Laços
9 Capítulo 09 - Ameaças
— O que está fazendo aqui? – Mariana perguntou com um misto de assombro e raiva ao homem que há muito anos não via.
O homem que estava sentado confortavelmente no sofá da sala, era Fernandes, um dos principais cafetões da cidade. Ao perceber Mariana, levantou-se. Era baixo e tinha a barba por fazer, usava um chapéu branco e um terno da mesma cor. Era um homem que parecia estar nos seus cinquenta anos. Olhou Mariana de cima a baixo e sorriu de forma maliciosa.
— Como você está, bonequinha? Há quanto tempo, hein? A última vez que eu te encontrei você era pequenininha... Você realmente cresceu. – perguntou se aproximando de Mariana. – Tão linda quanto a Letícia… — disse apertando o queixo da garota enquanto virava-o de um lado para o outro como que avaliando. — Com uma aparência doce e pura que enlouquece os homens. Você tem bastante potencial, sabia?
Mariana se desvencilhou do homem.
— O que está fazendo aqui? Não temos nada a ver com você! – disse Mariana tentando não transparecer o nervosismo que sentia.
Aquele homem evocava lembranças perturbadoras de sua infância. Cenas de Rebeca sendo agredida e ameaçada na frente das duas garotas, perto dele essas lembranças pareciam se tornar mais vívidas.
O homem voltou-se a sentar. Parecia ter tomado conta do lugar.
— Por que me trata de forma tão rude? Hein? O que eu te fiz? – disse ele pegando um cigarro e acendendo enquanto colocava aquela expressão de falso sofrimento no rosto. – Sempre tratei vocês duas tão bem... Para mim, sinceramente falando... Vocês duas eram como filhas. Filhas que eu nunca tive.
Mariana virou o rosto, não conseguia olhá-lo nos olhos.
— Filhas? – disse irônica. – Com certeza, você é a última pessoa que eu gostaria que fosse meu pai… Um homem que se aproveita das mulheres para ganhar dinheiro… Deveria se envergonhar do que faz.
O homem riu.
— Oh... Sou apenas um empresário. O há de mal em tentar ganhar a vida de forma honesta? E eu ainda faço caridade... As vadias trabalham e ganham para comer. Se não fosse por mim elas estariam pedindo esmolas na rua, não é? – e olhando para ela. – E eu estava falando sério quando eu disse que você tem potencial…
Mariana não conseguia olhar para ele. Ela sentia náuseas só de saber que ele estava ali.
— Por que está aqui? – perguntou. – Se não tem nada o que fazer, você deveria ir embora!
— Eu quero perguntar uma coisa… Estou muito curioso… Por acaso você encontrou com o Rogério?
Mariana olhou de repente para Fernandes.
— O meu pai? O que tem ele? Por… por que pergunta isso? – perguntou nervosa.
Mariana ficou com medo. Aquele homem era o tipo de pessoa que só ia atrás de alguém quando queria fazer algo realmente perverso. O fato de ele pessoalmente procurar por Rogério significava que algo estava muito errado.
O homem se levantou com raiva.
— Aquele desgraçado! Filho da p***! – disse jogando o cigarro no chão e pisando. – Ele se atreveu a se meter onde não era chamado! Mexeu com as minhas vadias. Quando eu o encontrar ele vai implorar para morrer.
Mariana já tinha ouvido falar das torturas daquele homem.
— O quê? – Mariana estava estarrecida. – O que pretende fazer? Por favor, não faça nada com o meu pai...
O homem olhou para ela.
— E você acha que vou deixar barato?! – disse rindo. – Ele vai me pagar cada centavo que eu perdi. Aquele maldito bastardo! Denunciou um dos meus pontos! Você sabe o prejuízo que eu tive para molhar a mão daqueles lixos da polícia? Não... Você não tem ideia. – disse sentando-se novamente como se nada tivesse acontecido. – Preciso tirá-lo do meu caminho...
Mariana estava perplexa com tanta crueldade e principalmente a forma com que ele falava tranquilamente em matar alguém. Mesmo que ela soubesse que era daquela forma que o submundo funcionava, não queria se acostumar à ideia que a vida humana tinha tão pouco valor.
— O que eu posso fazer para que você não faça mal a ele? Não está falando sério, está? – perguntou Mariana.
Uma coisa que Mariana sabia é que Fernandes sempre gostou de fazer acordos.
O homem riu.
— Você? – disse pensativo — O que você poderia me dar... Bem, se você ou sua irmã quisesse trabalhar comigo, talvez eu pudesse pegar um pouco mais leve com ele… Fazendo vocês trabalharem até pagar o que ele me fez perder.
Mariana se sentiu enojada com tal proposta.
— Nunca! Como você propõe uma coisa dessas?!
— E o que achava que eu ia propor, minha querida. Sou um homem de negócios. Você é realmente ingênua, Mariana… A vida é assim. Cada um oferece o que tem, e você não tem nada que eu queira além do seu corpo. – levantou-se e se aproximou dela novamente. – Tão linda. Se aceitasse trabalhar comigo, não viveria nessa miséria. Com certeza, conseguiria bons clientes para você. Homens com tanto dinheiro que você nem consegue imaginar. E dariam uma boa grana para ficarem com você... Você ainda é virgem, não é? – disse rindo maliciosamente.
― Você me dá vontade de vomitar! Não consigo nem sequer imaginar uma palavra que descreva o que eu penso de você. – disse Mariana com os olhos vermelhos de raiva. Nunca sentira tanto desprezo por uma pessoa.
Fernandes riu alto.
— Ingênua... Ingênua... Vou indo então… – disse ele se dirigindo para a porta. – E diga ao seu “querido pai”, se ele aparecer por aqui, que se ele não me pagar de alguma maneira, ele está com os dias contados. Ah, que problemático. – e sorrindo. – Mas se quiser aceitar minha proposta, me procure, você sabe onde.
***
Viviane entrou em casa. Acabara de chegar quando sua mãe que estava na sala lhe falou.
— Vivi, aonde foi? – perguntou enquanto lia um jornal. – Não avisou nada. Fiquei preocupada.
— Desculpa. Mas não precisa se preocupar tanto. Fui visitar o tio Fabiano… – disse sentando-se no sofá.
Gabriele deixou o jornal de lado e olhou para a filha.
— Tem certeza que foi para visitar seu tio? – perguntou Gabriele olhando para a filha. – Eu te conheço minha filha.
Viviane riu.
— Tem razão. Fui ver o Dr. Rafael… Por quê?
Gabriele suspirou, não sabia como lidar dar com a filha.
— Vivi, você não deveria importuná-lo. Acho que não é certo uma mulher viver atrás de um homem, principalmente uma garota como você… Ele não é muito mais velho que você?
Viviane assoprou como que impaciente.
— E daí, mãe? Hoje em dia, existem muitos casais com grande diferença de idade! E se dão muito bem. Está até na moda! – disse dando de ombros. – E o Dr. Rafael é realmente impressionante.
— Eu sei. Mas você tem se comportado como uma criança mimada… E além do mais, acho um exagero você ir ao hospital quase três vezes por semana. Ele também precisa trabalhar, Vivi.
Viviane levantou-se chateada.
— Por que não me apoia nem nisso? Eu gosto dele! Será que é tão difícil para você entender?
— E ele gosta de você, Vivi? Acho que deveria se envolver com pessoas da sua idade... Por exemplo, quando era pequena, você sabia que brincava com o Gabriel antes de ele ir para o exterior? Vocês ainda se falam? Outro dia eu o vi, ele é um rapaz tão educado, acho que seria uma boa amizade para...
— Gabriel… De novo. Eu até o suportaria se a senhora dissesse que não gostava dele. – interrompeu Viviane. – A senhora acha que estamos em que século? Eu não vou namorar com quem a senhora quer. Vou ficar com quem eu gosto. E com licença, vou para o meu quarto.
― Quem falou em namoro...? Vivi! – disse a mãe tentando chamá-la. — Antes que eu me esqueça. Seu avô está no escritório e pediu para vê-la.
Gabriele respirou fundo.
— Justo hoje que não estou a fim de falar com ninguém! Que saco!
Gabriele olhou para a filha assustada.
“Onde ela aprendeu esse linguajar?” – perguntou a si mesma.
***
Já passava das sete horas da noite quando Emanuela chegou em casa. A porta estava aberta indicando que a irmã já estava em casa. Quando entrou percebeu que a irmã estava sentada na sala assistindo televisão.
— E aí, como foi seu dia hoje? – perguntou Emanuela a Mariana.
Mariana olhou para a irmã.
— Você chegou? Como foi o seu dia? – perguntou desligando a tevê.
Emanuela riu.
— Bem... Normal. Ah, você sabe. As exigências da chefe, as maluquices da Tati... Essas coisas.
Mariana olhou sério para a irmã.
— Você quer mesmo que eu acredite nisso?
Emanuela ficou um pouco assustada.
— Do que está falando?
Mariana parecia chateada.
— Eu liguei para a padaria... E adivinha quem atendeu? A dona. Eu perguntei por você, e sabe o que ela respondeu? Ela disse que você não trabalhava mais lá, e que já tinha sido demitida há quase uma semana.
Mariana olhou nos olhos da irmã. Parecia séria.
— Quando ia me contar?
— Ah... Desculpa, não é que eu queria te esconder isso...
Mariana se levantou.
— Até quando vai me tratar como se eu fosse uma criança que tenho que ser poupada de tudo? Acha que eu não percebo essa mania que tem de tentar me proteger?
Emanuela desviou do olhar da irmã.
— Você sabe que não é bem assim... Só acho que eu iria encontrar um emprego melhor logo em breve. Só não queria que se preocupasse, só isso...
— Eu não gosto disso. – interrompeu Mariana. – Não sou sua filha, sou sua irmã. Não tem a obrigação de cuidar de mim… Não tem a obrigação de me proteger. Me diga, onde foi parar aquela minha irmã que mandava eu parar de chorar, que mandava eu ser forte, que sempre dizia para eu me levantar sozinha?
Emanuela não entendia a reação da irmã. Não sabia como aquela discussão tinha chegado naquele ponto.
— Mariana, por que está falando assim? Eu já disse... Eu...
Mari levantou-se para ir para o quarto.
— Se eu depender tanto assim de você, como vou resolver sozinha os meus problemas? Será que você não pensa nisso?
— Desculpa. – pediu Manu ainda não entendendo a reação da irmã. – Não sabia que não gostava do modo como eu a tratava. Eu prometo, não vou mais esconder qualquer assunto de você...
Mariana ficou calada por um instante.
— Esqueça. Vou para o quarto. – disse saindo.
Emanuela olhou para a irmã enquanto ela saia.
“O que deu nela? Mariana não é de falar assim…” – pensou.
***
Viviane bateu a porta do escritório e entrou. O Dr. Otávio estava sentado na cadeira olhando para a janela lá fora.
— Hoje a noite está bem agradável, não é Vivi? – comentou sem olhar para a neta.
Viviane sentou-se na cadeira.
— O senhor até que é bem poético, não é, Dr. Otávio?
O Dr. Otávio olhou para Viviane e apesar de ver uma moça já formada na sua frente, pode ainda notar uma criança mimada.
— Não me diga que ainda está magoada com o seu avô?
Viviane olhou para o lado tentando evitar o olhar do avô e se fazendo de irritada.
— E o que o senhor pensa? De repente o senhor quer trazer duas bastardas para essa casa… Como se eu não tivesse problemas o bastante!
Dr. Otávio olhou sério para a neta.
— Viviane, não gosto que fale assim. – disse ele repreendendo-a. – Já basta Otávio Jr. com essas atitudes mesquinhas. Ele é um péssimo exemplo, não tente imitá-lo.
— O senhor nem as conhece e já está as defendendo... – comentou Vivi.
Otávio suspirou.
— Quantos anos você acha que tem, Vivi. Você não é mais uma criança. E também tem que me respeitar. Desde quando me responde dessa forma?
Viviane ficou séria de repente.
— Me desculpe. Foi um descuido meu.
O Dr. Otávio respirou profundamente tentando ter mais paciência com a neta.
— Eu a chamei aqui, por que quero que você avise a todos que em breve teremos uma nova moradora na mansão.
― Outra?
― Sim. A Érica vem morar conosco.
Viviane ficou boquiaberta.
— O quê?! Aquela mulher insuportável? Isso é uma pegadinha, não é?
— Só me obedeça, por favor, Viviane. Ela virá daqui a dois dias. Então prepare tudo para que ela se sinta bem.
— Tudo bem. Se é assim que o senhor quer… Todos saberão ainda hoje as boas notícias. – disse levantando-se.
Viviane saiu. Dr. Otávio pensou consigo mesmo que Viviane tinha sido mimada demais por ele. Ficou preocupado com a reação dela quando as suas outras netas chegassem.
***
Otávio Jr., o filho do meio do Dr. Otávio, logo que chegou a mansão foi recebido por Camila. Ele pode perceber certa preocupação no olhar de sua esposa.
— O que aconteceu? – perguntou já ficando preocupado.
— Vamos para o quarto… Lá teremos mais privacidade. – pediu a mulher.
Os dois foram para o andar de cima onde ficavam os quartos.
— Temos um problema… – disse a mulher logo ao entrar no aposento.
— O que foi agora? – perguntou Otávio Jr. Sentando-se em uma poltrona. – Não me diga que o meu pai aprontou mais uma vez.
Camila respirou fundo. O que ia falar com certeza deixaria o marido nervoso.
— O seu pai vai consentir que Érica more aqui.
Otávio ficou pálido de repente, não podia acreditar no que ouvia.
— Você está falando sério? Onde foi que ouviu isso?
Camila sentou-se na cama. Otávio Jr. levantou-se e ficou andando pelo quarto.
— Viviane foi encarregada a dizer a todos da família. E aí o que vamos fazer?
— Ela é muito esperta, com certeza vai descobrir o que estamos planejando… Se bem que as coisas não estão saindo exatamente como eu pensei.
— Tem razão. – suspirou Camila. – Trazer as duas netas ilegítimas para morar aqui conosco… Nunca imaginei que seu pai fizesse isso, no máximo pensei que ele ia dar uma casa para as duas morarem.
— Mas podemos usar isso a nosso favor. – disse Otávio Jr. pensativo. – Mantendo elas mais perto, fica mais fácil monitorar o movimento das duas. De qualquer forma, o problema mais urgente não são as filhas do Jorge, e sim a Érica e aquele pirralho.
— Eu não acredito que ela vá comentar qualquer coisa sobre o que fizemos há cinco anos, ou sobre outras coisas, afinal ela também foi beneficiada… – comentou Camila.
Otávio sentou-se mais calmo.
— Você pode ter razão, mas se tratando daquela mulher podemos esperar qualquer coisa.
— O que me intriga mais é o Dr. Otávio trazer ela para vir morar conosco. Me parece divergente de suas atitudes comuns… Ele que sempre reprovou a personalidade dela…
— É, mas ele tem uma boa desculpa para permitir que ela more aqui. Ela também é uma Alcântara, e de alguma forma também vai ser incluída no testamento. – disse ele sentando-se ao lado da esposa.
Camila ficou em silêncio por um instante.
— Otávio, estive pensando em algo… – disse Camila com o olhar distante. – Você acha que com a presença de Érica aqui, aquela outra pessoa pode voltar dos Estados Unidos?
Otávio ficou sério.
— Eu não sei. Por que a pergunta?
Camila olhou para o marido com receio nos olhos.
— Tenho medo, se ele descobrir o que fizemos… Afinal ele é a segunda pessoa com mais ações do grupo… Ele não é alguém que perdoaria assim…
— Tem razão. – concordou preocupado. – Só eu, você e a Érica sabemos do que o tio Marcos é capaz.
— E é por causa disso que tenho tanto medo.
Otávio Jr. tentou afastar aqueles pensamentos.
— De qualquer forma, acho que o problema principal agora não é ele, e sim a Érica… Espero que o fato de ela estar tão perto do meu pai, não faça ela abrir boca para falar o que não deve.
***
Dr. Fabiano, o filho mais velho de Otávio e o único médico formado da família, andava em direção ao quarto da paciente “desconhecida”. Por alguma razão sentia que uma força o impelia até ela. Apesar da alegria que sentia ao visitar aquela paciente misteriosa, sentia-se um pouco deprimido com a notícia que recebera de sua sobrinha.
— E como vai a nossa paciente? – perguntou a Rafael logo que chegou ao quarto.
Rafael se admirou.
— Não me diga que hoje está de plantão…
— Pois eu digo: Estou de plantão hoje… – respondeu rindo. – E como ela está?
O Dr. Rafael olhou para o prontuário da paciente.
— Tem respondido de maneira satisfatória ao tratamento. Daqui a poucos dias poderemos vê-la acordada.
— Que bom. – disse Fabiano distante.
Rafael percebeu que havia algo diferente no colega.
— O que aconteceu? Eu te conheço, e não é de hoje…
— Só uma notícia que recebi da minha sobrinha.
Rafael se assustou.
— Da Viviane? Não me diga que ela vem visitar você no plantão!
Fabiano riu da expressão do amigo.
— Você é realmente engraçado. Ter medo assim de uma garota tão simpática.
— Isso porque não é com você… Mas mudando de assunto, o que aconteceu para você me parecer tão deprimido?
O Dr. Fabiano sentou-se em uma cadeira.
— Minha sobrinha acabou de avisar que a Érica vai morar na mansão.
Rafael não acreditava no que estava ouvindo.
— Como assim? A sua noiva vai voltar a morar com vocês?
— Eu já disse que ela não é mais minha noiva… – disse Fabiano. – Você sabe que isso já faz algum tempo, não há nada mais entre mim e ela. Principalmente porque ela é esposa do meu tio.
— Tudo bem. Mas isso não significa que ela não pode se divorciar. Além disso, você nunca mais conseguiu uma namorada fixa depois que... Bem, depois que aconteceu aquilo.
Fabiano estava pensativo.
— Bem, apesar de ser quem é, devo confessar que ela é linda. E é o tipo de muitos homens. – disse Rafael pensativo — Isso não se pode negar.
Fabiano ficou sério.
— Meu caro amigo, ouça o que vou lhe dizer, não se aproxime daquela mulher… Ela consegue deixar qualquer um louco de paixão, mas se eu fosse descrevê-la diria que ela é o diabo. Principalmente quando está apaixonada.
— Qualquer mulher apaixonada fica enlouquecida… – disse Rafael pensativo.
— Não compare Érica com Viviane… Viviane é apenas uma menina na flor da idade, sem nenhuma experiência… Mas a Érica não, ela é capaz de conseguir qualquer coisa de um homem quando quer, e mesmo estando casada, não me admiraria andar se oferecendo para outros.
— E aquele filho dela? Conseguiu alguma resposta dela desde a última vez que se falaram? Você conseguiu uma confirmação de que você não é o pai daquele menino?
Fabiano ficou com o olhar vago.
— Bem, ser pai não é algo que eu não queira. Eu até perguntei para ela logo quando ela engravidou, mas ela afirmou categoricamente que o filho não era meu… De qualquer forma, se fosse meu ela se aproveitaria disso para conseguir uma boa pensão. Ela com certeza é desse tipo de mulher…
Rafael foi chamado pelo interfone para a emergência.
— Bem, a conversa está muito boa, mas tenho que ir. – disse saindo.
O Dr. Fabiano ficou sozinho no quarto olhando a paciente que estava deitada. De repente, uma lembrança em especial invadiu a sua mente.
Fabiano estava deitado enquanto observava Érica deitada bem perto dele. Os raios solares que entravam furtivamente pela janela entreaberta iluminava o rosto dela dando uma sensação de beleza angelical. De repente, ainda de olhos fechados, algumas rugas surgiram na testa dela, em uma expressão de quem estava descontente em ser acordada pelo sol da manhã. Ela abriu os olhos e se deparou com Fabiano observando-a.
― Já acordou? Por que não me chamou? – perguntou ela ainda sonolenta.
Fabiano tocou de leve no rosto dela.
― Estava vendo o seu rosto... É tão linda quando está dormindo.
― Você tem alguma fantasia ao ver mulheres dormindo, é? – disse ela rindo ternamente, enquanto mexia carinhosamente no cabelo dele.
― Mas eu fico chateado...
― Por quê?
― Em pensar que muitos homens também viram seu rosto assim. Eu realmente fico com ciúmes.
Érica sorriu. O sorriso dela trouxe um sentimento agradável ao coração dele.
― Não se preocupe, meu querido. Prometo que você será o único a ver esse rosto pela manhã a partir de agora.
― Até quando ele ficar enrugado?
Érica se surpreendeu.
― O que está dizendo?
― Queria que se casasse comigo...
Érica se surpreendeu, mas depois seu rosto se iluminou.
“Mesmo estando nesse estado, você é tão linda... – pensou ele olhando para a paciente desconhecida – O que está acontecendo comigo? Quem é você afinal?”
***
Bruno conversava com a esposa Iêda em uma pequena sala. Enquanto olhava alguns de seus projetos de arquitetura e analisava-os poderia conversar um pouco com Iêda.
— Você recebeu a notícia? – perguntou Iêda para o marido.
Bruno desviou a atenção e olhou para a esposa.
— Sobre a Érica? Sim. E fiquei muito surpreso. Queria saber o que o meu pai pretende trazendo aquela mulher para essa casa.
Iêda olhou para o marido e suspirou. Bruno notou certa preocupação na esposa.
— O que foi? – perguntou voltando a olhar para os papéis que estava nas mãos.
— A presença daquela mulher não me agrada em nada. Por mais que eu saiba que ela também é da família, mesmo assim… Principalmente, pelo que ela fez com o seu irmão. Mas mesmo se ela não tivesse feito aquilo, ainda não gostaria dela...
Bruno olhou para a esposa e sorriu.
— Posso saber o porquê?
— E você ainda pergunta? Aquela mulher se insinua para qualquer homem, não importa se ele é casado ou não.
Bruno riu.
— Então é isso, a sua implicância com ela não passa de ciúmes. – disse observando novamente os projetos de arquitetura. – Mas não se preocupe. Ela é bonita, isso não posso negar, mas não sou o tipo de homem que trairia a confiança da esposa.
— Eu confio em você, meu querido. – disse sorrindo e depois um pouco mais séria. – Eu só não confio nela… Em pensar que ela pode seduzi-lo... De qualquer forma, o que me consola é que aquela pobre criança poderá ter convívio com outras pessoas.
Bruno olhou para a esposa.
— Também penso assim. Aquela criança precisa de uma família. Aquela mulher não cuida nem de si mesma.
— Ouvi dizer que ela contrata alguém para ficar com ele o dia todo. Nem sequer passa um dia inteiro com ele. Aquela mulher não nasceu para ser mãe.
— Pelo menos agora ele vai ter os cuidados que precisa. Talvez fosse por isso que o meu pai consentiu que ela voltasse a morar aqui.
Iêda pareceu pensativa.
— Acho que o motivo vai além disso. Uma coisa que sempre admirei no meu sogro, é que ele sempre está mais de três passos a frente que todos.
Bruno olhou para Iêda. Talvez ela estivesse com a razão.
***
Fabrício voltou para o apartamento. Estava exausto. Quando entrou em casa, percebeu que a irmã estava quase pronta para sair.
— Pensei que não voltaria hoje. – disse ela pegando a bolsa. – Você sabe que horas são? São quase dez da noite. Que passeio foi esse?
— E você, aonde vai? Você sabe que horas tem que voltar, não é?
Verônica sorriu.
— Até parece que você se preocupa tanto assim comigo. De qualquer forma vou logo avisando que não volto antes das duas.
Fabrício sentou-se no sofá. Verônica remexia na bolsa se certificando que não esquecera nada.
— Tome cuidado. – avisou Fabrício.
Verônica pegou na cabeça do irmão se certificando se ele não estava com febre.
— Me parece normal. – e olhando para o Fabrício. – Você é mesmo meu irmão?
— Muito engraçadinha. Até parece que não me preocupo nem um pouco com você. Não sou seu irmão mais velho?
Verônica sentou-se ao lado do irmão.
— Não é isso. É que você me parece estar de bom humor… Acho que o passeio foi bem proveitoso… – disse ela rindo. – Encontrou algum passarinho verde?
— Não, mas talvez tenha encontrado algo muito melhor que isso…
— Não me diga que você encontrou mais uma garota para ser sua vítima.
— Do que está falando?
Verônica levantou-se para ir.
— Eu não gosto quando você faz isso. Depois quem tem que atender as ligações das garotas apaixonadas e inventar várias desculpas sou eu…
Fabrício riu.
— E eu tenho culpa de ser tão irresistível?
— Sem graça essa sua piada… – disse desinteressada. – De qualquer forma, diga ao papai quando ele voltar que vou voltar tarde.
Fabrício ficou calado.
— Se não quiser não diga. – disse Verônica lembrando que o irmão tivera uma discussão recente com o pai. – Tchau.
Fabrício ficou sentado alguns instantes, estava pensativo. Não sabia exatamente porque encontrar aquela garota de novo o deixava de tão bom humor.
***
Emanuela entrou no quarto. Os vitrôs estavam abertos e o quarto estava na penumbra. Sentou-se na cama, onde a irmã estava deitada.
— Você está acordada? – perguntou.
Mariana levantou-se sonolenta.
— O que foi?
Emanuela olhou para a irmã e riu.
— Eu que pergunto… Você ainda está com raiva de mim?
— Não. Só estou um pouco estressada…
Emanuela levantou-se e acendeu a luz.
— Vamos, me conte logo… Eu te conheço Mariana… Você não ia ficar tão irritada só porque eu escondi que fui demitida.
Mariana ficou apreensiva. Emanuela sentou-se novamente ao lado da irmã.
— Hoje quando eu cheguei, a porta estava aberta. – começou Mariana. – Eu pensava que você tinha chegado, mas quando entrei tinha um homem sentado no sofá da sala.
Emanuela ficou surpresa.
— Um homem? Mas ele não te fez nenhum mal, não foi? – perguntou preocupada.
— Não se preocupe, não aconteceu nada. – respondeu Mariana tentando acalmar a irmã.
— E quem era esse homem? – perguntou Emanuela ainda preocupada.
Mariana ficou calada.
— Quem era ele, Mari? – perguntou Manu novamente.
— Fernandes… – respondeu Mariana quase inaudível.
Emanuela quase caiu pra trás.
— Fer… Fernandes esteve aqui? O que ele veio fazer? – perguntou mais nervosa do que nunca.
— Ele veio perguntar sobre o Rogério, parece que o nosso pai conseguiu confusão com ele. Ele disse que vai matá-lo, Manu! – disse com desespero na voz.
Emanuela não sabia o que fazer. Era muita informação.
— E agora? Ele pediu alguma coisa, dinheiro, por exemplo? Nada, não é?
— Não.
Mariana omitiu a proposta que Fernandes fizera quando foi visitá-la. Nem ela, nem Emanuela cogitariam naquela hipótese absurda.
— Então era por isso que você estava tão tensa.. Ainda bem que me contou. De qualquer forma, não devemos nos preocupar com nada. É só mantermos distância do Fernandes e está tudo bem.
Mariana concordou com a cabeça, mas ela sentiu um mau pressentimento sobre aquilo.
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