Le Petit Carnaval

1 Capítulo único


Amanheceu.
As estranhas pessoas da Rua Himmel, depois de reconstruída, comemoravam a chegada do carnaval. Fora planejada uma grande festa perto da casa do antigo prefeito. Aquele lugar me trazia boas lembranças. Livros.
Naquela época era só uma criança. Muitos anos se passaram. Muitas mortes aconteceram. Eu e Max fomos dois dos poucos sobreviventes. Ele foi para outro lugar. De vez em quando me envia cartas. Eu as respondo. As palavras me fazem bem. Têm sido minha fuga por tantos anos...
Saí de casa por volta das 17h. Eu tinha em torno dos 25 anos quando ele apareceu pra mim. Ajudei o pessoal da rua com os enfeites. Eles buscam diversão. Eu buscava distração. Fiz todo o possível para fazer dessa Rua o que foi no passado. Viva.
Compraram bastantes bebidas e aperitivos. As crianças ajeitavam suas fantasias para pular carnaval. Seria uma noite animada. Eu também planejava ir. Meus novos amigos faziam questão da minha presença e por mais que eu não tivesse grande interesse, queria alegrá-los.
— Bom dia, Srta. Meminger! – O cara do carrinho de pipoca me cumprimentou. Eu apenas acenei tímida. Não conseguia mais colaborar com tanta felicidade.
Lá pelas 19h tudo já estava em seus conformes. Muita comida. A meninada fantasiada e aqueles “bate bolas” me assustavam.
Entrei em casa, estava praticamente pronta quando escutei um barulho. Alguma coisa caíra no chão. Devo ter ficado louca, foi o que pensei. Não havia mais ninguém em casa.
Continuei me arrumando. Ouvi de novo. Não era possível, tinha algo de errado.
Peguei “O manual do coveiro”. Seria minha proteção. Se fosse uma pessoa, gritaria por socorro, se fosse um bicho eu atiraria meus sapatos velhos. Fui chegando na sala vagarosamente. Não havia ninguém.
- Estou ficando paranóica. – falei para mim mesma.
- Não está não. – me responderam. Fiquei temerosa. Olhei novamente e não encontrei ninguém. Como a sala era pequenina, não tinha muito espaço para procurar. Mesmo assim, dei alguns passos.
- Aqui! Aqui em cima da mesa! – Um pequeno menininho com cabelos dourados me chamou. Seria um anjo? Eu finalmente encontrei a morte?
- O que você é? – perguntei. Ele não parecia nocivo.
- Tem algo para comer? – me perguntou.
- O que você é? – insisti.
- Estou com fome. Tem algo para comer? – Ele também insistiu.
Procurei o saquinho de pipoca que tinha furtado outro dia e entreguei a ele. Não perdi meu hábito de roubar, devia me envergonhar... Mas a verdade é que me traz boas recordações. Assisti o menino comer. Rolou uma simpatia quando percebi que tinha dificuldade para comer uma pipoca tão grande!
- O que há lá fora? – me perguntou. Que curioso!
- Vida. – respondi. O carnaval não tinha grande significado pra mim, mas me lembrava vida.
- Por que está tão triste? – ele percebeu.
- Não tenho motivos para ser feliz.
- Deve ser muito chato. Viver assim. – Ele se sentou. Bocejou umas duas vezes.
- O que alguém tão nanico sabe sobre a vida? — Touché.
- Por que não vai lá fora? – indagou. Realmente muito curioso.
- Eu vou.
- Terei que voltar para minha rosa em breve. Fica comigo. – pediu.
- Mas lá há vida.
- Verdade... – ficou quieto. Pensativo, talvez.
- Fico. – Falei. Tinha certeza de que esse homenzinho era mais interessante do que a celebração lá fora.
Ele sorriu pra mim.
— Quem é sua rosa? – Minha curiosidade também era grande.
— “Tu és eternamente responsável por aquilo que cativas” – respondeu sabiamente. – Eu cativei a minha rosa, sou responsável por ela.
— Entendo... – não sabia o que dizer.
— Tem água?
— Tem. – Peguei um copo, enchi de água e o entreguei.
— Obrigado. Precisava disso. Tem copo menor?
Esqueci que o pobrezinho era muito pequeno para agüentar o peso daquele copo todo! Peguei um copinho de plástico de café e pus a água ali. Entreguei novamente.
— Toma. – sorri para ele.
— Agora posso voltar para minha rosa! – Parecia feliz. Levantou-se num salto.
— Precisa de água para a rosa?
— Estava ficando seca. Sou responsável por ela. – era sincero.
Olhei pela janela. As pessoas se divertiam lá fora. Tocaram aqui em casa umas duas ou três vezes me procurando. Mal podiam imaginar que eu estava ao lado de meu novo amigo, um principezinho.
— De onde vem? – Perguntei.
— Asteróide B 612. Quer ir lá fora?
— Não conheço.
— Quer ir lá fora?
— Por que faz tantas perguntas? – arregalei os olhos. Que menininho insistente!
— Quer ir lá fora? – insistia.
— Gosto de estar aqui dentro. – desisti. Ele me perguntaria até eu responder.
— Sentirá minha falta quando eu partir?
— Quem sabe? – sorri novamente.
— Sentirá minha falta quando eu partir? – Ele gosta de respostas objetivas, concluí.
— Sentirei. – Não dava para negar.
— Minha rosa precisa de mim. Sou responsável por ela. – Parecia aflito. Acho que também havia gostado de mim.
— E eu me sinto responsável por você.
— Tu me cativaste! – Saltava. É. Ele gostava de mim.
— Agora sou eternamente responsável por ti. – parafraseei.
— Agora és eternamente responsável por mim. – repetiu.
— Você vai voltar? – Quis saber.
— Como se chama o que há lá fora? – Ele gostava de ser respondido, mas não gostava de responder.
— Carnaval.
— O que faz no carnaval?
— Não sei. Nunca entendi muito bem. Mas as pessoas se divertem. Comem e bebem. Brincam a noite toda. – Será que era isso mesmo? Me perguntava...
— Por que não vai lá? Eu tenho de ir.
Olhei no relógio, já era três da madrugada. O principezinho realmente havia roubado minha atenção e me fisgado por inteira.
— Já é tarde.
— Tem gente lá fora. – batia os pés como quem me controlava.
— Vou te dar um presente. – Entreguei “O manual do coveiro”, meu primeiro livro.
— O que é? – Olhava com curiosidade.
— Um livro. Meu primeiro livro. –suspirei – Agora se lembrará de mim quando tiver dando água para sua rosa. Voltará algum dia?
— Carnaval. Eu volto. Desenha uma corda pra mim? – Pediu.
Rapidamente procurei um papel e um lápis. Desenhei a corda como pude. Desenhar não era meu talento.
— É muito pequena! Quero uma maior. – Exigiu. Desenhei uma maior.
— Obrigado. – Quando dei por mim, ele arrancara a corda do papel e ela tornara-se objeto real. Com muita dificuldade, o principezinho amarrou o livro que lhe dei e prendeu em sua cintura. Não se esqueceu de pegar a água.
— Feliz carnaval!
Pisquei os olhos. Quando os abri, não havia mais ninguém. Apenas um copo sobre a mesa e uns papéis rabiscados. Não descobri até hoje se o que aconteceu foi realidade. Mas agora, todos os carnavais fico em casa, aguardando um menininho príncipe, com cabelos dourados vir me fazer perguntas e conversar comigo.

FIM

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