Prólogo:

Jericho Swain – 16 anos – Ruas de Noxus

Os primeiros relatos sobre a existência de Jericho Swain vieram das anotações de um médico em Noxus.

O que se poderia esperar de um simples adolescente de perna quebrada? Pois é. Quem visse o estado deplorável do jovem Swain ao entrar no consultório do médico, jamais pensaria que aquele garoto “voaria” tão alto.

Estava quase de noite, quando o médico mais famoso de Noxus conheceu o jovem Jericho.

Seu consultório estava bem vazio. Não havia ninguém além dele; seus ajudantes haviam ido embora, pois já era tarde, e ele estava ali, pois queria limpar algumas de suas ferramentas utilizadas naquele duro dia de trabalho.

As ruas de Noxus também estavam vazias. Era perigoso andar à noite, sabendo da quantidade de assassinos e foras da lei que residiam naquela cidade. Ou seja, para o médico voltar para casa seria um desafio.

O silêncio naquele estabelecimento era bizarramente sepulcral. Mas o médico gostava assim: silêncio total. Era bom para pensar e refletir na vida, dizia ele. E a melhor hora para se fazer um silêncio daqueles, era quando os funcionários do consultório iam para suas casas. Na verdade, não existiam tantos funcionários, afinal, o consultório não era tão grande.

Tudo estava bastante silencioso, até que pôde se ouvir o som de alguém andando. O médico teve sua atenção voltada para a porta do consultório, e viu, mesmo que estivesse escuro, a silhueta de um garoto.

O garoto entrou na sala. Ele mancava, e não chorava e nem reclamava, mesmo sabendo que sua perna estava partida no meio, com o osso atravessando a pele. Seu único companheiro não passava de um carrancudo pássaro, que estava bem em cima de seu ombro.

– Oh, meu Deus! – exclamou o médico ao vê-lo naquele estado. – Mas o que houve com você?

O jovem, sem esperar que o médico dissesse mais alguma coisa, sentou-se na maca mais próxima, e começou a falar:

– Nada demais. Só preciso de um “trato” em minha perna.

O médico se aproximou dele, hesitante, e com um pouco de medo.

– O-Onde você arranjou um ferimento tão...

– Tão terrível? – completou o jovem. – É uma longa história. Só peço que não faça mais perguntas.

O médico assentiu, mesmo que ainda permanecesse intrigado – e amedrontado com o severo olhar do pássaro do jovem, que o encarava como se quisesse devorá-lo.

– Você não sente dor? – perguntou o médico, ignorando o pedido do jovem.

Swain balançou a cabeça, de forma negativa.

– Qual seu nome? – continuou o médico.

– Jericho Swain – respondeu.

O médico começou a estranhar a tranquilidade do garoto. Sabendo que a operação em sua perna seria algo doloroso, tudo que Swain fez foi suspirar, bocejar, e olhar para o teto, como se esperasse que algo “legal” acontecesse.

– Quantos anos você tem? – O médico começou a pegar algumas de suas “ferramentas” para a operação.

– Tenho 16 anos, senhor. – Swain fez um carinho em seu pássaro, sorrindo, e não emitindo nenhum gemido de dor, mesmo que o médico estivesse recolocando sua perna destruída no lugar. Nem mesmo o barulho da sua tíbia sendo recolocada no lugar abalou o olhar do garoto, e sequer piscou com o estalo de sua fíbula.

– Quando que você... se machucou? – perguntou o médico, de forma hesitante.

Swain olhou para o seu pássaro, como se lhe perguntasse algo. Por mais incrível que pareça, o corvo deu de ombros, como se não se lembrasse.

– Acho que foi à um dia atrás... – respondeu. – Ou talvez tenha sido hoje. Não tenho muita certeza.

O médico se sentiu tentado a perguntar mais sobre o ocorrido, mas por algum motivo hesitou.

O jovem lhe parecia muito estranho. Nunca havia o visto antes, e de repente apareceu em seu consultório. O médico já havia tido uma consulta com quase todos os habitantes de Noxus.

Visando a perda total da perna de Swain, o médico disse:

– Não posso permitir que você saia daqui sem um tratamento mágico adequado. Sua perna está totalmente perdida. Nada que eu faça pode lhe ajudar. Mas se você aceitar que eu utilize minha magia...

Swain olhou firme e friamente para o homem.

– Eu não preciso disso – disse o jovem. – Só me dê uma bengala, uma muleta, qualquer coisa!

– Você mal se colocará de pé se eu só te der uma muleta!

– Eu não ligo! – A expressão do jovem havia mudado. Ele, agora, parecia enfurecido, e seus olhos laranjas brilhavam num tom demoníaco. Por alguns segundos, o seu corvo parecia ter 6 olhos (3 de cada lado), o que deixou o médico apavorado.

– M-Mas precisa entender que... – gaguejou. – É para seu próprio... – Os olhos do homem começaram a cintilar num tom amarelado, e ele pareceu ter se esquecido do que estava para dizer. Ele foi até um lado do consultório, e pegou duas muletas, e entregou à Swain. – Aqui.

Swain o fitou com o olhar, muito intrigado.

– Mas o senhor disse que...

– Vá! – gritou o médico.

Swain agarrou as muletas e saiu do consultório rapidamente.

As ruas de Noxus estavam escuras e eram sujas. O beco do consultório era revestido por um tipo de paralelepípedo negro, e a cidade tinha uma aparência muito sombria. Podia se notar terríveis características de Noxus só de ver vários dos moradores de rua semimortos, caídos no chão, e ninguém nunca fazia nada para ajudar-lhes. Fora que a sujeira da rua era imensurável. Somente a parte do castelo era limpa e adequada para se viver.

Swain estava um tanto assustado com a mudança de humor repentina do médico. Ele sabia o porquê disso tudo, e por isso se sentia apavorado. Ele “corria” pelas ruas de Noxus com pressa e pavor. Ele não ligava para sua perna enfaixada, e pelo fato de estar andando de muletas em uma rua de paralelepípedos.

Na pressa, ele acabou pisando em falso com uma das muletas, e caiu de cara no chão.

– Precisa de ajuda? – disse-lhe uma voz feminina.

Ele se levantou com ajuda da mesma mulher que lhe havia cogitado ajuda.

– Obrigado – disse ele.

Ara-Ara! – grunhiu o corvo de Swain, que parecia desconfortável.

A mulher sorriu para o jovem garoto. Ela era uma mulher idosa, de cabelos grisalhos, com um xale e um vestido de velha que era colorido de amarelo e roxo. Ela tinha a pele enrugada, mas tinha um belo sorriso.

– Meu jovem – começou a dizer. – Pra que tanta pressa?

Swain suspirou.

– Não é nada – respondeu. – Só que... me senti sendo seguido.

Araaah! – gritou o corvo para a mulher idosa, de forma agressiva.

Swain se virou para o pássaro, de cara feia, e lhe deu um leve tapa.

– Tenha modos, Beatrice!

A velhinha riu.

– Você deu esse nome ao seu pássaro? – perguntou ela, em meio a risos leves.

– Sim. – Swain sorriu de leve. – O que você faz à essa hora na rua?

– Estou voltando pra casa. Estava em uma deliciosa visita à casa de minha irmã, mas já está tarde, e tenho de voltar.

Os dois ficaram ali, parados e em silêncio por alguns segundos. Beatrice encarava friamente a velhinha, que retribuía com um leve sorriso. O corvo dava leves bicadas no ombro de Swain, mas ele ignorou.

Tem algo de errado com essa mulher, pensou Swain.

– Bom, tenho que ir – disse ele, quebrando o silêncio entre ele e a velha.

A velhinha sorriu.

– Ah, claro – respondeu ela. – Está tarde. Uma criança como você seria facilmente pega.

– E uma idosa como a senhora também está em perigo, não é verdade? – perguntou Swain.

A velha fez uma cara de espanto, e começou a suar frio.

– Não é mesmo? É v-ver-verdade – gaguejou.

Swain sorriu sarcasticamente, e pode ouvir Beatrice rindo, do jeito que corvos riem.

– Não consegue falar nem a palavra “verdade”, não é mesmo, LeBlanc?

A velhinha recuou, com medo. Depois, ela começou a rir, e a voz de velha foi se tornando mais jovial, enquanto ela começou a brilhar num tom amarelo e roxo.

– Você é, realmente, muito inteligente, Jericho – disse LeBlanc.

Logo, a velhinha não era mais uma velhinha. Ela era uma mulher alta e bonita. Ela tinha cabelos curtos e negros-azulados, usava uma curta capa roxa por fora, e amarela por dentro, que ficava presa no pescoço, onde se formava uma outra camada, que era usada por vampiros. Ela utilizava um tipo de sutiã de couro que formava algumas tiras pelo tronco, e deixava sua barriga à mostra. Em seus braços haviam espécies de braceletes que o cobriam por completo, mas que não cobriam as juntas. Ela também utilizava um saiote preto com vários cintos, fora que utilizava uma “coroa” tripla em sua cabeça, e em baixo de seus olhos haviam linhas pretas, como de palhaços.

Swain fez uma cara feia para mulher.

– Você não pode me enganar, Falsa! – disse ele. – O que diabos você quer comigo?

Ela deu dois passos lentos na direção de Swain, como se estivesse desfilando, e o observou friamente, com seus olhos amarelos.

– Precisamos conversar.

A noite em Noxus era, deveras, encantadora. Tirando a parte da lua ser vermelha como sangue, e o céu ser obscuro como as trevas, a cidade-estado mais poderosa da Runeterra... Ou é assim que os Noxianos pensam. Sabendo da rixa entre Demacia e Noxus, dizer que Noxus não é a cidade mais poderosa do continente, é pedir a morte. Os Noxianos são orgulhosos e briguentos, fora que os piores – no sentido melhores em questão desprezível – assassinos nascem em Noxus. Dizem que todos os assassinos nascem lá, e também dizem que todo o mal de Runeterra surge nessa terrível cidade. Porém, muitos não sabem da existência de outros piores lugares, como a Ilha das Sombras, que muitos julgam não existir; Zaun, que é um lugar onde a ciência maligna e experimentos com pessoas, são permitidos, entre outros lugares. Também existem outras cidades-estados que cultivam a justiça, além de Demacia. Mas isso é história para outro momento.

Swain e LeBlanc andavam pela rua obscura de Noxus. Ele não abandonava suas muletas, enquanto ela podia pular, cantarolar, e dançar, sem medo de dar de cara no chão.

Swain conhecia muito bem a mulher na qual estava acompanhando. Por mais que ela viesse com a lábia de querer o seu bem, ele ainda sentia que ela lhe daria uma rasteira. Mas talvez fosse só um pressentimento, sabendo da fama de mentirosa que ela tem.

– Você mente demais! – Beatrice fez que sim com a cabeça após a afirmação de seu dono. – Quando você gaguejou ao dizer “verdade”, eu logo descobri que era você. Por mais que você seja imortal, tem coisas que você nunca vai aprender, não é mesmo?

LeBlanc riu.

– Mentir é somente 90% do que eu faço – argumentou. – Com você, tentarei utilizar os outros 10%, ok?

Swain balançou a cabeça, com hesitação.

– Ok – respondeu.

– Ótimo! – LeBlanc sorriu e saltitou de leve. – Fico feliz de saber que você vai aceitar minha ajuda.

– Acho que já vendi minha alma antes, quando você me salvou de perder as duas pernas. Talvez eu te deva um obrigado. Mas não seja muito rápida, eu só aceitei os 10% da sua verdade, não a sua ajuda.

LeBlanc revirou os olhos.

– Primeiro: eu não quero sua alma; Segundo: eu mereço um obrigado; Terceiro: se não fosse por mim, você estaria sem as duas pernas.

Uma estranha dor apareceu numa parte da perna de Swain. Ele a ignorou, como fez com toda a dor que sentiu no consultório, mas essa era diferente, era como se a sua perna quisesse “falar”.

– Vamos supor – disse Swain. – que eu me junte à você. O que eu terei em troca?

– Meu caro, Jericho – respondeu LeBlanc. – Eu posso lhe oferecer muitas coisas, como importantes cargos, uma vida luxuosa, e até mesmo dinheiro.

– Você disse que não queria a minha alma.

LeBlanc pareceu perder a paciência, mas de uma forma controlada.

– Meu Deus, quantas vezes tenho que dizer que eu não sou um demônio que quer fazer um contrato em troca de sua alma?

Beatrice grasnou, como se estivesse rindo por dentro.

– Eu não quero a sua alma – continuou LeBlanc. – Eu quero sua inteligência.

Swain franziu a testa.

– Mas eu não sou tão inteligente.

LeBlanc pareceu surpresa com a modéstia do garoto.

– Como assim? Eu vi todo o seu plano para roubar pão daquele maldito padeiro hoje de manhã. Soube trabalhar em equipe com seu corvo...

Arrá! – grasnou Beatrice.

– Ah, me desculpe. Sua corvo, se é que é assim que se conjuga.

Swain ficou pensativo por alguns instantes, e depois se virou para a mulher.

– Eu pensei que você tinha me ajudado a enganar o padeiro.

Ela riu, e fez uma cara de negação.

– Tudo o que houve foi fruto da sua sabedoria – respondeu ela, calmamente. – Acredite, Jericho Swain, você é brilhante. Eu venho te observando já faz alguns dias, e...

– Você está me perseguindo?! – retrucou Swain, com rispidez.

– Um pouco, digamos, mas é o suficiente, meu caro jovem. – LeBlanc o olhou com um sorriso, e então ele se acalmou. Ela pigarreou, e continuou: – Eu venho te observando já faz alguns dias, e vejo que você utiliza a lógica para muitas coisas. Como aquela vez em que você fugiu daqueles ladrões, e os levou para uma armadilha com melancias de um mercador. Ou quando você utilizou uma sequência de espelhos para poder observar a garota dos seus sonhos. – Swain olhou espantado para a bruxa, e ela fez que sim com a cabeça. – E também de quando você fingiu ser atropelado por uma carroça para que Beatrice pudesse roubar alguns pães.

– Mas dessa vez eu fui enganado pelo destino – retrucou Swain. – Era pra ser um acidente forjado, mas acabei me precipitando, e foi um acidente real. Por isso estou com minha perna assim. O incrível foi que ninguém tentou me ajudar, só tentaram me socorrer na hora, e depois me abandonaram à minha sorte.

– E então você me encontrou. – LeBlanc sorriu para ele, e avançou em sua direção. Depois, ela segurou na mão do garoto, e o olho nos olhos. – Jericho, eu posso te ajudar a sair do fundo desse poço.

Swain olhou para baixo, como se estivesse pensativo. Ele parecia hesitante, pois, ao mesmo tempo que queria se juntar à bruxa, ele tinha medo do que poderia acontecer. Medo de que ela estivesse mentindo para ele.

– Eu não confio muito em você... – Ele ficou em um pé só – o pé bom – e largou as muletas, que caíram no chão com um estalo. – Mas peço que, se você for mesmo uma bruxa, que conserte meu pé.

LeBlanc olhou para ele com dúvidas, e depois deu um sorriso largo.

– Que bom que você pediu!

Ela fez um gesto de mãos, e, do nada, em sua mão direita surgiu um enorme cetro prata e dourado, com uma pedra rosa no centro, que flutuava. A pedra brilhava. LeBlanc bateu a haste do cetro no chão, e uma enorme energia mágica foi sentida por Swain.

– E para meu próximo truque, farei uma nova perna aparecer! – disse ela.

Uma energia amarela e roxa saiu do cetro e envolveu a perna enfaixada de Swain. Ele sentiu uma leve dor enquanto a magia desenfaixava o seu pé, e deixava a carne exposta. Ele também sentiu uma energia o curando, e pele crescendo no local.

Em poucos segundos ele estava de pé, normalmente, com sua perna, antes destruída, agora boa, e descalça. Ele mexeu os dedos do pé nu, e sorriu para LeBlanc.

– Incrível. – Ele deu dois passos até a bruxa, e mexeu o pé, como se pudesse fazer o que quisesse com ele.

LeBlanc sorriu para ele, e o encarou de forma encantadora. Ele, na sua forma adolescente, conseguia ser mais alto que ela, uma bruxa imortal.

Ela se aproximou dele e segurou em seu rosto, fazendo contato visual, deixando-o levemente espantado.

– Agora, para selar nosso contrato... – Ela beijou-o, e, em vez de ser algo romântico e gostoso para a visão adolescente de Swain, foi algo estranho, como um ritual. Como se ela estivesse sugando sua alma pela boca. Jericho já havia beijado outras garotas antes, e acredite, beijar uma bruxa imortal é algo completamente estranho.

Terminando o beijo, LeBlanc o encarou de forma apaixonante.

– Lembra de quando eu disse que eu não queria a sua alma? – perguntou. Swain fez que sim com a cabeça, ainda trêmulo. – Eu menti.