Le Parc
1 ❦ Capítulo 1- Dia dos Pais
Notas iniciais
Aproveitem a leitura!
Rainier
Enquanto depositava um pequeno pano cheio de gelo sob a minha testa, a dor de cabeça aumentava cada vez mais. Sem que eu quisesse, vislumbres da minha infância espancavam os meus pensamentos e apareciam como uma explosão prestes a me arrancar pele por pele.
— Mãe, me ajude! — Ouvi a Maelys se desesperar devido a minha situação. Esforcei-me para abrir os olhos, porém pouco consegui. Seu rosto estava tomado de medo e preocupação, quase saindo lágrimas de seu rosto. Doía-me muito mais vê-la daquele jeito por minha causa. Eu não queria que ela me visse assim. — Ele parece só estar piorando!
— Se acalme Lys! — A voz da senhora Bellamy apareceu logo em seguida. Ela era firme e calma, mas eu consegui sentir uma pontada de insegurança nela. — Ele só está com uma pequena febre. Daqui a pouco vai estar melhor.
Minha respiração estava alta e eu suava bastante. Eu queria sair urgentemente daquele quarto quente, mas quando eu tentava sair apenas da minha cama, o meu corpo parecia ficar congelado de tão frio que ficava. Novamente senti a forte dor de cabeça e não aguentei prender um doloroso gemido.
Aquelas risadas...
— Mas ele está queimando de febre! — Senti a delicada mão de a Maelys passar pelo meu rosto para ver a temperatura do meu rosto, contudo eu não conseguia aproveitar sequer daquela situação. Ela não podia me ver assim. — Temos que dar este remédio urgente.
— E-eu estou bem... — Tentei com todas as minhas forças me sentar naquela cama, mas meu corpo parecia uma rocha de tão pesada e a dor de cabeça dava alguns estalos doloridos. — Urgh!
— É claro que você não está bem, Nier. — frustrou-se me impedindo de fazer mais uma tentativa de sentar. Ela levantou um pouco a minha cabeça e contra a minha vontade enfiou uma colher com um líquido horrível em minha boca. A Maelys estava ainda mais agitada que o normal e ela ainda insistia em ficar ao meu lado desde ontem à noite. Ela não devia ter dormido nada durante a madrugada. — Deite-se agora. Eu irei preparar uma sopa pra você daqui a pouco e depois irei-
— Não. — Minha voz estava ficando falha e ainda mais rouca. Essas vozes que explodiam em minha cabeça eram insuportáveis. Eu conseguia sentir novamente aqueles cacos de vidros perfurarem lentamente as minhas costas e deslizarem sob ela como uma sensual dança no gelo. Por que simplesmente não me deixam aqui sozinho? — Só saiam daqui... Tão... Irritantes...
Parem de rir de mim!
Minha visão começava a ficar turva e a Maelys ainda acariciava o meu rosto delicadamente, apesar da sua expressão ter entristecido. Eu queria que ela ficasse ao meu lado, mas não desse jeito. A Lys passou a noite inteira cuidando de mim, ela não merecia isso.
— Sim... — assentiu ainda hesitante. Ela com certeza me achava um fardo. Meus pais adotivos me achavam um fardo. Meus professores me achavam um fardo. Até meus pais biológicos me achavam um farto e me colocaram em um orfanato. Eu não merecia todo esse conforto que me davam.
Fechei novamente os olhos e ouvi o barulho dos seus passos aos poucos serem cessados. Assim que ela e a senhora Bellamy saíram do quarto, eu me aprofundei naquele sufocante cobertor. Eu queria acabar com aquela dor de cabeça infernal, queria acabar com as traumatizantes lembranças da minha infância, queria acabar com as profundas cicatrizes deixadas pelos meus pais em minhas costas, queria acabar com tudo isso.
Odiava quando eu ficava doente, pois tudo o que eu realmente queria esquecer vem para me assombrar. Dor, gritos, álcool, risadas, sangue...
Tudo parecia virar ao meu redor, eu sentia vontade de vomitar.
Aquele remédio estava fazendo o efeito, mas eu não queria dormir... Não agora. Eu veria novamente aqueles pesadelos e me lembraria dos rostos daqueles que me abandonaram como algo descartável.
Retirei o cobertor do meu rosto e permiti que a luz do sol refletisse na minha face, assim certamente eu não conseguiria dormir.
De repente tudo ficou escuro, embora eu não tivesse aberto os olhos. Novamente aquelas mesmas mãos delicadas acariciava o meu rosto, apesar de eu não ter ouvido nenhum passo se aproximando da minha cama. Eu era reclamar, mas a dona daquela bela voz foi mais rápida, e tudo o que eu fazia era muito lento.
— Prometo que não faço nenhum barulho. — A Lys sussurrou gentilmente próxima de mim. Parecia estar sentada em uma cadeira próxima do meu travesseiro. — Eu só... Eu só não consigo descansar sabendo que você está com uma febre alta e sozinho, Nier. Por favor, me deixe ficar aqui com você...
Eu já não conseguia dizer nada, e exigir da minha audição aumentava a minha dor de cabeça, então apenas confirmei com a cabeça. Eu realmente não queria que ela ficasse comigo enquanto eu estava nesta péssima condição, mas se isso a incomoda tanto, serei um fardo a menos.
Eu tentava me concentrar apenas em suas carícias, logo aos poucos fui perdendo as forças e cedendo para o sono...
— Papai vai gostar desse presente que eu comprei para ele! — Sorri para eu mesmo enquanto abraçava aquele embrulho malfeito. Eu me esforcei tanto para juntar o dinheiro para comprar esse presente! Papai finalmente vai me perdoar por eu ser um fardo para eles.
Eu esperava por esta data fazia um tempão! Fiquei alguns dias sem comer durante o recreio e não comprei aquele carrinho incrível que o Lyn estava vendendo, mas ver a reação do papai valeria muito mais! Eu mal consigo esperar para lhe entregar o presente!
Eu saía saltitante devido à minha empolgação. A professora da minha sala havia me recomendado a comprar o presente nesta loja, e apesar das coisas serem um pouco caras, ver o papai sorrindo já é o suficiente! Ele vai entender que eu fiz isso para agradá-lo.
Passei pelo parquinho que ficava a caminho da minha casa. Ele era tão grande e bonito! Quando os meus pais ficavam bravos e me batiam, era aqui onde eu me escondia. Dentre as árvores tinha uma casinha meio abandonada e, para mim, ela era um enorme castelo com grandes muralhas que me protegiam dos raivosos dragões.
Observei a paisagem enquanto adentrava aquele parque. De repente longos cabelos loiros encaracolados passaram por mim e chamou a minha atenção. Uma menina corria rapidamente para os braços de seu pai enquanto dava várias gargalhadas. Seu pai a girava com um enorme sorriso no rosto.
Papai nunca brincou comigo assim... Mas ele com certeza brincará comigo quando receber o meu presente!
Logo vi a mesma menina se afasta lentamente do seu pai e se aproximar de mim. Seus olhos eram bastante azuis, como ela conseguia enxergar com eles? Ela era tão pálida que acho que se eu a tocasse poderia machucá-la. Seu cabelo era tão longo e volumoso que muito provavelmente ela poderia tropeçar neles. Sua vestimenta é muito bonita também. Ela deve nesse bairro, que sorte!
— O que é isso em suas mãos? — Ela tomou de minhas mãos o meu embrulho e logo fez uma careta. — Tão feio! Isso deveria estar no lixo.
— Me devolve! — exigi tentando pegá-lo de volta, mas sem êxito. Eu temia acabar a machucando com as minhas mãos horríveis. Ela parecia uma bonequinha. — Ele é muito importante para mim...
— Maelys! — Um homem se aproximou de nós lançando um olhar repreendedor para menina. Devia ser o seu pai pela cor do cabelo... — Devolve isso para o garoto. Eu posso comprar para você uma boneca depois.
— Aqui está. — Ela jogou o embrulho para cima e quase caí no chão para pegá-lo. A menina deu uma pequena risada ao olhar para trás e em seguida os dois se afastaram e foram para o outro lado do parque.
Eu começava a ficar desanimado quando a imagem do papai sorrindo me animou. Ele não veria apenas a aparência do meu presente. Logo deixei de lado o acontecimento e me foquei na expressão que o papai faria. Ultimamente ele anda bem estressado e agressivo. Às vezes ele me dá muito medo! Porém sei que ele não me bate por mal... Não era para eu aparecer na sua frente mesmo... Papai sempre está certo. Eu sei disso.
A minha mochila estava pesada, hoje eu carreguei bastante coisa. Mamãe parecia estar muito ocupada, pois ela havia se esquecido de me buscar na escola. Eu havia dado de presente um desenho de uma guitarra para ela no dia das Mães, mas naquele dia o papai bateu nela e ela depois bateu em mim. Talvez ela não tivesse gostado do desenho que eu fiz para ela.
Finalmente eu havia chegado a minha casa! Adentrei a sala e observei os detalhes nela. Garrafas de cerveja e cacos de vidro se espalhavam pelo chão; o sofá já estava rasgado e meio sujo; as paredes já estavam com a pintura desbotada, além de ter algumas partes com tintas diferentes, já que não tínhamos muito dinheiro para pintar tudo; a televisão já não funcionava mais, só servia de enfeite. O cheiro de cigarro e álcool era sufocante.
Aproximei-me do sofá e ali estava o papai deitado. Era estranho vê-lo dormindo assim com uma garrafa de cachaça em uma das mãos, me deixava com muito medo.
Afastei-me dele e me direcionei para o meu quarto. Eu podia esperar até o jantar para lhe entregar o incrível presente da sua vida! Papai com certeza ficará feliz e brincará comigo igual àquela menina com o seu pai.
Hoje era diz dos Pais, nem dava para acreditar! Estou tão ansioso que nem consigo ficar parado. Eu poderei brincar de corrida com o papai; jogar videogame com ele até a mamãe brigar; mostrar a ele o meu esconderijo secreto; o ensinar a tocar um violão... Vai ser o melhor dia da minha vida!
Eu joguei a mochila ao lado do meu pequeno armário e saltei na cama ainda com o embrulho em minhas mãos. Eu não iria soltá-lo nunca! Olhei para o teto do meu quarto e soltei um longo suspiro. Será que ele vai continuar a me considerar um fardo?
Acabei caindo no sono e quando acordei já era dezenove e quinze. Dei um salto da minha cama para lhe entregar o embrulho.
— RAINIER! — Ao ouvir o horripilante berro do papai, meu corpo automaticamente estremeceu e senti a vontade de me esconder. Papai novamente parecia bravo. Será que ele já viu o meu presente e não gostou?
Lentamente me direcionei para a sala, temendo que ele estivesse com raiva de mim. Eu escondi o embrulho malfeito atrás das minhas costas, pois queria que continuasse a ser uma surpresa...
— Poderia me dizer o porquê de eu receber uma ligação do diretor me acusando de agressão? — Papai indagou assim que me aproximei dele. Ele estava sério e com a expressão fria. Sua postura era intimidadora e ameaçadora.
— E-ele me pediu para mostrar o meu braço. — confessei me afastando um pouco. Eu fiz algo de errado? — Ele prometeu que não contaria a ninguém!
— Você me desobedeceu, Rainier. — Aumentou a sua voz, tornando ainda mais intimidador. Papai não estava muito bravo comigo, estava? Comecei a apertar ainda mais o presente que segurava enquanto olhava para o chão. — Eu lhe ordenei que não mostrasse a ninguém e nem contasse!
— P-papai... M-me desculpa... — Eu estava ficando com medo. O papai está mais estranho hoje. Onde a mamãe está? Ele ficará menos chateado se eu lhe der o presente agora? — M-mas eu tenho algo para o senhor...
— Você me humilhou! Não devia sequer ter nascido. — Brutalmente ele agarrou o meu pulso e começou a me arrastar para o porão. O porão não! Por favor! — Agora saberá a hora de ficar quieto.
— M-mas eu não fiz por mal! — Eu não queria ir para o porão! Quando ele fechasse a porta ele iria me bater muito! Por favor, não me leve para o porão! — Papai, você eu tenho um presente para você!
Papai ignorou o que eu disse e contra a minha vontade me arrastava pelas escadas que iam à direção do horrível porão. Comecei a ficar desesperado e me debater, mas ele era muito forte. Por que ele ficou tão bravo por isso?
— Eu quero a mamãe, pai! Estou com muito medo... — Meus olhos se encheram de lágrimas quando ele abriu a porta e brutalmente me jogou lá dentro. Em seguida trancou-a.
— Você podia ter pensado nas consequências antes, meu filho... — Papai se afastou por um momento e pegou um estranho objeto que não consegui identificar, por estar escuro. — Agora, tire a camisa e vire de costas para mim.
— P-papai, me desculpa... — insisti querendo evitar aquele momento. Eu sabia que iria doer muito. — E-eu não farei isso novamente...
— AGORA! — Berrou furioso. Tomado de medo retirei lentamente a camisa e virei de costas, apertando o máximo que eu podia o embrulho no qual segurei a todo o momento.
— Me desculpa... — Lágrimas começaram a surgir em meu rosto. Logo senti o objeto perfurar as minhas costas.
— NÃO! — Gritei enquanto levantava brutalmente da minha cama. Meu coração estava acelerado e eu suava muito. Olhei imediatamente para os lados em busca dos olhos que me acalmava. Não a achei.
Quando notei que só estava eu no quarto imediatamente saí da cama, ainda cambaleante. Eu tinha que encontrá-la!
— Querido, você deveria estar na cama! — A senhora Bellamy se assustou ao me ver e começou a me empurrar na direção do meu quarto. — Oh, céus! Você está péssimo, Rainier.
— Onde ela está? — Perguntei diretamente. Eu tinha que vê-la, eu preciso dela.
— A Maelys? — Indagou hesitante. Ela olhou fixamente nos meus olhos a procura de uma incerteza, porém em seguida deu um suspiro ao ver que eu estava determinado a vê-la. — No parque.
Imediatamente me afastei da senhora Bellamy. Eu não me importava se estava doente e cambaleante. Isso tudo era passageiro.
Finalmente havia chegado ao parque. Já estava quase anoitecendo e o pôr-do-sol o deixava ainda mais encantador.
Procurei por todas as direções a belíssima garota loira das mãos delicadas. Estranhamente meu corpo ficou tomado de desespero e fiquei sem saber o que fazer. Por que estou assim?
— Rainier? — Ouvi alguém proferir meu nome e virei-me para trás, reconhecendo o rosto de quem procurava. — Ai meu Deus! Rainier, o que está fazendo aqui?! Você devia estar na cama.
A Maelys se aproximou de mim e tocou o meu rosto delicadamente. Impulsivamente puxei ela para mais perto de mim e a abracei fortemente.
— O-oque você está fazendo? — gaguejou desajeitada, mas ainda assim ela aprofundou em meus braços. — Rainier, você está delirando?
Não disse nada, e nem queria. Eu apenas me concentrei no quanto era bom ter a sua companhia e poder tocá-la.
— Hoje é dia dos pais. — Lembrei logo nos afastando.
— Foi no mesmo dia que nos vimos pela primeira vez. — Sorriu meio constrangida. Mal ela sabia o que tinha acontecido comigo naquele mesmo dia.
Notas finais
A Maelys é a mesma garota que o maltratava quando criança, mas aconteceu algumas coisinhas e as coisas mudaram.
O Rainier não é tão carinhoso e desesperado por ter a Maelys por perto dele. Isso só aconteceu porque ele estava muito doente e se atacado por um de seus piores pesadelos mexeu muito com ele.
Eu sou PÉSSIMA para escrever coisas felizes, então já peço desculpas por isso T.T
Aceito de braços abertos comentários e criticas CONSTRUTIVAS. Ainda sou iniciante, então tenho muita coisa para aprender XD
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