Leah - I See You
12 Capitulo 12 - Lendas Italianas.
Notas iniciais
Não estava adiantando manter-me ocupada, nada conseguia parar de me fazer pensar nele. Não adiantava empanturrar-me de afazeres, encarar a janela da sala igual uma louca, ou ouvir músicas no mais alto volume. Tudo, absolutamente tudo me lembrava ele e isso era completamente confuso e irritante. Grande parte de mim, queria poder trucidá-lo, enforcá-lo, queria arrancar aquele sorriso cafajeste de seus lábios, simplesmente, fazê-lo virar poeira por me fazer sentir todas aquelas coisas sem explicação. Mas... Aquela minoria, céus... Aquela minoria queria ouvir aquela voz rouca soltar outra provocação, queria ver o sorriso doce e carinhoso novamente, queria sentir o arrepio gostoso toda vez que aquele olhar intenso e matador surgisse. Aquela minoria masoquista, egoísta e totalmente maluca, queria apenas Derick. Deus, queria deixar-se levar e, apesar de aquilo ser errado e a parte majoritária negar, ambas as partes amavam a ideia.
—Oh meu Deus, o que você faz comigo? É como um relâmpago enquanto nado no mar. — Cantarolei para mim mesma, me repreendendo logo depois. Droga, desde quando eu cantarolo?!
—Imprinting seria a resposta correta. — Mamãe soltou em tom de provocação. Assustei-me um pouco com sua aparição repentina e arqueei as sobrancelhas, mirando-a com braveza fingida.
—Na casa de Charlie até essa hora, Dona Sue? Tsc, tsc, esse é o exemplo que uma mãe de família dá a seus angelicais e ingênuos filhos? — Impliquei.
—Faça o que eu digo, não faça o que eu faço. — Respondeu com uma gargalhada. Sorri levemente com isso, era bom vê-la sorrindo daquele jeito. Com a morte de papai, todos nós ficamos abatidos, foi como uma avalanche descendo, levando e enterrando tudo o que encontrava pela frente, uma dor grande e constante. Papai sempre foi meu melhor amigo, ele me compreendia como ninguém, me entendia como ninguém, me fazia rir como ninguém, ele era o melhor pai do mundo e perde-lo foi a pior coisa que poderia ter sentido. Ainda doía e eu sabia que sempre iria doer, mas era completamente maravilhoso vê-la seguindo em frente, mesmo que ao lado do pai da sanguessuga. Ela, mais do que ninguém, merecia ser feliz. –Seth ainda não chegou?
Balancei a cabeça, negando.
—Então, por que você não o chama para comer alguma coisa? — Sugeriu com olhos misteriosos.
—Aposto que ele está mais do que bem alimentado na casa da senhorita Meiguice. — Debochei, revirando os olhos.
—Mas... Ele deve estar com saudades da comida da mãe dele, querida. Aliás, a senhorita comeu alguma coisa?
Dei de ombros.
—Não estou com fome e garanto que Seth também não está.
Vi seus olhos tornarem-se divertidos e uma expressão sacana tomar seu rosto.
—Mas, eu estou mandando e, como sou sua mãe, você vai obedecer e irá até a casa da Emily, querida.
—Não pode simplesmente ligar para lá? — Resmunguei tentando persuadi-la.
—Não. — Respondeu simplesmente. Bufei e sai em direção à porta resmungando reclamações.
O caminho, como sempre, foi rápido e calmo. De longe, já se podia enxergar três figuras brigando e jogando uma a outra no chão. Apertei o passo, querendo ver e entender o que estava acontecendo.
E se eles estivessem brigando de verdade? Afinal, é um espaço pequeno para três alfas juntos. Tranquilizei-me parcialmente quando escutei risadas junto aos rosnados. Sam pareceu surpreso, mas sorriu quando me viu.
—Oi, Moleques. — Saudei tentando ver o rosto de Seth que estava enfiado num emaranhado de pernas e braços entre Joseph e Allan.
—E aí, Leah. — Os três do chão exclamaram em uníssono.
—Está procurando Derick? Porque ele está lá dentro. É só você chamar que ele vem correndo. — Allan continuou com um sorriso divertido. Ignorei sua provocação dando-lhe meu pior olhar.
—Vão acabar se machucando se continuarem desse jeito. — Avisei em tom calmo.
—Relaxe, Leah. Somos guerreiros. — Seth estrangulou quase sendo sufocado pelos braços de Joseph que, em contrapartida, quase tinha sua cabeça arrancada pelos pés de Allan que estava preso por um braço de Seth.
—Vocês vão acabar quebrando alguma coisa, seus idiotas! — Dirigi-me a Sam, acusadora. -Você é o alfa! Mande-os parar!
Ele levantou os braços em sinal de rendição.
—Não posso fazer nada, Leah. Seth não é mais do meu bando e muito menos Allan e Joseph. Chame Derick ou Jake para fazer isso.
Bufei e revirei os olhos quando ouvi um ganido de dor de Allan. Moleques idiotas!
—Levantem essas bundas cheias de pulgas do chão e vão para dentro agora! — Decretei. -Vamos logo, se desembolem e entrem! O que estão esperando? Um convite formal?!
Seus olhos se esbugalharam e suas expressões eram tão abismadas que seria até cômico se eu não estivesse sem paciência nenhuma.
—Eu só vou contar até três. — Encarei-os severamente. -Um... Dois... — Nem tive tempo de contar o três, pois todos os quatro correram para dentro em fila indiana, como crianças obedientes. Entrei irritada atrás deles, mas, por certas pessoas estarem na sala, minha raiva não durou muito. Meus olhos encontraram os de Derick e senti meu coração perder uma batida. Meu corpo automaticamente relaxou e me senti aliviada, como se só a simples presença dele fizesse com que me sentisse extraordinariamente bem.
—Principessa, o que aconteceu? O que esses manés fizeram para te deixar mais estressadinha do que o normal? — Provocou-me com um olhar carinhoso.
—Derick, você não ouviu esses moleques quase se matando do lado de fora? Não me surpreenderia se Joseph aparecesse sem cabeça. — Sibilei tentando esconder o suspiro que queria sair ao notar aquele sorriso doce crescer em seus lábios.
—Eles sabem se cuidar e curam rápido, mio amore. Não há motivo para se preocupar. — Disse com a voz suave enquanto se aproximava lentamente.
—Não há motivos para me preocupar?! Eles estavam se quebrando!
—Se alguém se machucasse eles parariam.
—Tenho certeza que Allan destroncou o braço. — Avisei olhando para Allan com preocupação. Ele tinha uma expressão de dor contida que amoleceu minha indignação e me fez suspirar de cansaço. -Levante, Allan. Deixe-me ver.
—Você destroncou seu próprio braço, idiota? — Derick rosnou. -Como é que voc... — Interrompi-o com um olhar repreensivo.
—Quando devia ter se intrometido, você não o fez. Agora, feche a boca e sente-se quietinho ou estará em grandes apuros, Alfa!
Toquei no ombro de Allan e ele se encolheu para longe de mim. Puxei-o para perto de novo e ouvi-o choramingar de dor.
—Pare de frescura, Allan! Você é o que, afinal? Um homem ou um lobo? — Impliquei com um sorriso.
—Che? Isso não faz muito sentido... Perché... Eu acho que sou os dois... Ai! Leah! — Exclamou de modo dolorido quando coloquei seu braço no lugar certo. -Cazzo! Você nem avisou antes! Mio Dio! Eu vou morrer! Adeus, alfa, Joseph, Klaus e adeus assassina! Lembre-se de mim! — E caiu no sofá em uma perfeita dramatização. Não pude conter a gargalhada. Ou melhor, ninguém conseguiu conter o riso ao termino do discurso totalmente hilário de Allan.
—Só repousar agora, Allan. Daqui a pouco estará totalmente curado. — Derick afirmou entre gargalhadas.
—Eu acho que não. — Joseph comentou com um sorriso provocativo no rosto. -Do jeito que esse aí é molenga, ele vai levantar só amanhã. Ainda mais se Leah continuar se comportando como a tia Stella. — Soltou uma gargalhada espalhafatosa junto com Seth.
—Se ela estava se parecendo com a Dona Stella eu não sei, mas que ela estava igualzinha a Emily quando nós brigamos, Deus, ela estava! — Seth continuou. Rosnei para eles, demonstrando meu ponto.
—Ei, falando nisso, onde está Emily? — Perguntei, notando que ela ainda não havia vindo nos receber com sua habitual bandeja de bolinhos.
—Estou aqui, prima. Estava na cozinha vigiando o forno. — Disse ela com a bandeja de bolinhos que, de tão quentes, saiam fumaça. -Derick estava me ajudando. Ele é um ótimo cozinheiro, sabia, Leah? Parece até um chefe!
—Não pareço, Emily, eu sou um chefe! — Rolei seus olhos para sua arrogância.
—Derick, isso está uma delícia! — Seth falou com a boca cheia de bolinho, quase engasgando depois. Emily lhe deu um olhar repreensivo pela falta de educação e virou-se para mim, oferecendo os bolinhos com um olhar esperançoso. Desde que tudo aquilo havia acontecido, nunca mais havia comido da comida dela. Podia estar quase morrendo de fome, mas me recusava a comer ou até mesmo tocar em algo em que ela havia posto as mãos. Olhando agora, aquela atitude me pareceu... Tão... Infantil. Ninguém melhor do que eu sabia tudo o que havia passado, ninguém melhor do que eu sabia a dor que havia sentido, mas... Parecia que, agora, o mundo virará algo totalmente diferente. Quase como se fosse outra Leah.
Peguei um dos bolinhos quentes e mordi-o. Seth, Sam e Emily pareciam que iriam cair de surpresa a qualquer momento.
—E aí, Principessa? Gostou? — Derick perguntou em tom que demonstrava calma. Mas eu o conhecia, mesmo com nosso pouco tempo de convívio, e podia perceber a expectativa brilhando em seus olhos.
—Digamos que, talvez, esteja aceitável... Emily, posso pegar outro? — Indaguei, sorrindo pelo olhar orgulhoso e satisfeito que ele me mandava e... Céus, que olhos!
—Claro, Leah. Pegue quantos quiser. — Ela exclamou sorridente.
Os bolinhos estavam realmente deliciosos, tão bons que não pude resistir ao pegar outro, e outro, e outro, e muitos outros, e ao impulso de lamber a cobertura açucarada de meus dedos lambuzados.
—Essa é a cena mais sexy que já tive o prazer de presenciar em toda a minha vida. — Sussurrou ao meu lado, aparecendo subitamente. Ignorei os arrepios que subiram por meu corpo e meu coração batendo mais rápido que um carro de formula um, e me virei. Ele estava perto, bem perto, tão perto que podia ver várias estrias azuis escuras em seus olhos azuis celeste. -Que tal eu te buscar para irmos a tal "reunião"? — Ri de seu jeito engraçado ao fazer as aspas com os dedos.
—Você não sabe onde eu moro, Abbado Abusado.
Aquela expressão cafajeste apareceu novamente, tomou conta de seu rosto e seu sorriso se tornou completamente sedutor. Imediatamente, minhas pernas ficaram bambas. Merda de imprinting!
—Isso não é problema, Principessa. — Murmurou baixinho e se abaixou ficando próximo a meu ouvido, como se fosse me contar um segredo. -Posso seguir seu cheiro. Reconheceria esse perfume em qualquer lugar... Jasmim e canela... — Tremi quando senti seu nariz passar levemente em meu pescoço. -Você não sabe o quão desesperado estava para descobrir de quem era esse perfume.
—Como assim? — Perguntei confusa. Ele havia sentido o meu cheiro algum dia antes de me conhecer? Assim como eu senti o dele aquele dia na praia?
—Depois conversamos. — Disse com tom de promessa. Assenti e me virei, pronta para ir embora.
—Seth... Eu... Ãhn... — Minha cabeça ainda estava um pouco tonta pelo excesso de aproximação que havia acontecido segundos atrás. Ouvi Derick rir. Ele sabia que era o culpado de meu pequeno descompasso. -Mamãe estava te chamando para fazer não sei o que e eu já vou indo. Tchau, moleques e Emily... E, Derick, — Chamei-o quando já passava pela porta. -As seis. Sem atrasos.
Ele sorriu aquele mesmo sorriso cafajeste e tocou a testa em seu cumprimento militar.
—Como quiser, Principessa.
Claro que depois de ter visto Derick, minha angustia aumentou em seu nível mais alto. As horas pareciam se arrastar apenas para que minha impaciência aumentasse. Estava morrendo de vontade de voltar para lá, vê-lo de novo, praticamente me juntar a ele e não o soltar pelos próximos milênios! Mas, havia um por cento de razão em meu cérebro e esse pequeno requisito de razão me dizia para ter calma e me concentrar em não me deixar levar assim tão fácil.
—Ei, querida, não vai trocar de roupa? — Mamãe perguntou-me gentilmente. Ela havia ficado muito satisfeita ao me ver hiperventilar abobada, como uma adolescente, ao chegar em casa. Aposto que ela tinha aprontado aquela de “Ele está com saudade da comida da mãe dele, querida.” apenas para me fazer ir até a casa de Emily e ver Derick.
—Não, ora. Esta roupa está ótima! — Respondi, sem parar e andar de um lado a outro na sala. Faltava um minuto para as seis.
—Como quiser. Vamos, então. — Murmurou com um suspiro enquanto caminhava até a porta e abria-a. Imediatamente, minha angustia se extinguiu. Ele estava lá, parado no batente da porta com aquele sorriso carinhoso e aquele olhar sacana.
—Boa noite, Dona Sue. — Cumprimentou-a. Ela pareceu se surpreender um pouco, mas logo se recompôs com um sorriso largo.
—Oh, olá, Derick. Desculpe a pergunta, mas... O que faz aqui?
Ele me encarou com sua expressão provocativa.
—Ouch, Principessa! Você não contou a sua mamma que eu iria vir lhe buscar?! Fiquei imaginando que as duas ficariam conversando e gritando histéricas sobre como a Leah iria se vestir, como ela agiria quando eu chegasse, e ouviria mais gritos histéricos, como toda garota faz quando tem um encontro com o maravilhoso Derick Abbado. Mas, o que encontro é uma madre que não sabe que a filha vai sair com esse ser magnífico aqui, — Apontou para si mesmo. -Uma Leah que, apesar de linda, está com roupas normais e ainda não ouvi nenhum grito histérico. Que decepção!
Mamãe gargalhou com seu drama altamente egocêntrico.
—Você precisa saber de três coisas antes de irmos, Derick. Primeira: Você é muito, muito, muito convencido. Segunda: Isso não é um encontro. Terceira: Eu não sou qualquer garota, Alfa, você já deveria saber disso. — Ditei com um sorriso implicante.
—Oh, sim, Principessa. Eu sei que você não é qualquer garota. Na verdade, eu sempre tive a impressão que você era muito mais que uma simples garota. — Piscou para mim, ainda com o mesmo sorriso. -Vamos andando. As damas primeiro. — Gracejou se abaixando, em uma mesura profunda. Mamãe agradeceu o cavalheirismo e saiu andando em nossa frente, eu apenas rolei os olhos e a segui em silencio.
—E então? Preparada para descobrir mais sobre você? — Ele perguntou-me, encarando a rua à frente, depois de alguns minutos de silencio. Mamãe havia andado depressa e estava vários metros a nossa frente em mais uma "sutil" forma de nos deixar a sós.
—Você não sabe o quanto! Pode me contar alguma história enquanto não chegamos lá? — Pedi com um toque de gentileza exagerada na voz.
Dessa vez ele me olhou para responder.
—Por que não espera? Não seria mais legal ouvir tudo de uma vez?
—Não. — Disse simplesmente fazendo-o gargalhar. -Por favor, Derick!
—Não sei, não... — Suspirou fingindo indecisão.
—Ah, qual é, Derick?! Eu não sou de pedir “por favor” duas vezes! Só uma, vai! — Insisti tentando superar a expressão pidona que Seth dá quando quer pedir algo para mamãe.
—Só uma, tudo bem?
Concordei com a cabeça animadamente.
—Bom... Não há muitas histórias sobre Transmorfas, você sabe. Mas, eu me lembro de algumas que Sr.Trizolli sempre contava nas nossas reuniões. Os outros não achavam graça, mas eu era, estranhamente, fissurado nelas... Talvez, fosse o destino dando mais uma de suas dicas. — Piscou para mim, fazendo minhas bochechas se avermelharem. -Há muito tempo, antes de seu tatatatataravô viver, uma deusa vivia feliz, acompanhando e se divertindo vendo a vida dos humanos como todo deus faz. O nome dela era Morrigan, considerada a deusa da guerra e protetora dos guerreiros honrados e justos. Ela era muito venerada pelos soldados, reis e heróis que buscavam sucesso, pois era uma eximia guerreira. Sendo a Deusa da guerra, tinha maravilhosas estratégias de batalha e absolutamente ninguém conseguia derrotá-la. Tinha um humor um tanto instável e, como Sr.Trizolli dizia, vivia com uma expressão carrancuda no rosto, apesar de ter um bom coração. Eu não entendi muito isso antes, mas, agora, sei exatamente o que ele quis dizer. — Olhou para mim sugestivamente. -O tempo passou, nada havia mudado, tudo continuava feliz, e a deusa já estava começando a se entediar, até que em um de seus treinos na floresta, ela o viu. Apesar de ele estar em sua forma lupina, ao olhar nos olhos dele, ela se apaixonou. E foi lá, a primeira vez que o Single aconteceu... — Ele havia mudado o timbre de sua voz em um tom calmo, misterioso e baixo, quase sussurrante. Aquilo quase me hipnotizava. -Ela não sabia que aquele era o deus maior Cernunnos, o deus dos animais, pensava que era apenas um lobo comum, e que já estava começando a enlouquecer por ter se apaixonado, pois ela havia jurado nunca se apaixonar, e que o alvo de sua afeição era um animal da Terra. Ele, apesar de saber quem ela era e de ter sentido a magia acontecer, continuou como lobo por mais dois dias...
—O que?! Por que ele fez isso? E como ela ficou? — Interrompi-o indignada.
—Calma. Eu já vou falar. — Sorriu pela minha indignação. — Ele continuou como lobo por mais dois dias para poder ter certeza de que o amor dela era verdadeiro, porque muitas camponesas já haviam se candidatado a noiva do Cernunnos e jurado amor eterno quando, na verdade, queriam apenas a fama e o prestigio de serem esposas de um deus maior. Ele já havia aplicado o mesmo teste nas garotas, mas elas não tiveram paciência para atender aos cuidados de um animal e desistiram. Porem, Morrigan não. Ela cuidou do lobo, deu água, comida, carinho, proteção e, apesar de contrariada, só saía de seu lado quando era extremamente precis...
—Então, o imprinting dele não era verdadeiro? — Desconfiei com um pouco de raiva.
—Como assim? Claro que era, Leah!
—Não era, não. Você não disse que ele já havia testado as outras garotas com essa coisa idiota de "vou ser um lobo e ver se ela me ama de verdade"? Havia a possibilidade de uma delas passar no teste, então ele faria o que? Casar-se-ia com ela? E Morrigan ficaria como? Como ele iria se casar com alguém que não amava?
—Não, Leah, preste atenção na história. Ele sabia que somente a sua Single amaria tanto o homem quanto o lobo, ele sabia que apenas a sua Single cuidaria de um lobo no meio da floresta, ele sabia que somente a sua Single ficaria com ele até o fim, as outras foram apenas para provar isso.
Dei de ombros, ainda desconfiada.
—Não me convenceu, mas pode continuar. — Ele balançou a cabeça, como se estivesse desistindo de algo.
—Então, em uma das viagens da deusa a uma das guerras dos humanos, ele resolveu esperá-la em sua forma humana. Quando ela chegou ao local onde havia deixado o lobo, encontrou Cernunnos. Ela ficou confusa e o atacou, pensando que ele era um caçador e que tinha matado o seu lobo.
—Como ela o atacou? — Perguntei completamente alegre por ele, afinal, ter recebido um castigo por deixá-la pensar que estava apaixonada por um animal.
—Ela também era uma deusa, lembra? A deusa da guerra ainda. Poderes sobre-humanos são normais para os dois... Ei, onde está a sua mãe? Em um minuto ela estava lá na frente e no outro "puff”. — Sorri por seu jeito bobo e dei de ombros.
—Ela já deve ter entrado na mata. Ela sabe o caminho, não se preocupe.
—Bom... Eu não sei o caminho, então, sinta-se à vontade em mostrá-lo. Aliás, onde é esta reunião?
—Os moleques não mostraram para você? — Ele negou com a cabeça. -Então, o que fez a tarde toda? — Indaguei curiosa.
—Além de pensar em você? — Gracejou com aquele sorriso cafajeste, ganhando um rolar de olhos como resposta. -Dormi um pouco. Sabe, viajar de um país para outro, conhecer pessoas novas, fazer ronda com minha Perdizione, acordar cedo no outro dia e tomar conta dos cabeçudos do meu bando é meio cansativo. — Apesar do pronome possessivo não ter passado despercebido por mim, algo em seu olhar me fez perceber que era outra coisa que estava deixando aquelas olheiras roxas em seu rosto. Então, pensei em algo engraçado para falar só para que aquele sorriso cafajeste voltasse. Não gostava, nem um pouco, daquele olhar tristonho.
—Voltando à história... E aí ela lançou um de seus poderes nele e ele morreu, fim da história? Por que, tipo, bem que ele mereceu uns bons tapas! Isso ai Morrigan! Acaba com ele! — Exclamei, pulando e apontando para o céu, como em torcida para a deusa. Isso fez ele gargalhar e, consequentemente, meu coração se agitar e se acalmar ao mesmo tempo.
—Bom... Ele não morreu, mas levou uma boa surra, pois ela não queria ouvir, estava cega de raiva por pensar ter seu amado morto. Depois de longas horas, a deusa se acalmou e ele conseguiu explicar tudo. Ela, claro, ficou feliz por sua paixão ser, na verdade, um deus e eles viveram felizes para sempre. A lenda diz que Morrigan e Cernunnos tiveram apenas uma filha, a deusa Héradhe, uma deusa que tinha o melhor dos poderes dos dois e nenhuma das fraquezas, uma deusa realmente poderosa. E que essa deusa se casou com um humano comum, um ferreiro pobre e simples, e que os dois tiveram apenas uma filha também. E que, geração em geração, apenas a menina nasce com o poder, apenas a menina herda o dom dos deuses. E é daí que o poder das transmorfas vem, pois são descendentes diretas de Morrigan, Cernunnos e Héradhe. Então, mio amore, estava extremamente certo em te chamar de Single.
Encarei-o confusa.
—Por quê?
—Single é uma palavra em latim que significa único. É o nome dado a magia que liga os transmorfos a seus respectivos pares. Quer dizer, pelo menos lá em Lupi Luna, chamamos assim.
Concordei com a cabeça sem saber direito o que responder. Tinha a impressão de que minhas bochechas coradas já eram uma ótima resposta. Guiei-o pela floresta sem dificuldade, meu corpo estava relaxado e minha cabeça um tanto avoada demais para o meu gosto.
—Ei, Cernunnos era o deus do que, exatamente? — Perguntei acabando com o longo silencio que havia se instalado.
—Deus dos animais... O protetor dos animais, para ser mais especifico.
—E Morrigan era a deusa da guerra e protetora dos guerreiros honrados?
—Exatamente.
—Então, Héradhe era o resultado da mistura de um protetor dos animais com uma guerreira?
—Ãhn... Sim.
—E essa mistura doida fez as Transmorfas nascerem?
—Isso aí.
—Mas, e os transmorfos como você? Tipo, vem de onde?
Ele precisou de alguns segundos a mais para responder essa.
—Essa é outra lenda que mamma pode contar melhor que eu.
—Okay. Mas, então, eu sou meio que descendente de uma guerreira, um hippie, uma guerreira hippie, e um homem comum?
—Você é muito esperta, Principessa. — Implicou, sorrindo largo.
—Você é muito engraçadinho, Abbado. — Resmunguei, bufando.
—Desculpe se a irritei, Oh Rara descendente de Hippies. — Provocou novamente ainda com aquele sorriso cafajeste no rosto. Rosnei para ele e andei mais rápido, deixando-o para trás de propósito. De longe, ouvi-o rir e pedir para que eu o esperasse. Não esperei só por implicância e continuei com meu passo, ainda o ignorando. As fagulhas da fogueira crepitando pelo ar eram visíveis mesmo de longe e o brilho misterioso que o tom alaranjado do fogo dava na floresta escura era impressionante. As risadas eram altas e a confusão de vozes falando ao mesmo tempo preenchia o ambiente. O cheiro de comida boa fez meu estomago reclamar por ainda estar vazio. Meus pés foram sem minha permissão ao monte de cachorro quente que estava dando sopa na mesa grande.
—Onde o cabeçudo alfa está, Leah? — Allan perguntou de um jeito engraçado pelo tanto de cachorro quente que mantinha na boca.
—Está chegando aí.
—Você o deixou para trás? — Jacob indagou alarmado. Dei de ombros.
—Eu não o deixei, ele que não me seguiu.
—Mas... Ele foi te buscar... Ele... E se ele não achou o caminho?
—Ele é bem grandinho, Jake. E. — Respirei fundo quando o vento mudou e trouxe o cheiro dele para perto de mim junto da brisa fresca. -Ele está aqui e, com certeza, vai "soltar alguma perola" em três... Dois...
—Como você sabe? — Não tive tempo de responder, pois Derick se enfiou entre nós, fazendo questão de ficar esbarrando em mim enquanto pegava três rosquinhas de uma vez.
—Ela sentiu o meu cheiro. — Respondeu por mim. -E eu, com toda certeza, não me perderia, Jacob! — Resmungou indignado.
—Ãhn... Sem ofensas, cara, mas... Klaus se perdeu quando nós estávamos vindo para cá, então... Bem...
—Klaus não tem o melhor senso de orientação, isso é um fato. — Ri quando Klaus tacou um bolinho na cabeça de Derick para mostrar que estava ouvindo. -E não foi nem um pouco difícil chegar até aqui, era só seguir o doce perfume da irritação que a Leah, adoravelmente, emana em ondas grandes quando está perto de mim. — Dramatizou com um revirar de olhos. Bufei e esbarrei de propósito em seu ombro quando passei para me juntar aos outros ao redor da fogueira. -Você é adorável, Principessa.
Segurei a vontade de mostrar o dedo do meio em resposta a sua provocação. Sentei-me no chão, com as pernas esticadas e comecei a observar todos que ali estavam. Mamãe mantinha uma conversa totalmente engraçada com Billy, Dona Stella e o avô de Quil, ela dava altas gargalhadas divertidas e algumas vezes juro que pensei ter ouvido Billy engasgar em meio ao riso descontrolado. Paul, Embry, Quil, Klaus, Joseph, Collin e Brady travavam uma competição arriçada em quem conseguia enfiar mais cachorros quentes na boca, era uma coisa engraçada e nojenta de se ver. Sam e Emily estavam sentados lado a lado, tão ou mais juntos que Jared e Kim, que estavam do outro lado da roda. Jake, Allan, Derick e Seth conversavam animadamente em frente à mesa de comida, e meus olhos insistiam em não querer se desviar de lá. Ele deve ter sentido aquele comichãozinho que sentimos quando alguém está olhando para você, pois se virou e encarou-me com aqueles olhos azuis profundos. Ele pareceu gostar de perceber que eu estava-o olhando, pois sorriu aquele mesmo sorriso cafajeste que me irritava e alegrava ao mesmo tempo, e caminhou em minha direção. No mesmo momento, vi mamãe, Dona Stella, Billy e o avô de Quil sentarem-se em suas cadeiras e se prepararem para as histórias.
No começo, pensei que ele se sentaria ao meu lado para me irritar mais facilmente, mas, ao invés disso, deitou-se no chão com a cabeça em meu colo. Fitei-o indignada e ele apenas deu de ombros sem sair de lá.
—O que você pensa que está fazendo? — Indaguei, sussurrando.
—Só estou tentando me concentrar e ficar calmo. — Sussurrou também de modo inocente.
—E para se concentrar tem que ser folgado a esse ponto? — Impliquei com um sorriso.
—Oh, não, Principessa. Só preciso ficar perto de você... Quer dizer... Não exatamente, já que só o fato de olhar para você já me desconcentra.
Senti minhas bochechas corarem novamente, mas não tive a chance de responder à altura, pois Billy começou a falar:
—Leah e Derick, Jake e Sam me avisaram que vocês têm algo importante para contar. — Todos os olhares caíram sobre nós.
—Não é tão importante assim. Só é meio... Estranho. — Respondi dando de ombros.
—Bom... Não é importante para eles, você quer dizer. Porque para mim, isso é muito proveitoso. Lembra aquela vez que você estava indo para a escola quando...
—É melhor nem terminar essa frase, idiota! Via de mão dupla e lago Duchanne te lembram alguma coisa? — Perguntei com uma expressão altamente inocente. Vi-o fechar a cara e sorri vitoriosa. -Isso, alfa. Quietinho, bem quietinho.
—Então, vocês vão falar ou vão ficar com essa briguinha interna? — Paul exclamou. Rolei os olhos para ele.
—Nós conseguimos nos comunicar quando nos transformamos. — Derick e eu dissemos em uníssono. -Ei, eu ia dizer! — Falamos juntos de novo. -Para de me imitar! — Dissemos novamente. -Essa brincadeira não tem graça! — Rosnei quando exclamamos de novo ao mesmo tempo. -Você quer parar?! — Quase joguei sua cabeça para fora de meu colo. -Você parece uma criança! — Ele se levantou por conta própria. -Para de falar junto comigo! — Me levantei também, fazendo com que ficássemos nos encarando cara a cara. Ele parecia estar se divertindo com aquilo, embora tivesse uma expressão irritada no rosto. Seus olhos sempre o denunciavam. Eles eram, extremamente e encantadoramente, transparentes para mim. -Para com isso! — Exclamamos. -Eu, não! Para você!
Quando abri a boca para gritar algum insulto para ele, Jacob pediu entre risadas:
—Vocês dois parecem duas crianças! — Parada para outra gargalhada. -Vou ter que colocá-los separados para que não impliquem ou briguem um com o outro, é? — Rosnei para ele e, embora não admitisse nem sob tortura, sua sugestão em nos afastar era a grande causadora do rosnado.
—Nem vem! — Derick exclamou, puxando-me para perto dele em um abraço apertado. -Sou que nem chiclete, não desgrudo nem sob tortura! — Apertou-me mais. Juro que tentei me afastar, mas o cheiro dele era tão bom que em vez de ir para trás eu apenas me apertei mais contra ele. Seus braços me rodeavam fortemente, seu perfume me circundava, e a felicidade parecia explodir em meu peito. Era certo ficar ali, nos braços dele. Completamente certo.
—Eu te odeio! — Choraminguei baixo. Senti quando ele sorriu e murmurou em meu ouvido:
—A recíproca é totalmente verdadeira, Principessa. — Sorri com isso e me afastei, sentando novamente no chão. Ele, como já era esperado, deitou-se com a cabeça em meu colo do mesmo jeito de antes. Não reclamei dessa vez.
—Já que terminaram a discussão, poderiam explicar melhor essa coisa de "conseguimos nos comunicar quando nos transformamos"? — Jared perguntou.
—Qual parte disso você não entendeu? Ele consegue ouvir meus pensamentos e eu consigo ouvir os dele, simples. — Retruquei sem paciência.
—Isso é muito maneiro, não é? — Seth exclamou
—Você nem imagina o quanto. — Derick disse como provocação. Mostrei-lhe a língua ao invés de responder.
—Então, vocês dois são... Tipo... Um bando? — Jake indagou pensativo. A pergunta me fez paralisar. Não havia pensado por esse modo antes.
—Eu não saí do seu bando, teria sentido algo, ou teria acontecido algo. Ontem, na ronda, você me mandou ir com o Derick. Eu já havia visto ele e, ainda assim, sua ordem alfa se fez presente.
—Se a mente dele estiver conectada com a do bando, você consegue ouvi-los também? — Embry especulou. Outra coisa que eu não havia pensado ainda. Dei de ombros.
—Eu não sei. Nunca tentei. Na verdade, só ficamos sabendo que isso acontecia quando nos transformamos.
—Bom... Isso não é muito normal. Na verdade, não consigo me lembrar de nenhuma lenda em que os pensamentos de dois membros de bandos distintos estejam conectados. Tirando os alfas, é claro. — Billiy disse calmamente. Concordei com a cabeça. Já sabia que ele falaria algo assim, afinal, essa não foi a primeira que não há coisas nas lendas da tribo. -Mas, eu já deveria saber, não é? Se as coisas que Stella nos contou forem verdade, você está destinada a grandes feitos, Leah. — Completou ele, com um sorriso no rosto. Fitei-o em confusão. Grandes feitos?
—Se não se importam, queridos, eu vou começar. — Dona Stella começou, com aquele mesmo sorriso maternal e bochechas rosadas. -Billy, Quil e Sue me contaram muitas coisas, uma delas foi a história do que aconteceu para que nossos garotos herdassem a honra e o fardo de serem quem são. A versão... Ãhn... Italiana das histórias são mais velhas e um pouco mais fantasiosas, devo dizer. São culturas, pessoas e continentes diferentes, então, se quiserem perguntar alguma coisa, por favor, não se acanhem. — Pediu ela com gentileza. Virou-se para mim e Derick. -Sei que Derick contou alguma história para você, Leah. Se quiser falar dela depois, fique à vontade, tudo bem? — Avisou-me, sorrindo. Concordei com a cabeça sorrindo de volta. Era quase impossível não sorrir quando ela sorria para você. Acho que era tipo aquelas coisas hereditárias, pois sentia a mesma coisa com Derick. -Há muitos anos, num tempo em que deuses e humanos viviam em harmonia, um fato estranho aconteceu. No mesmo sol poente do solstício de inverno, duas meninas nasceram, Héradhe e Hécathe. Apesar da coincidência dos nomes parecidos e da mesma data de nascimento, elas não poderiam ser mais diferentes. Héradhe era uma camponesa humana, vinda de uma família humilde que morava em um pequeno reino. Já Hécathe era uma deusa menor, vinda de um deus maior e uma ninfa da floresta. Deuses e homens sabiam da estranha coincidência, mas não ligaram para a dica que o destino estava os dando...
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