Lazarus

1 O Dia mais Estranho de Lázaro


“...A polícia diz ter pistas sobre a onda de assaltos perpetrados pelo grupo conhecido como Hoodies. Fontes próximas e confiáveis da nossa rádio afirmam que o grupo é composto por seis elementos, todos do sexo masculino, que possuem conhecimentos elevados de Estratégia, Computação e excelente manuseio de material bélico...”

Basta! Esta onda de assaltos, Hoddies pra cá, Hoodies pra lá, já aborrece-me. Não é por acaso que toda gente já só fala nesse grupo. Eles estão activos há dois anos e suas ações têm sido fora do normal e aparentemente sem nenhuma conexão. Porque razão foram eles raptar a filha mais nova do Presidente da República e a seguir devolvê-la intacta e sem memória de nada? Queriam eles provar algo?, ou talvez eles queiram...

De repente senti uma carga no meu ombro direito que tirou-me do mundo dos meus pensamentos. Olhei para o meu ombro direito e vi aquela mão nojenta grudada em mim como uma pastilha elástica num sapato.

- Olhe pela janela rapaz, veja aquela nuvem de fumo. Parece-me que vem da Faculdade de Engenharia. – Disse o velho sentado atrás de mim no ônibus.

Olhei pela janela e o que vi deixou-me em estado de alerta. Boa parte da Faculdade de Engenharia encontrava-se em chamas. A minha Faculdade encontrava-se em chamas. Hoje era um dia importante pra mim naquela Faculdade. Tinha um exame de Resistência dos Materiais. Com um gesto nada amigável, exerci uma força para a frente com o ombro direito para me livrar daquela mão nojenta. Levantei-me e corri em direcção à saída do ônibus, desci e corri ainda mais em direção àquele lugar que encontrava-se em chamas.

Porque será que estou a correr meu Deus? Não sou bombeiro nem nada, não tenho utilidade alguma neste caso. Talvez deva desacelerar um pouco, estou a agir como um louco. Deve ser a adrenalina que está a me...

Dei-me conta de estar mais leve do que o normal e quando tento verificar se o conteúdo da minha pasta estava intacto, eis que descubro que estou a correr como um louco em direção à Faculdade em chamas sem a minha pasta.

Devo ter deixado no ônibus.

Corri em direção ao ônibus em movimento à minha direita e francamente já não existia jeito de alcançar aquela lata velha. Olhando para o lugar onde eu estive sentado reparei numa folha branca de tamanho A4 sendo segurada por duas mãos com dedos pretos. “Sala 202” estava escrito na folha. Olhei para o sorridente senhor com mãos estranhas e não pude deixar de reparar nos seus olhos que mudavam de cor cada vez que eu fixava o olhar nele. Havia algo de muito suspeito naquele homem.

O ônibus avançara demasiado.

Já sem nada a perder, decidi entrar naquele jogo. Caminhei em direção à Faculdade de Engenharia que se encontrava já próximo de mim.

Deixe-me ver se entendi... A minha Faculdade está em chamas e esqueci a pasta dentro do ônibus. Aquele senhor das mãos esquisitas sorria enquanto segurava um papel com...

Dei-me conta de algo.

...Sala 202! É a sala onde viria a ocorrer o meu exame. Como ele sabia disso?

Cruzei o portão da Faculdade e aquele monte de gente de um lado para o outro dificultava o meu trajecto. Por sorte ou não, o bloco onde se encontrava a sala 202 não foi afectado, o que facilitaria a meu trajecto até lá. Pouco a pouco o monte de gente ia ficando pra trás uma vez que todos eram curiosos e dirigiam-se até ao bloco infectado pelas chamas.

Cruzando a porta de acesso ao edifício onde se encontrava a sala 202, fui interpelado por um segurança com uma cara de espanto e de nervosismo a mistura.

- Você não pode estar aqui rapaz! Todo mundo fora! – Disse o segurança.

- É rápido chefe. Acredito que esqueci algo lá em cima e preciso levar. É algo de extrema importância senhor.

- Tenho certeza que quando tudo estiver resolvido quanto ao incêndio, você poderá ter acesso ao que lhe pertence. Estará seguro nas mãos da Faculdade. Agora faça-me o favor e dê o fora daqui! – Falou o segurança com veemência.

O que estou eu a fazer? Não tenho nenhum motivo pra estar naquela sala com esta confusão toda. Mas porquê o senhor do ônibus me disse que devia ir pra lá? Definitivamente será útil verificar...

O corpo do segurança já estava demasiado próximo do meu, algo que me incomodava bastante.

- Terei que fazê-lo sair daqui rapaz?

- Olhe, talvez o senhor possa me acompanhar até à sala 202. Só quero recuperar algo que deixei pra trás quando lá estive ainda hoje antes da confusão toda.

- Olhe rapaz, não brinques comigo. Não me venhas com estórias. Tenho ordens directas de que não devo deixar subir ninguém. – Disse o segurança com o tom de quem está a perder a paciência.

Com um gesto habilidoso, dei um chega pra lá no segurança que bateu contra uma estante contendo diversas fotografias de gente poderosa que havia passado por aquela Faculdade. Corri em direção às escadas e antes de pisar no primeiro degrau, sofri um desequilíbrio e bati com a cabeça num degrau. Olhando pra trás vi o segurança que tirava a mão do meu pé direto. Tinha sido ele quem me desequilibrara.

Ele partiu pra cima de mim e antes de me atingir, ficou paralisado numa mesma posição que nem uma estátua, bem na minha frente numa posição que me parecia desconfortável. Os seus olhos não mais piscavam e o seu pescoço e a ponta dos seus dedos ganhavam uma coloração esbranquiçada. Por alguns segundos fiquei a contemplar aquela posição estranhíssima me perguntando o que deveria ter acontecido à ele.

Será que ele morreu? Devo buscar ajuda? Será que é uma condição ou doença dele que lhe ataca em momentos de fúria?

Muitas perguntas me ocorriam na cabeça. Enquanto me distanciava daquele corpo tinha a estranha sensação de que tudo era um sonho. Corri até à sala com a promessa que de uma vez acabado de verificar a sala 202, eu voltaria pra verificar se o segurança já estava bem e procuraria ajuda caso contrário.

Ao entrar na sala, dei uma olhada pra todo canto e...nada. Absolutamente nada de anormal estava a se passar.

O que aquele senhor das mãos estranhas queria me dizer? Deve ter sido só uma pegadinha. Posso nunca ter lhe visto por aqui mas isso não significa que ele não conheça esta Faculdade até ao ponto de conhecer esta sala. Mas como ele sabia que eu tinha algo a fazer na sala 202 hoje? Deve ter sido uma coincidência, só pode! Porra! Encarei um segurança que acabou passando mal por minha causa e isso aconteceu por causa de... uma pegadinha?

Um ponto de luz vermelha formou-se na parede branca que estava a minha frente. Eu me encontrava de costas para a porta e notei que o ponto desviou-se um pouco para esquerda e...desapareceu.

- Mãos no ar e vire-se lentamente para a porta. – Disse calmamente a pessoa atrás de mim.

Virei e deparei-me com uma agente da Polícia. Tinha os cabelos loiros e uma expressão séria. Não pude deixar de reparar a sua beleza, ela era muito linda. Devia ser dez anos mais velha do que eu.

- Vim só procurar um material que esqueci. Olha, poderia abaixar a arma se faz favor...Não represento nenhum perigo pelo que eu saiba. – Deixei escapar um sorriso na tentativa de tornar a situação menos séria.

O semblante da agente não mudara. Ela continuava com a cara nada amigável. Ela começou a falar para um microfone ou algo parecido que se encontrava na sua camisa. Não pude perceber nada do que dizia. Mas bem atrás da agente encontrava-se... a minha pasta.

- O senhor é o Lázaro, pois não? – Perguntou a agente sem desviar o ponto vermelho da minha camisete.

- Sou eu sim. Algum problema? Vim só buscar a minha pasta aí atrás. – Dei um passo para frente e a cara dela ganhou uma expressão ainda mais séria como se de um aviso se tratasse.

- Não te mexas! Se esta mochila realmente é sua, estás metido em grandes sarilhos...

Quanto mais eu olhava para a expressão dela mais eu me perdia naqueles olhos castanhos. Tão castanhos que pareciam espelhar tudo a sua frente. De repente o castanho foi se tornando ainda mais claro e mais claro, ah! Que mulherão!. Olhei para os seus dedos e eles estavam já a ficar brancos. Cada vez mais brancos. A pistola também ia ganhando uma coloração branca. Ela já não piscava e adquiriu uma posição que parecia imutável tal como uma... estátua! Tentei correr em direção à ela mas parecia difícil de mais, as minhas pernas não se moviam com facilidade. Olhei para baixo e vi o que já imaginava. Os meus dedos das mãos foram ganhando coloração branca e pouco a pouco tudo deixou de fazer sentido e...escuridão total.

- Acorde...Lázaro...Acorde. Está na hora.

Pouco a pouco senti os meus olhos a abrirem-se. O ambiente em que me encontrava era diferente do que alguma vez vi. Existia cabeça de animais colada as paredes, textos que pareciam sagrados e escritos em latim e o ambiente era iluminado somente por velas e diante de mim estava...

Eu conheço este homem. É ele...o mesmo senhor do ônibus! O que estou eu a fazer aqui? Devo voltar para casa, a minha mãe deve estar muito preocupada...Que raio de lugar é este?!

- Já já tudo isto fará sentido Lázaro. Tente se acalmar – Disse o senhor do ônibus enquanto estendia a mão para mim. – Deves ter muitas perguntas pra mim mas antes de tudo isso...Seja bem-vindo à terra dos Hoodies!

FIM

Notas finais
Com o fim deste capítulo espero que estejam ansiosos pelo próximo e comentem.
Obrigado!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.