Laís Lilás

14 15 estrelas e um carimbo manual


Roupas compradas e separadas, malas feitas, fotos postadas no instagram, tudo arrumado pra deixar Pernambuco. Até a bolsa com algumas balas, documentos e até um exemplar do “15 estrelas e um carimbo manual", último livro lançado de Júlio, assinado por ele, que Marcella pedira (era sua grande fã), que Laís aproveitaria pra, de quebra, ler no avião.
Um dia depois da festa de despedida, Bárbara já voltara a se descabelar de preocupação e Bruno já era todo drama de saudades. Júlio estava particularmente feliz pela menina, e Alice passara a acompanhar a onda do pai.
Laís era um poço de ansiedade, e isso parecia influenciar na dor que sentia. Estava forte. Mas sabia que isso melhoraria quando estivesse lá (ou não?).
A melhor saída sempre era esquecer.
Na verdade, a memória é um cavalo de tróia, presente de amigo-da-onça, faca de dois gumes. Quando lembramos do que foi bom, sentimos saudades. Quando lembramos do que foi ruim, ficamos tristes.
A melhor saída SEMPRE é esquecer…
Assim como ela se esforçava pra esquecer diariamente o que se passava com seu corpo. Assim como ela esquecera Micael. O esquecimento talvez fosse a chave do sucesso, o único caminho pra ver as coisas de forma positiva.

À noitinha, Laís estava exausta da arrumação, então Bruno sentou na ponta da cama de sua cama.
Tinha o violão na mão e uma carinha triste, de quem se preparava pra passar momentos ruins.
Posicionou o instrumento na perna e começou a tocar.
“Chega de saudade, a realidade é que sem ela não há paz…".
A música preferida de Laís.
Nesse momento, o coração da menina, que já tinha construído em si um forte, um alicerce com base na capacidade de deixar pra lá, amoleceu.
Bruno… Era uma das pessoas que jamais esqueceria.
Com certeza eles tinham uma ligação de outras vidas, porque o entendimento era forte, a união, a compatibilidade. E o respeito também. Sempre foram muito companheiros, desde cedo, mesmo quando tinham briguinhas bobas e a mãe os obrigava a fazer as pazes, e, a contragosto , tinham que ficar se abraçando e dizendo coisas boas um ao outro.
– Bru, acho que você é a pessoa de quem mais vou sentir falta. Você, esses seus olhinhos lindos e essa sua voz maravilhosa. Óh, não quero você cantando minha música pra ninguém, viu! Você cantando Chega de Saudade é uma coisa exclusiva pra mim! — Disse, brincando, fazendo cara de rabugenta.
– Vou sentir saudade mais que tudo e vou contar os segundos pra você voltar, Lá. E essa música é só sua, não precisa se preocupar. — respondeu, sorrindo ao perceber o ciúminho da irmã.
Laís abriu o livro de Júlio numa página marcada anteriormente por ela, que o folheara:
“A saudade me acaricia
quando lembro dos teus olhos
e penteia meus cabelos
quando lembro dos teus cuidados
ela esquenta o meu colo
quando lembro dos abraços
e mede a minha amargura
quando lembro dos sorrisos;

A saudade me consola,
tão carente e casta;
desmemoriado que sou,
esquecer é o que me basta,
mas essas são saudades
que vivem do meu lado
que se deixo, me invadem
e me fazem sofrer calado."

Era uma poesia simples e bobinha… Mas tão logo se identificara que até entendia o motivo de Júlio fazer tanto sucesso. Era o Nicholas Sparks das estrofes.
Ela recitara o poema e Bruno já estava deitado abraçando-a, com jeito de irmãozão. Ele sempre era assim, tentava cuidar dela, quando as coisas ficavam difíceis, tentava parecer forte e ampará-la.
No fundo, Laís tinha um certo rancor do pai, que nunca simbolizara nada pra ela. Mas esse sentimento nunca pôde se tortar uma revolta ou motivo de infelicidade porque o irmão, desde cedo, desde sempre, estivera lá pra ela.
Queria levá-lo com ela pra onde fosse, caso pudesse.
Mas esse não era o momento pra dizer isso, só podia dizer o quanto era grata e deixá-lo se sentir livre, sem mostrar a dependência habitual dos cuidados dele, por mais que isso o magoasse.
Então começou a contar seus planos, tudo o que lera de interessante sobre a cidade que visitaria, o que conversara com Marcella, assuntos nos quais ficaram até ele dormir ali, em cima de algumas roupas jogadas e ao lado dos sapatos.