Leão do Inverno
41 Bônus — Vênus
Notas iniciais

VÊNUS
Vênus: deusa do amor e da beleza na Mitologia Romana, assimilada ao sexo por ser de anatomia divinal. Equivalente à deusa Afrodite da Mitologia Grega, teve como um de seus maiores amores o deus da Guerra, Marte (Ares).
Ένα
Feels, por Kiiara
► II
No dia em que a vi pela primeira eu estava completamente irritada. Eu não gostava do Alexander Stadium, ele era o pior dos clubes possíveis para locação e por situar-se em Birmingham, ficava a quase duas horas e meia de distância da minha casa, em Londres. Mas com os preparativos para os Jogos Olímpicos de 2012, a maioria dos estádios com arena de ginástica estava em reforma.
Era a primeira terça-feira de setembro, o que significava treino intensivo na equipe inglesa de Ginástica Rítmica, mas também meu segundo dia letivo no décimo primeiro ano¹.
Eu estava nervosa, tinha dormido pouco e a carona que peguei com a madrasta de uma de minhas colegas de equipe – que infelizmente é amiga da minha mãe e tão desagradável companhia quanto à própria – tinha-me consumido o restante de paciência que eu tentei salvaguardar durante todo o dia.
Estávamos nos alongando quando ela se aproximou. Fazia um calor incomum para o fim do verão; mesmo com o sol se pondo o ar estava abafado. Minha cabeça doía por conta disso e eu usava toda minha determinação para não gritar com Christine, uma das meninas do time que falava ininterruptamente há mais de dez minutos sobre como seu novo namorado era maravilhoso.
Pressionando o rosto contra minha perna esquerda, que estava estendida num espacate² perfeito, permiti-me fechar os olhos e foi neste exato momento que pude ouvir a porta se abrir. Desinteressada, preferi focar-me em sentir meus músculos simplesmente relaxando enquanto passos se aproximavam de nós.
— E aqui estão elas – Sarah Binding, nossa técnica, cantarolou. – Certamente posso dispensá-las por uma hora, mais ou menos, para que vocês se conheçam melhor. O que me diz?
— Eu apreciaria isso. Obrigada – sua voz suave, até então desconhecida, respondeu.
Devagar, afastei as pálpebras, e por entre meus cílios consegui enxergar o rosto mais angelical que jamais imaginei existir.
Ela era absolutamente linda. Loira, de curvas instigantes, olhos verdes e lábios carnudos. Ela sorria de forma polida para Sarah, mas quando se virou para nós – mais especificamente para mim, que havia congelado na posição em que estava e mantinha meu olhar fixo nela com uma feição que se dividia entre adoração e surpresa – a expressão em seu rosto passou de educada para divertida.
— Olá – ela nos cumprimentou. – Eu sou Anabelle Parker, trabalho para a CPSU³, e daqui para frente serei nova a psicóloga de vocês.
As outras seis garotas da equipe já estavam de pé e começavam a cumprimentá-la. Eu só consegui fazê-lo algum tempo depois, ainda estupefata e subitamente de pernas trêmulas.
— Hm, o que aconteceu com a Senhorita Weston? – Perguntei, ainda mantendo certa distância da psicóloga, mas desejando inconscientemente tocá-la para verificar se era real.
— Ela foi movida para o País de Gales na última semana – Anabelle estendeu a mão em minha direção, mesmo eu estando a vários metros de distância.
E, tentando ser educada, aproximei-me para retribuir o gesto.
No instante em que meus dedos tocaram os dela, tive certeza de que ela não era uma pessoa comum. A corrente elétrica que percorreu meu corpo com aquele simples, ligeiro roçar de palmas não poderia ser arranjado por nenhuma pessoa ordinária.
Ela era uma deusa. Eu só não fazia ideia de que seria a minha deusa.
Δύο
Drumming Song, por Florence + The Machine.
► II
Três – incluindo eu – das sete atletas do time oficial de Ginástica Rítmica da Inglaterra moravam em Londres. As outras quatro estavam hospedadas num hotel com outras pessoas que participariam dos Jogos da Commonwealth⁴, que aconteceria dali a um mês, na Índia.
Em Londres ficava localizado, também, o consultório da Doutora Anabelle Parker, portanto, na sexta-feira após o dia em que nos conhecemos eu me dirigi para o prédio de aparência aristocrática a poucos minutos de Westminster, a fim e ter minha primeira consulta com a médica americana.
Eu não tinha sido capaz de tirá-la da minha cabeça nos dias que se seguiram a nosso primeiro encontro. Tentei ouvir o máximo possível a seu respeito entre as conversas aleatórias que rodavam a meu time e a equipe técnica – algo que quase me custou um ataque cardiorrespiratório quando ouvi uma das supervisoras da UEG⁵ conversando com um dos fisioterapeutas a respeito de Anabelle.
— Ela é muito bonita. Acho que vou convidá-la para sair – ele disse.
— Eu tenho mais chances com ela que você – a supervisora respondeu. – Ouvi dizer que ela é assumidamente lésbica.
A euforia que eu senti na hora desenhou um sorriso tão grande em meus lábios que lembro-me com perfeição e não ter conseguido fazê-lo desvanecer por quase um dia inteiro.
Mas enquanto subia os incontáveis andares daquele prédio que mais parecia uma montanha e onde, apropriadamente, encontrava-se minha deusa, a inquietação agitava-se em meu íntimo. Eu estava tão fascinada por ela que mal sabia como me portar.
Sentia-me estranha e deslocada. Uma adolescente insignificante tentando chamar atenção de uma mulher mais velha que, com certeza, lhe enxergaria como apenas mais uma garota patética.
A ansiedade estava fazendo meu estômago agitar-se e quando consegui adentrar o consultório de Anabelle, já sentia-me doente. Acredito que o fato de eu ter recusado o jantar da noite anterior, bem como o desjejum daquela manhã e ainda o almoço no colégio, contribuía para a tontura que se apossava de mim.
No momento em que sentei a frente da Doutora Parker, comecei a suar. Devido a minha desorientação, fui incapaz de aproveitar devidamente seu sorriso caloroso de boas-vindas ou ainda a voz aveludada me cumprimentando.
Minha mente estava trabalhando muito devagar. Anabelle falava comigo, mas infelizmente eu não era capaz de processar nada. Era como se tivesse sido envolta em água morna, com a imagem daquela deusa movendo-se devagar a minha frente.
— Senhorita Winter? – Ao longe, como se vinda até mim através de um túnel, ouvi-a chamar-me. – Está se sentindo bem?
— Sim – menti, piscando languidamente, a voz saindo num suspiro. – Só estou um pouco... Franca.
— Você está pálida. E suando – levantando-se, ela veio até mim com aquele lindo rosto contorcendo-se numa máscara de preocupação. – Você é hipoglicêmica?
— Não – senti sua mão em minha testa e observei seus olhos se arregalando. – Só me esqueci de comer hoje.
Ouvi algo sobre eu estar gelada. Ela levantou-me com cuidado da cadeira e, tonta, acompanhei-a para fora da sala. Algumas palavras agitadas foram trocadas com a secretária e eu as ignorei pelo simples fato de preferir me manter completamente atenta ao toque delicado da mão pequena em meu braço, guiando-me para o elevador.
Anabelle Parker levou-me para a lanchonete do edifício murmurando coisas sobre minha pressão arterial e meu índice de glicose. O torpor provocado pela proximidade excessiva do corpo dela se ausentou por alguns momentos para que eu sentisse vergonha por ter de ser praticamente carregada.
Meu autojulgamento só foi interrompido quando sentamo-nos à uma das mesas. A primeira coisa que ela fez, antes até mesmo de chamar um dos garçons, foi puxar minha mão e colocar nela uma pitada quase insignificante de sal.
— Coloque sob a língua. Vai ajudar.
Ainda que eu não quisesse ficar mais encantada por ela, o fato de aquela psicóloga maravilhosa ter cuidado de mim com tanta devoção só fez com que eu a adorasse mais.
Naquela tarde criamos um vínculo especial, o primeiro de muitos, e ainda que eu me sentisse uma idiota por fazê-la passar – e me ver passando – por uma situação tão estúpida, a felicidade que me inundou ao saber que ela se importava aqueceu-me pelo restante da semana.
Estava chovendo numa das primeiras consultas de outubro, dias antes de eu embarcar para Dahli. Não que isso fosse uma novidade em Londres, mas ressaltar isso traz mais detalhes a uma das memórias mais doces que tenho da Doutora Parker.
— E você se sente anormal? – Anabelle inquiriu, depois que eu lhe confidenciei um dos adjetivos mais comumente empregados a mim por minha mãe.
Minha hesitação a inquietou. A verdade era que eu não estava completamente certa da resposta. Eu acreditava ser excepcional e extraordinária, fazendo jus a todas as vezes que minha mãe chamava-me de egocêntrica, mas ‘anormal’ é uma palavra muito pesada, ainda que sinônimo dos adjetivos anteriores.
— Eu prefiro o termo “excêntrica”, doutora – sorri, desconcertada.
— Absolutamente – ela riu, e o modo como sua língua enrolou-se e chocou-se contra a parte interna dos dentes fez com que eu estremecesse. – Então ser excêntrica não a incomoda?
— Incomoda meus pais. Eles não acreditam que eu possa ser boa sem ser exatamente igual a minha irmã. Mas eu gosto de ser assim. Quero dizer, pessoas excêntricas são marcantes.
— Você se sente satisfeita sendo marcante? – Doutora Parker olhava para suas anotações, o canto superior esquerdo de seu lábio estava um pouco erguido numa tentativa quase bem-sucedida de conter um sorriso.
Quando eu respondi, no entanto, com a voz mais sensual que fui capaz de forjar, ela ergueu o rosto, aparentemente surpresa, mas agora sorrindo amplamente.
— Eu me sinto satisfeita sendo profunda.
O silêncio que se seguiu, no entanto, fez com que minhas bochechas assumissem um tom tão absurdamente intenso de vermelho que eu tive o impulso de puxar os cabelos para frente para conseguir encobri-las.
— Você está acostumada a esse tipo de flerte, Senhorita Winter?
Com o sangue pulsando forte em meus ouvidos e as pontas dos dedos latejando, abri e fechei a boca algumas vezes antes de encontrar a resposta adequada. Engolindo a saliva excessiva, apenas neguei com a cabeça.
— É só comigo? – Ela parecia ter adotado minha tentativa de rouquidão como um desafio, pois agora seu tom estava mais baixo e intenso.
— S-sim – gaguejei, ainda mais vermelha que antes.
Mesmo agora o significado do sorriso que ela me ofereceu é desconhecido.
Eu permaneci estática, sem sentir muito bem meu corpo, apenas imersa na sensação que aqueles olhos verdes me proporcionavam, imaginando como minhas mãos se encaixariam na cintura fina e meus lábios cobririam com perfeição aquela boca tão vermelha.
Eu estava fervendo, quase entrando em completa combustão. Ela era tão linda que eu ainda duvidava se era realmente humana – veja bem, para alguém que é viciado em literatura fantástica, acreditar em succubus ou fadas não é tão difícil.
— Você não vai dizer nada? – Perguntei, esperando que ela parasse de me encarar como se eu fosse uma peça a ser estudada, desejosa de que eu pudesse simplesmente atravessar aquela mesa e acomodar-me em eu colo.
— Hm – ela praticamente ronronou, desviando os olhos para suas anotações. – Nosso horário acabou.
Eu a odiei nos cinco segundos seguintes, mas assim que me coloquei de pé uma coragem súbita de possuiu.
Talvez a adoração que eu mantinha presa em meu coração tivesse se libertado com o movimento brusco, ou o suprimento de oxigênio do meu cérebro tivesse sido cortado, eu não sei direito o que me levou a perguntar aquilo, mas uma vez que o pensamento foi formado, minha boca não esperou por autorização para verbalizar minha vontade:
— Você- Você poderia- Você poderia me beijar?
Os olhos dela deixaram a mesa muito lentamente, passando do mogno para meu corpo e alcançando finalmente meu rosto.
É claro que ela não poderia.
— É claro que eu poderia.
Levantando-se calmamente, jogando a catarata de ouro líquido por cima dos ombros, ela começou a caminhar na minha direção, contornando a mesa.
Estupefata, permaneci inerte. Eu não esperava uma resposta positiva e quando as mãos macias ergueram meu rosto, tive de prender a respiração e fechar os olhos. Minhas pernas não respondiam, meu coração batia num ritmo errático e acelerado.
Eu pude sentir o hálito de café e bala de canela chocar-se contra meu rosto e o calor deixá-la para encharcar-me como ondas de energia que eu jamais julguei poder experimentar até aquele momento.
Senti, de alguma forma, que ela sorria e, no momento seguinte, senti seus lábios-
Na minha testa.
Foi um beijo casto, demorado, cheio de cuidado. Logo depois ela se afastou, deixando uma sensação de vazio a minha volta. Ainda incapaz de mover-me, observei-a cruzar a sala e apanhar um guarda-chuva dentro de sua bolsa.
Estendendo-me, ela fechou melhor meu casaco e ajudou-me a ir até a porta.
— Vá com cuidado – ouvi-a dizer, ainda desorientada pelo contato, enquanto, automaticamente, tropeçava em direção ao elevador, dividida entre a vontade de voltar lá e a de correr para longe.
Τρία
Venus, por Sleeping At Last.
► II
Era um jogo para nós duas. Ela estava receosa, eu, afoita. Ela recuava, eu corria em seu encontro. Ela tinha medo, eu tinha pressa.
No dia de meu aniversário de dezesseis anos foi quando, finalmente, Anabelle Parker aceitou encontrar-me fora de seu consultório, sob a condição de que ela escolheria o destino de nosso passeio. Eu não me importava realmente para onde estávamos indo, a única coisa que dominava meu pensamento era a ideia de que longe daquelas paredes poderíamos ser mais que paciente e médica.
Ela levou-me para um museu em Londres, onde havia uma réplica d’O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli.
Ficamos muitos minutos admirando aquela pintura, sem trocar nenhuma palavra.
Depois de algum tempo, porém, percebi que meu foco tinha ido da obra para Belle – como comecei a chamá-la naquela tarde. Eu a olhava com tamanha admiração que percebi suas bochechas assumindo uma tonalidade avermelhada, ainda que seus olhos se mantivessem fixos na tela.
— Gosta do que vê? – Ela perguntou, sem fitar-me.
— É linda – respondi, não me referindo a pintura, de fato.
Seus olhos desviaram para o chão e, enfiando as mãos no casaco com mais força, ela caminhou para a obra seguinte.
Adiantando-me para ela outra vez, permiti que minha mão alcançasse sua cintura.
— Você é uma deusa – sussurrei em seu ouvido, depositando um beijo demorado em seu pescoço, observando, satisfeita, os pelos dourados eriçarem-se sob a pressão de meus lábios. – Definitivamente minha Vênus.
— Vênus não adquiriu coisas boas se apaixonando, você sabe – ela me afastou delicadamente.
Pensei em uma resposta apropriada, mas fui incapaz de achar uma. Meu cérebro só voltou a funcionar quando ela puxou-me pela mão e foi mostrar-me uma réplica d’A Última Ceia.
Depois de dezembro ficamos quase um mês sem nos vermos. Ela teria que acompanhar a equipe de ginástica artística em um projeto da FIG⁶ pelos Estados Unidos.
Ainda que nos falássemos sempre pelo telefone, sentia sua falta. Conhecia-a há pouco mais de três meses e sua ausência já se refletia em mim como uma dor quase física. Não tínhamos conversado mais sobre o que eu sentia por ela, ou se ela retribuía de alguma forma.
Eu estava sendo inconsequente por alimentar minhas esperanças e talvez ela estivesse sendo negligente por deixar que isso acontecesse, mas nenhuma de nós media os movimentos que tomávamos.
Era um jogo, sim, mas regido apenas pelos impulsos e reações mais brutos que possuíamos.
Para uma cética em relação ao amor como eu, todos aqueles sentimentos me estavam confundindo – e mesmo assim eu implorava descaradamente por mais.
Anabelle tinha o dobro da minha idade e a situação que nos encontrávamos não era favorável, todavia saber disso não diminuía minha ânsia de gritar para ela as coisas que eu vinha desejando.
Eu sempre fui irresponsável com meus atos – motivo pelo qual minha relação com meus pais era tão difícil – e exatamente por isso, numa fria manhã da segunda semana de janeiro, depois de colher várias informações e implorar internamente para que elas fossem verídicas, fui até o Aeroporto da Cidade de Londres com um buquê de flores, um poema escrito e reescrito milhares de vezes e minha coragem consumindo minha alma.
Victoria Wall, a secretária de Anabelle, contava com o meu total desprezo desde o momento em que nos conhecemos, mas eu não pude deixar de agradecê-la mentalmente quando vi, em meio à aglomeração, os cabelos loiros que eu sonhava ver espalhados pelo meu travesseiro.
— Belle! – Chamei, sorrindo largamente quando o semblante confuso fê-la parecer ainda mais adorável. – Bem-vinda ao lar.
— O que- O que você está fazendo aqui? – Ela tentava nitidamente conter sua felicidade, mas o sorriso em seus lábios e o rubor de suas bochechas entregavam-na.
— Eu vim recepcioná-la – entreguei-lhe o buquê. – E dizer que senti sua falta.
Doutora Parker mordeu o lábio demoradamente e eu me perdi naquele simples movimento. Engoli a saliva, desejosa de poder ser meus dentes em volta daquela boca.
— Obrigada, Lexi – Belle sussurrou, sua voz quase sendo levada junto a multidão apressada.
Eu sempre estremecia quando ela me chamava dessa forma, porque ninguém mais me chamava assim. Daquela vez não fora diferente.
Insuflando o máximo de ar que fui capaz, retirei do bolso a folha que vim rabiscando pelas semanas anteriores e, sob os olhos curiosos da psicóloga, desamassei-a.
— Escrevi algo para você, também.
— Finalmente vai deixar que eu leia um de seus poemas?
— Não – eu respondi de imediato e vi o brilho nos olhos dela esmaecendo em decepção. – Eu vou ler para você – acrescentei, rápido.
— Aqui? – Ela riu; seu sotaque tornando a pergunta ainda mais adorável.
— Agora.
Pigarreei e a encarei por mais alguns segundos antes de começar:
“Chame-me Marte ou Ares, se dessa forma puder me desejar;
Eu galgaria o Olimpo para vê-la. Prostrar-me-ia se assim você pedisse.
Seja Vênus ou Afrodite, você que só é vista quando deseja, confundiu meus instintos,
Pois eu, dependente que sou, jamais encontrei em meus demônios companhia o suficiente.
Eu lutaria mil guerras por você, ainda que seu coração seja tudo o que desejo.
Então abrace-me, pegue-me, roube-me e devolva-me, se dessa forma puder tomar-me outra vez.
Rasgue, deguste, engula. Só não quebre-me a alma, pois nela conservo-te.
Só desejo que caia comigo. Pegue-me pela mão e não olhe enquanto o Universo nos draga.
Na atmosfera nos consumiremos, supernovas em combustão,
pois esse sentimento devora e renasce. Se profano, não sei. Excepcional? Sem dúvidas.
Beije-me, ame-me, possua-me, pois sou sua. Eu me entrego, te dou, ofereço e só peço que arrisque-se.
Por Marte e Vênus. Por Ares e Afrodite. Por você e eu.
Pelo que ainda não somos. Pelo que talvez sejamos.
Porque eu nunca te disse, mas eu te amo.”
Minha garganta doía, apertada. Havia lágrimas em meus olhos e minhas pernas tremiam tanto que eu mal podia manter-me de pé. Minha cabeça girava, sendo invadida e dolorosamente pressionada pela torrente de pensamentos. O coração em meu peito golpeava as costelas com força o suficiente para ser fazer sentir na ponta de meus dedos.
Eu estava tão corada!
Esperei que ela dissesse algo, mas nenhuma resposta verbal foi proferida. A réplica veio por meio de um ato – um simples, arrebatador ato.
Anabelle Parker beijou-me. Tão apaixonada e intensamente que o mundo a nossa volta desvaneceu-se num sem-número de estrelas. Estávamos realmente no espaço – no nosso espaço.
Eu não me importava com as oposições em nosso caminho juntas e ainda que soubesse que ela temia todos os obstáculos e tribulações a que seríamos submetidas, podia sentir também que, pelo menos naquele momento, nada importava.
Céus, ela me queria!
E agora, enquanto relato nosso pequeno conto de fadas adverso, assisto minha Vênus adormecida ao meu lado.
Não é fácil e talvez não seja certo, mas confio nela o suficiente para guiar-me – guiar-nos – através das quimeras e harpias oferecidas pelo mundo.
Afinal, o que qualquer mortal pode saber sobre o amor que a própria deusa deste sentimento desconheça?
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