Lauren Page e o Mundo Subterrâneo

4 Capítulo 03: Fazendo um tour pela base maluca da organização esquisita


Notas iniciais
Se você tá lendo isso aqui, obrigada por estar acompanhando a história ♥

Eu acordei me sentindo melhor. A dor de cabeça tinha passado, minhas costas estavam melhores e eu não me sentia nem um pouco tonta. Me sentia revigorada, como se levar uma surra e receber notícias desastrosas e malucas fosse pouca coisa e eu estivesse acostumada. Será que eu estava? Não sei dizer, eu não lembro.

Perder a memória é uma merda. Eu sei que já disse isso antes, mas eu vou continuar dizendo porque é um porre. Cacete.

Eu virei meu rosto no travesseiro e vi um embrulho numa cadeira ao lado da minha cama, junto a algumas sacolas. Olhei o quarto esperando ver a doutora, mas ela não estava lá. Claro que não estava. Ela provavelmente falou aquilo só para que eu a deixasse em paz. Acho que talvez eu tenha esperado demais dela.

— Oi — diz a doutora, abrindo a porta com uma xícara de café na mão. — Você acordou faz tempo? Desculpa não estar aqui, eu fui à cafeteria pegar um cappuccino. Não peguei nada para você porque não achei que fosse acordar tão cedo. Está se sentindo bem?

Ela tomou um gole de cappuccino, esperando pela minha resposta que não veio. Eu fiquei apenas olhando-a. Não sabia o que fazer. A aura dela era de muito cansaço, com um pouco de prazer, provavelmente pelo cappuccino e alguma dúvida se formando. Percebi que a dúvida se formando provavelmente era a respeito do meu silêncio e da minha encarada nada discreta. Abaixei o rosto e desviei o olhar.

— Melhor do que ontem.

E silêncio. Eu sentia que ela não sabia bem o que fazer. Provavelmente ela não tinha muita experiência em lidar com pessoas.

— Bem, eu saí para a cafeteria, mas estive fora uma parte da noite — claro que ela estava. Não esperava que ela fosse ficar comigo a noite inteira mesmo. Pessoas são assim. Pelo menos eu estava dormindo. — Não tínhamos roupas do seu tamanho, e as que chegavam perto eram meio que... ultrapassadas. Então, pedi para um amigo meu ficar aqui com você, para o caso de você acordar e precisar falar com alguém, e fui comprar algumas coisas. Não precisa se preocupar, eu falei com o diretor e ele me deu permissão. Ele não é lá meu fã, mas nós dois concordamos que era importante.

Ok, fui pega de surpresa. Eu não esperava isso. Pela aura dela, eu sentia que ela não estava mentindo. Ela realmente teve toda a preocupação em me arrumar roupas e objetos de higiene pessoal, de não me deixar sozinha e tudo o mais. Eu não confiava no diretor. Não confiava em nenhum deles, mas sentia que podia confiar nela.

Eu me levantei e fui olhar as sacolas. E, uau, a moça ali sabia escolher roupas. Subestimei seu suéter azul e suas calças skinny cáqui.

Ela havia comprado jeans, alguns rasgados, camisas confortáveis com estampas legais, casacos, meias, sapatos, sandálias, roupas íntimas e até piercings. Olhei para ela, surpresa.

— Eu não mexi em você durante a noite para saber o número da sua calcinha e do seu sutiã. Eu sou médica e tenho boa noção dessas coisas, ao menos espero. Qualquer coisa, a gente troca- ela parecia um pouco corada. Que fofa. — Os piercings eu comprei de vários tipos, porque não sabia exatamente de que tipo você gosta, mas você descobre depois.

— Tem algum espelho aqui?

— Eu vou buscar, só um minutinho.

Ela saiu. Aproveitei para ver as roupas melhor. Minhas favoritas foram um sobretudo marrom com um pelo sintético branco na gola, um jeans escuro rasgado, uma bota preta e uma camiseta branca regata com uma caveira na posição do tio Sam dizendo "I want you". Simplesmente genial.

Peguei uma toalha em uma das sacolas e fui em direção à outra porta do quarto, que supus ser o banheiro. Acertei. Ele era — lógico — branco, com azulejos de porcelanato, bancada de silestone e um box de tamanho razoável. Tudo ali tinha cheiro de hospital, mas já era de se esperar.

Eu tranquei a porta e me despi devagar, aproveitando para olhar melhor meu corpo. Eu nem precisava ter feito a doutora sair para pegar um espelho, tinha um no banheiro. Eu me olhei nua. Era o meu corpo, mas eu não lembrava dele. Cara, você não sabe o quanto a forma do seu umbigo é importante até você não lembrar mais dela. E ali estavam os furos de piercing que eu não percebi quando me olhei no beco. Tinha dois na orelha, fora o usual para brincos, e um na sobrancelha direita. Meus olhos eram de um âmbar forte, meu cabelo castanho escuro quase preto estava todo bagunçado, mas eu ainda me achava uma negra linda. Minha única decepção era que meus seios eram ainda menores do que eu tinha pensado, mas eu estava feliz com eles. Eu passei a mão no meu próprio corpo, reconhecendo-o como se tocasse uma estranha, e então uma dor de cabeça forte veio novamente. Tão forte que eu coloquei minhas costas na porta com força e escorreguei até o chão, com a cabeça nas mãos. Eu lembrava de mãos delicadas me tocando, de lábios nos meus. Lembrava de alguém, mas eu não sabia quem. A falta dessa pessoa surpreendentemente me deixou sem ar, eu não me sentia bem agora que sabia que a pessoa faltava, que uma parte de mim faltava. Era tão, tão estranho. Eu daria qualquer coisa para saber de quem eram aquelas mãos que me tocavam e faziam eu me sentir tão bem.

Toc toc toc. Meus pensamentos foram interrompidos por três batidas suaves na porta.

— Srta. Page, está aí? Está bem?

Enxuguei as lágrimas nos meus olhos antes que caíssem. Engoli em seco e respondida melhor forma que consegui.

— Só vim tomar um banho. Estou bem.

— Tem certeza?

— Tenho sim. Não se preocupe. E me chame de Lauren, esse senhorita me assusta.

— Tudo bem, Lauren — ela riu. — Qualquer coisa, estou aqui fora.

Respirei fundo e expirei. Sentia uma angústia terrível, então não pensei duas vezes ao ligar o chuveiro e me deixar embaixo dele para que ele levasse minhas preocupações e medos para o ralo junto com a água.

Depois que terminei o banho, vesti as roupas que mais tinha gostado e fui falar com a doutora. Ela tinha dormido sentada segurando um livro, um caderno de anotações e uma caneta. Os óculos estavam tortos no seu rosto e o jaleco estava todo amassado. Estava péssima.

Cheguei perto dela sem saber o que fazer para acordá-la, mas acabei dando tapinhas em seu joelho até ela abrir os olhos, endireitar os óculos e levantar. Sua xícara de cappuccino estava vazia, e ela me perguntou o que eu queria fazer. Como eu não tinha ideia, ela sugeriu que eu conhecesse a Base IV, essa em que eu estava em cativeiro. Então lá fomos nós.

Ela me mostrou a cafeteria, onde a tia Vera, como ela chamava, era incrivelmente gentil. A doutora pediu outra xícara de cappuccino e eu pedi um bolo com refrigerante. Eu sei, ótimo café da manhã, mas a verdade é que estava 100% nem aí. Aquelas mãos não saíam da minha cabeça.

Alguns outros cientistas e médicos entraram na cafeteria, e eu senti a estranha aura que tomou conta do local. A da doutora, de medo, a dos outros, um ódio e desprezo direcionado para... a doutora Fernandez? Eu não sabia o que ela tinha feito, mas quase todo mundo naquela cafeteria parecia odiá-la. Ela tinha quase trinta anos, a maioria dos outros doutores eram mais velhos, mas sabe-se lá o que tinha acontecido entre ela e esse povo, não tinha acabado bem.

A doutora acabou o cappuccino rápido e continuou me mostrando a base. Mostrou a ala hospitalar da plebe (aparentemente, havia uma aula hospitalar normal e uma especial, para as figuras mais importantes da organização. Achei isso uma puta babaquice, mas tudo bem). Depois foram as áreas de experimentos, de treinamento, de armas, armazéns, a parte de dormitórios, reuniões e até a pequena área de lazer (quem diria?). Foram umas quinhentas idas e vindas de elevador, dez mil corredores e quatrocentos bilhões de salas. Eu espero mesmo que haja um mapa dessa joça.

E seguimos para a parte dos mecânicos. Eles cuidavam das aeronaves e veículos em geral, e das armas mais poderosas. Era o andar mais perto do solo (ainda não tinha certeza se eu estava embaixo do solo, mas acho que sim), e ela foi me apresentar a dois mecânicos que ela conhecia.

— Lauren, eu quero te mostrar duas pessoas aqui. Esses aqui são James Whitower e Hiro Watanabe. James é o chefe dessa divisão. Hiro é um bocó que sabe o que faz na maioria das vezes.

James era negro do cabelo ruivo. O cabelo era raspado rente à cabeça, ele tinha os lábios grossos e os ombros largos, mas era bem magricela e meio baixinho. Já Hiro era alto, esbelto, tinha uma tatuagem no pescoço que provavelmente cobria o tórax e o braço, olhos puxadinhos e o cabelo liso preto. Era bem asiático mesmo, e bem bonito, para ser sincera. Os dois usavam macacões azuis claro, o de Hiro mais limpo enquanto o de James estava cheio de graxa. Cheio de graxa. Demorei um tempo para perceber que o macacão dele era azul também. Tinha graxa até nos óculos de aviador que ele tinha na cabeça.

— Olá, doutora. É um prazer, senhorita... — ele limpou a mão cheia de graxa na calça cheia de graxa e adiantou um monte de nada.

— Lauren. Pode me chamar de Lauren — eu apertei a mão dele. Não tenho medo de graxa debaixo das unhas mesmo, podia lavar depois.

— E aí, doutora. Está fim de brincar de médico mais tarde? — Hiro perguntou.

Eu e James olhamos para ele, depois para a doutora, e depois para ele de novo.

— Claro — ela disse. — Por que não? A gente se encontra às onze, no mesmo lugar?

— Pode deixar, moça.

Eu e James olhamos para a doutora, depois para ele, e depois para a doutora de novo. Aquilo tinha mesmo acabado de acontecer?

— Quem é a gata? Está a fim de brincar de médico também, Laulinda?

James revirou os olhos. Meu estômago revirou-se todo. Eu sentia que ia vomitar.

— Desculpe?

— Sabe como é. Nem todo dia a gente tem uma chance dessas. Eu sou um ótimo doutor — ele piscou.

— Eu gosto de moças, queridinho.

A doutora pareceu surpresa. Senti dela um pouco de admiração e surpresa, mas não sentia desprezo nem nada. Acho que era algo que ela simplesmente não esperava, mas ela estava totalmente de boa quanto a isso. De James, eu sentia um desconforto imeeeeeenso, parecia que ele ia vomitar o estômago para fora. De Hiro, eu sentia um monte de coisas confusas. Não conseguia discernir direito o que era.

— Tem certeza? Talvez você só não tenha provado um homem de verdade — ele piscou novamente. — Aposto que eu dou conta do seu recado.

Eu abri a boca para responder e a doutora entrou no meio de nós dois. Eu queria chutar o saco dele. Ah, como eu queria chutar o saquinho dele!

— Calma lá, tigrão. Você exagerou.

Ele olhou para ela como se pedisse desculpas ao mesmo tempo que parecia meio desesperado. Ele deixou eu captar isso na sua aura em menos de um segundo e ficou todo confuso novamente. Aqueles dois tinham algum lance. Algum lance esquisito.

— Tudo bem, gatinha. Pode me monopolizar. Eu deixo só porque você é gostosa.

Ela suspirou audivelmente.

— Tudo bem. Visita encerrada. Tenho que voltar ao laboratório. Já se conheceram, maravilha. Vamos continuar, Lauren. Até as onze, Hiro. E, James...

James olhou para ela, com o olhar cansado e abatido.

— Seja forte.

E cada um seguiu seu caminho. James se virou primeiro, mas eu vi Hiro olhando para as costas da doutora, deixando com que eu captasse na sua aura mais desespero e medo.

Aquelas pessoas definitivamente eram estranhas.

Notas finais
Não esqueçam de dizer o que acharam para eu poder melhorar o que for necessário, pessoal! =]