Laços Laranjais
1 I - Férias
Bernardo acorda com um sobressalto. O som do costumeiro alarme tocava incessantemente. Xingando ele desliga o alarme de seu celular. Estava sonhando tão bem e profundamente e o barulho infernal o acorda. Era o seu primeiro dia de férias que já havia começado bem. O rapaz tentou voltar a dormir colocando um travesseiro em seu rosto, porém a tentativa foi infrutífera. O susto tinha sido grande demais. Ele pega o seu celular e começa a olhar as mensagens que havia recebido. Grupo, grupo, grupo, grupo, Daniel.
— Estou aqui. – Leu Bernardo. O horário da mensagem era as 7:01. Bernardo suspirando se levanta da cama. Aquilo não o havia surpreendido em absolutamente nada. Daniel era conhecido por sua pontualidade. Mas ele não conseguia adivinhar o porque Daniel estava em sua porta tão cedo. Ele se levanta e vai em direção ao banheiro de seu quarto, tropeçando em algo que parece ser a sua mochila. Xingando novamente, ele joga uma água gelada em seu rosto para despertar. Normalmente de manhã ele tomava banho, mas a preguiça tomava conta de suas forças. Ele escova os dentes e mal se importa em arrumar o cabelo cacheado.
Descendo as escadas em direção a sala, Bernardo repara que sua mãe estava se arrumando para trabalhar. Patrícia era uma farmacêutica de manipulação que trabalhava no centro da cidade. Ela estava já se preparando para tomar café e sair.
— Bom dia mãe. – Disse Bernardo com a voz cansada.
— Bom dia filho. Eu acho que o Dan está na porta de casa. Eu o convidei para entrar, mas ele diz que esperaria você acordar.
Bernardo apenas assente com a cabeça e vai em direção a porta para abri-la. Daniel era um rapaz de pela negra e de cabelos negros curtos, possuía uma barba cheia apesar de ter vinte, o que deixava ele com um ar bem sério. Estava vestindo uma calça jeans e sua clássica camisa do Ramones.
— Chegou cedo. – Disse Bernardo sarcasticamente dando espaço para que seu amigo entre.
— Foi você que disse que tinha um plano para as férias e que iriamos começar algo.
— Eu disse isso? – Disse Bernardo sentando na mesa para tomar café, enquanto Daniel ocupava o sofá.
— Disse ontem, quando estávamos indo embora.
— Cara eu não me lembro de absolutamente nada.
Daniel apenas revira os olhos e começa a prestar atenção nas notícias que estavam passando no jornal.
— Nossa, mas que plano é esse? – Perguntou Patrícia passando um bowl, com frutas picadas para seu filho.
— Mãe, o Daniel é louco. Já se esqueceu disso?
Daniel deu de ombros enquanto Patrícia ria.
— Dan, venha comer. – Disse Bernardo. O rapaz senta-se junto a mesa com a família. Daniel lança diversos olhares ansiosos para o seu amigo e começa a bater na mesa. Bernardo ignora as tentativas do amigo de dizer qual é o plano. Até porque ele mesmo não lembrava. O semestre que havia terminado tinha sido extremamente exaustivo para ele, com diversos trabalhos e artigos para escrever. Bernardo cursava Direito enquanto Daniel fazia Educação Física, ambos na mesma Universidade.
Os dois eram amigos de infância, tendo se conhecido quando tinham cerca de 8 anos na Catequese da Igreja, e após isso, estudaram praticamente todos os anos da escola juntos. Bernardo quase havia decidido por fazer Educação Física, porém no final acabou optando por fazer Direito, curso que sua prima Paula e seu irmão mais velho Guilherme, haviam escolhido fazer. Apesar de pela primeira vez estarem separados, a amizade entre os dois amigos continuava.
— Mãe. – Começou Bernardo a formular o seu pensamento.
— O que foi?
— Como anda a turma de Laranjal?
— Eles estão bem. Quer dizer, o Elias está com dor nas costas denovo o que fez diminuir o ritmo do trabalho deles.
— Trabalhar na roça não deve ser fácil.
— Não é mesmo. Mas porque você perguntou deles agora?
Bernardo toma um gole de seu suco pensativo. Não sabia se a ideia era boa, mas pela insistência silenciosa de Daniel teria que ao menos tentar.
— Estava pensando em passar um tempo das férias lá.
Patricia se levantou para colocar a xícara de café que estava bebendo na pia já deduzindo as intenções do filho.
— Eu acho uma ótima ideia. Mas você teria que ligar para eles para saber se tem espaço para ficar lá.
— Eu acho que vou fazer isso. – Disse Bernardo evasivo.
— Eu sei que vai. – Disse Patrícia mexendo no cabelo bagunçado do filho.
A mulher se retira da sala em direção ao seu quarto para terminar de se arrumar para ir ao seu trabalho.
— Satisfeito? – Perguntou Bernardo para o seu amigo.
— Ligue para eles. – Disse Daniel enquanto devorava um pedaço de bolo de fubá.
Bernardo suspirou, não deveria de ter comentado sobre o incidente da pepita para o seu amigo, agora ele não ia tirar mais aquilo da cabeça.
— Eu vou ligar. Mas primeiro quero ir no Lucas para cortar o meu cabelo. E ver se ele topa de ir também. Faz tempo que ele vem me falando que precisa esfriar a cabeça.
— Vista algo decente. – Disse Daniel, que teve apenas como uma resposta um leve xingamento.
[...]
Os dois amigos chegam a Barbearia Maximus do qual Lucas, primo de Bernardo era dono. Lucas é um rapaz nos seus dezenove anos, de porte pequeno e magro. Possuí um cabelo de cores castanho claro e um topete de tamanho médio. Estava vestido com o seu clássico uniforme de barbeiro.
Ele recebe os seus amigos com um sorriso no rosto.
— Se soubesse que estavam vindo já teria preparado algumas Heinekens para nós. – Disse ele cumprimentando-os.
— Ainda dá tempo de fazer isso. – Falou Daniel já ocupando um lugar nos bancos da barbearia.
— Você acabou de tomar um café da manhã monstruoso e quer colocar cerveja em cima? – Perguntou Bernardo perplexo.
— Eu estou de férias.
— Depois nos tomamos uma Lucas, tá muito cedo pra beber. Sem falar que eu preciso de você sóbrio para poder cortar o meu cabelo. O mesmo corte de sempre.
— Quem vê pensa uma garrafinha de cerveja vai me fazer ficar bêbado. Aqui é raiz cara.
Os três rapazes riram. Bernardo sentou-se na cadeira enquanto Lucas limpava suas máquinas para poder iniciar o seu trabalho.
— Lucas nós vamos para Laranjal. – Disse Daniel abruptamente. Bernardo apenas reage colocando a mão no rosto.
— Laranjal? Não me diga que você...
— Eu contei pra ele da história da pepita.
Lucas apenas balança a cabeça negativamente. Ele já sabia muito bem da história da pepita porque Bernardo já havia contado diversas vezes. Ele também vira a pedra com os seus próprios olhos.
— Cara, não tem ouro lá. – Falou Lucas enquanto borrifava água nos cabelos de seu primo.
— Vocês não sabem. – Disse Daniel resoluto.
— Eu e o Bernardo já sonhamos muito em encontrar ouro lá. Reviramos aquela Fazenda de cabeça pra baixo e não encontramos absolutamente nada.
— Eu não estava lá.
Bernardo e Lucas apenas reviram os olhos.
— Muito bem Dan. Se encontrarmos ouro lá, o que nós iremos fazer com ele?
— Ficar ricos ué. Comprar o nosso Triplex. – Bernardo novamente coloca a mão na testa.
— Cara preciso que você não mecha a cabeça agora. – Disse Lucas já com a tesoura em mãos.
Um silêncio paira sobre a barbearia, ouve-se apenas os clics da tesoura de Lucas cortando o cabelo. Todos eles estavam pensando na possibilidade haver ouro no Sítio Sta. Maria Madalena. Quando Bernardo e Lucas eram crianças, eles visitavam frequentemente este lugar, que é onde a família das avós de ambos, cresceram, embora a propriedade não fosse delas. Em um dia, na beira do rio, Bernardo havia encontrado o que ele achava ser uma pepita de ouro. Aquilo despertou um grande alvoroço na família. Porém a pedra foi levada para ser analisada por um Especialista que constatou que era apenas uma pedra comum, com uma coloração que lembrava o ouro.
— Se tiver ouro... – Começou Lucas.
— Ele não vai ser nosso. – Respondeu Bernardo.
— Porque? – Perguntou Daniel.
— Porque ele pertence ao dono da terra em que foi encontrado.
— Mesmo assim, ele poderia ser dividido. Pelo menos uma parte para nós. Uns 5%.
— Não viaja Dan. Olha só. – Bernardo vira a cadeira para poder encarar o amigo.
— Eu vou ligar para eles, e nós vamos passar pelo menos uma semana lá. Vamos aproveitar a paisagem rural, descansar a cabeça, recuperar.
— E também vamos procurar ouro.
— Ok, nós vamos. Mas isso não significa que vamos encontrar.
— Com esse seu pessimismo nós vão vamos mesmo.
— Você vai? – Perguntou Bernardo para Lucas, deixando o primo terminar de cortar o cabelo.
— Uma semana? Preciso ver. Poderia deixar a Barbearia aqui com o Ditinho cuidando.
— Pense bem. Você disse que estava querendo fazer alguma coisa neste sentido. Esta é a oportunidade.
— Fique tranquilo, vou te avisar sim. E fique quieto. Quero postar o seu corte na página da barbearia.
[...]
Rafaela cavalgava com destreza em sua égua branca chamada Matemática. Segundo seus pais contavam, ela tinha essa prática desde os 3 anos. Algo que ela duvida muito. O Sr. Osmar e a Dona Rosa, sempre puxavam um pouquinho para o lado da filha Apesar desta prática sempre trazer felicidade para ela, hoje ela estava preocupada. O sol já estava se pondo quando ela fechou a porteira do pasto do Sítio. Já não conseguia enxergar mais nada do Milharal que ficava no topo do Morro. Ela solta os seus cabelos longos e finos cor de mel e enxuga o suor da testa. Havia tido um dia muito longo. A garota passa rapidamente pela casa onde morava o Sr. Elias e a Dona Fia e viu a fumaça saindo da Chaminé. “Provavelmente devem estar jantando agora”.
Normalmente ela pararia para dar um alô para eles, mas precisava voltar para casa o mais rápido possível para avisar o seu pai. Ela acelerou Matemática em direção a estrada que passava aos fundos da casa de Elias e Fia, onde tinha um galpão onde guardava-se os tratores, após isso tinha mais uma cerca e por fim já estava em casa. Desta vez ela nem parou para abrir a Porteira. Esta cerca já era mais baixa e com um salto perfeito, Matemática consegue passar sem maiores problemas.
Chegando na sua casa, um lugar simples, com paredes de cor roxa (cor que ela havia escolhido), ela amarra sua égua em um poste que ficava próximo da entrada da sua casa, que tinha uma área livre onde ficava uma churrasqueira e uma mesa, muito bem aproveitada quando era época de calor e eles recebiam visitas.
— Filha. – Disse o Sr. Osmar saindo de dentro da casa para a receber. Osmar já era um senhor de meia idade com a pele bronzeada por causa de todo o sol pego durante boa parte da sua vida, trabalhando na Roça. Tinha as costas um pouco curvadas e um cabelo ralo negro e um bigode vistoso.
— Pai, mais um dos bezerros sumiu.
Uma expressão preocupada pairou sobre o rosto de Osmar. Já fazia dois dias que os filhos de alguns animais de criação estavam sumindo sem deixar rastro.
— Você não encontrou nada?
— Nada. Procurei por horas. Não tem rastro Pai.
— Então tem alguém nos roubando.
Rosa que estava na cozinho ao ouvir a palavra roubar veio correndo em prantos para ver como sua filha estava.
— É perigoso demais Osmar. Não podemos mais mandá-la sozinha procurar esses animais.
Osmar suspira e passa as mãos nos cabelos, sentando em uma cadeira próxima. Tentando pensar em algo.
— Ligue pra polícia pai. – Sugeriu Rafa.
— Não. Isso não. Temos que resolver isso sozinhos.
— E se você ligar para o Seu... – Começou a falar Rosa.
— NÃO. – Gritou Osmar levantando-se abruptamente.
— Ele está viajando. Não vou incomodar ele. Até porque, ele nos deixou aqui para cuidar do Sítio. Então cuidar do Sítio é o que faremos.
— Pai, você não pode brigar com ladrões.
— Querido por favor...
— Chega vocês duas. Eu não vou enfrentar ninguém. Rafa leve Matemática de volta pro estábulo. Eu vou pensar em alguma coisa. Estou muito cansado agora, eu preciso dormir.
Rafa silenciosamente deixa os seus pais e vai em direção a Matemática para conduzi-la ao Estábulo que ficava próximo da casa. Esta propriedade era bem mais planejada da qual Elias e Fia moravam. Tinha uma garagem para carros, Estábulo e até uma piscina. A garota guarda a sela de sua égua e a conduz para o seu espaço. Com um relincho a égua agradece rafa pelo descanso. Havia cavalgado demais naquele dia.
Dando um carinho em Matemática, ela se despede para dar uma olhada na potrinha recém-nascida chamada Dama. Ela também era branca como Matemática. Ela já estava inocentemente dormindo. Rafaela havia desenvolvido um laço especial com ela, pois havia ajudado em seu parto. A mãe infelizmente não resistiu. Com um sorriso e um tchau silencioso, Rafaela volta em direção a casa. Estava extremamente dolorida por ter cavalgado tanto, sem falar que estava preocupada por causa dos acontecimentos recentes.
Já estava de noite quando ela desce as escadas de seu quarto para poder jantar. Seu pai já estava dormindo pois iria acordar mais cedo do que o normal no outro dia. A cozinha de sua casa era pequena, com um fogão lenha ocupando boa parte do espaço. Em uma as paredes havia uma janela. Por um instante ao olhar para a janela, Rafaela poderia jurar que havia visto um par de olhos brilhantes na escuridão. Ela foi em direção a janela olhar melhor, porém não enxergou mais nada. Também era costumeiro para quem morava no sítio, ver certas coisas na escuridão, por causa dos animais silvestres.
Bocejando, ela vai direto para panela, afim de comer a deliciosa comida fresca feita por sua mãe, e finalmente descansar do dia longo que havia tido.
FIM DE CAPÍTULO.
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