Le Chant des Sirènes
71 Capítulo LXX
Notas iniciais
Capítulo LXX
Sua cabeça doía como se tivesse batido contra uma roxa por uma centena de vezes, e houvesse partido seu crânio ao meio. Era uma dor insuportável que não parecia sessar, não importa o que fizesse, nem os inúmeros remédios que Porlyusica havia receitado, ainda existia aquela dorzinha chata em sua mente.
Não mais incomoda que aquela sensação que insistia em perfurar seu peito, como se houvesse perdido algo, como se alguma coisa estivesse faltando e ele não tinha a mínima ideia do que era.
Seja o que fosse, Natsu odiava não estar sobre controle, de não saber o que estava acontecendo consigo, e odiava mais ainda a sensação que sentia toda vez que olhava aquele tanque em seu quarto.
—Tire essa merda daqui! — soou grosseiro enquanto se jogava na poltrona, não sabia o que havia acontecido, mas desde que apagou na praia, seus amigos não o deixavam em paz, sempre um em cima para saber como ele estava. Porra, era só um porre, não era?
—Não podemos deixá-la exposta! — Erza fora concisa em sua resposta e não precisou dizer mais nada para que ele compreendesse de quem falava. Afinal, o tanque o incomodava exatamente por pertencer a ela. Por que diabos todos pareciam se importar com uma sereia?
—Pouco me importa, isso não vai ficar aqui, nem deveria ter vindo para início de conversa! — odiava o fato de que suas memórias pareciam confusas, como o fato que não se recordava com precisão de como aquele tanque fora parar ali, era como se houvesse um branco em sua mente. Algumas memórias simplesmente, não encaixavam.
A ruiva o olhou com irritação e estava prestes a proferir algum xingamento ao capitão, quando a porta fora aberta com brusquidão.
—Tem alguma coisa errada! — Romeu gritou com os olhos arregalados, o que fora o suficiente para deixar os outros preocupados.
—Natsu, a Luxy tá ferida! — o pequeno gato azulado se jogou no colo do capitão aos prantos. Erza não esperou nem mais um segundo antes de correr para fora da cabine.
Seu corpo, no entanto, estava paralisado sem saber como reagir, sua mente insistia que não era nada e que pouco se importava com o que acontecia com a sereia. Porém, algo dentro de si se corroía com tal fato e uma necessidade sobre humana o guiou para fora em direção a multidão que se formava em meio a proa.
Caminhou por entre os marujos que lhe davam espaço quando se aproximava e em meio ao círculo, viu a sereia tentando ficar em pé antes de soltar um grito agudo e cair ao chão sendo amparada por Gray.
Seus pés estavam vermelhos com o sangue da ferida em carne viva que havia se tornado a sola do pé, diversos cortes por sua panturrilha subiam até as cochas com profundidade o suficiente para que uma boa quantidade de sangue fosse perdida.
Seus olhos se prenderam naquela cena e no rosto desacordado da jovem, algo o prendia ali e havia aquela necessidade de se aproximar, mas o refreava antes do primeiro passo.
—Leve-a até o tanque, a água pode ajudá-la a se curar! — Wendy ditou de maneira firme, porém, sua voz estava levemente rouca por conta da preocupação.
Não conseguia compreender por que todos se importavam com aquela garota, ela era uma sereia, um dos seres mais terríveis de toda a terra. Alguns machucados não iriam causar nenhum dano grave, parecia estúpido.
Contudo, Gray apenas correu com a garota em seus braços, não sem antes quase esbarrar no rosado que observou com veemência o rosto angelical antes de sumir de sua vista.
A tripulação parecia preocupada, cochichando uns aos outros o que poderia ter acontecido e o olhando com curiosidade. Decidido a acabar com aquilo, berrou para que todos voltassem ao trabalho e seguiu para sua cabine que agora estava lotada com seus amigos.
A sereia estava disposta no tanque o qual possuía a água completamente vermelha devido aos seus ferimentos que aparentemente permaneciam da mesma forma.
—Ela não está se curando! – Levy soou de forma preocupada enquanto observava a perna da sereia. – talvez se ela estivesse na forma de sereia, o processo de cura fosse mais rápido? — não questionou a ninguém especial, mas todos pareciam perplexo demais para responder.
A não ser a senhora de cabelos róseas que se aproximou devagar do tanque e segurou a panturrilha da loira sobre suas mãos enrugadas e tocou levemente a ferida observando as bolhas e cortes profundos debaixo dos pés. Gray permanecia segurando a garota em seus braços, sentado por detrás dela no tanque, a cabeça escorada no peito agora sem camisa do homem. Achou a aproximação ridícula e odiou que seu amigo estivesse tão perto daquele ser.
—Não vai se curar! — todos a olharam com curiosidade, até mesmo o rosado que olhava tudo com indiferença e braços cruzados. — Ao menos, não enquanto ela estiver na forma humana, é uma maldição!
—Maldição? — questionou Erza em incompreensão. – Mas que maldição?
—Não sei qual seu pressuposto, porém, está definitivamente é uma maldição. – Depositou delicadamente o pé da garota na água. – Maldições tendem a deixar um rastro como os demônios deixam enxofre, como uma lembrança do por que a recebera, e é isso que está nos pés desta jovem, uma ferida de uma causa não natural.
Nenhum outro som fora emitido após as palavras da xamã, apenas o silêncio de todos, porém com suas mentes em desordem. Com turbilhões de pensamentos inquietos com tudo o que acontecia naquele momento.
—Seja o que for, não vai matar essa praga, então, apenas tire isso de meu quarto! — o olhar de espanto que todos lançaram o capitão o deixou incomodado, no entanto, fingiu indiferença enquanto pegava um de seus cigarros.
—O que disse filho da puta? — ergueu uma sobrancelha e olhou com deboche para o moreno que o olhava como se o quisesse morto.
—Eu sabia que você era imbecil, agora surdo é novidade! – soou sarcástico deixando Gray ainda mais irritado. – Já que tá tão preocupado com sua prostituta, a leve para sua cabine porra! — falou firme, e logo em seguida o moreno se ergueu da banheira em ódio aonde Juviá precisou segurar a sereia a impedindo de afundar, pois não poderia respirar em sua forma humana e acabaria por afogar. Mesmo que de fato, não pudesse a vir falecer, seria horrível.
—Repete o que falou seu desgraçado! — partiu para cima do rosado o segurando pelo colarinho, e se irritando profundamente com o sorriso de deboche em seu rosto. – Me admira você falando essas coisas, que merda de capitão. – Aquilo irritou o homem que o empurrou com brusquidão.
—Me admira você que diz amar a Juvia, mas está caindo nos encantos de uma sereia, que estúpido é você! — o moreno revirou os olhos e ia socar o capitão quando foi segurado por Gildarts. – Por que não paga para vê se vale a pena morrer depois de trepar com uma sereia. — o único som que se ouviu após isso, fora o estalar da mão de Erza no rosto de Natsu que permaneceu com a cara virada ainda em choque.
—Não diga coisas que vá se arrepender depois Natsu!- havia decepção pura em sua voz e aquilo o atingiu, permaneceu de cabeça baixa com os olhos no chão.- eu não sei que droga aconteceu com você, mas por favor, não faça isso!- as mãos da ruiva tremia e em seus olhos lágrimas desejavam escorrer sejam elas de decepção ou tristeza, as duas coisas que compunham o que sentia naquele momento.
E então, o rosado apenas se virou em direção a saída e bateu a porta com força depois de sair, com seu coração batendo a mil com emoções que ele não compreendia.
—Natsu… nunca mais vai se lembrar da Luxy?- Happy perguntou com os olhos cheios de lágrimas e a voz embargada. – ele vai odiá-la agora?
Ninguém ousou responder, pois nenhum queria ter de dizer em voz alta e tornar aquilo mais verdadeiro do que já era.
O coração de todos estava em pedaços com toda a situação, contudo, o da sereia estava destroçado, e mesmo descordada, uma única lágrima escorreu de seu olho.
**
—O que fora toda aquela comoção que causou mestre? — questionou ao homem que sorria satisfeito observando o panfleto que segurava por entre os dedos, havia dois rostos dispostos em uma recompensa grande o suficiente para atrair os olhos de qualquer um para ele.
—Eu havia dito que não precisávamos nos preocupar em como captura-los, eles virão até nós! – jogou o papel sobre sua mesa aonde estava depositado diversos livros abertos em páginas sobre magia negra e magia de luz.
—Você influenciou o rei a caçar o filho de Zeref e a garota para nós, porém, isso pode vir a ser um problema não? E se o rei não quiser entregá-los? — questionou o homem que o observava com curiosidade.
—Basta dizer algumas palavras bonitas citando a vontade dos deuses que aquele idiota fara o que eu mandar. – Passou os dedos por sua longa barba branca e observou a jovem a frente. – Mesmo com todos atrás deles, não devem conseguir pega-los enquanto estiverem limpando os portais, o rei ou o conselho não possui poder além dos mares, mas é uma coisa boa que tenham olhos na terra, sendo assim, tudo vai ocorrer como previsto.
—O senhor sempre faz tudo muito bem planejado mestre Hades. — A garota observou o senhor que sorria satisfeito com suas ações. – Mas por que quer capturar o filho de Zeref também? Ele não o quer morto? — a paternidade de Natsu era um segredo a todos, o grande demônio da morte não queria que muitas pessoas soubessem daquilo que ele nomeou como falha. Porém, Ultear era um dos braços de mestre Hades e acabara por descobrir tal infortúnio recentemente. Tudo o que envolvia Zeref, era um segredo absoluto até mesmo para ela.
—Aquele garoto me vale mais vivo do que morto. — Fora sua resposta sucinta. — ele vai ser minha carta branca para qualquer adversidade que possa ocorrer, é sempre importante ter um As na manga querida Ultear.
—Sim senhor!- respondeu com compostura como sempre agia frente a tudo que envolvesse a Grimoire Heart.
A verdade era que Ultear possuía um segredo que poderia enviá-la direto à morte caso Hades descobrisse. O homem que era conhecido pelo seu notável conhecimento sobre tudo, jamais aceitaria ser feito de bobo por uma simples garota.
Devido a isto, a jovem andava pisando em ovos e sempre atenta a qualquer situação e consequentemente se advertindo a cada ação, pois o mínimo erro a levaria a ruína.
Quando o mestre a liberou para que saísse de sua cabine, ela encaminhou até a sua com passos firmes e a expressão seria, sem demonstrar qualquer outra emoção além de frieza. E ao entrar no local, a trancou e ligou o lacrima que não permitia que nada pudesse ser ouvido do lado de fora assim como não pudesse ser rastreado.
Seu remetente era o único o qual mantinha contato, e não demorou para que ouvisse a voz firme do outro lado da linha.
—Hades convenceu o rei de Fiore a determinar extermínio da Fairy Tail!- fora direta ao assunto, pois não poderia enrolar, o tempo lhes era precioso e poderia ser pega a qualquer hora.
—Do que está falando Ultear?- a voz tensa do outro lado da linha indicava a preocupação do homem.
— Ele possui influência sobre o rei a algum tempo, e conseguiu influencia-lo a caçar principalmente a Fairy Tail.- o homem suspirou do outro lado.- isso não é tudo Jellal.- o silêncio do outro indicava que ele aguardava para que ela desse continuidade. – estão oferecendo recompensas por quem conseguir capturar Natsu e a garota loira, o restante pode ser morto.
—Mas que merda!- soou nervoso e ouve um barulho de algo oco ao fundo, como se ele socasse algo. – como ele conseguiu isso?
—Hades sabe que é impossível ter influência no conselho e principalmente em Zentopia aonde ele é considerado um herege e jurado de morte por ir contra as leis da vida, mas ele usa de sua boa lábia para influenciar o rei a tomar decisões que o favorecem, se disfarçando de um velho pagão com conhecimento dos céus.
—Isso é ridículo!- o azulado estava com os nervos a flor da pele, como se precisassem de mais coisas do que isso. – por que ele precisa dos dois?
—Eu não sei quanto a isso, apenas que Zeref precisa da garota.- a pouco tempo ela havia descoberto que o grande demônio da morte que serviam era na verdade Zeref o homem por detrás das lendas, estava vivo e se esgueirando por entre a escuridão. – vocês precisam evitar ir nas cidades, é melhor que fiquem apenas em ilhas ou então nas cidades perdidas. – Cidades essas que eram conhecidas por sua autonomia e aonde a mão da jurisdição não chegava, e ali viviam os bárbaros e todos os tipos de criminosos.
—Faremos isso!- suspirou com cansaço antes de dizer de forma calma.- cuidado Ultear, é melhor que não entremos muito em contato. – ela assentiu, mesmo que ele não pudesse ver. E então o silêncio foi se ouvido após o fim da ligação.
Seu segredo estava interligado a Jellal e o motivo de ter se unido a Grimoire Heart. Só esperava que conseguisse concluir sua missão.
**
Precisou de umas boas doses de rum para que seu corpo ficasse um pouco letárgico, já estava se sentindo exausto dessa sensação incomoda que o acompanhava desde que acordou. E não precisava que seus amigos piorassem sua situação.
Estava decidido a ignora-los desde então, para que não tirassem sua paz com sermões que ele pouco se importava e muito menos iria seguir. Como se não o conhecesse o suficiente.
Empurrou a porta de sua cabine e a primeira coisa que chamou sua atenção fora a sereia sentada em uma cadeira com os pés dentro de um balde cheio de água, usava uma camiseta branca que se agarra a suas curvas. E agachada a sua frente, estava Gray segurando suas mãos de modo firme, como o bom carrapato que era.
Revirou os olhos bufando antes de notar que havia mais outros seis marujos tentando mover o tanque. Aquilo o incomodou por algum motivo.
—O que estão fazendo? — mesmo que estivesse levemente bêbado, sua voz soou firme atraindo a atenção de todos. Principalmente os olhos castanhos da loira que pareciam brasa sobre sua pele.
—O que você acha? Vamos mover o tanque para meu quarto!- Gray respondeu de modo grosseiro sem olhá-lo. Imaginou a sereia no mesmo quarto que o moreno e aquilo não o agradou nenhum pouco.
—Vai porra nenhuma!- agora ele havia atraído a atenção do moreno que o olhava em incompreensão.- quero essa garota aonde eu posso vê-la, não confio nela. – Lucy virou o rosto para o lado após suas falas.
Não conseguia desviar seus olhos em outra direção que não fosse ela, como se um imã o puxasse em sua direção. Se prendendo aos fios loiros e compridos que ele sabia que tinha cheiro de baunilha, da pele macia e alva, e da pinta que ela possuía abaixo dos olhos. Não fazia ideia de como sabia de cada uma daquelas coisas, porém, surgiam em sua mente como parte de um quebra cabeça que estava faltando.
—E eu não confio em deixar você com ela!- Gray se levantou apertando os punhos e olhando em direção ao amigo.
—Pouco me importa!- permaneceu olhando a sereia, não se dignou a olhar em direção ao moreno. – eu sou o capitão e eu estou mandando, deixarem essa merda ai!- lançou para os marujos que prontamente largaram o tanque e com apenas um olhar do rosado, se retiraram da cabine.
—Qual a droga do seu problema Natsu? Você mesmo disse que não queria que Lucy ficasse em sua cabine.- Gray estava indignado com as mãos na cintura, o rosado no entanto, apenas deu de ombros retirando um cigarro do bolso e ascendendo. A indiferença do capitão o fez desejar lhe socar o rosto, contudo, a mão da sereia na sua o impediu.
—Está tudo bem Gray!- a voz melodiosa lhe causou um arrepio na espinha. Inalou profundamente a fumaça em busca da calma que a nicotina não traria para si.
—Mas Lucy…- tentou argumentar, mas ela apenas sorriu apertando sua mão. Não queria deixá-la ali, sabia que seria doloroso para a sua amiga que tivesse que conviver com a grosseria e frieza de Natsu, porém, apenas suspirou resignado e assentiu antes de se virar para o capitão com olhar frio. – se fizer qualquer coisa com ela, juro que te arrebento e foda-se se é o capitão.
O rosado apenas deu uma risada sem humor se encostando na parede de maneira despreocupada, entretanto, assim que levou o cigarro aos lábios o objeto fora ao chão logo em seguida quando uma dor absurda o invadiu. Apertando seu cérebro como uma massa e arrepiando sua pele.
Levou as mãos a cabeça a segurando com firmeza em busca de algum alívio para a dor descomunal, contudo, seus joelhos fraquejaram o derrubando no chão, sua pele ardia quente como brasa e grunhidos de dor saiam de seus lábios.
—NATSU!-Ouviu o grito da garota antes dela correr em sua direção se jogando no chão ao seu lado. Pode sentir as mãos lhe tocando nos ombros e podia sentir que a queimavam ao menor toque, no entanto, ela se manteve no mesmo lugar. Gritou quando a dor o invadiu com ainda mais força arrepiando sua pele e remoendo seus órgãos. – calma, tá tudo bem!- segurou em sua rosto o obrigando a olhá-la, tentou se afastar por que não queria o toque de uma sereia em si, mas ela se manteve firme o segurando e olhando em seus olhos.
Havia algo nos tons castanhos de seus olhos e a maneira como sua pupila dilatava o suficiente para que ele conseguisse se ver ali, que o fez permanecer quieto. Em meio ao brilho de preocupação e algo mais que seus olhos emitiam.
Por que ela estava fazendo aquilo?
Não conseguia compreender suas ações e ainda mais suas reações quanto a ela, deveria se afastar, do fundo do seu ser ele sentia que não devia ter contato, todavia, não conseguia mover os olhos ou corpo em outra direção que não fosse naqueles olhos castanhos. E aos poucos seu corpo fora se acalmando e a dor sumindo até que parecesse apenas uma lembrança ruim.
—Que merda aconteceu aqui?- Gray questionou embasbacado ao lado dos dois que ainda estavam no chão.
—O selo… está se desfazendo por completo!
Fim!
“O maior pecado para com os nossos semelhantes, não é odiá-los mas sim tratá-los com indiferença; é a essência da desumanidade.
—George Bernard Shaw—“
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