Capítulo 10:

Katarina – Kalamandra

A vila de Kalamandra estava bastante movimentada naquele dia. Um sol brilhava lindamente no céu – que, diferente de Noxus, estava sem nuvens escuras – e várias pessoas andavam para lá e para cá.

A vila era grande e bonita: haviam montanhas ao horizonte, várias casinhas humildes, uma bonita praça, estalagens, mercados na rua, cavalariças, um moinho e uma imensa pedra violeta cintilante no meio da praça, dando uma beleza incrível.

– Há muitos anos, os moradores de Kalamandra encontraram essa pedra – disse Sir Lyam, um cavaleiro de meia-idade, à Katarina Du Couteau. Ela observava a beleza da cidade com seus olhos verdes devastadores. – Depois eles a trouxeram aqui e a deixaram de exposição. Agora, encontraram mais três minas cheias de ouro e pedras preciosas; tais minas são as quais iremos ajudar a escavar.

A viagem de Noxus à Kalamandra durou apenas duas horas a cavalo, mas foi o suficiente para deixar Katarina acabada. Ela sentia dores por toda a área da virilha, mas só viria a senti-las com mais frequência quando descesse do cavalo. No momento, ela estava fascinada demais para sentir qualquer dor. Ao seu redor, várias crianças olhavam para ela e apontavam, com um olhar de orgulhoso, como se ela fosse uma divindade que desceu do céu. Eles sorriam ao vê-la e ver seus soldados, e seus olhos brilhavam tanto quanto suas lâminas.

Mais à frente podia se ver mais moradores, mas nada de Demacianos.

– Onde estão os Demacianos? – perguntou Kat ao Sir Lyam, enquanto olhava para todos os lados.

Ele riu.

– Você quer dizer: onde está Garen Crownguard, não? – Ela olhou para ele rapidamente com um olhar devastador; furioso. – Bem, hehe – ele hesitou. – Eles estão mais ao longe, nas minas. Um corvo disse que eles preferiram por chegar um dia antes.

– Demacianos – disse ela.

– Demacianos – ele repetiu.

Eles seguiram para a cavalariça mais próxima, onde guardariam seus cavalos. Lá haviam muitos outros cavalos: Cavalos Demacianos. Eles tinham pelos sedosos e a maioria eram brancos. Usavam celas de ferro, como uma armadura. Katarina riu ao ver aquilo, e comentou:

– Os Demacianos devem ter as bolas esmagadas com essas celas ridículas – e toda sua guarda pôs-se a rir feito idiotas.

Katarina arrumou seu cavalo ali, onde ele seria cuidado pelos cavalariços locais, e só voltaria a ser usado semanas depois, quando eles voltariam à Noxus, quando tudo aquilo acabaria. Quando tudo isso acabar, dissera o pai de Kat antes que ela partisse, nós teremos bastante ouro. Ele era um homem bom e competente, mas pensava demais em dinheiro e bens. Se tinha ouro no jogo, ele iria. Mas como tinha assuntos a tratar em uma outra cidade, ele teve que mandar sua filha, Katarina.

Sir Lyam olhava instintivamente para as inúmeras lâminas da Lady Kat.

– Pra que tantas adagas? – perguntou.

Ela se virou para ele com um olhar sem emoção. Sua cicatriz a deixava mais sinistra do que o normal.

– Não posso ostentar o título de Lâmina Sinistra sem leva-las para todos os cantos. Fora que papai me ensinou a sempre me precaver ao estar perto de Demacianos, pois eles podem ter todo esse papinho de honra e politicamente correto, mas os ignoram completamente quando se tratam de nós, Noxianos – ela deu dois passos pra trás, virou-se e foi para a saída da cavalariça. Ela se virou rapidamente para ele, e disse: – Lembre-se disso!

Ele correu atrás dela.

– Onde pensa que vai? – perguntou.

– Vou fazer minha reserva na melhor estalagem que tiver por aqui.

Ele fez uma careta.

– Eu estava contando de irmos todos nós até lá para conseguirmos quartos para todos – disse.

– Como assim nós todos?

Ele pareceu indignado.

Todos nós: você, eu, os outros soldados.

O sapato de Katarina fazia um barulho engraçado quando batia no chão de paralelepípedo da rua. Ela se dirigia até uma estalagem imensa que poderia abrigar até três vezes os soldados e homens que ela trouxe. Isso por que viriam mais para ajudar a escavar, pois aquela era só a guarda pessoal de Katarina. Ela seria quem dirigiria as escavações ao lado de um dos seus Demacianos mais odiados: Garen Crownguard. Fora ele quem fizera a cicatriz nela.

Entrando na estalagem – um lugar grande, feito de madeira, cheio de soldados Demacianos fazendo reservas de quartos – ela deu de cara com ele: Garen. Ele era um homem alto e forte de cabelos curtos e castanhos, que sempre usava uma armadura Demaciana que era o dobro do seu tamanho, mas agora usava somente uma blusa branca que realçava seus músculos. Ele usava a calça da armadura, o que dava a ele um ar diferente.

Ao ver Katarina entrar, ele fez uma cara de interesse.

– Katy Du Couteau, a Lâmina Sinistra – os homens dele voltaram seus olhos para ela. – O que faz aqui, nessa estalagem tão humilde?

Não era tão humilde assim, afinal. Sabendo da visita de Demacianos e Noxianos, o povo de Kalamandra decorou a cidade e a limpou, deixando-a mais “habitável”, pois antes podia até achar fezes no meio da rua. Com a estalagem não foi diferente: o que antes era um lugar sujo, úmido e frio, agora era um lugar bonito, quentinho e aconchegante.

Katarina semicerrou um dos olhos – justo o olho da cicatriz.

– Vim fazer uma reserva; assim como todos vocês, eu quero ter um quarto aonde eu possa dormir em paz.

Um cara tomou a frente de Garen, com ódio nos olhos, disse:

– É você! – e apontou um dedo à ela. – Você é a vadia que matou meu irmão, Denzel, um dos homens da guarda de Demacia.

Katarina ativou seu sarcasmo e disse:

– Hum, bem, não lembro de nenhum Denzel, não. Só mato pessoas burras que correm, ou pessoas idiotas que ficam, então...

– Ora sua...! – ele partiu para cima dela, mas foi contido por Garen, que o segurou com braços fortes. Kat não precisou nem se mexer para que o punho do homem não a acertasse, e mesmo que ele não fosse contido, ela poderia abatê-lo em segundos.

– Sem brigas por aqui! – disse a mulher do balcão de reservas, que atendia um dos Demacianos.

– Calma aí, meu irmão – repreendeu Garen. – Você está consumido pelo ódio e cego pela vingança. Nunca parta desarmado em cima de um guerreiro que tenha catorze lâminas diferentes em várias partes do corpo... e que seja uma mulher de cabelos vermelhos, com uma cicatriz e com o dom de teleporte instantâneo.

Katarina riu.

O homem pareceu tentar se acalmar. Ele recuou, ainda com cara de ódio, e voltou à sua antiga posição.

Garen suspirou.

– E então, Katy, firmeza?

Ela cruzou os braços.

– Não tinha nada melhor para dizer, não?

Ele sorriu.

– Acho que não – mordeu o lábio inferior e continuou: – E então somos nós dois representando cada cidade-estado, não?

– É – ela respondeu. – Seremos só nós dois até o idiota do Jericho Swain chegar. Ele disse que vai a algum lugar antes daqui e possivelmente chegará em um dia – ela bufou.

Ele semicerrou os olhos.

– É, eu nunca gostei muito dele. Muito sombrio, todas nossas derrotas foram por causa da estratégia dele e também, odeio aquele corvo.

Katarina riu

– Bom, pelo menos temos algo em comum.

Os dois riram juntos.

– Os dois quase se matam e agora estão de namorico? – perguntou um dos Demacianos ali presentes.

– Calado, Jamie! – gritou Garen. Ele riu para Katarina, ela riu de volta, e os dois continuaram a conversar. – E como vai seu pai e irmã?

– Vão bem – ela respirou fundo; odiava falar da família. O pai era muito rígido e a irmã era muito chata. Mas mesmo assim ela os amava. – Meu pai não faz muito desde o último embate entre nossas cidades, e Cassiopeia está louca de amores por Keiran Darkwill.

Garen fez uma cara feia.

– Uh, eu sempre odiei aquele garoto.

– Mais uma coisa que temos em comum.

Os dois sorriram um para o outro.

Sir Lyam bufou; não gostava de ver Katarina sendo gentil com Demacianos, pois ela raramente era gentil com alguém. Ser filha do prezado Senhor Du Couteau fazia com que ela tivesse um passe livre para ser uma baita de uma filha da mãe. Talvez por ser uma garota ela estivesse flertando com Garen. Mas Lyam não se conformava: ele havia dado à ela uma cicatriz com um golpe de espada... no olho! Ela poderia ter que usar um tapa-olho pelo resto da vida, mas sorte que foi rápida o suficiente para fugir daquele golpe... ou quase fugir.

– Próximos! – gritou a mulher no balcão.

Garen fez uma expressão engraçada, algo como: “vamos lá”; como um sorriso hilariante e confortável à ela, menos para Lyam. Garen recuou.

– É minha deixa – ele disse. Os Demacianos ali, perto dele, seguiram mais para dentro na estalagem, que era bem grande. Eles iam até as escadas, onde encontrariam seus quartos. Kat acenou para Garen antes de ir. Ela havia se esquecido de que ele era o inimigo.

De forma bruta, Lyam agarrou Kat pelos braços, fazendo com que ela gemesse um “ai” e fizesse uma careta. Ele fez uma cara feia para ela, fazendo com que aquilo parecesse uma disputa de quem fazia a melhor careta.

– Que droga foi aquela? – perguntou à ela.

Ela tentou se desvencilhar das mãos do guerreiro, mas, sem sucesso, disse:

– Me larga, seu idiota!

– Antes de responda: você não flertou com ele, flertou?

Ela o empurrou.

– Claro que não flertei com ele, seu bastardo! – ela gritou, fazendo com que algumas pessoas ao redor olhassem para ela. – Antes de sair, meu pai mandou que eu procurasse não fazer inimizades. O primeiro passo para isso é sendo amiga de Garen Crownguard.

– E qual será o próximo passo? Ir para a cama dele?

Slap! Todos ao redor puderam observar o forte tapa que Kat deu nele. Sua bochecha ficou vermelha, e ele abriu a boca, gemendo de raiva.

Kat respirou fundo, apontou o dedo para ele, e disse:

– Próxima vez que falar algo do tipo... cortarei seu pau fora.

Ela foi até o balcão de reservas de quartos, e observou os seus homens virem em direção à estalagem. Assim seria mais fácil fazer as reservas, sabendo quantos homens eram, ao todo. Mas, infelizmente, todos eles teriam que dividir um quarto, ou talvez ficariam um número em um, e um número outro. Katarina ficaria com um quarto só para ela, aproveitando ser mulher.