Le Parc
1 Onde está o meu amor?
Notas iniciais
Katniss apertou a buzina até o limite, o barulho da cidade engolido pelo grito do Sedã preto. Todo um lado da Park Avenue estava em reformas depois que uma pilha de concreto despencou da carroceria de um caminhão, restando um lado da pista, intrafegável por um motivo bem diferente. Maldito idiota que não sinalizou a manobra e parou o carro porcamente no meio da rua. A passagem foi bloqueada pelo gigante cinza à frente, uma enorme RAM 2.500, dirigida por um imbecil, estava meio atravessada na avenida com o pisca-alerta ligado. Suando às bicas e muito fula da vida, a jovem sacou o celular do bolso da calça, verificou as horas e soltou um palavrão, atrasada ao extremo para a aula do dia, decisiva na escolha do elenco do espetáculo de inverno.
Quando resolveu em cima da hora que faria a audição da School of American Ballet, Katniss não pensou muito no assunto. Na verdade, ao ver o nome que nunca brilhara aparecer reluzente como um letreiro de Las Vegas na lista de aprovados da SAB, Katniss não teve tempo para nada. Em uma semana, vendeu todos os móveis do quarto para o pessoal da sua rua, enviou os documentos e a papelada de inscrição, beijou o garoto da escola que sempre quis beijar, enfiou as poucas roupas que tinha numa mala de couro de cobra super cafona que a mãe lhe comprou, deu um abraço apertado e nada reconfortante nos pais que amava mais do que tudo, pegou o Sedã de mil mãos que comprou no último verão na loja de carros mais capenga de Richmond e, com uma mala, mil dólares enrolados numa liga e um medo do tamanho dela, caiu na estrada rumo à Nova Iorque. No caminho, encostou em um salão de beira de estrada e cortou o cabelo na altura do queixo e com franjinha. Confiar o cabelo às mãos de Clarice, uma mulher cujo o permanente exigia retoques, fora um ato de coragem bem satisfatório. Gostou do corte e o usava desde então.
Era nessas horas do dia que o arrependimento de ter ido morar em NY aparecia, mas só um pouquinho. Durava até ela olhar pela janela e ver o movimento fervilhante da cidade, uma máquina funcional tão antiga e que jamais se desgastava. Durava até ela ouvir a cacofonia incessante de carros, vozes e música por todo canto, irritante para alguns, reconfortante para ela, uma garota feita de sonhos e dança.
Katniss sintonizou o rádio do carro na estação de música e, convenientemente, Psyco Killer, do Talking Heads, ocupou o vazio com sua batida convidativa. Odeio as pessoas quando elas não são educadas, cantava David Byrne. O carro da frente permaneceu imóvel e Katniss não tinha como prosseguir, a fila de motoristas furiosos se formando atrás dela.
— Merda, merda, merda! – praguejou e acertou a buzina com força, assustando – se.
Atrasada, cansada e enraivecida, Katniss pulou do carro e fechou a porta no ímpeto. Decidida e movida pela pressa, marchou até o veículo e estacou na janela do motorista. Que Deus a ajudasse. O cara do lado de dentro teclava freneticamente no celular.
Katniss bateu energicamente no vidro, a mão espalmada manchando a superfície com marcas de dedo.
— Ei! Ei! Tira a porcaria do carro do meio do caminho!
O carro era lindo, sendo franca, tão novinho e brilhante que cegava debaixo do sol das nove. Um rapaz assustado a encarou do outro lado e abaixou o vidro. A moça inclinou-se na janela aberta e voltou a brigar antes que ele abrisse a boca.
— Tá atrapalhando, colega! Dá pra tirar o carro daqui? – sinalizou o transtorno de veículos que aumentava e mostrou o celular – Vou chamar a polícia.
Ela já discava o número quando o motorista falou.
— Mal aí, moça, era uma emergência, não deu tempo de parar em lugar melhor não.
Katniss estreitou os olhos e parou de digitar.
— Acha que eu ligo? Isso aqui atrapalhou cinquenta por cento da minha manhã. Estou perdendo a chance da minha vida por sua causa! – esbravejou, apontando um dedo acusatório que, pelo tamanho do automóvel, ficou na altura do rosto do sujeito.
Certo, o despertador que não tocou também era culpado.
O outro, sem dar qualquer importância, permaneceu olhando para ela, sequer demonstrando tê-la ouvido. Ele a fitava de modo especulativo.
— Eu te conheço de algum lugar – disse, franzindo o cenho.
Katniss bufou.
— Ainda bem que eu não te conheço – passou a mão no cabelo espesso, preso em um coque baixo e firme – Agora, faz o favor de sair da frente.
Crendo no mínimo de bom senso que o rapaz pudesse ter, voltou para o carro, o ar climatizado fustigante sobre a pele aquecida pelo calor matinal. Enquanto isso, a RAM liberou a rua, a condução torta e duvidosa. Porém, por alguma razão incompreensível, ou só porque o dono do veículo era um péssimo motorista, ao seguir na pista, o gigante cinza reduziu a velocidade repentinamente e o Sedã, que tentava ultrapassá-lo, colidiu na traseira do carro.
Katniss arfou e, sabendo que não havia como piorar, terminou a manobra da ultrapassagem, deixou o episódio para trás e postergou o surto. Através do retrovisor, viu que o cara acostou o carro no meio fio e examinava o dano com as mãos na cabeça. Lembrou a si mesma que ficaria do mesmo jeito quando visse o desastre no Sedã.
Chegou à SAB em trinta minutos. Estacionando de qualquer jeito, correu para a sala de aula, tirando o casaco e os sapatos no caminho. No vestíbulo, calçou as sapatilhas e jogou o moletom no canto, em cima da bolsa. Ligeiramente apertado, e somado à meia-calça, o collant de anos de uso proporcionava um desconforto difícil de ignorar. Em casa, Katniss descobriria duas marcas vermelhas de elástico no bumbum.
A ampla sala de balé reunia as turmas avançadas da escola e, entrando no recinto, alguns dos bailarinos próximos à porta viraram a cabeça em sua direção. Finnick Odair, o diretor da escola, estava de pé, apoiado no piano, enquanto Delly Cartwrigh desenvolvia uma sequência de pequenos saltos e piruetas. Gale, escalado de antemão para o papel de Tristan, um dos principais, fazia-lhe parceria. Executando um floreio artístico e romântico, o rapaz pegou a mão de Delly e lhe acariciou o cabelo, ao passo que a garota se derretia de amores. A música cessou e Finnick se desencostou do piano. Delly não esperou a dispensa e, sob aplausos educados, juntou-se aos outros bailarinos.
Esquadrinhando os alunos, os olhos astutos do professor pousaram em Katniss.
— Senhorita Everdeen, que bom que chegou. Você é a próxima.
Ele a vira chegar, afinal, e a marcara com um grande X vermelho. Lá se vai a minha chance de conseguir o papel. Não que considerasse consegui-lo, de qualquer jeito. O papel de Aymerie, a protagonista, exigia um grau artístico e desenvoltura aquém da capacidade de Katniss. Havia bailarinas bem mais habilitadas, embora a garota aguardasse ser incluída em alguma coisa no show. Quaisquer pontos que possuísse a seu favor foram obliterados pelo atraso de meia hora.
Katniss abriu caminho e alcançou o centro da sala. O piso de carvalho abafava o som de seus passos e, misturado aos murmúrios dos colegas, não era nada tranquilizador. A fim de se acalmar, pôs-se a lembrar de que não era, nem de longe, ruim. Katniss era uma boa bailarina, talvez não o necessário para ser Aymerie, contudo, boa.
Entre os alunos, achou Johanna, que sorriu encorajando-a e piscou em cumplicidade, servindo de incentivo. Katniss voltou-se a Gale, o belo e distinto garoto, e eles iniciaram a dança. Os músculos das pernas retesavam um pouco, reclamando o aquecimento inicial perdido, o que podia ignorar, a não ser que sofresse uma distensão. Se esquecesse desse detalhe, tudo ficaria bem.
Gale a tomou pela cintura, erguendo-a no ar, e Katniss desenhou o espaço com as mãos, os braços leves feito algodão ao vento. As notas do piano iam em um crescendo, aproximando-se do ápice, e a porta foi aberta com um baque. A música parou de supetão e todos observaram o garoto apressado que atravessava a sala, quase correndo até o piano. Annie Cresta, a pianista e esposa do professor Finnick, se levantou da banqueta.
— Desculpe, desculpe, desculpe, senhora Cresta! – implorou o rapaz de cabelo bagunçado e olhos agitados – Minha cadela passou mal e uma louca bateu no meu carro!
— Ora, garoto, não tenho tempo para isso. – interviu Finnick, impaciente.
— Assuma aqui, por favor. – apaziguadora, disse Annie ao recém chegado. Ela recuou e o garoto a substituiu no piano.
Finnick sinalizou para Katniss e Gale prosseguirem, enquanto o pianista atrasado testava as teclas.
— Variação de Yann Tiersén, aquela que vimos na última aula. – pacientemente, instruiu Annie.
— Retomem de onde pararam – retrucou Finnick à dupla de bailarinos.
Posicionando-se, Katniss enxergou melhor o rosto do rapaz ao piano, que ergueu a cabeça para o público. Ela abriu a boca em choque e ele arregalou os olhos em reconhecimento. O cara da RAM 2.500 iniciou La Valse d’Amelié e Katniss perdeu dois segundos de música. Semiconsciente de Gale sussurrando seu nome, ela se mexeu.
Era como se a irritação de ver o responsável por sua desgraça acendesse o combustível que faltava. Finnick vivia dizendo aos bailarinos que colocassem vida na dança, que qualquer emoção era melhor que emoção nenhuma. Em geral, gostava da energia de Katniss, bem espoleta, segundo ele. Naquele momento, ela era a própria combustão, inflamando a carga de pólvora.
Deliberadamente ignorando o pianista, Katniss expandiu -se por toda a sala, deslizando em movimentos precisos e fortes. Uma, duas, três piruetas e Gale a amparou para lançá-la além. Pegou-se sorrindo e extasiada, um frenesi poderoso explodindo no peito que só acontecia quando seu corpo fazia arte e poesia.
No fim, ao que Tristan encarava Aymerie e aguardava a correspondência de seu amor, Katniss se viu beijando Gale que, a princípio sem reação, devolveu o beijo cheio de vontade. A ovação que se sucedeu a estimulou a largá-lo. Entusiasmada e satisfeita consigo mesma, retornou ao seu lugar, no meio dos alunos alvoroçados. Annie, com os lábios crispados, mirava um Finnick impassível e nada impressionado. O cara da RAM 2.500, Katniss se permitiu verificar, estava aturdido. O sorriso dela cresceu tanto que achou que lhe rasgaria a cara.
— Obrigada pela demonstração, Everdeen – Finnick se manifestou – Tenha mais atenção nas finalizações. Você não completa os movimentos antes de ir para o próximo.
Katniss acenou e assistiu às exibições seguintes, que passaram a acontecer em três pares simultaneamente. O esquema durou pouco mais de meia hora e Finnick preencheu o resto da manhã com aula prática. Em todo instante, o piano não cessava, o grande instrumento preto chorava suas notas em uma doce melancolia, as músicas pesadas e tristes.
O pianista era implacável e, Katniss tinha de reconhecer, muito bom, de tempos em tempos recebendo instruções de Annie, ao que Finnick interrompia seus bailarinos para corrigi-los. Nas vezes em que vislumbrou o garoto, Katniss viu os dedos longos e magros voando sobre as teclas. Tornou-se difícil distinguir quem estava sendo tocado, se o instrumento pelo músico ou se o rapaz pelo piano. Era evidente que ele sentia prazer naquilo.
Finnick ajeitou a gola da camisa que despontava debaixo do suéter e, encerrando a aula, disse que as performances seriam detidamente examinadas e o resultado, divulgado no mural da entrada dali a dois dias.
— Em casa, descansado e na minha cama, pensarei no assunto – falou, abanando a mão para a porta — Saiam, suas caras exaustas me dão agonia.
As panturrilhas de Katniss queimavam, as pontas de seus pés dentro da sapatilha, espremidas na caixa de gesso. Ainda assim, andava ereta e elegante até a saída, Johanna fazendo-lhe companhia. As duas não eram exatamente amigas, mas o mais próximo disso. Ambas forasteiras na cidade grande, aprenderam rápido a importância de se fazer aliados quando só se tem a si mesmo para contar.
— E aí? – começou Johanna – O beijo do Gale é tão gostoso quanto ele?
Katniss não pôde evitar a risada e lançou um olhar para o bailarino próximo ao bebedouro, que mantinha as atenções nela. Ele deu uma piscadela e sorriu por trás do copo descartável enquanto bebia água, Katniss acenou com os dedos.
— Não tenho como dar maiores detalhes, acabou tão rápido quanto começou. – Respondeu ao sentar no chão, tirando as sapatilhas e suspirando de alívio quando a primeira saiu.
Johanna sentou-se ao seu lado e desamarrou a fita que envolvia o tornozelo.
— Deve ter valido a pena com certeza – Johanna exibiu ar contemplativo e meio lascivo — Você precisava ver a cara da Delly – debochou – Doida pra estar no seu lugar e louca da vida por não ter pensado em fazer igual. Não tiro a razão dela, eu queria estar no seu lugar.
Katniss massageou os pés e arrancou o esparadrapo do calcanhar, revirando os olhos.
— Faça-me o favor. A gente só se beijou. É claro que ela será a Aymerie – Katniss enrugou o nariz.
— Katniss, querida, você se subestima tanto que dá dó. – Johanna se colocou de pé, obrigando a outra a olhar para cima – Por mais abusado que Finnick seja, com aquela cara de dono de nós todos, ele gostou do que você fez – apontou para a sala, a mochila nas costas – Não me impressionaria se ele te escolhesse para ser Aymerie.
Johanna esbarrou em Gale no corredor e os dois saíram juntos, e Katniss imaginou a si mesma como Aymerie, uma garota comum, vestida com roupas comuns, fadada a um destino comum. E visualizou Gale, nem tão comum, no papel de Tristan, o garoto do parque que se apaixona pela moça bailarina. Construiu todo o cenário, o Central Park sob as tremeluzentes luzes dos postes na viração do dia, soprado pelo frio do inverno nova-iorquino às vésperas do Natal, ladeado de calçadas de concreto, nada tão moderno quanto agora, porque, na década de 30, Nova Iorque vivia tempos difíceis e a recessão apertava-lhe o pescoço com punhos de ferro.
Mas Aymerie, a talentosa, pobre e faminta garota, arriscava o pouco de saúde física que lhe restava para dançar no Central Park em troca de moedas que as pessoas podiam ter sobrando. Enfrentando o tempo enregelante, a fome corrosiva e a desesperança, ela dançava com sapatilhas gastas e furadas, usando seu vestido lilás, o mais decente para a ocasião, pois os outros estavam muito velhos. Então, Tristan, um jovem sonhador que vivia bem, na medida em que permitiam as possibilidades, a encontrou. Passeava no Central Park e viu Aymerie, dançando ao som de uma música silenciosa, a qual só ela escutava e entendia. Tristan apaixonou-se imediatamente e Aymerie, percebendo o jovem a contemplá-la, o amou.
Faltava uma semana para o Natal, e eles viveram sua breve e linda história dentro desses dias numerados. Combinaram um encontro, no local em que se conheceram, para fugirem de Nova Iorque na noite de Natal. Aymerie não apareceu, morrera em casa naquele dia. Seu coração sucumbira à fome, porque, aparentemente, os efeitos da paixão não inibem a pobreza e os maus tratos de um sistema em colapso. Tristan, que desconhecia onde Aymerie morava, já que sempre se encontravam no parque, a espera por um ano, todos os dias, no ponto de encontro e, desolado, segue sua vida.
Quando Finnick trouxe a proposta para o espetáculo de inverno, mais da metade dos bailarinos achou a história deprimente e nada natalina. “Deixem de ser iludidos, queridinhos, e olhem a vida como ela é, injusta e amarga na maior parte do tempo.” Respondeu ele. Katniss gostou da história desde o início, trágica e sensível. Do ponto de vista artístico, a tristeza tem lá sua beleza.
Katniss entortou a cabeça. Seria interessante dar vida à Aymerie.
Vozes de uma conversa técnica roubaram sua atenção e Annie surgiu no vestíbulo, seguida do cara da RAM.
— Tente suavizar a passagem entre os períodos, deixe os dedos mais leves sobre as teclas, sem pressioná-las tanto – Annie instruía, as mãos tocando um piano invisível, suspensas no ar.
O garoto assentiu, atento às mãos da mulher. Annie, pianista e professora de música na Julliard, cedia espaço nas aulas do marido para seus alunos da universidade, uma boa oportunidade de se ambientarem ao público.
— O que achou? – perguntou ao rapaz.
Ele sorriu genuinamente.
— Gostei muito. Sempre é uma honra aprender com a senhora, professora Cresta – ele estendeu a mão e ela correspondeu à saudação.
— E é sempre um prazer ensiná-lo, Peeta. – E foi embora.
Peeta, esse era o nome do motorista obtuso. De onde estava, ele não viu a menina no canto. Todavia, Peeta se virou e cravou os olhos escuros nela, repletos de ressentimento. Katniss apertou as sapatilhas contra peito, ansiando tacá-las nele.
— Você acabou com o meu carro – acusou, visivelmente magoado.
Katniss teria rido se o Sedã não tivesse levado a pior. Duvidava muito que um monstro como a RAM se estragaria igual ao carro dela. Escarneceu mesmo assim, apoiando — se na parede, e se levantou.
— Ah, é? E como acha que está o meu carro? – rebateu chateada, um metro de distância os separando – Você que é um péssimo motorista. – cruzou os braços de forma petulante – Considere-se sortudo por eu não ter chamado a polícia.
Mudando bruscamente de expressão, Peeta sobressaltou-se. Ofegando, abriu a boca e apontou para ela.
— Sabia que te conhecia! Eu te vi outro dia no Central Park, dançando perto da fonte. Eu estava passeando com Helena, minha pit bull, e você... – ele se calou ao reparar no rosto de Katniss.
Katniss odiava depender exclusivamente do dinheiro dos pais, que muitas vezes não cobriam os custos de uma vida básica. Dispôs de duas opções prementes, voltar com o rabo entre as pernas para Richmond, ou arrumar uma fonte de renda extra. Por não ser do tipo que desiste fácil, optou pelo trabalho, o qual, com o tempo que a SAB exigia dela, não seria fácil de conseguir.
Logrado o insucesso na busca, resolveu caminhar no Central Park. Munida de fones de ouvido e de música boa, Katniss perdeu-se nas reentrâncias do tom. Ganhou ciência de seu espetáculo particular e do potencial lucrativo disso quando um casal que corria se deteve e a elogiou.
Pelo menos três dias da semana, Katniss vestia uma roupa maleável, pegava a caixa de som portátil e ia ao Central Park, perto da fonte. Descalça, ela preenchia o ambiente com sua bela e notável presença. Os transeuntes se reuniam ao redor, jogando moedas e notas de dinheiro amassadas na caixinha de madeira no chão. E foi olhando para Peeta atentamente que ela se lembrou.
Um garoto na extremidade do grupo, segurando uma cadela pela guia, não exatamente a assistindo, murmurando a melodia da música que ela dançava. Katniss viu seus lábios se mexendo, a mão livre dedilhando no ar, o olhar distante e introspectivo. Reconheceria aquela expressão em qualquer lugar, pois era a que ela ostentava quando dançava, o canto da alma pulsante. De repente, o garoto provou-se não tão parvo.
— É, eu me lembro de você. – disse por fim, abaixando os braços ao lado do corpo.
Peeta sorriu empolgado, como se o fato de ela ter se lembrado dele o deixasse satisfeito. Ele não se cansava de sorrir o tempo todo? Só de olhar, o maxilar de Katniss doía.
Ela se achava numa situação em que não se punha com frequência, a de não saber mais o que dizer por falta do que falar. Peeta enfiou as mãos nos bolsos e se retraiu, uma mecha do cabelo preto caindo na testa.
— Amassou muito? – Katniss quis saber. Ele a fitou, confuso – O carro. – Esclareceu.
Parecia que Peeta choraria com a menção ao gigante cinza. Normalmente, Katniss soltaria uma ofensa, mandando-lhe à merda, mas ele era como um menino que tem seu brinquedo favorito quebrado, restando sentir compaixão. Daí ela lembrou do Sedã, velho e rabugento, talvez com o farol quebrado e um amassado na lataria, e o sentimento abrandou.
— A pintura da carroceria arranhou e o canto está afundado. – respondeu, a voz baixa e o semblante triste – Comprei há um mês, ainda estou aprendendo a dirigir. É meu primeiro carro.
— Obviamente. – Katniss catou suas coisas do chão, dando as costas para ele – Vou me assegurar de jamais dirigir a menos de um quilômetro de você, Peeta.
No intervalo do almoço, Katniss encarava o Sedã, o farol direito quebrado e o para-choque, achatado. Pronta para ir ao Burger King, a mão estrangulava a chave do carro, a ponta do aço furando a palma. Preso no para-brisa, debaixo do limpador de vidro, um envelope amarelo trazia as mais sinceras desculpas, cinco notas de cem dólares novinhas e alinhadas, Benjamin Franklin oferecendo um sorrisinho sem graça. O nome de Peeta, numa caligrafia bonita e pequena, assinado no canto.
**
Perto das quatro da tarde, Katniss chutou os tênis dos pés e soltou a música. As notas cálidas do piano iniciaram Where’s my love, e ela deu corpo à música. A sobreposição do violino a impulsionou na calçada, usando, vez ou outra, a borda da fonte. SYML perguntava onde estava seu amor, e Katniss transmitiu aquilo que as palavras não conseguiam, o que não podia ser cantado. Não era uma interpretação que pedia sorrisos, e ela abraçou a dor que não era sua e transformou em movimentos intensos.
Pensou em Tristan, esperando seu amor que não viria, imaginando onde ela estaria, por que jamais a veria de novo. E pensou em Aymerie, apaixonada e com fome, sujeitada a uma morte solitária, as lembranças dos dias com Tristan e de dança no Central Park como únicas companhias. Teria ela pisado na terra em que Katniss dançava, rodeada das mesmas árvores, coberta pelo mesmo céu? A música parou subitamente, puxando-a do transe.
Praguejando baixinho, Katniss pegou a caixa de música na mão, descarregada, e as pessoas a sua volta iam dispersando. Uma leve pressão na cintura a fez olhar para baixo. Uma garotinha de olhos enormes ofertava-lhe um sorriso banguela.
— Continua, você é muito linda. – coberta de admiração infantil, pediu a criança.
A visão de Aymerie, que bailava ao som do silêncio, a fez retribuir o sorriso e assentir. A garotinha correu de volta para o pai e esperou. Katniss deixou a caixa de som na bolsa e continuou a performance, a composição ressoando na mente. Dançara sem música em inúmeras ocasiões, na sala de casa, debaixo do chuveiro, ao passear na rua... O silêncio não lhe era estranho.
Captando o ruído da água que se agitava, os passos das pessoas, a voz de uma mulher que cantava ali perto, criou o ritmo. Fechou os olhos ao saltar de cima da fonte e mergulhou no chão, ausente do mundo.
Encerrando a apresentação, abriu os olhos, surpresa ao escutar o grave de um piano. Não, não de um piano, e sim de um teclado. Peeta estava sentado no banco próximo a fonte, um teclado preto e nada convencional, com mais teclas do que o normal, apoiado num suporte em X, sorrindo para ela. Ela não se interrompeu. Reconheceu Angela, do The Lumineers, e riu enquanto esticava o tronco para baixo, abraçando uma das pernas. O garoto tinha bom gosto musical.
Katniss recordou-se dos quinhentos dólares, essenciais no conserto de seu carro, e os últimos resquícios de raiva foram sumindo. Não saiu do bolso dela, de toda forma.
Por mais três músicas, permaneceram no peculiar arranjo, Peeta e Katniss, transitando entre Coldplay e Snow Patrol e finalizando com Empire States Of Mind. Nesta última, o coro dos espectadores entoou a letra.
Ao final, vendedores ambulantes, artistas que ficavam por lá e que pararam para assistir e os passantes que se amontoaram aplaudiram e assobiaram. Parker fez uma mesura, indicando seu improvável companheiro, e a comoção cresceu. Peeta se levantou, deixou o teclado no banco e, tal qual um maestro, reverenciou o público.
— Eu não sei o que perguntar primeiro, porque tudo isso foi bem esquisito e você sabe – à medida que ele se aproximava, falou, o teclado contido na case.
Katniss fechou a caixa de dinheiro abarrotada e a guardou, Peeta empurrou o cabelo para trás e sorriu. Até que não era irritante esse negócio de mostrar tanto os dentes. Mesmo quando ele não sorria de fato, era notória a alegria que carregava.
— Costumo treinar debaixo do carvalho após as aulas. Estava indo para casa e a encontrei – Peeta inclinou a cabeça – Nunca te vi nesse horário.
— Gosto de vir no final da tarde. Acabei de sair da SAB, sem nada pra fazer, então... – Katniss encolheu os ombros – Que tipo de teclado é? — apontou o instrumento – É a primeira vez que ouço um fazer um som tão bom.
Peeta deu duas batidinhas na case preta.
— É um piano digital – explicou, todo orgulhoso – Meu pai fez um dispositivo que libera o uso sem energia elétrica. Não é como tocar um piano acústico, mas dá pra praticar.
Katniss acenou em compreensão. Iria direto ao ponto, não fazia a linha rancorosa.
— Valeu pelo dinheiro. A culpa foi sua, – deu de ombros – só que a maioria seria imbecil o bastante e ignoraria – Katniss estendeu a mão – Obrigada por tocar pra mim. Katniss, a propósito.
Peeta repuxou os cantos dos lábios de um jeito meigo e apertou sua mão.
— Como diz minha mãe, os idiotas que cuidem das suas idiotices. Prazer, Katniss. Peeta, mas acho que você já sabe — completou em tom de dúvida.
Uma senhora, vendendo rosas artificiais, caminhava na direção deles, Katniss enrugou o nariz e puxou a mão. Habitualmente, não tinha saco para isso, flores e tal. Achava bonito e romântico, no entanto, era tão bruta e indelicada que não sabia o que fazer ao receber uma. Em certo encontro, o rapaz dera-lhe um pequeno buquê de hortênsias. Ela, que carregava uma bolsa, enfiou as flores lá dentro, arrancando pétalas e quebrando caules. O rapaz não lhe ligou depois desse dia. Refletindo em casa, imaginou se ele queria que ela andasse com as flores na mão o tempo todo, então deixou pra lá. Qualquer um que esperasse isso dela podia ir se ferrar.
Antes que a mulher chegasse mais perto, Peeta foi até ela e comprou uma rosa. Katniss queria desesperadamente ir embora. Estava prestes a fazê-lo, e Peeta estendeu a flor, o sorriso de menino cedendo lugar a um mais contido, hesitante.
— “Uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa” – citou Gertrude Stein — Toma, meu pedido final de remissão e um agradecimento pelo show, já que não temos um buquê de flores para lhe dar.
Graças a Deus por isso, Katniss ruminou, minha bolsa não é grande o bastante.
Talvez fosse a voz nervosa, ou a mão amiga que lhe oferecera minutos antes, ou a singeleza do ato, ou simplesmente o garoto que lhe estendia a flor, Katniss sentiu que ele não se chatearia se ela guardasse a rosa na bolsa. A singular observação a impeliu a pegar a flor, livre de receios, e ela achou tanta graça por saber que aquilo era verdade que não segurou a risada. Balançando a cabeça, disse:
— Você é mais estranho do que eu pensei.
— Se me permitir, ficarei feliz em provar que você está certa – Peeta deu o braço para que ela segurasse — Aceita tomar sorvete comigo, senhorita Aymerie?
Katniss uniu as sobrancelhas.
— Como sabe sobre Aymerie?
— Vou participar da orquestra musical do espetáculo, professora Cresta me convidou hoje. — Peeta trocou a case de mão, cheio de animação — Quase perdi a oportunidade, com a coisa do carro e o atraso... – um vestígio de medo o transpassou e ele estremeceu – Ela me contou a história. Vê-la dançando mais cedo me fez lembrar de Aymerie.
Tocada, Katniss colocou a bolsa no ombro e as moedas tilintaram na caixa, a rosa na outra mão. Cautelosamente, abriu o zíper e ajeitou a flor entre as sapatilhas e caixinhas de som e dinheiro. Concentrada em não amassar as pétalas vermelhas, perdeu a sombra de sorriso nas feições de Peeta, que julgou o comportamento curioso e engraçado.
— E então? – ele inquiriu, a sobrancelha e o braço erguidos num convite.
Katniss levantou o olhar.
— Vamos. Mas não vou segurar seu braço.
Peeta jogou a cabeça para trás, rindo.
Passeando no Central Park, ela sabia em seu íntimo que faria uma boa Aymerie, se a ela fosse dada a chance de sê-la. Sabia também que o garoto ao seu lado, cujas mãos que dominavam tão bem o piano estavam sujas do sorvete de menta que derretia na casquinha, que era bom e legal, não ligava para uma rosa guardada na bolsa, e que a encontrou no parque.
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