Notas iniciais
Após quase ter assassinado Shen utilizando as técnicas proibidas das sombras, Zed quase é linchado por seus antigos companheiros, até que uma voz maior intervém, permitindo que ele viva.

Capítulo 28:

Zed ­– Ionia

A confusão foi impossível de conter. Todos os ninjas, ao verem os restos de Shen atirados pelo campo, se desesperaram. Alguns choraram, outro gritaram, e alguns ousaram invadir a arena e agredir Zed, que ficou paralisado.

Onde estava todo aquele papo de equilíbrio, paz interior? Todos chutavam e machucavam Zed, caído no chão, xingando-o. Eram adolescentes, ora. Não poderiam esperar mais vindo deles.

Karma se levantou, com os olhos arregalados. Kelsen começou a chorar, assim como a filha. Ela se virou para Shyon, com lágrimas nos olhos, sem conseguir falar qualquer coisa.

Chutaram Zed, fazendo-o rolar para perto de uma árvore, onde alguns jovens arrumaram uma corda, deixando-a pendendo com um laço feito. Iriam enforca-lo.

– Faça alguma coisa, Chanceler! – exclamou Karma. – Eles vão matá-lo!

Shyon já havia dado a sentença. No fundo queria vê-lo morrer. Não chorou pela explosão de Shen, pois podia ver a energia do feitiço de Karma refazendo seu corpo. Não sabia o que dizer. Queria aquilo. Queria acabar com aquele garoto logo de uma vez. O choro de Kelsen não parecia ajudar muito.

– SAIAM DE PERTO DELE! – trovejou Shyon, e todos obedeceram, deixando-o onde estava, sangrando, machucado, com as roupas rasgadas, caído no chão com o olho roxo e com vários outros hematomas. O olhar dos dois se encontrou. – Não seria de agrado de nossa anciã que vocês o matem.

Ele é um traidor! – gritou um jovem que espancara Zed, aparentemente Dan.

– Ele usufruiu das técnicas proibidas, está certo – concordou Karma. – Mas não o matem. Deixe-o ir com suas próprias forças para que morra sozinho, na floresta, para que possa pensar melhor em seu crime.

Zed riu, para a surpresa de todos.

– Por que ter piedade de mim, anciã? Por que não me matar logo e acabar com isso? – ele tentou se levantar, cambaleando, e ainda sorrindo debochadamente. – Vamos lá. Por que não me golpeiam com uma lança logo?

Dan colocou sua Naginata no pescoço de Zed.

– Mais uma palavra...

– Não! – Kyrie gritou e se entrepôs entre os dois, abrindo os dois braços.

– Não toque nele, Daneryus! – gritou Karma. – Não posso renunciar aos meus votos, Zed. Permitir que um homem seja morto é contra tudo que acredito.

Zed cuspiu no chão, deixando-o vermelho com seu sangue.

– Você é fraca. Todos vocês são fracos com esse papinho de equilíbrio! – ele se virou para Shyon, que estava calado. – Principalmente você, Shyon. É o rei dos fracos, filho do homem mais fraco que já se houve na face de Ionia!

Shyon cerrou os punhos.

– Vai ficar aí e continuar a proferir baboseiras, garoto?! – gritou.

– Ainda se recusam a me matar – respondeu.

– Eu teria o maior prazer em executá-lo, Chanceler – disse Dan. Ele abaixou a arma para Kyrie, que tentava proteger o amigo –, e não teria problemas em ter de matar esse aqui também.

– Não ouse derramar sangue em um templo, garoto tolo – disse Karma.

Zed pôs-se a rir novamente.

– Como consegue ser assim, Karma, tão hipócrita? Estamos num templo ninja, não na sua maldita capital! Aqui nós treinamos com armas para matar, não para meditar em um monastério, sua grande tola!

Ela recuou, ofendida.

– Vá embora antes que eu ignore todos os avisos de Karma e te mate, garoto imprestável – gritou Shyon.

– Tudo bem – respondeu Zed –, eu vou. Agora vá lá, seu filho já deve estar quase totalmente restaurado. Abrace-o, e diga que já mandou embora o garoto que o picotou em pedaços, por que não foi capaz de superá-lo. Eu nunca teria vencido sem as técnicas proibidas, eu sei. Mas eu nunca teria procurado se tivesse alguém para me treinar. Alguém que tentasse ser meu mestre – ele parecia estar chorando, e todos teriam se comovido, se ele não continuasse a falar... – Mas agora é tarde. Agora é tarde para pedir perdão, Shyon. Um dia eu irei acabar com tudo isso, um dia eu irei matá-lo e assassinar cada um de vocês, filhos da puta!

Todos pareceram se irritar com ele, que se virou e foi embora, batendo pés.

– Deixem que ele vá – gritou Shyon.

Kyrie, chorando, saiu correndo em direção a Zed, mas foi barrado por Akali, que o segurou, impedindo que ele continuasse.

– ZED! – ele gritou, aos prantos.

– Você fica! – murmurou Akali.

– E tudo isso aconteceu por que você não soube ser um pai para um garoto órfão! – repreendeu Karma.

O conselho estava todo reunido, menos por Kelsen, que optou por chorar na cama, enquanto era consolada pela filha. Àquela altura, Akali já devia saber tudo sobre a expulsão sem sentido do pai, e agora era rezar para que ela não fosse pro lado das sombras como Zed.

Shyon parecia irritado com o que Karma falava, mas não dizia nada furioso em troca.

– Eu disse que você levaria esse templo à ruína, Shyon – ela disse. – Eu disse!

– E o que você queria que eu fizesse? Eu estava certo o tempo inteiro. Zed era o garoto da profecia. Você e Kelsen pediram tempo. Eu dei tempo. E no final das contas eu estava certo.

Um homem velho e barbudo interveio.

– Acalme-se, Chanceler. Você pode estar certo o tempo inteiro, mas não se esqueça de que parte disso foi culpa sua.

Shyon soltou uma gargalhada.

– Culpa minha? Aquele garoto sempre foi uma praga. Eu sempre soube que ele era o da profecia, desde que o olhei nos olhos quando era neném, e fora deixado no portão desse templo.

– Isso não vem ao caso – disse Karma.

– Claro que vem. Ele seria o da profecia mesmo se eu desse amor a ele. Aí ele iria querer mais ainda derrotar o Shen, pois teria uma competição pela minha atenção.

O homem velho e barbudo pareceu pensar na possibilidade.

– Vendo desse jeito, anciã, até que faz sentido. Shyon não é culpado.

Shyon sorriu.

– Está vendo. Ele está certo, eu não sou culpado. De toda a forma, anciã, seu trabalho por aqui acabou... eu espero.

Karma sorriu largamente.

– Claro. Já descobri quem é o garoto da profecia, e posso, agora, voltar para a capital para informar aos anciões-chefes sobre isso. Irei contatar aos meus homens que iremos o mais rápido possível. E tem mais uma coisa: lembra de quando eu disse que você levaria esse templo à ruína.

– Você acabou de dizer.

– Muito bem. Só quero voltar aqui quando isso acontecer. Não antes, mas quando a ruína bater à sua porta – ela sorriu novamente. – Obrigada por tudo, Chanceler Shyon – e foi embora.

Notas finais
Karma voltará para a capital, e promete não voltar à Kinkou até que sua profecia se cumpra.