Lauren Page e o Mundo Subterrâneo

5 Capítulo 04: O cara albino de terno reaparece e eu não estou entendendo nada


Notas iniciais
Pega foooogo, cabaréééé

Eu preferi ignorar as maluquices daquele mecânico asiático porque sabia que ia me estressar. Não quero pensar nele. Não quero pensar nas coisas nojentas que ele disse. Isso estressa e estresse dá rugas, mas eu ainda estou fervendo de ódio.

Antes que vocês perguntem "Lauren, como você sabia que gostava de garotas se você esqueceu todo o seu passado? ", eu tenho uma pergunta para vocês: se vocês perdessem a memória, iam ter que lembrar se gostam de homens ou de mulheres? Pois é. Você simplesmente sabe. Não tem a ver com memórias, tem a ver com quem você é e é isso aí. Posso não lembrar quem eu sou, mas sei o que eu sou. Ou quase isso. Ainda estou meio confusa com esse negócio de cura e aura e sei lá mais o quê. E estou confusa por não estar tão confusa quanto deveria estar. Confuso, não?

A verdade é que aquilo que ele falou tinha me feito pensar. Aquelas mãos me tocando... eu não sabia de quem eram, eu não sabia do que eram, mas eu gostava delas e sentia falta, isso é um fato. Mas ainda tinha acordado há pouco tempo numa lixeira e estava recebendo muita informação. Eu corri e corri numa favela e não vi nada estranho demais, tirando os palhaços perseguidores. Eu não faço ideia de que tipo de monstro eles acham que eu vou enfrentar, nem que tipo de doença eles acham que eu vou resolver, e o fato de que todo mundo parece saber disso e eu não está me enchendo o saco. Eu quero, sinceramente, esmurrar alguma coisa e deixar a tensão fluir. E por mais que eu queira negar, me pergunto se essas mãos me ajudavam nisso antes.

A porta do laboratório fez um barulho alto. Na verdade, eram duas portas: uma de algum metal bem denso, seguia por um corredor com uns dois metros de comprimento e dava numa porta de vidro. A doutora digitou algumas coisas, tirou os óculos e uma luzinha saiu da parede e passou pelos seus olhos, e só então a porta de vidro abriu. Me pareceu um pouco exagerado essa segurança toda, e como sou uma pessoa curiosa, não me aguentei e resolvi perguntar.

— Não parece meio exagerado colocarem toda essa segurança no laboratório? Quero dizer, pessoas devem entrar e sair daqui o tempo todo.

— Não — ela respondeu, com a voz fria. — Eu mesma coloquei o sistema de segurança. Só eu entro aqui. E o Hiro, de vez em quando. Os outros cientistas e doutores têm laboratórios próprios e eu fico sozinha nesse. Eles não podem entrar aqui e eu não posso entrar no deles, e só algumas pessoas mais importantes têm permissão para entrar nos dois.

Isso não resolveu a minha curiosidade. Muito pelo contrário: aumentou-a e a fez ficar gigantesca. Minha curiosidade estava parecendo uma bolota roxa gigante com olhos laranja e dentes afiados que estava jantando a Estátua da Liberdade agora. Claro que isso é a representação da minha imaginação, mas eu não consigo ver sentido nessa resposta, então minha curiosidade pode ser representada por algo sem sentido também. Fiquei ainda mais afoita para perguntar, mas captei a aura da doutora.

Era uma aura densa e fria, de solidão, medo e desconfiança. Era incrivelmente densa, era como se aquilo se propagasse para fora do seu corpo e conseguisse me tocar. Eu conseguia sentir a tristeza na minha pele. Sentia a solidão balançando meu cabelo bagunçado. Ela olhou para mim e deu um sorriso doce, e eu subitamente fiquei com vontade de chorar. Por Olorum, como ela conseguia sorrir? Ela não sentia o que eu sentia que ela estava sentindo?

De qualquer forma, caminhamos para o laboratório. Era imenso, branco (para variar), com computadores, microscópios, estantes e máquinas de um lado, e camas, macas, aparelhos e armários do outro. O laboratório era também um mini pronto-socorro ou algo do tipo, mas parecia que não era utilizado há séculos, apesar de estar tudo limpo e nos trinques. Já o lado das estantes e computadores era o oposto: um monte de xícaras espalhadas pela mesa, canetas e cadernos cheios de desenhos e rabiscos empilhados, vários livros abertos com vários adesivos e anotações no chão. Era um caos completo. Descemos os poucos degraus que conectavam a parte hospitalar com a da maluquice e ela puxou uma cadeira para mim.

— Desculpe a bagunça. Eu consigo saber onde está cada coisa, na maioria das vezes. É que arrumar gasta tempo e isso é algo que não temos. Enquanto eu estivesse limpando meu laboratório, pessoas estariam se transformando em terians e morrendo por aí.

Isso explica as olheiras. E a camisa abotoada errada. E o cabelo bagunçado. E a postura ruim. Isso basicamente explicava Miranda Fernandez por completo.

— Mas, sabe, eu meio que me acostumei com a bagunça, com as xícaras e com ter o laboratório só para mim. É silencioso e foi meio assustador, no início. Estar sozinha num lugar sem janelas e tal. Mas agora eu até que gosto.

Barulho de metal abrindo. Passos no pequeno corredor. A porta de vidro abrindo. Passos de novo. Talvez ela tenha exagerado um pouco sobre ficar totalmente sozinha.

— Sabe, doutor, a gente não se fala há um tempão e pensei em dar uma passadinha aqui. Desculpa não aparecer antes, quase não parei nesses últimos dias. Como vai a Mel e...

Era o cara de terno. Os cabelos louro-branco cacheados ficavam cobrindo um pouco dos seus óculos escuros. O terno e a gravata branca continuavam impecáveis, assim como sua camisa de botões preta. Ele era albino, o que deixava ele meio monocromático, já que não havia nada nele que não fosse muito claro ou muito escuro. Ouvi a doutora respirar fundo e a sua aura só gritava "CORRA! ".

Eu levantei da cadeira num pulo enquanto ele olhava de um lado a outro do laboratório, como se tivesse entrado no banheiro feminino em vez do masculino e a ficha não tivesse caído ainda.

— Onde está o doutor Fernandez?

— Afastado — a voz da doutora foi fria, dura e gélida, só não pior do que a sua expressão, com o maxilar enrijecido e quase trincando os dentes.

— Como assim afastado?

Ela suspirou. Eu sentei de novo com a minha perfeita cara lisa, subi os pés, abracei meus joelhos e fiquei assistindo à discussão como se fosse a melhor cena de Maria do Bairro. Eu queria muito que ela tivesse deixado pipoca perdida naquela sala.

— O doutor Fernandez se afastou desse projeto faz meses. Estou aqui no lugar dele, e o próprio doutor me indicou. Estou dando continuidade aos projetos de cura, contenção e controle dos terians e sou um dos chefes da ala de ciência e medicina.

— Eu conheço o Jaime, ele nunca se afastaria. E se ele o fizesse, definitivamente não o faria sem falar comigo. Quem diabos é você, garota?

— Miranda Fernandez. Filha dele.

Puta merda!

Eu encontrei um saquinho de pipoca perdido! Conveniente, não? Ok, não era aquela pipoca boa, era um daqueles salgadinhos topados de corante, mas isso vai ter que servir.

— Não sei quem você é, mas não é filha dele. Eu a conheço. Ela se chama Melissa, e não tem nada, nada a ver com você. Você é uma mentirosa. O que você quer? Ferrar com a esperança da humanidade? Ferrar com a Chave ZerØ?

Chave ZerØ? Sério? que nome tosco.

— Eu venho trabalhado exaustivamente há meses! Por que eu iria querer ferrar com isso?

— Talvez você seja uma traidora usando o nome de um grande homem para impulsionar sua carreira idiota! — Ele gritou. Ele tinha ficado realmente puto. E eu achei uma latinha de refrigerante.

— Eu nunca faria isso! — A doutora gritou de volta. O refrigerante era razoável, mas estava meio velho.

— Pelo visto, já se conheceram — quem falou foi um cara loiro, bronzeado, com o cabelo muito curto, que havia acabado de entrar. Ele tinha uma cicatriz no olho esquerdo que ia desde a bochecha até um pouco acima da sobrancelha, mas também tinha um sorriso realmente besta na cara. — E pelo visto, não se deram muito bem. O que está acontecendo aqui?

Os dois abriram a boca para falar, mas o cara loiro não deixou.

— Quer saber? Eu não ligo. Seguinte: temos um terian em Paris. Um dos grandes, chatos e violentos. Doutora, sua ajuda seria bem-vinda como suporte médico.

— Quem mais vai?

— Eu, Blanche aqui — ele apontou para o cara de terno, que continuava com a cara emburrada. — uns oito cadetes, James e Hiro como suporte técnico...

— Eu não vou.

Eu girei minha linda cadeira de rodinhas da direção da doutora. Ela ia se negar a prestar ajuda para quem estava lutando? Uau. Ia pegar mais pipoca, mas acabou e estou realmente chateada com isso.

— Espere, doutora, precisamos...

— Se negando a ajudar, doutora? Achei que tivesse trabalhando exaustivamente por meses. Mas não, você estava batendo papo num laboratório vazio que você sequer arruma para parecer um local de trabalho. Você nos custa dinheiro para não trabalhar, está mentindo, você arrasta o nome de Jaime Fernandez na lama e se nega a nos ajudar numa missão perigosa?

A aura do loirinho estava confusa, porém entretida. A aura do Blanche (acho que era esse o nome) estava profundamente raivosa, furiosa e magoada. É, também fiquei confusa por ela estar magoada. Mas a da doutora parecia despedaçada, triste e com uma vontade imensa de desistir. Mas é claro, ela não fez isso. Louca suicida kamikaze da miséria.

— Blanche, pare. Doutora, eu...

— Marco. Fora. Você, fora. Os dois, fora. Eu preciso trabalhar exaustivamente sozinha aqui. E você, branquelo, nunca mais apareça no meu laboratório.

— Para acabar com as suas férias? Eu vou me responsabilizar pessoalmente pela sua supervisão, doutorazinha.

— Saia. Eu não vou falar de novo.

— Vem, Blanche, vamos. Já fez demais hoje.

Marco puxou o albino pelo braço e o levou para fora rapidamente. Senti a aura da doutora queimando um fogo de raiva e fúria, e depois apagando num monte de tristeza e desespero controlado. Me pergunto como ela vai se sentir quando descobrir que eu escapuli de fininho da sala e que estou seguindo Marco e Blanche para fora desse lugar estranho. Me sinto um pouco culpada, mas eu preciso descobrir onde estou e quem sãos essas pessoas. Quem são de verdade.

Notas finais
Não esqueçam de deixar o feedback, galera! /o/