechas.
—Se você ouvisse o jeito como sua voz mudou quando chamou-o de "Rick", saberia do porquê da surpresa.
Resolvi me calar, não querendo ouvir mais sobre como uma outra personalidade tomava conta quando Derick estava presente. Uma que tinha o prazer de beija-lo e chama-lo de Rick, ao mesmo tempo que amava irrita-lo e xinga-lo de "idiota".
Após meia hora de tédio constante, mamãe apareceu na porta juntamente com o pai de Emily, avisando-nos que já estava na hora das damas e da noiva entrarem. Os gritinhos histéricos começaram novamente e pedi aos céus que me dessem paciência para aguentar até o altar.
Esperei todas as loucas descontroladas saírem para depois passar pela porta. Seria um casamento simples, ao ar livre, quase à noite, isso porque Emily adorava o efeito da luz solar dando lugar para a luz pálida da lua nas fotos. Não havia muitos convidados, apenas alguns amigos próximos da tribo Makah e de La Push e a família. O aroma de flores era forte e apaziguava, por enquanto, a confusão de essências da festa.
Descemos as escadas já na fileira que havíamos ensaiado. Claire com seu vestido bufante à nossa frente, jogando as pétalas das rosas brancas que Emily havia passado horas escolhendo. Rosas essas que iam na mão de Emily na cor pink, e na nossa da cor branca também.
A marcha característica começou e vi, pelo canto do olho, Emily prender a respiração atrás de nós. Por um momento pensei que ela desmaiaria, porem não. Ela balançou a cabeça e sorriu um sorriso nervoso para seu pai, depois assentiu, dando-nos o sinal para começarmos a andar.
Na frente do altar improvisado, ao lado da mãe de Emily e do cerimonialista, estava Sam. Todo arrumado e quase irreconhecível com seu terno alinhado e bem passado. O sorriso que ele esbanjava era gigante e seus olhos brilharam de uma maneira inexplicável quando fixaram-se nela. Era quase indiscreto olhar a maneira que ele olhava para ela, como se fosse uma coisa intima demais para bisbilhotar.
Desviei o olhar, dando-lhes um pouco de privacidade, topando com o meu tom de azul preferido no mundo, o dos olhos dele. Derick estava sentado ao lado de sua mãe e sua matilha, o sorriso perfeito de volta nos lábios. Segurei o suspiro ao vê-lo naquele blazer preto com listras fininhas azuis escuras, contrastando com sua pele branca e realçando seus olhos. Eu sorri e ele mandou-me um beijo estalado nada discreto.
Após chegarmos ao lugar marcado, ao lado da mãe de Emily, e da mão dela ser colocada na dele naquele antigo e simbólico gesto, a cerimônia deu-se como iniciada. Meus olhos focaram-se nos de Derick quase a celebração inteira, ele me passava a segurança e o carinho que precisava para manter-me lá em cima. Estava com receio de encarar todas aquelas pessoas, sabia o que diriam por me ver ali e, por mais que aquela história fosse antiga, as pessoas ainda falavam, as palavras ainda machucavam.
Tentei não rir quando Sam se atrapalhou na hora de trocar os votos, mas foi quase impossível não faze-lo, ainda mais quando Derick e Klaus começaram a fazer suas gracinhas, mostrando a língua e fazendo caretas, instigando-me a rir mais. Tentei repreende-los com o olhar, mas o riso simplesmente atrapalhava. Malditos idiotas!
As alianças foram postas, os papeis assinados, e as palmas jorraram fervorosas quando o beijo aconteceu. A famosa chuva de arroz caiu quando eles passaram pelo arco de flores da entrada e todos correram para parabenizar o casal.
Procurei por Derick em meio ao tumulto de pessoas por alguns segundos e sorri quando senti sua mão quente se encaixar na minha de repente.
—Me procurando, Perdizione? — Inquiriu, puxando-me para mais perto e dando-me um beijo delicado na bochecha. -Emily cometeu um erro ao te escolher como dama de honra, sabe? — Disse ele, soltando-me precariamente. O encarei inquisidora. -Ora, olhe só para você! A estrela da noite deveria ser ela, mas você, com toda certeza, foi a que mais abrilhantou aquele altar. — Revelou de modo impressionado. Gargalhei com sua exasperação.
—Não seja mentiroso, Abbado.
Ele balançou a cabeça em negação.
—Você tem uma autoestima pior que a do Klaus. É incrível como isso pode ser possível sendo tão linda desse jeito. — Suspirou, os olhos carinhosos e intensos. Um arrepio desceu por minha espinha. Sorri timidamente, lisonjeada e envergonhada com o jeito que ele me olhava.
—Obrigada, Der.
Ele sorriu de volta, e puxou-me em direção a sua família. Depois de receber os elogios sinceros da mãe de Derick e de ter sido obrigada a dar uma voltinha para os lobos idiotas "verem melhor", fomos parabenizar Emily e Sam.
Derick agradeceu continuamente pelo que Sam havia feito por eles e desejou felicidades aos dois enquanto eu apenas concordava ao seu lado. Sentindo-me um pouco constrangida pelo silêncio gritante que caiu sobre nós depois que ele parou de falar, ofereci, pela primeira vez em anos, um abraço a Emily. Ela quase chorou e apertou-me com força em seus braços macios. Não foi tão difícil quanto eu esperava, foi normal, como se eu estivesse abraçando Reneesme... Só que sem aquele cheiro nojento.
Sam não se assustou quando, em vez de um abraço, estendi minha mão para ele. Nós dois sabíamos que não estávamos naquele nível ainda. Ele aceitou o cumprimento e sorriu agradecido.
Após o momento embraçado das felicitações ao casal, a festa continuou. O jantar e as bebidas foram servidos e a música começou. Eu fingi não ver as fofoqueiras de plantão mexericando sobre mim, nem ouvir o que as "amigas de Emily" diziam sobre eu ser uma das damas de honra. Deixei para lá com certo esforço, contentando-me em fazer desafios estupidos para Allan que estupidamente tentava cumpri-los. Foi uma coisa nojenta e engraçada vê-lo tentar comer dois croissant ao mesmo tempo.
Na hora em que Emily anunciou que iria jogar o buque, toda a ala feminina da festa tumultuou-se em volta do palco em uma bagunça histérica. Nem me mexi de onde estava, ir até lá era quase como por uma faixa em neon escrito "Estou solteira e desesperada, por favor, salve-me!" e, bem, eu estava satisfeita com meu italiano.
Paul empalideceu quando reconheceu Rachel no meio da mulherada, e todos rimos da cara de desesperado dele quando ela acabou pegando o tal buque.
Todos os bandos, e suas famílias, sentaram-se na grande mesa no centro e a conversa fluiu entre mais gargalhadas e brincadeiras otárias de Embry, Joseph e Seth. Allan paquerava descaradamente as duas garotas sentadas ao seu lado na mesa. Derick conversava animadamente com Jacob e Sam sobre suas lutas e os sanguessugas encapuzados. Reneesme estava ao lado de meu alfa, ouvindo tudo com atenção. Eu ainda não entendia o porquê de Emily não tê-la convidado para ser uma das damas. Já que era para serem todas as garotas dos lobos e a própria garota lobo, por que então deixa-la de fora? Sim, ela é de fato uma monstrinha vampira hibrida sugadora de sangue, mas ela é uma monstrinha vampira hibrida sugadora de sangue legal e eu sabia que não ter sido convidada a havia ferido, mesmo que ela tentasse esconder. Jacob havia pensado nisso em uma das rondas que fizemos e eu conhecia-o bem o suficiente para saber que ele não estava feliz com isso também.
—Derick? Alguma noticia de Lupi Luna? — Sam perguntou.
—Tudo está bem. Falei com Trizolli ontem á noite e ele confirmou. Nenhum cheiro nojento ou morte suspeita em Lupi Luna nem nas redondezas. Aparentemente, eles não vão atacar tão cedo. — Ele respondeu, o sorriso tranquilo dançando nos lábios.
A festa continuou, o falatório seguiu e as risadas se prolongaram, porem um aperto em meu peito deu-me um motivo para desconfiar de toda aquela alegria.
Por quê os encapuzados retardariam os ataques? Já estavam sem um lobo "vivo" a bastante tempo, pelo que Derick havia me dito, e o fato de não terem caçado mais em Lupi Luna nem nas redondezas me deixou ainda mais desconfiada. Não era lógico, não tinha um motivo para o termino repentino, mas resolvi não dar voz a meus pensamentos pessimistas. Talvez estivesse um pouco traumatizada com toda aquela história de ataque parasita...
E talvez não.
Depois de três dias descobrimos que infelizmente minhas duvidas não eram tão pessimistas assim.
E Klaus acabou por receber todo o impacto da noticia.
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