Le Champ des Rêves

1 Le Champ des Rêves


Notas iniciais
A produção é um one-shot. Escrevi faz algum tempo, e achei perdido, resolvi terminar. Pra quem quer que esteja lendo, não espere muito.

Embriagado pela beleza infindável daquele campo de flores deslumbrantes, azuis como os oceanos, eu caminhei incansavelmente, seguindo os passos daquela garota de silhueta familiar. De longe, após caminhar por tal campo florido, pude vê-la confortavelmente deitada na grama. Seu rosto esboçou um sorriso tímido. Aproximei-me com passos vagarosos, observando toda a beleza daquele lugar antes nunca visto. Um campo nostálgico, cujo nome a muito havia sido esquecido. Sentei-me assim ao lado daquela figura familiar, que não me proferiu uma palavra sequer, assim com eu também não o fiz. Ela me guiou até ali, mas... Por quê?

- E isso é mesmo tão importante? — Indagou ela, como se pudesse ouvir o meu pensamento.

Sem palavras, eu apenas fiquei a olhá-la, um pouco surpreso.

- Coisas como essa não valem de nada aqui. Aqui não precisa observar padrões, ou atribuir a um acontecimento qualquer explicação. Esse é um lugar onde as coisas apenas acontecem, e é apenas nosso. Meu e seu. E ninguém pode tirá-lo de nós.

Uma promessa de paraíso.

Não pude dizer nada. Também não senti como se ela esperasse que eu dissesse. Apenas virei meu rosto e bati um olhar profundo sobre os limites do horizonte, que ironicamente, não parecia ter limites. Era tudo tão perfeitamente maravilhoso, e não importava para onde eu olhasse, eu não podia ver vestígios de humanos, salvo apenas pela garota ao meu lado, garota essa que me transmitia imensa familiaridade e segurança. Eu podia jurar que eu a conheci, mas não poderia dizer como ou quando. Mas de que isso importaria agora?

Um mundo apenas nosso, sem mentiras, traições ou todas essas coisas que os humanos inventam pra conquistar a própria felicidade...

- Este é o lugar dos seus sonhos, não é? Aqui os seus dias não serão desperdiçados.

Ao complementar sua fala, a garota tornou a olhar fixamente para mim. Por algum motivo, eu não pude olhá-la diretamente. Apenas permaneci observando o horizonte distante, onde pude ver formas de árvores e animais totalmente desconhecidos. As cores no céu e no horizonte se fundiam de forma incomum... Tudo era tão diferente, inusitado, irregular, nonsense... Mas muito desafiador e atraente. Era uma visão digna de sonhos. Algo quase que imaginário. Mas as sensações eram reais, eu tinha certeza de que eram.

- Ei, você ficará aqui pra sempre, não é? – Disse a jovem, tomando delicadamente a minha mão direita, e esboçando um sorriso acanhado. Antes que eu pudesse respondê-la, senti algo estranho... Algo como um colapso. Minha visão se abalou. Uma espécie de névoa negra foi envolvendo tudo ao redor. Eu já não podia entender o que ela dizia. Parecia que eu estava me afastando... E era verdade. Eu estava gradativamente me distanciando de forma involuntária. Não demorando muito, a névoa a fez desaparecer totalmente, junto com todo o resto. Eu já não podia ver nada mais, se não flashes brancos que cortavam a escuridão.

Abri os olhos, e me coloquei sentado na cama o mais rápido que pude, mas meus braços cederam, e eu não pude concluir o movimento. Branco... Tudo era branco. Desconfortável, opaco, estressante... Pude ouvir murmúrios distantes, e algo que soava como rodinhas, talvez de um carrinho, ou algo do tipo, além de telefones tocando a todo momento. Era um hospital, não havia dúvidas. Eu havia acordado em um hospital e minha cabeça doía. Tudo o que eu me lembrava era da garota que eu havia conhecido a pouco e do lugar pra onde eu queria voltar. Na sala, nenhum rosto familiar. Apenas algumas enfermeiras, aparentemente falando muitas coisas, mas nada que eu pudesse – ou quisesse — entender. Com a visão embaçada, levei a mão até a cabeça e foi quando senti a atadura que envolvia a minha testa. As enfermeiras insistiam em tentar comunicar-se comigo, sem sucesso. Eu sequer prestei atenção naqueles gestos que elas faziam, ou palavras que proferiam. Só tenho vagas lembranças de palavras como “acidente”, “pais”, “cirurgia” e “coma”. Pouco me importava como cheguei ali, tudo o que eu queria agora era poder voltar àquele sonho.

- Vamos deixá-lo descansar. Ele acabou de passar por uma cirurgia, e está confuso. – Disse um homem alto, de meia idade, vestindo um jaleco, camisa azul e gravata azul marinho.
Só notei a presença do homem, provavelmente algum médico, naquele momento. E junto com ele, todas as outras enfermeiras deixaram o quarto. Levantei-me vagarosamente e caminhei com certo cuidado até a enorme janela daquele quarto. Apoiando-me no vidro com a ponta dos dedos, pude ver do alto grande parte da cidade. Edifícios enormes, veículos, pessoas... Movimentação ruidosa. Mas tudo era opaco e sem graça. Nem o céu, tampouco aquela vista do horizonte, nada podia ser comparado àquela visão que eu tive há pouco. Teria sido apenas um sonho como qualquer outro? Um sonho como mais um daqueles, em que nunca ao longo de nossa vida voltamos a ter? Sentia como se eu realmente não pertencesse àquele lugar em que eu estava agora. Le Champ des Rêves, ou O Campo dos Sonhos, foi como eu resolvi chamar o lugar de meus devaneios. Mas de onde eu havia tirado isso? Nesse instante, percebi que eu possuía certa afinidade com o idioma francês, ou talvez aquele fosse o título de alguma obra que eu conheci anteriormente, mas não me lembro. De qualquer forma, isso não importava tanto. Virei e voltei para a cama de onde eu havia levantado e deixei-me cair, abatido pela dor que parecia querer explodir o meu crânio, mas que a pouco eu estava demasiado preocupado para me dar conta. Só me lembro de fechar os olhos e deixar um longo suspiro escapar antes de dormir. Sequer sei o que sonhei, mas sei que sonhei algo. E provavelmente, algo intenso o bastante pra me fazer levantar da cama num salto. Meus olhos estavam arregalados, minha respiração ofegante e a roupa cedida pelo hospital, encharcada pelo meu suor. Num gesto maquinal, levei a mão direita até os cabelos e depois de um longo suspiro, consegui me recompor. Sentei na beirada da cama e observei ao redor. O quarto estava vazio e incrivelmente lúgubre. Naquele momento, tudo o que eu queria era saber que alguém ainda se importava comigo. As enfermeiras que mais cedo não me esforcei de ter dado a devida atenção, eu queria de alguma forma que elas estivessem ali naquele momento. Mas eu queria mais de tudo voltar para aquele sonho que tanto me encantou. Mas eu sabia que não podia. Antes mesmo que eu me desse conta, lágrimas escorriam pelo meu rosto como o leito de um rio enquanto eu refletia sobre isso tudo. Transbordavam arrependimento, abandono, solidão, raiva, desgosto, além de outra infinidade de sentimentos que eu não vou me esforçar para nomear. Nem sequer me lembrava o meu nome, e eu não fazia mesmo questão disso. Embalado pela escuridão daquele quarto, eu podia sentir como se minha existência tivesse sido excretada do mundo. Já não tinha vontades, sonhos, propósitos, desejos ou saudades de alguém em especial. Eu só sentia a vontade impossível de retornar àquele local dos meus sonhos. Desolado, criei forças e caminhei pela janela, para olhar outra vez o mundo do qual eu havia me afastado tanto em apenas poucas horas. Tantas luzes e tanta agitação... Todos pareciam tão fervorosos e alegres. O céu era negro como azeviche, mas a poluição visual não me permitia ver sequer uma estrela nele. As lágrimas relutantes voltaram a encharcar meus olhos e distorcer meu campo de visão quando ousei me perguntar se aquele mundo ainda guardava algum espaço para mim. As diversas luzes, cores e os diversos brilhos se fundiam de maneira irreal, e eu só pude me lembrar do sonho que tive. Meus olhos se arregalaram, como que para apreciarem o máximo que podiam daquela visão efêmera. Realidade e sonho, luz e escuridão, alegria e tristeza, angústia e esperança... Tudo aquilo se fundia com familiaridade. Soltei uma gargalhada do fundo da minha alma e afastei-me daquela grande vidraça, que agora parecia transparente. Assumi a posição de um corredor e com toda a força dos meus músculos, me atirei na direção daquele portão transparente que separava realidade de sonho. O ar da liberdade era frio, e eu o aspirei com toda a força dos meus pulmões antes de começar a sentir a pressão dele contra o meu rosto.

A pressão do ar da liberdade afastou minhas lágrimas e enxugou os meus olhos.

A pressão do ar da liberdade me permitiu ver o mundo como ele realmente era pela última vez.

E a verdade é que o mundo já não era tão belo quanto me pareceu ser instantes antes de saltar.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!