Capítulo 52:

LeBlanc – Noxus – Castelo Negro

LeBlanc estava sentada à mesa de Boram Darkwill, lendo um livro escuro, uma capa bem feita e bonita, preta, mas brilhava. Tinha desenhos de flores espinhentas e, ao centro, uma rosa negra esculpida. O título do livro: A Rosa Negra. Nele haviam várias informações sobre a sociedade secreta, coisas que só a própria Emília sabia e guardaria para si até quando pudesse.

– Não deveria entrar aqui – dissera-lhe uma voz velha.

– Boram está morto – LeBlanc respondeu –, ninguém se importa. Sou a única, além do próprio Boram, que pode acessar esta sala.

Era o chanceler Malek Hawkmoon, um homem velho, utilizador de um manto negro, misterioso. Era um antigo conselheiro de Darkwill, um homem sábio e astuto, também era uma espécie de curandeiro, um necromante, na verdade. Ele havia vivido muito tempo, quando jovem aluno da própria Emília. Agora, ele é quem mais parecia o professor.

– Não fale assim dos mortos – ele a repreendeu.

LeBlanc fez uma careta sarcástica.

– Em algum momento desrespeitei a memória de Boram? Só disse que ninguém se importa, pois é verdade. Nem mesmo o próprio filho está de luto, apenas prepara seu casamento e, eventualmente, sua coroação – sorriu lentamente. – Então, por que deveríamos nos importar?

Malek ficou de frente à mesa de Boram, agora de LeBlanc, com as mãos dentro das mangas longas e escuras.

– Keiran no trono é algo preocupante. O garoto não está pronto.

LeBlanc bateu o livro na mesa, como uma afronta a Malek.

– Também acho, mas o tempo de Boram já acabou há muito tempo – estalou os dedos duas vezes. – Está na hora de alguém responsável assumir o trono negro.

– E essa pessoa não é Keiran – o velho franziu o cenho. – O que pretende, Emília?

Ela riu.

– Não gosto de ser interrogada por pessoas como você.

– Não compreendo – ficou confuso.

– Caro, Malek, todos nós sabemos que você foi aquele quem cuidava de Keiran quando ele era jovem – fez uma expressão sombria. – Foi o professor dele em várias matérias, até lhe ensinou violino e flauta, fora a arte da magia, a qual ele não soube dominar, como o pai. Não me venha perguntar meus interesses no trono pois sei compreender sua ladainha falsa.

O velho sorriu maliciosamente.

– Dizem que verdadeiros mentirosos podem reconhecer outros – removeu uma mão da manga pôs encima do livro; trocou olhares furiosos com a mulher, que parecia não querer que tocassem no livro. – Sei que está pensando em algo, um interesse político sujo.

– Não tanto quanto o seu – retrucou.

Malek ignorou.

– Sei que quer colocar Jericho no poder há anos, e estava apenas esperando o momento e que Boram se descuidasse para tomar seu trono.

– Mentiroso! – LeBlanc ergueu-se da cadeira, impondo as mãos na mesa, encarando-o com fúria. – O que está sugerindo?!

Ele deu de ombros.

– Não sei. Talvez tenha aproveitado da ocasião, na qual ele tenha ido para Kalamandra... – fez uma expressão de desentendido.

Ela cerrou os punhos.

– Digo o mesmo de você. Não duvido nada que tenha conspirado ao lado de Keiran para matá-lo – os dois se entreolharam. – Diga o que quiser, minta o que tiver de mentir, mas eu voto por Jericho Swain, sim!!

Ele deu uma gargalhada.

– Como imaginei. Primeiro você dá o poder para Boram, depois espreita por anos esperando a sua morte para que fique com os restos, com a sua alma – os olhos do chanceler brilharam num tom escarlate –, assim como os demônios. Pelo que eu sei, vocês, da Rosa Negra, sempre mexeram com essas coisas.

– O que quer dizer com alma? – indagou.

Deu de ombros.

– Como deve saber, a alma de Boram Darkwill se resumia nisso – ergueu os braços, apontando para os lados do castelo com as mãos. – O castelo era sua alma, os exércitos eram sua alma, o trono... era sua alma. E agora você quer tirar a alma Darkwill e dar a um Swain!! – o tom de voz havia aumentado. – Sirvo aos Darkwill há anos de minha vida e não permitirei. Assim que Swain chegar de Kalamandra, mandarei que o prendam pela morte de Boram; conspiração. Junto dele vai você, sua vadia podre. Não duvido que tenha eliminado Kael, também.

– Por que? – ela perguntou. – Eliminá-lo era seu plano inicial? – gargalhou. – Sabia que com Du Couteau na pista, ninguém votaria no mimado Keiran para o trono – aproximou-se mais do velho, fazendo-o recuar. – Mas então... Puff! Kael morre. Até que tenha provas de que eu o matei, não venha chorar sob meu carpete com assuntos indignos.

Ele olhou para baixo, para o carpete vermelho de Boram.

– Seu carpete?

– Sim – ela respondeu. – Pois até que alguém se assente no trono, eu estarei no comando. Sou a Mão do grão-general, me tornei a partir do momento em que Kael desapareceu.

O velho tremeu.

– N-Não pode ser. Mas eu não fui contatado.

– Você já deixou de ser conselheiro há muito tempo, seu velho caduco! Boram já não lhe conta mais nada desde que você demonstrou loucura em realizar testes necromânticos em pessoas vivas, como cobaias. Passou tanto tempo em Zaun que enlouqueceu!

Ela riu alto, deu a volta e foi em direção à mesa de escritório. Riu novamente, não, não riu, mas sim gargalhou. Suas gargalhadas malévolas chegaram a fazer o velho Malek se arrepiar.

Ela se virou, seus olhos brilhando em tons amarelos e violetas, uma cor em cada olho.

– Sei que você enviou uma carta para Swain pedindo que ele retorne – ela sorriu. – Eu poderia tê-la pego a hora que eu quiser, mas deixei. Isso por que eu sei que quando ele chegar, não haverá quem o denuncie.

O velho recuou, recuou, recuou. A sala, antes vermelha, começou a se tornar violeta. Sentiu um calafrio quando o semblante de LeBlanc se tornou negro, os olhos cintilantes e sombrios. Poderia correr, mas o medo apertou-lhe o coração, quase enfartando. O carpete pareceu enrolar-se em seus pés, fazendo-o tropeçar. Caiu de glúteos no chão, sentindo toda a dor de ser um idoso caindo para trás.

– O-O que q-quer dizer com isso? – ele perguntou.

Ela se aproximou dele numa distância curtíssima, capaz de bufar em seu rosto. Ele olhou bem nos olhos dela, sentindo uma espécie de transe. Sentiu sono, sentiu suas memórias de criança indo se quebrando, as de jovem, de adulto, todos seus amigos e amantes sendo destruídos em sua mente. Tudo o que restou de lembrança foi o que Emília lhe disse por último:

Quero dizer que você pedirá a morte com todas as forças, mas não poderá, pois de sua boca palavra nenhuma sairá, de seus músculos, nenhum movimento sairá. Você morrerá por dentro, mas ainda estará vivo – a figura obscura sorriu. – Essa é a minha maldição para você.

[...]

LeBlanc adentrou no salão real, que, no caso, estava sendo transformado em um salão de festas. Ficou abismada ao ver aonde a reforma de Keiran foi parar, talvez tendo pensado nesse casamento faziam meses. Um plano infalível, ela pensou. Ele sabia que se casar com Du Couteau após o desaparecimento de Kael iria ajuda-lo na posse do trono. Todos iriam querer um híbrido de Darkwill e Du Couteau, futuramente no trono, o fruto do casamento, um filho, é claro.

Keiran parecia brigar com um dos decoradores, um homem de preto com babados, aparentemente afeminado.

– Você tem problemas? Eu disse preto com vermelho, não preto com roxo!! – ele gritou. – Seu incompetente!!

– Senhor Darkwill, me desculpe, eu irei arrumar tudo, só me dê dois dias – suplicou o homem com babados e cabelos castanhos num coque.

Darkwill cerrou os punhos, irritado. Poderia socar aquele homem naquele exato momento, mas hesitou, hesitou pois viu Emília se aproximar. Virou-se para o homem, fitando-o com fúria nos olhos.

– O casamento é em dois dias. Troque este roxo por vermelho em menos de um, senão...

– Muito obrigado, senhor! – e foi embora, saltitando.

LeBlanc cruzou os braços.

– Não deveria tratar seus trabalhadores dessa maneira – repreendeu-o.

Keiran fez um biquinho irritado.

Sorriu e passou a mão pelos cabelos negros e estilosos.

– Não pense que irei falar com você novamente, da última vez que nos encontramos, levei um soco.

– Você adentrou no quarto de Lady Cassiopeia tão rapidamente que tive de tomar medidas drásticas – ela deu uma risadinha. – Você viu o vestido da noiva antes do casamento, isso dá má sorte.

Ele riu.

Com os braços, apontou para os lados e para o trono.

– Vê tudo isso, Emília? É tudo meu. Sou o novo grão-geral de Noxus, o Alto Comandante. Domino tudo e todos aqui, até mesmo a morte me teme!

LeBlanc se segurou para não rir.

– Ah, claro. Então se o lustre cair encima de você, não morrerá?

– Certamente, não.

– Ótimo – ela concluiu. – Seu casamento será logo, portanto suponho que deve se apressar com os preparativos.

Ele assentiu.

– Claro – virou-se de costas e foi andando, porém lembrou de algo e voltou até ela. – Recebeu notícias sobre Kalamandra?

– Sim – ela disse. – De acordo com que a carta de Jericho diz, Jarvan IV teimou em lutar contra eles e todo o seu batalhão foi morto. O príncipe foi capturado.

Keiran fez uma cara feia.

– Então... Jericho está liderando bem as tropas, não?

– Sim – concordou. – E se não tomar cuidado, as pessoas podem acabar exigindo a liderança dele.

Keiran franziu a testa.

– O que sugere?

– Sugiro que tome cuidado, pois os noxianos não gostam de um líder que foge da batalha e que não sabe liderar – ela sorriu maliciosamente. – Seu pai não liderou por mais de quatro gerações por ser um homem covarde que preparava um casamento enquanto suas tropas lutavam por ele.

– Mas agora ele está morto, e nem sabemos quem o fez.

– Pode ter sido qualquer um com poder de pagar um bom assassino – ela deu um toque de leve em seu peito. – Inclusive você – ela recuou. – Não estou te acusando, só supondo. Acredite, qualquer um pode ter o feito.

Foi embora, deixando-o ali, com os punhos cerrados, irado.