League of Legends: As Crônicas de Valoran
59 Capítulo 56 - O Casamento Negro
Notas iniciais
Capítulo 56:
O Casamento Negro
Keiran encontrou Malek Hawkmoon caído no chão de seu escritório. Automaticamente chamou o pronto-socorro noxiano e o levou para o hospital. Malek era importante para ele, sempre fora. Mais importante até mesmo que seu pai. O velho Chanceler lhe ensinara tudo que ele sabia, fora seu professor, seu mentor. E agora estava de cama, inconsciente.
– Ele vai ficar bem – na cama, Cassiopeia acariciava seu peito. Os dois mal casaram e já dormiam juntos, no quarto que antes era de Boram, que por mais que o mesmo fosse viúvo, dormia em uma imensa cama de casal.
Ela se vestia com uma camisola, seus cabelos vermelhos-escarlate estavam soltos, deixando-a com uma aparência mais adulta. Keiran estava nu, mas coberto com um cobertor até a cintura. Os seus cabelos pretos estavam bagunçados e não foram cortados, ele gostava de deixá-los grandes, não tanto quanto os de Talon, mas na altura dos de LeBlanc.
– É o que eu espero, amor – ele respondeu. – Eu não sei o que faria sem ele, é meu segundo pai. Não aguentaria perde-lo, Cassie.
Cassie sorriu.
– Acho que sabemos muito bem como é perder um pai – ela deslizou a mão pelo abdômen de Keiran, descendo, descendo, descendo. – Mas eu prefiro não ficar falando de meu pai. Kael era um homem... rígido.
– Eu lembro – Keiran olhou para a frente, quase como se pudesse ver o sogro os observando de braços cruzados. A pouco Cassiopeia era uma garotinha, agora já era noiva e já transara trocentas vezes com o noivo. – Ele treinou o Draythe, se não me engano.
Cassiopeia agarrou o membro de Keiran com força.
– Eu disse que não quero falar sobre meu pai.
Ele respirou fundo duas vezes de boca aberta, um sorriso malicioso aberto.
– Claro – ele colocou a mão na nuca dela. – Eu estava imaginando o que ele pensaria nos vendo nesse momento.
Ela se ajoelhou na cama e passou o joelho direito por cima de Keiran, montando nele.
– Quero que se ele estiver nos observando, que veja tudo.
Ele já colocara as mãos nos quadris dela, quando a porta se abriu e um guarda adentrou. Keiran jogou Cassiopeia para o lado, temendo ser flagrado em seu próprio quarto.
– Senhor... – quando o soldado viu o que fizera, fez uma careta. – Me desculpe incomodá-lo num momento tão íntimo.
Keiran saiu da cama, não se importando em estar nu. Caminhou até o soldado, irritando, batendo os pés e de punhos cerrados. Fez uma cara feia para o homem e estava prestes a bater a porta na cara dele.
– Pois volte outra hora!
– Senhor...! – o soldado impedira que ele fechasse a porta. – Pensei que você gostaria de saber que Malek acordou do coma.
Automaticamente Keiran se acalmou. Engoliu em seco, olhou para baixo e depois para o soldado.
– Ah, claro. Me dê um minuto para que eu e minha noiva nos vistamos.
O guarda assentiu e foi embora.
[...]
Keiran adentrou ao quarto do hospital onde Malek estava. Vestira-se com sua armadura de grão-geral, uma capa e uma espada na bainha. Gostava de sempre estar seguro do que fosse acontecer, sempre estar um passo à frente – um verso que Malek sempre lhe dizia.
Entrou e viu seu antigo mentor deitado numa cama, uma visão deplorável do velho Chanceler. Ele estava com vestes brancas de hospital – que eram brancas até em Noxus –, deitado e coberto num leito. Ele tremia um pouco, tinha uma médica do lado.
– Malek... – murmurou Keiran.
O velho Chanceler o olhou, um olhar fraco, triste de velhice.
A médica se levantou, mostrando temor pelo futuro grão-geral. Ela tinha cabelos pretos e presos num coque, jaleco e saia preta. Ela tinha uma prancheta e caneta em mãos.
– Lorde Darkwill – ela disse –, que bom que veio – Cassiopeia apareceu logo em seguida, a mulher a olhou. – Senhorita Du Couteau. Bom, como podem ver, ele sofreu um choque muito grande. Não sei explicar o que deve ter feito ele ficar assim.
– Mas eu sei – os três olharam para trás para ver LeBlanc adentrando na sala do hospital, vestindo sempre as mesmas roupas. – Trabalho, muito trabalho. O velho Malek veio à minha sala para pedir ajuda com alguns papéis, coisas do reino, já que ainda estamos sem um grão-geral.
– Nosso casamento – Keiran pôs o braço ao redor de Cassiopeia – resolverá isso.
LeBlanc deu de ombros.
– Claro, um casamento sempre ajuda... Ajuda a ter despesas, despesas que o reino não pode arcar – depois de um discurso depreciativo ao casamento dos dois, ela sorriu. – Mas o fato é que Malek estava muito pressionado, tinha muita coisa na cabeça.
O velho ainda tremia.
– Emília... – ele disse, de forma fraca.
LeBlanc foi até ele bem lentamente, abaixou-se sobre ele, para que ele pudesse falar à altura dela. Ele se virou para vê-la.
– Diga, meu velho amigo – ela disse.
Malek agarrou o braço dela com toda a força que tinha, fazendo-a gemer. A médica assustou-se com o súbito acesso de raiva do velho, que tinha os olhos injetados de sangue, veias sobressaltadas e uma força descomunal, assustando até mesmo LeBlanc.
– O corvo – ele disse com uma voz alterada; seus olhos mudaram de vermelho para um azul-escuro-esverdeado cintilante. – A névoa está chegando. O corvo está chegando. As sombras estão chegando. AS SOMBRAS ESTÃO CHEGANDO!! – na última parte um estrondo abalou o castelo, derrubando várias coisas no chão, assustando a todos no território.
Quando LeBlanc se levantou, o velho voltou a dormir. Ela tremia e, pela primeira vez, parecia assustada. Poderia ser um prato cheio para Keiran vê-la daquela forma, mas tinha coisas melhores a fazer, como abraçar sua noiva assustada, e se preocupar com seu mentor, que acabara de ser possuído por algo e dissera coisas loucas. O corvo está chegando. Essa frase, mesmo sendo a menos sombria, foi a que mais o assustou.
– Preciso ir – LeBlanc passou por eles, ela tremia. Foi em direção à porta e não voltou mais.
[...]
Hoje as coisas fugiram um pouco do normal. Não imaginava que aquilo fosse ocorrer, foi deveras estranho. Malek deveria estar vegetando, não inconsciente. Teria eu errado? Teria eu feito alguma coisa errada? Errar chega a ser estranho para mim. Sempre estou um passo à frente dos outros, sempre tenho uma resposta, um argumento. Naquele momento eu fugi como a garota assustada que eu já fora. Como Keiran poderá me temer daquela forma? Como me odeio.
Hahaha, chega a ser estranho escrever a risada, mas preciso deixar claro o quanto estou rindo neste exato momento. Aquele momento foi patético, só aquele momento. Tenho uma carreira de planos, se olhar para trás. Tudo que já fiz deu certo, por isso estou viva. Desde o circo eu sempre fiz tudo certo. Se não tivesse o queimado, eu não estaria aqui, agora. Teria sido morta pelo tempo, sem mesmo ter conhecido a imortalidade.
Agora, um imprevisto me fez revisar todo meu plano. Toda a superstição da Ilha das Sombras nunca me afetou, mas em tantos séculos de vida, é impossível que eu nunca tenha presenciado fatos recorrentes daquele local. Sim, já presenciei coisas terríveis acontecerem. Já contei muito de minha vida nesse diário, e espero que ele só seja lido após minha morte. Ou seja, nunca. Mas talvez um dia eu me canse de viver, me canse de escrever.
A morte cai bem para algumas pessoas. Boram que o diga. Morreu e já está causando a destruição de Noxus. Keiran jamais será um grão-geral tão bom quanto o pai, que mesmo tendo erros, foi um homem sábio. Keiran e Cassiopeia não passam dos filhos mais novos e mais mimados da Casa Darkwill e Du Couteau, o completo oposto dos irmãos mais velhos, Draythe e Katarina.
Draythe é um amor de pessoa, meus deuses, como um garoto pode ser tão gentil e tão delicioso? Desde pequeno demonstrou interesse em batalha, e mesmo sendo bruto de vez em quando, era calmo, simpático e educado. Diferente de Keiran que fora mimado pela falecida mãe, aquela vadia piranhuda na qual eu não pretendo citar nem mesmo o nome. Se ler a história de antes dos ocorridos em Kalamandra, saberá como ela foi. E sim, ponho no papel todas as grandes vitórias e derrotas de Noxus. Escrever é meu segundo hobbie, pois o primeiro é elaborar planos e métodos de espionar a vida dos outros. Pois quando a sua vida não tem nada de interessante, a dos outros se torna algo exuberante de se ver.
E olhe só, a vida noxiana é algo incrível. Tenho olhos por toda a cidade e já vi todo o tipo de barbaridade nas quais prefiro não citar, assim como a piranha da mãe do Keiran. Aquela puta.
Voltando ao que interessa: a vida noxiana. Se você não é rico e está sempre em festinhas em mansões, bebendo e falando de coisas fúteis – fornicando e fazendo orgias na parte da noite –, você é um merda. Em Noxus, ou você vive bem na sociedade, ou você vive na merda, ou você luta pela cidade e desfruta das duas primeiras opções. Pois guerrear batalhas faz de você um peão de xadrez, podendo ser eliminado e fodido por espadas demacianas o tempo todo. Isso é viver na realeza e na merda ao mesmo tempo.
Gosto de me ver como uma rainha. Swain, o meu rei. Desde o primeiro momento no qual vi aquele garoto, já podia o imaginar reinando. Sonho com esse dia há anos, com o dia em que Boram morresse, mas Swain não poderia subir ao trono sem mais nem menos. Precisaríamos de muito preparo e nas últimas épocas Swain ainda ascendia no jogo dos tronos.
Esse ano foi decisivo, isso é claro. Desde o começo, vejo as coisas acontecerem rapidamente. Foi um ano veloz. Lembro-me de quando encontrei Keiran assentado no trono, há meses atrás, fingindo ser rei. Lembro-me de cada palavra que eu dissera a ele, a forma como ele se interessou na morte do pai. Rio quando lembro desse acontecido. É bom demais para mim, meus deuses.
LeBlanc foi interrompida de sua escrita por dois toques na porta. Olhou para seu diário, para a porta. Fechou-o, deixando um marcador aonde parara, e pediu que abrisse a porta, quem quer que estivesse do outro lado.
– Entre.
Um soldado entrou, fez uma reverência e disse:
– O senhor Keiran a chama para a cerimônia de casamento.
LeBlanc arregalou os olhos.
– Ah, é mesmo. Como pude me esquecer que era agora? Fiquei tão perdida em pensamentos... Ai, ai – fez um movimento para que ele saísse. – Vá e diga a ele que eu já estou indo. A propósito, qual seu nome?
– Rick – ele respondeu. – Me chamo Rick, senhora.
Ela fez um charme.
– Caso queira me visitar em meu quarto qualquer dia desses, Rick, eu adoraria tê-lo ao meu lado.
O guarda corou.
– Claro, senhora, tudo o que desejar.
Ele foi embora, ela voltando a se sentar bem lentamente. Um pensamento não saía da sua cabeça: Swain. Saiu da cadeira e olhou pela janela. Podia ver a carruagem de Jericho chegando, acompanhada de outras duas. Sorriu. Voltou ao diário.
Finalmente o casamento negro começou. Digo negro por ser um casamento em Noxus, não por ser feito por pessoas negras, e você – seja lá quem for que esteja lendo – entendeu.
Ver as carruagens de Swain me deixou excitada, mais pela parte de que uma nova era pode estar começando. Isso me anima, me deixa mais do que feliz. É uma pena ver Cassiopeia tão feliz com esse casamento, mas o fato de Keiran ter visto o vestido antes do casamento trouxe uma má sorte tão forte. Pobrezinha.
Hahaha.
Novamente sinto necessidade de registrar a risada.
Estou indo, agora, para o casamento. O último no qual eu fui foi o de Boram com a piranha da esposa dele, isso há mais de trinta anos. Ou seja, não lembro como eles são feitos. Só sei que tem a cerimônia e depois vem a festa, claro.
Pelo que sei, um padre faz a cerimônia, isso em Demacia, mas e aqui? Não me lembro de Noxus ter um Deus, e se tem, ele não é o melhor exemplo a ser seguido, não tanto quanto o de Demacia, haha. Mas é só uma cerimônia, podemos dizer.
Antes de sair eu gostaria de deixar algo bem claro para você, diário.
A Rosa Negra irá desabrochar novamente.
[...]
Na igreja noxiana haviam dezenas de pessoas sentadas nos bancos, todas conversando e olhando para trás, para a entrada, para ver a noiva chegar. Todos se vestiam de forma formal, com ternos, gravatas, sapatos e calças sociais, vestidos modernos e cabelos super bem elaborados. LeBlanc optou por vestir-se da forma que todos estão acostumados a vê-la, apenas trocando a calça preta de couro por uma saia.
Sentou-se ao lado de um casal, que pareceram desconfortáveis com a presença dela, chegando para o lado, espremendo-se no banco, mas nem mesmo encostando em Emília, que apenas olhava para a frente e sorria.
LeBlanc podia ouvir o sino da igreja tocando, convidando a todos que participassem da cerimônia e da comemoração.
Ela podia notar vários detalhes na catedral que lhe eram bastante familiares, que lhe causavam nostalgia. Havia o desenho de um corvo gigante no chão, embaixo dos bancos imensos – Ah, me lembrei, a divindade que noxianos veneram é um Deus-corvo –, o local escuro, cheio de velas e candelabros, as bandeiras retangulares das Casas Nobres pendurados – o brasão dos Darkwill não passava de um corvo imenso de seis olhos, como Beatrice se apresentava algumas vezes; o brasão dos Du Couteau era duas adagas cruzadas e ensanguentadas, banhadas em um vermelho exuberante que representava a cor do cabelo dos Du Couteau –, e vários outros detalhes.
No altar estava Keiran, com sua armadura de grão-geral e capa. Muitos demacianos e noxianos comuns se casariam vestindo ternos, ele não. Ele era um Darkwill, um futuro Alto Comandante.
Nas extremidades do altar ficavam alguns padres menores com mantos negros até o chão. Eles pareciam fazer uma reza para o Deus-corvo, pedindo proteção àquele lugar. O mais bizarro era que rezavam em voz alta, numa língua estranha.
Havia, também, um órgão gigantesco numa parte do altar. Um homem vestindo roupas sociais sentava-se num banquinho à sua frente, esperando a entrada da noiva, pois quando ela entrasse, começaria a tocar a tão clamada marcha nupcial.
O padre-chefe estava ali, alguns degraus à cima de Keiran, vestindo um manto cheio de ornamentos escuros com penas negras. Ele usava um chapéu engraçado, parecido com o que LeBlanc usava, só que menor e preto. Ele era velho, um pouco mais novo que Malek, mas velho.
Quando as portas se abriram, a marcha nupcial começou a ser tocada e Cassiopeia pôde ser vista acompanhada de um outro homem, que a levaria para o altar. A luz do sol finalmente dera as caras em Noxus, e podia-se ver milhares de cidadãos se espremendo do lado de fora para ter uma boa visão do casamento.
Cassiopeia estava linda, vestindo um vestido preto decotado com uma cauda tão grande que teve de ser levado por dois jovens aleatórios. Seus cabelos vermelhos vivos foram trançados numa trança fenomenal, deixando-a com a aparência típica da realeza. Ela usava pulseiras escuras e joias brilhantes, estava perfeita.
Keiran sorriu ao ver a esposa, mas ao ver quem levava-a até o altar, fez uma cara surpresa.
Todos fizeram sons de surpresa ao ver que quem levava Cassiopeia até o altar era nada mais nada menos que Jericho Swain, vestindo um típico sobretudo preto, botas pretas, luvas pretas e seus cabelos escuros penteados para trás. Ele vinha com a noiva, o braço dos dois cruzados, andando a passos lentos e ritmados.
– Todos estão olhando para você – sussurrou Cassiopeia.
Swain sorriu.
– Gostaria que o foco estivesse só em você, certo? – ele deu uma risadinha. – Tão vaidosa, nem parece filha de Kael.
– Deveria ser ele aqui, não você.
Swain olhou para ela de soslaio.
– Sua tortura logo terminará.
Swain chegou até o altar, entregou a noiva para Keiran e lhe lançou um olhar malicioso. Os dois se encararam por alguns segundos, Swain fez uma reverência, e tornou a se sentar na frente, do lado de Emília LeBlanc.
– Chegou na hora certa – ela disse. – Como conseguiu convencê-la a fazer isso?
Ele sorriu.
– Beatrice, por acidente, atacou o lorde que a levaria ao altar – ele balançou a cabeça. – Eu a puni por isso dando-lhe uns aperitivos.
– Mas que tortura terrível – ironizou LeBlanc. – Seu sem coração.
Os dois riram juntos, de uma forma que ninguém percebesse.
Após Jericho sair de cena, Keiran deu o braço à ela, sorrindo, e ela retribuiu. Os dois subiram as escadas da catedral até o padre, passando por dois pilares que sustentavam estátuas de divindades. O Deus-corvo de um lado e a Deusa-da-magia de outro. Atrás do padre havia uma vidraça belíssima com cores azuis, roxas e escuras, fazendo o desenho de, adivinha só, de um corvo.
Como parte da cerimônia, o padre abriu uma caixa com a coroa-negra de Keiran, e a tiara real de Cassiopeia. Keiran pegou a tiara e, formalmente, colocou em sua cabeça. Ela fez o mesmo com a coroa. O padre disse umas coisas a seguir, coisas que podem ser facilmente ignoradas.
Cassiopeia estendeu a mão e Keiran colocou a dele por cima da dela. O padre pegou na mão dos dois e começou a dizer:
– Declaro que Cassiopeia da Casa Du Couteau e Keiran da Casa Darkwill – fez uma pausa curta – são uma só carne, um só coração pulsante, uma só alma cintilante.
– Odeio muito essa parte – murmurou LeBlanc.
– E que o Deus-corvo amaldiçoe aquele que causar mal a este casal que se une sob sua presença – continuou o padre.
Keiran pegou na mão da esposa e se virou para o público.
– Com este beijo eu selo meu amor eterno pela minha esposa – ele respirou fundo, olhou de soslaio para Jericho Swain, e prosseguiu –, e pelo reino de Noxus. E prometo que liderarei tão bem quanto meu pai – virou-se para Cassiopeia, que sorria.
Pôs a mão em sua nuca e a beijou, um beijo longo e belo. Em seguida, todos aplaudiram, até mesmo Jericho e Emília, que pareciam um casal agourento numa multidão de pessoas que só queriam o bem do casal.
O casal se virou para o público, sorrindo, sorrindo muito e acenando.
– Parece que Noxus virou um reino – comentou LeBlanc. – Eu gostava de ter um Alto Comandante. Agora tenho um rei.
– Não por muito tempo – sorriu Swain. – Farei Keiran repensar sobre seu reino.
[...]
O festival, a comemoração do casamento foi algo lindo, algo exuberante de se ver. Fora feito ao ar livre, o sol brilhando no horizonte, algo estranho de se ver em Noxus. Talvez a Deusa-da-magia tivesse os abençoado naquele dia tão bonito.
Haviam muitas mesas retangulares imensas, gigantescas, cobertas por um forro verde escuro. Havia todo o tipo de comida nas mesas, várias pessoas sentadas em bancos na mesa, comendo, conversando e rindo. Eram pessoas claramente nobres, vestiam-se de forma sensacional.
Havia, também, muitas formas de entretenimento: dançarinas, pessoas circenses fazendo truques de mágica, homens cuspindo fogo, e algumas mulheres que faziam se penduravam num pano preso a um poste e desciam nele, faziam acrobacias, giros de vários ângulos, enrolavam na perna e ficavam de ponta cabeça. Era incrível.
Havia uma tenda acima das mesas, uma tenda de um pano escuro-avermelhado, talvez para representar as casas nobres que se casavam. A tenda era sustentada por varas de ferro, deixando tudo bastante arejado.
LeBlanc e Swain andavam pelo local, por um tapete escuro-avermelhado que dividia as mesas. Ela parecia desconfortável com tudo aquilo, por algum motivo não gostava de coisas circenses.
– Não me sinto bem perto de tanto... circo – ela disse.
– Por que não? – Swain acenou e sorriu para uma pessoa, depois para outra. Elas pareciam dizer: “Que bom que veio”. Ele andava lado-a-lado com Emília, e mesmo assim não era o suficiente. Ela queria ficar mesmo agarrada com ele. – É estranho vê-la com medo de algo.
Ela quase se apavorou quando viu um vestido de bobo-da-corte fazendo malabarismos e piadas para os convidados, que riam histericamente.
– Bem, circo não me traz boas lembranças.
Swain revirou os olhos.
– Ótimo, novamente parte do seu passado na qual eu não posso ficar sabendo. Francamente.
– Um dia eu te contarei mais disso.
Darius estava em um lado do perímetro, fazendo a guarda da festividade. Swain olhou para ele e acenou. O soldado fez um movimento com a cabeça, assentindo. Os dois pareciam falar telepaticamente um com o outro.
– Jericho Swain – se virou para dar de cara com um homem bastante conhecido. Era um homem grande e forte, vestido formalmente para o casamento. Usava óculos de lente e tinha um cabelo preto arrepiado. – É bom vê-lo novamente.
Swain sorriu e apertou a mão dele.
– Doutor Edmundo. O que um cientista zaunita como você faz por aqui?
Edmundo sorriu.
– Ah, eu vim quando soube que você havia se ferido. Vim com o doutor Stanwick, mas não tive a oportunidade de vê-lo. Somos doutores muito renomados, a elite de Zaun – virou-se para LeBlanc, sorriu. – Emília, também é muito bom vê-la.
Ela acenou.
– Doutor Mundo – disse sem emoção alguma. – Não pense que te ignorei, só que estou um pouco...
– Assustada? Acredite, eu também fico assim. Tenho medo de palhaços, haha – muitas pessoas passavam, indo de um lado para o outro, sempre cumprimentando Swain e o doutor.
Uma mulher alta e bonita, vestindo um vestido verde-claro e com adornos no longo cabelo negro apareceu, passando o braço pelas costas de Edmundo.
– Não vai me apresentar a eles não, amor? – ela perguntou.
Edmundo sorriu para ela e para os dois.
– Jericho Swain e Emília LeBlanc, essa é Virgínia, minha esposa – ele apontou para um jovem a uns metros deles, paquerando uma garçonete. Deveria ter uns vinte e dois anos. – E aquele é um aprendiz de um amigo meu. Ele quis vir, não pude impedir. Ele se chama Warwick.
– Incrível – disse Swain. – Mas e Singed, como ele vai? E o Pididly, não veio?
– Singed está cada vez mais insano e o Pididly não gosta de casamentos, mesmo este, que está cada vez melhor. A comida, sensacional.
Swain fez uma reverência.
– Foi muito bom o papo, mas preciso ir andando. Tenho muitos convidados para saudar... Algo que era dever do anfitrião, o rei. Mas fazer o que.
Edmundo fez uma cara feia.
– Era você quem deveria estar naquele trono, não ele. E ele já está se autodenominando rei?
Jericho assentiu.
– É como se ele estivesse envenenando o sistema político e militar noxiano – balançou a cabeça; LeBlanc ria internamente com a estratégia de Swain. – Não existe mais o grão-geral, nem mesmo Alto Comandante. Mas o que posso fazer? Ele se casou tão rápido que nem se pôde contestar o trono. Só recebi a carta dizendo sobre o casamento ontem, acredita?
– Sério?
– Sim. Eu estava lá, lutando por Noxus e ele aqui, fazendo casamento. Vê Katarina? Ela não pôde vir ver a irmã casando por causa da pressa e medo do rei – balançou a cabeça novamente. – Katarina já deve ter lutado a batalha contra Jarvan III a esta altura do campeonato. Rezo ao Corvo que a traga em segurança para Noxus novamente.
– Faço o mesmo – Edmundo fez um sinal de reverência.
[...]
Depois de falar com Edmundo – mais conhecido como Mundo –, Swain conversou com mais uma dúzia de casais e várias outras pessoas avulsas. Era muito conhecido e adorado. Todos gostavam dele. Aproveitava disso e repetia tudo o que disse para Mundo, causando uma dúvida a eles, uma pergunta interna de: “Será que Keiran é realmente um bom líder?”. Funcionou. Enquanto passava pelas mesas, era saudado e podia ouvir a conversa deles de longe. Conversavam sobre ele e sobre Keiran. Todos o defendiam. Ficava feliz com aquilo.
– Ardiloso, você – LeBlanc disse quando os dois, por fim se sentaram e puderam beliscar algum aperitivo. – Nem precisei abrir a boca para dizer uma palavra.
– Acredite se quiser, mas foi melhor assim – Swain mordeu uma maçã. – Só trabalhei com verdades. Hoje eu vou te mostrar que uma verdade bem contada pode ser mais destrutiva do que uma mentira ardilosa.
Ela fez uma cara de deboche.
– Ah, claro. Adorarei vê-lo acertar tal teoria – pegou uma uva e deu na boca de Swain, que sorria maliciosamente para ela. – Muita coisa ainda há de acontecer, não?
Ele fez uma careta.
– Não acho – a música de fundo deixava tudo mais divertido. – O desfecho está se aproximando, tenho certeza.
LeBlanc riu.
– Se quer saber bem sobre essa sua teoria da verdade, saiba que eu a utilizei bastante ultimamente.
– Sério?
– Claro. Quem você acha que plantou a desconfiança sobre a liderança de Keiran dentro do exército. Quando Boram pediu que eu organizasse sua caravana, aproveitei. Foi fácil, e mesmo que todos tenham morrido de forma trágica, eles fizeram o trabalho sujo e espalharam a desconfiança para os amigos.
Swain deu uma piscadela para ela. Os dois sempre pareciam estar flertando um com o outro.
– Sempre ardilosa. Gosto desse seu jeito.
Ela suspirou.
– E quanto ao príncipe?
– Eu o guardei nas masmorras.
Ela ficou séria.
– Você não vai acreditar quem eu encontrei lá – ele sorriu debochadamente.
[...]
As mesas do “rei” eram maiores do que as outras. Haviam ao todo, três mesas paralelas, uma vermelha para Keiran e para Cassiopeia, e outras duas para membros importantes do reino e da cidade. Pessoas importantes e ricas que ajudaram a financiar o casamento.
Keiran estava sentado à sua mesa, coberta por uma tenda rubra e uma estrutura de ferro. Havia alguns soldados atrás dele, guardando a sua segurança. Podia ver tudo o que acontecia na festividade. Mesmo assim estava entediado. Não conversava com Cassiopeia naquela situação. Preferia se entreter com dançarinas que dançavam numa espécie de arena que ficava à frente da mesa real e atrás das mesas menores.
– Estou feliz em ver tudo isso – após o incidente no hospital, Malek Hawkmoon acordara como quem acorda de um cochilo da tarde. Para a alegria de Keiran, ele pôde ver o casório, mas parecia um tanto mais avoado do que de costume. Se distraía fácil e tinha dificuldades em prestar atenção. Continuava o mesmo, mas parecia que o tempo todo estava tentando se lembrar de algo distante, de uma parte de sua mente que fora arrancada. – É bom ver cores. De certa forma estou cansado de tanto preto.
Keiran só se concentrava em uma coisa: Jericho Swain. Ele andou pela festa inteira, conversando com todos os convidados. De certa forma Keiran queria fazer aquilo, seria o que um grão-geral normalmente faria. Mas gostava de uma postura mais imponente, a postura de um rei, não de um general.
– Consegue ouvir o que ele diz? – perguntou a Malek.
– O que disse? – o velho se distraíra novamente.
– Esquece!
Cassiopeia chegou mais pra perto do seu esposo, temendo que ele ficasse daquele jeito a festa inteira, só por causa de Swain.
– Amor, esqueça ele. Acabou de voltar de Kalamandra, tem muita história a contar aos convidados – não obteve sucesso. Keiran não tirava os olhos raivosos de Swain. – Olhe, é possível que minha irmã volte amanhã, e também o seu...
Keiran colocou o dedo na boca dela, impedindo que ela continuasse a falar.
– Prometi que não falaria sobre seu pai, então evite mencionar Draythe e até mesmo Katarina.
Ela respirou fundo.
– Claro, amor. Tudo o que quiser.
Jericho Swain saiu de sua mesa e foi em direção ao “rei”, passando pelo palco/arena que ficava à frente dele. Notou que no chão dali havia um corvo estampado com duas adagas cruzadas atrás dele. Havia muita decoração naquele estilo. Inclusive, perto dali havia uma estátua de corvo.
Se colocou à frente do rei, e foi naquele instante em que a atenção de todos se voltou para Jericho.
– Poderia eu fazer um pronunciamento? – pediu a Keiran.
Keiran se levantou da cadeira, pronto para dizer não. Mas sabia que se dissesse a coisa errada, pagaria caro. Por fim, respondeu:
– Por que não?
Swain deu as costas para Keiran e se mostrou para os convidados. Ali mesmo começou a falar, de um jeito que todos puderam ouvir.
– Nos últimos meses estive fora nas escavações em Kalamandra – disse. – Se vocês leem o Jornal da Justiça, devem saber que a situação acabou por se esquentar após a audácia de Jarvan IV ao tentar me assassinar. Decretei guerra a Jarvan III e ontem mesmo estávamos prontos para guerrear. Mas ao saber sobre esse casório incrível de meu meio-irmão Keiran, não aguentei. Tive de vir. Deixei Katarina Du Couteau encarregada de liderar em meu lugar.
– Então o senhor fugiu da guerra? – perguntou Keiran de forma debochada. Todos riram daquela situação, um mar de risadas fazendo com que Swain se irritasse por dentro, mas se conteve.
Ele respirou fundo.
– Para começar, senhor “rei” – fez o sinal de aspas com os dedos –, quem liderou Noxus em Kalamandra desde o começo foi eu e a herdeira dos Du Couteau. Fui eu quem contestou a retirada de Noxus das escavações e consegui mais tempo. Fui eu quem capturou a testemunha que Demacia conspirou contra nós. Fui eu quem derrotou Jarvan IV e o trouxe como prisioneiro – todos exclamaram com aquela afirmação, espantados com o que ele dissera. – Isso mesmo, meus caros amigos. Eu trouxe Jarvan IV de presente de Kalamandra, e na noite anterior Katarina Du Couteau e Draythe Darkwill lideraram as tropas contra Demacia. Mas, de acordo com uma carta enviada pela mesma, algo de diferente alterou os rumos da batalha, que acabou por não acontecer.
Cassiopeia nunca se importou muito com a irmã, sempre a odiou. Mas naquele momento sentiu-se preocupada.
– O que houve? Ela está bem?
Swain assentiu.
– Ela está ótima, mas muitos soldados de ambos os lados morreram – as pessoas começaram a falar em uníssono, comentando e se perguntando o que deveria ter ocorrido. Swain esperou o silêncio para continuar. – Bom, logo eles chegarão até a cidade, para nossa alegria – virou-se para Keiran. – Mas não foi por isso que vim.
– Pelo que veio, afinal? – ele perguntou.
Swain colocou os braços para trás.
– Vim aqui para desafiá-lo para um duelo.
Keiran começou a rir, chegou a quase se engasgar de tanto gargalhar.
– Eu? Duelar com você? – riu mais ainda.
– Não entendo por que está rindo.
– Será que você não entende que estou me casando? Enlouqueceu? Quer estragar minha festividade, é isso?! – ele rangia os dentes, podia ver claramente a sua raiva. Todos os convidados estavam espantados com o súbito ímpeto raivoso do rei. – Eu sou o grão-geral, o Alto Comandante... Eu sou o rei. E nenhum duelo mudará isso.
– Na verdade, de acordo com uma lei noxiana, quando um grão-geral morre, abre-se uma vaga para qualquer um assumi-la – Swain estudara as regras e leis noxianas por anos durante seu treinamento com LeBlanc. Tudo parte do plano. – O herdeiro do antigo líder pode assumir, mas qualquer um que o desafiar e o derrotar poderá ficar com o trono.
Keiran engoliu em seco.
– Amor – Cassiopeia chamou, preocupada –, por favor, não aceite esse desafio.
– Se não aceitar será dado como covarde! – finalmente Malek dissera algo importante.
Keiran podia ouvir vários convidados debatendo sobre a lei, confirmando-a. Muitos diziam coisas ruins sobre ele, sobre ser um covarde.
– Aceite o desafio! – gritou um convidado.
– É, aceite!
– Não seja covarde. Aceite!
Swain sorrira maliciosamente para Keiran, envolto a dilemas e medo. Todas aquelas vozes como um uníssono, pedindo por uma batalha. Keiran não sabia o que fazer, se aceitava ou não. O medo era grande, mas se esquecera de uma coisa.
– Você é um ótimo espadachim, Keiran – lembrou-lhe Malek. – Batalhe!
Keiran tomou fôlego.
– Ótimo. A voz do povo é a voz do Deus – cerrou os punhos. – Eu duelo com você, Jericho Swain!
Puderam se ouvir dezenas e centenas de palmas. Todos estavam animados e ansiosos, o dia não poderia melhor.
Na verdade, poderia sim.
[...]
O casamento se tornara um duelo de uma hora para a outra. De fato, todos já vieram preparados para a possibilidade de um duelo, já que em Noxus não existe essa de herança real. Ou você é forte, ou fraco. Mesmo assim as tropas estavam nas mãos de Keiran – com Draythe, Katarina, Riven, Swain e Darius fora –, logo ninguém iria se opor a ele.
O maior medo de Keiran era o de perder, claro. Seria de fato uma grande vergonha. Mas o casamento não seria desfeito – mas o casamento era para que ele se tornasse o líder. Essa era a questão. Ele só queria se casar para subir ao trono, não se importava tanto assim com Cassiopeia. Gostava dela, gostava de dormir com ela, mas aquele era o melhor momento para tentar assumir. Quando Swain voltasse de Kalamandra, ele teria perdido o jogo. Mas o mesmo foi mais esperto.
O palco que antes era o lugar de apresentação das dançarinas virara uma arena. Todos pararam o que estavam fazendo para observar o que iria acontecer, estavam ansiosos. A maior parte torcia por Swain, era mais que óbvio. Ele era conhecido e adorado, não tinha como torcerem mais por Keiran.
Só seria mais acirrada, a luta, caso fosse Swain versus Katarina.
Keiran não trocou de roupa, estava vestido para batalha e já tinha a espada na bainha. Só caminhou até a arena. Ironicamente ele não tirara a coroa. Era como uma afronta, dizendo que derrotaria Swain tão velozmente que a coroa não cairia de sua cabeça. Estava redondamente enganado.
Swain conversava algo com Darius, irritando Keiran. Que diabos falam tanto?, pensou. Estava indignado. Olhou para Cassiopeia, que sorria para ele. Viu o quanto ela estava linda e imaginou ficar ao seu lado pelo resto da vida. Parecia que finalmente tinha encontrado o amor, algo que não teve com seu pai e nem mãe. Mandou um beijo para ela.
Swain terminou de falar com Darius e foi à arena. Não mudara de roupa, permanecendo com aquele sobretudo preto. Só tinha uma espada em mãos, uma espada negra que lembrava um corvo, o cabo tinha desenhos sombrios e seu molde lembrava a de um demônio.
Keiran enfureceu-se ao ver de quem era aquela espada.
– Como ousa utilizar a espada de meu pai?! – gritou.
Swain ergueu a espada e brandiu a para frente de forma coreografada. Deu giros e ataques no ar, algo que lembrava esgrima, algo que lembrava Fiora Laurent.
– Não sei se sabe, mas antes de eu ir para Kalamandra, seu pai pediu que eu a usasse após a morte – sorriu. – Aliás, ele disse que queria que eu governasse Noxus, não você, não Draythe.
Keiran fez uma cara de desilusão, como se aquela notícia tivesse destruído seu mundo. Respirava ofegantemente, tentando não olhar para Swain.
– Não acredite nele, amor! – gritou Cassiopeia de onde estava.
Keiran respirou fundo.
– Mentiroso!! – gritou. – Vou aproveitar que estamos em duelo e vou esmagar a sua cabeça e fazê-lo pagar por zombar de mim utilizando uma roupa tão leve.
Swain abriu os braços.
– Eu gosto de me mexer. Você também está usando coroa. Pensa que sou cego e não percebi?
– É para mostrar que não preciso de capacete, pois sou um rei.
– Mas precisa de armadura – por algum motivo todos riram. A piada parecia mais atrativa vinda de Jericho. – Pensa que pode me espezinhar como fazia quando éramos jovens, certo? Mas agora devo lembrar-lhe que não sou mais um garoto de dezesseis anos, Keiran. Sou um homem de trinta e três e além disso sou um general. O que vem de você não me atinge mais.
Os dois se encaram por alguns segundos. Era um momento decisivo na vida dos dois.
– Veremos se eu não te atinjo – respondeu Keiran.
– Cuidado para não cuspir para cima, Keiran – riu Swain. – Sempre que você faz isso, cai na cara.
Keiran riu.
– Sugere que morrerei? Pois saiba que eu não irei morrer hoje.
Uma trombeta soou. A discussão estava para terminar, e a batalha para começar.
Malek Hawkmoon apareceu, andando até o centro da arena, se entrepondo aos dois. O velho arrastava o manto negro enquanto andava, a barba branca parecendo cintilar à luz do sol.
– Hoje, sob a presença dos deuses e dos homens – o velho recitou –, nos reunimos para... – ele levantou a vista para o castelo negro que parecia maior à luz do sol. Novamente se distraíra.
– Malek...! – chamou Keiran. – Malek!
O velho se sobressaltou, como se tivesse acordado de um transe. Todos riram, mas uma pessoa em especial riu mais: Emília LeBlanc, que logo em seguida levou uma taça de vinho à boca e tentou não rir enquanto bebia.
– Hoje, sob a presença dos deuses e dos homens... – Malek repetiu.
– Vejo que isso será hilário – LeBlanc disse de onde estava sentada. Sentava-se ao lado de Edmundo, de sua esposa e de seu ajudante, Warwick. Diversas vezes ela havia se insinuado para o jovem, que parecia se excitar com as tentativas dela de agarrá-lo em certas partes. LeBlanc era uma tarada.
– ...nos reunimos para presenciar um duelo que decidirá quem governará – Malek tomou fôlego, mostrando as desvantagens de ser um velho – Noxus, Keiran Darkwill, ou... ou...
– Jericho Swain – completou o próprio.
– ...Jericho Swain – continuou o velho. – Que o Corvo lhes conceda visão, sabedoria, velocidade, astúcia, e que a Maga lhes conceda poder, habilidade, resistência... – novamente tomou um grande gole de fôlego.
Infelizmente foi interrompido por Cassiopeia, que gritou, irritada com a demora.
– Chega! – atendendo ao seu pedido, a trombeta tocou novamente, interrompendo o falatório do velho Chanceler, que teve de retornar para onde viera.
Cassiopeia não aguentou, desceu da mesa de onde estava e correu até Keiran. Os dois se beijaram fortemente antes que ele fosse, ela se sentindo numa tristeza de verão, ele se sentindo num ímpeto invernal, precisando ser frio e calculista contra seu adversário.
Terminado o beijo, os dois se olharam e ela disse:
– Não morra.
– Não morrerei! – ela foi embora e ele se virou para Swain. – Vê, Jericho? A diferença entre nós dois?
Swain balançou a cabeça.
– Eu deveria ver alguma coisa?
Keiran ignorou.
– Eu sempre tive as garotas, enquanto você ficava no castelo, estudando... – Swain avançou nele com uma velocidade surpreendente, brandindo sua espada contra a dele, o barulho do choque de aço com aço dando as caras.
Keiran se defendeu e brandiu a lâmina verticalmente, mas Swain se esquivou saltando para trás. Novamente atacou, girando e atacando, Jericho apenas se esquivando, atacando de vez em quando, mas quando atacava, a força desestabilizava o oponente.
– Andou treinando, Jericho?
Os dois trocaram ataques, defendendo e trincando as espadas. Swain não dava uma abertura.
– Quando se luta contra oponentes de verdade – respondeu Swain –, garotos como você não causam danos.
– Ora, seu!
Keiran atacou com mais força, desestabilizando a posição de Swain e cortando-o de leve no braço. Swain deslizou para trás, fazendo um barulho de quando a areia corta a sola do sapato, e mantendo distância do oponente.
Keiran correu até ele e saltou, brandindo de cima para baixo, forçando Swain de defender de lado. Keiran atacou mais três vezes com toda a força, tentando força-lo a recuar. Foi quando Swain se lembrou da luta de Riven e Garen naquelas ruínas subterrâneas de Kalamandra. Inclinou a espada para o lado e, quando Keiran atacou pela quarta vez, ele deslizou e quase caiu no chão. Swain aproveitou e deu-lhe uma rasteira, fazendo com que ele caísse no chão.
Swain rapidamente se ergueu, viu a coroa de Keiran rolar pelo chão para longe. Fincou a sua espada negra na mão esquerda de Keiran, fazendo-o gritar e o só para causar-lhe dor. O sangue subindo e cobrindo a mão de vermelho. Todos vibraram.
Quando Swain ia matá-lo de vez, o mesmo se esquivou e estendeu a mão na direção do oponente. Foi quando Swain voou dois metros de distância com a simples explicação: magia. Keiran sabia usar levemente a telecinese, e naquele momento funcionou. Mas fora trapaça.
Ficou ali, ofegando e esperando o momento certo.
– Trapaceiro!! – Swain levantou-se e gritou, furioso. – O uso de magia estava vetado!!
– Trapaceiro! – gritou LeBlanc, de sua mesa.
Dr. Edmundo levantou-se do banco e apontou para Keiran.
– É, seu trapaceiro!
Mais e mais pessoas levantaram-se e gritavam, chamando-o de trapaceiro. Cassiopeia mandava que eles parassem.
– Parem! Deixem-no em paz!! – ela gritava.
Swain olhou para Keiran com desprezo. Via o desespero no rosto do jovem, sabia que seu próximo passo lhe entregaria a vitória. O plano. Sabia que se usasse magia àquela altura do campeonato, não faria diferença alguma.
Estendeu a mão direita para frente e ela brilhou em um tom escuro e verde-claro.
– Nuncamova – sua voz saiu sombria e modificada, de um jeito que daria calafrios em qualquer um, principalmente em Keiran, que conhecia tal habilidade.
Um círculo mágico se formou aos pés de Keiran, um círculo escuro com runas verdes que dava a impressão de girar. Penas negras de corvo saíam de dentro dele, e quando Keiran olhou para baixo e depois para Swain, garras brotaram daquele círculo e fincaram-se em seus pés. Ele gritou e saiu sangue de seus pés. A dor era tão insuportável que a espada quebrou.
Swain fez com que a espada voasse longe com telecinese, e andou até Keiran, que urrava de dor, mas não saía do lugar, pois seria pior.
Chegou até Keiran e colocou a mão em seu ombro, dando dois tapinhas.
– Seu reinado nunca sequer começou para que eu diga que acabou – estendeu a mão para o lado, e a coroa de Keiran voou para sua mão.
Em seguida, Swain colocou a coroa em sua própria cabeça e foi andando em direção de Darius. Apontou para ele e depois para o oponente preso ao chão.
– Darius – chamou.
Darius sorriu, puxou seu machado e foi andando até Keiran a passos lentos.
– Ao seu dispor, senhor Swain – falava formalmente, mesmo que não fosse de seu estilo. Seus olhos cintilavam, ele ansiava por aquela amostra de violência e sanguinolência.
Keiran tremia a cada vez que o machado de Darius fazia barulho no chão, um rangido terrível que dava medo em todos naquele recinto. Ninguém falava uma palavra sequer.
– Por favor, não... – ele chorava, estava desesperado. – Por favor. Eu faço qualquer coisa...
Darius sorriu de forma sádica.
– Então fique quietinho.
Tudo aconteceu muito rápido. Darius saltou a uma altura inumana, erguendo o machado acima da cabeça. Quando desceu, o machado dividiu Keiran em dois, partindo da cabeça para o resto do corpo, ignorando toda a armadura, cortando tudo, sangue indo para todo o lado. Finalmente as pessoas tiveram alguma reação. Gritaram.
Cassiopeia começou a chorar e gritar, com as mãos no rosto, não acreditando naquilo.
Darius, cheio de sangue de Keiran no rosto, ofegando, mas sorrindo, se virou para o povo e gritou:
– Saúdem o novo Alto Comandante Jericho Swain!!
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