Laços Imperfeitos
26 Momento em família
Notas iniciais
Capítulo vinte – Momento em família
Renji estava nervoso, para dizer a verdade. A ideia de ver os seus "parentes distantes" era meio absurda, se pensar que ele nunca fez questão de fazê-lo antes. Ele não tinha escolha. Depois do incidente com a casa, foi seu dever comunicar a sua tia. Ela insistiu tanto para vê-lo (mesmo que fosse um pedido desnecessário. Podiam muito bem resolver tudo por telefone.), que Renji não aguentou e sucumbiu à pressão.
Byakuya foi obrigado a entender que não era nem de longe a sua vontade, assim, a maior exceção possível ao castigo foi aberta. Então, eles foram convidados (obrigados, de acordo com uma Rukia muito chateada) para passar o ano novo na casa dos avós, e aceitaram. Era por total opção de Byakuya ele e Rukia morarem sozinhos em uma casa tão grande, já que os pais de seu pai estavam muito dispostos a acolhê-los.
A despedida ocorreu como se estivessem apenas indo passar o fim de semana fora, o que não era bem mentira. Rukia lhe deu um abraço apertado, pedindo que ele tivesse cuidado (Renji ainda avalia o objetivo da frase) e, por parte do Kuchiki, um aceno quase casual e um meio sorriso que fez seus miolos derreterem e borboletas voarem por seu estômago.
Então, ele tomou um trem e foi rumo à Sendai.
As próximas quatro horas foram muito bem aproveitadas (Renji dormiu, isso diz muito). Quando chegou, nem quis saber de visitar algum lugar, conhecer os pontos turísticos ou fazer essas coisas que turistas fazem. Ele devia encarar essa viagem como um negócio, não como um passeio, mesmo que isso pareça frio. Ele sabia que não havia amor naquela relação. Ele não ligava, de qualquer forma. Ele tinha o amor de seus amigos, a família que escolheu. Era o suficiente.
...
Estava realmente frio. A neve caia calmamente, alheia ao sofrimento de todos os corpos audaciosos o suficiente para sair com aquele clima. O cachecol de Renji tapava a respiração condensada que saia de seus lábios entreabertos, mas, esse era o menor de seus problemas.
A casa de sua tia ficava em um bairro familiar respeitável. Amarela com flores e trepadeiras enfeitando o muro quase baixo. O portão de ferro pintado de branco parecia dar um ar de contos de fadas ao lugar e tudo parecia muito confortável, apesar de claramente pequeno. Ele tocou a campainha. Depois de alguns apreensivos segundos, em que Renji se perguntava se não teria sido melhor resolver tudo por e-mail, uma mulher apareceu. Ela era pequena e tinha os curtos cabelos vermelhos emoldurando o rosto oval. Sua tia, ele percebeu. Ela olhou para Renji e um sorriso estranho espalhou-se por seu rosto, pousando a vista da alça da mochila aos cabelos ruivos e então, as tatuagens.
– Ah, Renji-kun. – ela chamou. – Entre, o portão está aberto. – Por alguma razão, Renji se sentiu mal. Parecia até que ele era de casa, que sempre esteve ali, não que era um intruso. Afastou o pensamento que só faria mal, de qualquer forma. Suspirou e abriu o portão com cuidado exagerado.
– Oi, tia. Quanto tempo... – Ela caminhou até ele, dando um desajeitado (e talvez indesejado da parte de ambos) abraço, este que foi acompanhado de tapinhas constrangidos nos ombros rígidos.
– Você parece mais alto desde a última vez. – Ela olhou para cima, a fim de enxerga-lo melhor e Renji mordeu a parte interior da bochecha. É claro. Da última vez eu tinha treze anos.
– Suponho que alguns centímetros. – concordou sem vontade.
– Bem, então vamos. O jantar é as sete, você pode descansar até lá. Deve estar cansado. Sinta-se em casa, eu vou te mostrar tudo. Você deve querer conhecer alguns lugares... – Ele acenou e ela apertou os olhos. – Ainda temos que conversar sobre o porquê de você ter vindo aqui. – a voz dela tornou-se impropriamente dura na última frase. O ruivo não fez menção de ser gentil ou rebater. Ele concordava com cada tópico implícito naquela fala.
A irmã de sua mãe, não tão indiferente quanto, também não era um poço de simpatia. Ela apenas não tinha motivos para ser boa. Ou má. Renji respirou fundo e a seguiu até o quarto em que passaria os próximos dois dias. A vida conseguia ser bem injusta.
...
Ukitake sorriu para a menininha de cabelos negros e olhos verdes. Ela parecia não cansar mesmo, e seu irmãozinho não ficava atrás.
– Tio Uki! – quase berrou, apesar de ainda estar brincando com o homem. Ele franziu levemente a sobrancelha para o apelido que lembrava coisas desagradáveis (pelo som da palavra, que coisa), mas continuou sorrindo para a garota.
– Você deve dizer “por favor”. Aí eu devolvo... – prometeu.
– Por favor! – sua sobrinha quase gritou, então ele estendeu a boneca de grandes olhos de botão ("francamente, Aiya-chan,", ele havia dito para a irmã, meio sério, meio brincando, "isso é medonho.") para Naoko-chan, a filhinha de sua irmã. A menina pegou o brinquedo e correu para longe, deixando sentado no chão um Ukitake totalmente sujo de aquarela e massa de modelar. Ele não ligava, apenas sorriu e ameaçou correr atrás dela, que ria gostosamente enquanto ia atrás do irmão.
Crianças conseguem ser tão enérgicas e criativas...
Os cabelos iriam dar trabalho para lavar ("amaldiçoado seja quem me convenceu a deixar crescer!", pensou com Kyouraku e seu sorriso preguiçoso em mente) e as roupas estavam maravilhosamente estragadas. Ele não poderia se importar menos, entretanto. Ele adorava brincar com seus sobrinhos. Com todos os onze.
Levantou-se, ainda com o sorriso doce estampado nos lábios, contente por ter tido a fabulosa ideia de visitar sua irmã mais velha. Seus sobrinhos eram uns amores, só tinha que ter o jeito de lidar com os mesmos. E Ukitake tinha isso de sobra, felizmente. Sentou-se no sofá e passou a enrolar distraidamente uma mecha de cabelo, esta que estava com a pontinha azul.
Ukitake sempre teve consciência de sua orientação sexual, para bem da verdade. Ele sempre achou os sorrisos dos garotos mais atraentes que os das garotas. Conhecimento este que não o impediu de namorar muitas mulheres maravilhosas. Nunca houve fogo ou paixão, como aquelas que ele procurou por anos, aquelas que ele conheceu graças aos livros. Então, não era negado para si mesmo que ele sempre foi apaixonado pelo seu melhor amigo.
Antes era uma admiração saudável. Ele olhava como ele era bom tanto em vôlei quanto em xadrez. Era incrível como ele conseguia usar o corpo e a mente com perfeição igual. E ele era seu amigo. Ele o entendia, compreendia, mas, Ukitake nunca se revelou realmente gay. Ele tinha a desconfiança de que Shunsui sempre soube.
Depois, tornou-se doloroso e cruel. Era horrível quando ele vinha apresentar a namorada da vez, uma mulher bonita e engraçada (mulher, mulher, mulher) e Ukitake era obrigado a parabenizar, a mostrar-se feliz, a oferecer um falso sorriso. Mesmo assim, ele nunca se zangou com alguma delas ou com seu amigo. Ele o amava, nunca achou que ele realmente merecia alguém que só usava o cérebro com perfeição porque o corpo era doente.
Então, ele percebeu como o amava. E que, mesmo que o sentimento fosse doce a uma primeira vista mal estudada, nunca seria correspondido. Não por Ukitake ser bom ou mau, mas por ser um homem. E nada no mundo doeu ou humilhou mais do que essa conclusão.
Quando achou que deveria desistir, que nunca seria correspondido e que era melhor encontrar outra pessoa para amar, Kyouraku mostrou algum interesse. Seu amigo parecia retribuir pelo menos 10% de seus sentimentos confusos, em suas contas. E isso era suficiente por hora.
Ukitake, porém, ainda era um homem, com caprichos, fantasias e defeitos.
Ukitake amava crianças. Amava brincar ou conversar com elas e achava fascinante o modo que suas mentes jovens e inexperientes funcionavam. Ele um dia iria querer filhos. E isso Kyouraku provavelmente não podia lhe dar. Então era certo se contentar com a felicidade de uma relação à dois e curtir os sobrinhos. Por enquanto.
...
Renji estava cansado. O jantar foi tenso e silencioso. Mas, ele não estava muito incomodado com isso. O pior veio depois. Byakuya o instruiu a dizer a verdade ("eu odeio mentiras", disse ele. E nesse momento o estômago de Renji embrulhou.), então foi o que fez. Ela parecia aborrecida e os lábios franzidos transpareciam seu estresse. Quando terminou a história, um enorme vinco se formava na testa da mulher. Ele não a culpava por isso, era mais que compreensível.
– Então você emprestou a sua casa para um amigo e ele acidentalmente... – a palavra foi frisada. –... tacou fogo nela? – com sua tia falando tão casualmente, Renji se tocou no quanto era idiota a sua versão dos fatos aos ouvidos de outras pessoas.
– É... Mais ou menos isso.
– E há alguma chance de ele pagar os reparos?
– Os reparos já foram pagos, na verdade. Não houve questão judicial por eu não ter dado queixa. – explicou calmamente, vendo a expressão em seu rosto relaxar. – Eu vim aqui por sua ilustre insistência.
– Se eu não o chamasse você jamais viria por vontade própria. Somos família, Renji-kun. – E então, ela sorriu minimamente. A graciosidade do ato fazia com que ela lhe lembrasse de sua mãe. A diferença era que ela parecia muito menos cansada e o sorriso era dirigido a si. Ele sentiu as entranhas se emaranhando em seu interior e isso não era bom. Quando isso acontecia, alguma coisa que não deveria saía por sua boca para dar espaço ao resto. “Não somos uma família”, ele queria dizer, “fique longe de mim.”. Ele se contentou em assentir com a cabeça em afirmação, entretanto.
– Claro. Posso ir dormir? Eu estou realmente cansado, tia.
– Uhum... Você volta para casa quando?
– Depois de amanhã, eu acho.
– Sim, mas, antes, você deve conhecer o Castelo de Aoba ou o Yama-dera. Eu te levo se quiser.
– Eu acho que posso ir ver sozinho, se estiver bem disposto. – mentiu sem nenhuma vontade de dizer a verdade. De que não tinha a intenção de conhecer qualquer coisa. Ele apenas queria ir para casa.
– Ok. Espero que durma bem, boa noite. – Ele se levantou e fez uma curta reverência.
– Boa noite.
...
O quarto pequeno comportava pouca coisa, porém, isso não era problema para Renji. Ele estava acostumado ao seu pequeno apartamento, e a enorme suíte na mansão Kuchiki não era mesmo sua, ele nem sequer gostava dali. Parecia que a qualquer momento uma assombração apareceria e puxaria seu pé, Deus o livre.
Sua visão começara a se acostumar ao escuro, vendo os contornos da lâmpada no teto com mais clareza. Ele dormiu o suficiente no trem, não achava que conseguiria fazê-lo tão cedo. Suspirou. Sua tia disse que eles eram família. Eles não eram. Ele só tinha uma família. Sua família ficou em Tóquio enquanto ele visitaria a irmã de sua progenitora. Eles viajariam na manhã seguinte, bem cedo, para Osaka, em um voo.
Renji percebeu que não dormiria mesmo, então lembrou que o Kuchiki disse sobre mensagens de texto. E ele dissera também que, assim que o problema fosse resolvido, Renji deveria avisar. Levantou-se e pegou o celular azul na única mochila que trouxe. Deitou novamente.
A luz repentina machucou seus olhos por um momento, mas, ele não se importou. A mensagem foi escrita às pressas, algumas letras até saíram erradas.
Abarai Renji
Assunto: sem assunto
"Acordado, senpai?"
Enviou e não esperou a resposta por trinta segundos.
Kuchiki Byakuya
Assunto: re: sem assunto
"Bem, sim. E o que você faz acordado há essa hora? Passou tempo demais em um trem para estar tão desperto.”
Renji riu um pouco da resposta. Ela lhe lembrava de Byakuya e isso era reconfortante em meio a esse lugar desconhecido.
Abarai Renji
Assunto: re: sem assunto
"Eu não estou cansado. A viagem é amanhã, certo? Dormir faria bem"
Kuchiki Byakuya
Assunto: re: sem assunto
"Para falar a verdade, tenho quase certeza que o acordado, desperto e bem descansado deve ser o piloto.”
Abarai Renji
Assunto: re: sem assunto
"Não seja tão cruel... Dormir faz bem pra saúde”
Kuchiki Byakuya
Assunto: re: sem assunto
"Você não tem moral para falar de sono comigo. Já olhou a cidade?”
Abarai Renji
Assunto: re: sem assunto
"Na verdade, o máximo que fiz foi conhecer o banheiro da casa. Tudo parece frio e descolorido quando não se está com quem se ama”
Kuchiki Byakuya
Assunto: re: sem assunto
"Pare de mandar indiretas toscas e use o ponto final. Estou ficando incomodado. Resolveu o assunto que deveria resolver?"
Abarai Renji
Assunto: re: sem assunto
"Osh, senpai. Isso não é tão ruim assim. (Está vendo? Eu até uso o ponto final por você. ♥). E sim, eu resolvi totalmente o assunto. Ela não deveria ficar chateada, de qualquer forma."
Kuchiki Byakuya
Assunto: re: sem assunto
"Você tem razão. Se eu fosse ela, contando com as suas notas na história, não ficaria zangado. Ela não tinha muito dinheiro ali, de qualquer forma. Pare com isso. O constrangedor tem limites. Francamente, falar com você cara a cara é melhor."
Abarai Renji
Assunto: re: sem assunto
"Senpai, você consegue ser cruel... É claro que é... ( ͡° ͜ʖ ͡°).”
Kuchiki Byakuya
Assunto: re: sem assunto
"Por Deus, não! Sua perversão também tem que ter limites. Espero viver o suficiente para encontrá-lo."
Abarai Renji
Assunto: re: sem assunto
"Sério, senpai. Eu sou louco por você. É claro que eu também prefiro falar cara a cara."
Kuchiki Byakuya
Assunto: re: sem assunto
"Acho que você não entendeu o que eu quis dizer, mas tudo bem. Estou dormindo."
Renji sorriu bobamente, percebendo o quanto ele e Byakuya pareciam um casal de namorados. Entretanto, isso ainda estava longe de ser verdade. Não tinha problemas, ainda assim. O sentimento era tão forte que ele poderia esperar. Poderia esperar mais um ano ou a vida toda. Ele era tão apaixonado por aquele homem frio no olhar e quente no toque... Só de pensar, seu estômago dançou.
Abarai Renji
Assunto: re: sem assunto
"Isso não muda o que sinto. Sou louco por ti."
Kuchiki Byakuya
Assunto: re: sem assunto
"Tudo bem. Eu não desgosto totalmente de você."
Renji riu por dentro.
Abarai Renji
Assunto: re: sem assunto
"Isso quer dizer “eu te amo”? Preciso dormir. Eu te adoro. Boa viagem amanhã"
Kuchiki Byakuya
Assunto: re: sem assunto
"Estou ignorando a sua pergunta. Francamente, já havíamos falado do ponto final. Obrigado e boa noite. Sonhe com algo bom.”
Abarai Renji
Assunto: re: sem assunto
"Pode deixar que eu vou... ( ͡° ͜ʖ ͡°)"
Kuchiki Byakuya
Assunto: re: sem assunto
"Pervertido."
A conversa foi claramente encerrada. Renji desligou o display do aparelho e o pôs na mesinha de cabeceira. Ele pensou, naquele momento, que não se importaria de viver eternamente assim. Mesmo que isso quisesse dizer sem toques, sem sexo, sem o cheiro de Byakuya. Desde que o moreno ainda “não desgostasse” dele, estava tudo bem, tudo poderia ser aguentado. Uma onda de culpa e vergonha transbordou em seu peito e ele o sentiu apertado. O que faria se Byakuya descobrisse que, no começo, tudo não passou de uma mentira, de uma forma de afastá-lo?
Resolveu dar um tabefe no pensamento nauseante. Ah, ele não achava que poderia se apaixonar mais. Ele estava enganado.
{...}
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