Percebeu que estava onde não queria, novamente. Gotas de chuva molhavam a janela e ainda estava escuro lá fora. Apesar de dois meses longe de seu país, ainda não se acostumara com o fuso horário contrario. Tudo parecia melancólico e sem vida quando estava longe de seus amigos, de sua família postiça... Era assim que considerava o Arashi; uma família que substituíra a verdadeira.

Estava no exterior para gravar um filme. Sabia que seria ótimo para sua carreira e para sua vida profissional, mas trocaria todo seu dinheiro e sua fama por algumas horas perto de seus amigos. Estava se sentindo sozinho naquele país tão diferente. Era tudo tão confuso e distante. Todos eram frios e impassíveis, aquilo era desconfortável.

Fitou, pela milionésima vez, a foto que tinha dos seus amigos ali. Os sorrisos sinceros, os olhos brilhando, a descontração evidente... Tudo ali parecia tão feliz e simples. Sentiu como se seu interior estivesse inabitado, tamanho vazio que sentiu. Tocou o peito para conferir se seu coração ainda estava ali, batendo. Se seu coração ainda estava ali, então seus amigos estariam com ele para sempre, em qualquer lugar do mundo.

O telefone tocou, tirando-lhe de seus devaneios. Limpou uma pequena lágrima que escorrera por seu olho direito. Caminhou até a mesa e pegou o telefone.

-Moshi Moshi ~ -atendeu e pigarreou, percebendo que sua voz estava tremula.

-Mr. Ninomiya? –perguntou a voz do outro lado.

-Yeah. –disse, sem vontade.

-Forgive me for wake you, but there’s a call for you. It’s from Japan. A man called… hm… Mr. Ohno. He said that it was very important. Do you want to get this call? –Nino demorou alguns segundos para entender a frase dita em inglês, mas quando ouviu o nome de Satoshi, ficou desesperado para entendê-la rápido.

-Mr. Ohno?! –perguntou atônito. –Of curse I want!

Esperou alguns instantes escutando uma musica irritante até a ligação ser passada. Estava batucando os dedos na mesa e balançando o pé freneticamente, ansioso.

-Moshi Moshi... –disse uma voz fraca do outro lado da linha.

-Oh-chan?! –Nino gritou –O que houve?

Esperou alguns segundos em apreensão enquanto Satoshi estava silencioso.

-Nino-chan... –sussurrou.

-Nani? Diga algo, Oh-chan, por favor! Aconteceu alguma coisa?

-Nino-chan... Você não vai voltar nunca mais? –a voz saía tremula e fraca. Ele estava chorando.

Nino sentiu um aperto encolhendo seu coração, como se um trator passasse por cima dele e acabasse com tudo que tinha ali.

-Oh-chan... Eu vou voltar. Amanhã estarei aí, prometo. –tentou engolir o nó na garganta.

-Amanhã? Não, Nino-chan! Eu preciso de você agora! –desesperou-se- Por favor, pegue suas malas, embarque no primeiro avião e volte para o Japão.

-Eu não posso, Oh-chan, gomen... –as lágrimas queimavam em seus olhos e ele tentou fazer com que sua voz saísse calma. –Eu tenho uma premiére para ir.

-Não vá! Pegue suas coisas e volte para casa.

Nino pegou sua passagem que estava ao lado do telefone e viu a hora do embarque. 14:30.

Praguejou tudo o que podia em pensamentos. Por que tão tarde? A viajem era de quase doze horas com escalas em alguns locais. Respirou fundo.

-Eu estarei aí assim que puder, Oh-chan, eu prometo. Queria poder estar aí com você, ou poder pegar um avião nesse exato momento, mas é impossível.

-Por favor, volte! Eu preciso de você do meu lado, Nino-chan. Esses meses foram os mais longos da minha vida. Eu preciso te ver. Preciso ter você aqui comigo, de novo...

-Não fale assim...

-Tem certeza que não tem como embarcar hoje? Você estaria aqui rapidinho e...

-Não, Oh-chan. –negou novamente, tentando parecer que não estava tentado a pegar sua mala já pronta e sair correndo para o aeroporto mais próximo. –Eu tenho que ir para essa premiére. Mas assim que acabar sairei correndo para o aeroporto! Juro! –tentou convencer a si mesmo com essa animação.

-É muito tempo! Eu quero te ver agora! –gritou o outro.

Controlou-se para não gritar de frustração. Ele também queria!

-Eu sei, Oh-chan. Mas terá que esperar mais um pouco. –um breve silêncio pesou na atmosfera do local e ele conseguia ouvir as batidas doloridas de seu próprio coração. -Tenho que dormir. Vejo você amanhã, sim?

Silêncio do outro lado da linha.

-Oh-chan?

-Hai. –disse, com a voz mais fraca ainda.

-Então... Boa noite, Oh-chan. Amanhã nos vemos.

Já ia desligando o telefone quando escutou um sussurro vindo do outro.

-Aishiteru. –ouviu-se o som da ligação sendo encerrada.

-Eu também, Oh-chan... Você não sabe o quanto... –e, finalmente, deixou que as lágrimas o inundassem.

~~oOo~~

Aquele maldito avião estava no ar há quase doze horas. Nino já estava perdendo a paciência — que não tinha. Mas como não tinha um jeito mais rápido de chegar ao Japão e gritar com o piloto para ele “meter o pé na tábua” não ia adiantar muito, resolveu ficar sentando e bufando até que avisassem que o avião estava pousando.

Deu um pulo de sua poltrona quando percebeu que estava em terra firme. Enrolou-se um pouco com o cinto e quase o quebrou enquanto tentava retira-lo. Pegou sua pequena mochila de mão e tentou correr para fora do avião, mas o aglomerado de pessoas não o deixou passar. Já estava começando a gritar e a levantar a mão para tentar fazer a multidão se dissipar.

-Andem logo! Vocês estão fazendo o que?! Tirando a estátua da liberdade de dentro do bagageiro?! Andem logo e me deixem sair daqui! –gritava exaltado.

-Pode ir ficando calminho aí! –disse uma pequena mulher que estava na sua frente. –Você está indo tirar o seu pai da forca para ficar tão desesperado?!

Não! Quis gritar. Estou indo tirar meu coração da forca!

Olhou a mulher com a cara mais feia e diabólica que conseguiu fazer e envaideceu-se quando viu ela arregalar os olhos e tentar apressar a multidão. Logo, ele restava apenas três pessoas passarem pela porta pequena da aeronave. Quase gritou de felicidade quando deu de cara com o corredor cinza que se estendia à sua frente. Atravessou-o como se estivesse fugindo do inferno e prendeu a respiração ao chegar ao saguão.

Procurou com os olhos ávidos uma única figura por toda a extensão do local e abriu o maior sorriso que seus lábios podiam alcançar ao, finalmente, encontrar o que procurava.

Ali, parado, estava Ohno Satoshi. Naquele breve momento em que se encararam, percebeu que se passasse mais uma hora longe dele não sobreviveria. Ele era seu oxigênio, sua razão, o complemento de sua alma.

Correu até a figura estática e parou bem na frente dele. Percebeu que seus olhos estavam lacrimejando. Mais uma vez, suas reações o traiam, mas desta vez, não se sentiu obrigado a deter nenhuma emoção ou impulso. Deixou que as lágrimas escorressem assim como o outro estava deixando.

Ohno levantou a mão com cautela e tocou o rosto de Nino como se tocasse algo divino, algo santo e de valor inestimável. Secou as lágrimas que escorriam pela bochecha alva e, então, o abraçou com a maior força que conseguiu.

-Nunca mais faça isso comigo, entendeu? –disse entre soluços. –Se você fizer isso novamente, eu juro que...

-Não farei. –disse interrompendo — Se eu for para algum lugar passar tanto tempo longe, o levarei na bagagem de mão. Nunca mais ficarei tanto tempo longe de você.

Sentiu o peito se expandir de um jeito quase doloroso. Viu-se completo e seguro nos braços de seu amado. Queria consumi-lo em seu abraço e fundir sua alma a dele. Felizmente, seu bom senso ainda trabalhava e não arrancou a roupa de Ohno ali mesmo. Suspirou aliviado e percebeu que sua respiração já estava ficando pesada.

-Vamos para o meu apartamento? –perguntou em tom de suplica.

-Estava esperando você pedir. –sorriu.

-Vamos pegar minha mala e podemos ir para casa. Estou ansioso para ficar sozinho com você, Oh-chan...

-Você leu meus pensamentos.

Olharam-se e mediram-se. Esperaram isso por tanto tempo que mal podiam se agüentar. O olhar que trocaram foi intimo e único, como cada momento juntos.

~~oOo~~

Ohno deslizou o dedo pela pele nua do braço de Nino. Viu os pêlos do outro se eriçando e sorriu encantado. Não importava quantas vezes já tivesse visto aquele corpo nu, não se acostumaria nunca. Sempre encontrava um novo traço que não tinha notado antes e o gravava em sua memória. Sorriu ao ver que seu amante sorria.

-Ohayou. –murmurou.

-Ohayou, Oh-chan... –respondeu abrindo os olhos.

Trocaram um breve olhar carinhoso e sorriram um para o outro.

-Sabe... Ontem eu estava tão feliz em vê-lo que não tive a oportunidade de pensar em algo que não fosse arrancar suas roupas. –fez um careta.

Nino riu.

-Não se preocupe, eu também não pensava em outra coisa.

-Eu tenho algo para você. –disse corando. Desandou a falar, tentando esconder o nervosismo. –Eu pretendia esperar mais tempo, mas eu acho que não precisa. Não sei se estou sendo precipitado, mas eu quero fazer isso agora, pois estou...

Kazu estranhou o blá-blá-blá desenfreado de Ohno. Ele nunca falava tanto em tão pouco tempo. Colocou o dedo indicador nos lábios do namorado tentando fazer com que ele parasse de falar.

-Ei, calma. Vá direto ao ponto, isso faz mais o seu estilo. –piscou.

Ohno sentiu uma pequena pontada de alivio e quase ficou mais confiante. Quase.

-Se vista. –disse o mais velho. — Tenho que te levar a um lugar.

-Onde? –franziu o cenho, esperando uma explicação.

Que não veio.

-Oh-chan, onde?

Silêncio...

-Ohno Satoshi! Aonde você vai me levar?!

Ohno suspirou.

-É surpresa. Se vista e me acompanhe.

Estava claro e frio lá fora. Óbvio que Nino não podia ter certeza, pois uma venda negra cobria seus olhos. Foi guiado por Satoshi até um taxi e seguiram para um lugar bem distante, pois permaneceram no carro por um longo tempo.

Tentou inúmeras vezes arrancar do mais velho a informação, mas não conseguiu. Se tinha uma coisa que o irritava era a capacidade que Ohno tinha de ficar calado e de resistir a seus encantos quando queria. Por mais que pedisse, que o beijasse, que o instigasse, nada adiantava. Ele simplesmente não abria a boca.

-Nino, saia do carro. –pedia Ohno.

-Não sem você tirar essa venda dos meus olhos! –fez bico.

-Nino-chan, compreenda... Eu estou te fazendo uma surpresa. Não vai ter graça se você vê-la antes que eu entregue!

-Essa surpresa precisava ficar tão longe? Eu já estou enjoado de ficar dentro de um carro!

-Então saia dele! –suplicou.

Nino ficou em silencio durante alguns segundos. Respirou fundo e, finalmente, saiu do carro.

-Isso é injusto. –disse.

-Eu te recompenso mais tarde. –Ohno sussurrou ao pé do ouvido do outro.

-Hm... Espero que valha a pena. –rebateu.

-Você sabe que sempre vale.

Kazunari percebeu que estavam subindo num elevador. Estava extremamente irritado e aquela musica imbecil que tocava no local não estava ajudando. Mas se mais tarde seria recompensado...

-Chegamos. –Ohno disse com a voz tremula.

O nervosismo de Satoshi era quase palpável. Sentiu uma parte de si querendo desistir naquele momento, mas logo tentou afugentar o pensamento. Ele tinha de fazer aquilo. Passara mais de um mês planejando aquilo e não seria agora que ia desistir depois de todo o trabalho que teve... Nem mesmo com o receio que estava.

-Pode tirar a venda.

E Nino o fez.

Quando tirou a venda, viu Ohno ajoelhado na sua frente com o rosto vermelho e os olhos fechados. Não entendeu bem aquilo de cara, mas depois percebeu um pequeno objeto postado sobre as mãos de seu amado.

Ali, dentro de uma caixa laranja com corações azuis estava uma chave prata e cintilante.

Ohno abriu os olhos lentamente, estranhando o silêncio de Nino. Viu que as pequenas lágrimas que se formavam no canto dos olhos do mais novo vinham acompanhadas de confusão e emoção. Sabia que o outro estava tentando falar, pois seus lábios estavam entreabertos, mas a garganta parecia travada.

-O que é isso? –disse com a voz entrecortada.

Satoshi virou a cabeça lentamente, apontando a porta que estava ao lado do casal. Na porta impecavelmente branca tinha pequenos números em prata. 2202. Nino demorou alguns segundos para entender o que aquilo tudo significava, mas quando entendeu seu peito se encheu de uma felicidade simplesmente... Inenarrável.

-É... Para você... Quer dizer! Para nós... –respirou fundo. –Nino-chan... Você quer morar comigo?

E ele sorriu, para o alivio de Satoshi. Os olhos de Nino brilharam como nunca antes. Sentiu-se instantaneamente completo e viu aqueles olhos negros se encherem de um brilho perfeito, como se tivessem adquirido a vida que lhes faltava. Caiu para frente e beijou os lábios de Ohno como se quisesse passar tudo o que estava sentindo através do beijo, pois em palavras era impossível.

-Eu aceito sim! –disse espalhando beijos pela face do mais velho- É claro que eu aceito! Eu quero passar o resto da minha vida ao seu lado, baka!

Ohno pegou a chave e colocou nas mãos de Nino. Este demorou um pouco para conseguir colocar a chave na fechadura, mas assim que conseguiu não hesitou em abrir a porta com toda a vontade que tinha.

Fitou com surpresa a sala vazia. Lá não havia nada além de uma bela varanda no final com algumas flores em vasos. Nino avançou por toda a extensão do lugar e virou para Ohno. O mais velho estava encostado na porta, deleitando-se com a reação de seu amante.

-É lindo, Oh-chan! Muito lindo! –ele rodava e olhava cada detalhe — É perfeito!

-Eu preferi deixar vazio para que você decorasse. Tudo do seu jeito. –sorriu.

-Eu não acredito que você fez tudo isso para mim! É... –as lágrimas caiam.

-Ainda tem mais, meu amor. –adentrou o cômodo e pegou a mãos de Nino delicadamente.

Satoshi guiou Nino até uma pequena escada que ficava no final de um corredor. Subiram essa escada e deram de cara com o céu azul acima deles. Estavam no terraço particular do apartamento. Ali era um belo jardim. Nino olhou para o chão e viu que havia um caminho de pedras brancas sobre a grama verde e foi seguindo com os olhos para ver onde acabava.

Quando seu olhar tocou o destino, não acreditou no que viu. Embaixo de uma estrutura de vidro estava um belo piano de cauda clássico e um violão Folk com escudo. Grama e flores dividiam o espaço, como uma estufa encantada com música e amor.

Nino correu até a estufa, rindo e chorando. Aquilo era perfeito demais. O amor de sua vida estava lhe dando inspiração e um lugar perfeito para usá-la como bem entendesse. Novamente: Inenarrável.

Chegou perto do piano e sentou no banco em frente a ele. Sobre o teclado se destacavam duas pequenas formas arredondadas; tinham duas alianças prata ali. Pegou-as no dedo e leu “Kimi wa subete” em pequenas letras escritas na parte de dentro da aliança.

Levantou os olhos encharcados para Satoshi, que se aproximava com um sorriso imenso no rosto e lágrimas nos olhos. Pegou uma das alianças e a colocou no dedo da mão direita de Nino. Ofereceu sua mão, e o mais novo fez o mesmo.

Naquele momento, como em vários outros, não precisavam de palavras para dizer o que sentiam. Era único e encantador, era como se o mundo parecesse um lugar melhor. Como se a vida, finalmente, fizesse sentido. Era a melhor sensação que já tiveram em toda a vida.

Tocaram os lábios trêmulos e iniciaram um beijo doce e necessitado. Suas línguas se roçavam em um movimento totalmente sincronizadas. Esse era o beijo que selava o começo do para sempre que os dois viveriam dali para frente.

-Droga! –Ohno murmurou, soltando-se de Nino. –Eu me esqueci de uma coisa.

-O que? –Nino ficou confuso.

-Nós não podemos usá-las. –apontou para as alianças. –Nós estaríamos praticamente nos assumindo.

Nino sorriu em compreensão.

-Não tem problema... Nós não precisamos usá-las...

-Não! –Satoshi o interrompeu. –Claro que precisamos. Eu quero que você se lembre sempre que eu sou seu, através dessa aliança. Quero que as usemos em todo lugar. Mas infelizmente...

Nino cessou o falatório de Ohno delicadamente e sorriu, tranqüilizando-o.

-Nós não precisamos usá-las no dedo. Podemos colocá-las em correntes e carregar por aí sempre... Escondidas perto do peito. E eu lembrarei que você é meu.

-Escondidas... –raciocinou.

-Hai. Eu não me importo que os outros não saibam que você é meu, se você tiver consciente disso e eu também, estou pouco me lixando para o resto.

-Ei! Você deveria ser “o possessivo e ciumento”!

-E sou! Mas se você sabe que é meu, então eu não me importo que o resto do mundo não saiba. Você é meu e ponto. Simples.

-É... Simples. Eu sou seu e ponto. Ninguém pode me tirar de você.

Ohno pegou o rosto de Nino e o beijou.

Em alguns segundos de beijo, Kazunari já estava puxando a blusa de Satoshi para cima e passando as mãos por toda a extensão do tórax. Foram se abaixando, deitaram na grama fresca do jardim e sorriram um para o outro.

-E então, quer sua recompensa agora?

-Você é a minha maior recompensa, Oh-chan.

Notas finais
enfim....
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!