Notas iniciais
Não importava o quanto ela quisesse ser diferente, antes de ser Laura, ela era X-23. NO BANNER: (da esquerda para direita) Bobby, Rictor, Laura e Delilah.

Ourbacksagainstthe wall,

we’resurroundedandafraid

Ourlivesnow in thehands,

ofthesoldierstakingaim

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— Você não é muito de falar, certo? – Charles perguntou, segurando sua mão.

Logo após ter se banhado, Laura havia recebido roupas novas de presente; um macacão azul, uma camiseta preta e sapatos novos. Ela havia gostado – o símbolo dos X-men estava na camiseta! –, mas além de “Obrigada, vovô”, nada mais saiu de sua boca.

Em sua defesa, a culpa era dos corredores clínicos; seu subconsciente tinha sensações marcadas a ferro e se sentir relaxada era difícil.

— Fui ensinada a ficar quieta.

Ensinada era modo de dizer, e seu avô parecia perceber isso pois seu rosto se contorceu.

— Não precisa mais.

— Eu sei, você me disse isso antes... na minha realidade, quer dizer. Você estava sempre na minha cabeça porque seu espanhol era ruim... chegava a ser engraçado.

— Te garanto que continua ruim.

— Eu sei.

Ele a guiou até um elevador circular, que a levou para cima.

— Sabe, você vai ter sua própria cama aqui, pode decorar com a cor que quiser.

— Humm... – Laura pensou, nada branco ou cinza, e com certeza nada vermelho. — Eu quero rosa.

As portas do elevador se abriram e... uau. Laura tentou não surtar com o fato de que a famosa Mansão X de seus quadrinhos estava materializada ao seu redor.

— Cadê todo mundo? – ela estranhou, deveria ser uma escola certo?

— Hoje é sábado. Minha irmã Raven levou os alunos para acampar.

— Você tem uma irmã?!

— Oh... meu outro eu não te contou isso?

— Professor! – uma mulher de cabelos brancos se aproximou de repente, fazendo Laura se encolher – Professor, eles já- Espera, essa não é a garota que-

— Sim, essa é a Laura, e... ela tem uma regeneração impressionante.

— Ah, isso explica. Olá querida, meu nome é Ororo.

Ela apenas a encarou de volta, em silêncio; diante de sua reação, Charles continuou antes que o clima ficasse desconfortável:

— Enfim, Raven não é exatamente minha irmã, mas isso não vem ao caso, estou ansioso para você conhece-la. Ororo, o que você ia me dizer?

— Ah, é que as mais novas estavam muito cansadas então eu já as levei para os quartos.

— Oh?

— Sim, a senhora Siryn está com elas. O resto do grupo ainda está na cozinha.

— Certo... será que deveríamos esperar por ela?

Laura rolou os olhos, tocando a mão do telepata. Respondemos por nós mesmos, pensou.

Charles sorriu, curioso.

— Muito bem, então. Ororo, vamos esperar o resto da equipe aqui.

— Certo.

— Laura, pode ir na frente. Seus amigos estão no fim do corredor.

A garota apertou os olhos, hesitante.

— Tudo bem, logo estarei lá com você. – Charles prometeu.

Não vai acontecer nada sua idiota... ela se assegurou respirando fundo, começando a se afastar. Conseguia ouvir o sotaque mexicano ecoar pela cozinha, junto do som dos talheres e os suspiros cansados, porém-

Antes de entrar, ela virou, só para ter certeza. Charles e Ororo estavam conversando em tom baixo, ignorantes a sua hesitação.

Ainda bem, ela pensou envergonhada.

Laura não sabia se ele já a esperava, ou se simplesmente estava sendo Rictor— se é que se podia usar o nome dele como um verbo–, mas o garoto foi o primeiro a vê-la, com alívio estampado no rosto, atravessando a cozinha rapidamente.

— Estás bien?! — ele a abraçou. – Você me deu um susto daqueles.

Laura sorriu abertamente, sussurrando como um segredo:

— Rictor... eu o achei.

Ele piscou.

— Achei o meu pai.

— É, nós... Nós o vimos também.

— Laura! – Delilah a segurou pelos ombros, tirando sua atenção do garoto. –Ficamos preocupados.

— Ela ficou, eu sabia que você ia ficar bem. – Tomás corrigiu e Delilah deu-lhe a língua.

— Que roupa é essa? — Rictor perguntou.

— Presente. Acho que todos vamos receber.

— Novinha em folha, uh? X-23.— Jonah disse.

— Deixaram algo pra mim? ‘Tô com fome.

Gideon segurou sua mão e a levou até a mesa. Laura ignorou o prato, comendo direto da panela, escolhendo uma colher grande demais para sua mão.

Quando a mistura de arroz e frango estava quase no fim, ela contou aos amigos:

— Charles disse que há quartos pra nós.

Houve um instante de silêncio e Rictor pensou alto:

— Então vamos ficar aqui mesmo, não é...

— Pra onde mais iríamos?

Ele não respondeu e Laura franziu o cenho, o que estava acontecendo?

A garota olhou ao redor, sentindo que além da falta de Siryn, Megan, Wanda, Ariel e Charlotte, seus amigos não mais conversavam como ela achou ter ouvido antes.

— Por que eu sinto o clima tenso? — ela perguntou, lançando um olhar questionador para Rictor.

Pareceu uma eternidade até ele finalmente revelar:

— Pegaram sua mochila.

— Quem?

Seu amigo ergueu as sobrancelhas como se dissesse: quem você acha?

Mas o que- Laura arregalou os olhos e se ergueu, deixando a comida pra trás.

— Eu sabia! GIDEON, EU FALEI PRA VOCÊ!

— A culpa não é minha! Pierce apareceu, lembra? — o garoto se defendeu e Laura grunhiu, droga! ele estava certo...

— Calma, os arquivos estão com a gente. — Rictor voltou a dizer. — Bom... quase todos. Erik lutou contra eles e recuperou a maioria.

— Um espetáculo que eu devia ter visto. — Lance reclamou e Jamaica revidou irritada:

— Ele deveria ter recuperado todos. O Magneto dos quadrinhos nunca teria permitido um ataque desses, ele teria esfolado aqueles mercenários vivos!

— Garota, acorda. Isso é vida real.

— Aaaaaarg! Droga de vida real!

Laura apertou os olhos, claramente o arquivo de sua amiga havia sido levado.

— O vacilão perdeu o meu também. – Jonah cruzou os braços, decepcionado.

— E o meu. – Bobby comentou em tom mais fragilizado.

— Além é claro, das imagens do ataque que o Lance causou. — Joey falou.

— Hey! É assim que me agradece?!

— É tão difícil admitir que errou? – Rictor perguntou, mas o jovem apenas rolou os olhos.

— Em defesa do sr. Lehnsherr, eu o vi em ação e acho que ele fez um excelente trabalho. – Gideon falou e Jamaica riu sem humor:

— Excelente trabalho uma ova, el bastardo nunca ha estado en una mesa de operaciones, no voy a volver a unlaboratorio... — a garota seguiu tagarelando em espanhol, ao que Gideon revidou, fazendo Joey e Jonah se juntarem a discussão.

Laura observou o fuzuê começando a ser formado e tampou os ouvidos, sem paciência alguma para discutir. Em segundos, sua língua nativa era gritada a plenos pulmões pelos seus amigos, alguns até mesmo subindo na mesa para, infantilmente, provarem um ponto.

Do outro lado da mesa, Lance gritou:

— EU NÃO SOU OBRIGADO A FALAR ESPANHOL PRA ENTENDER VOCÊS, SEUS PESTES!

Ela fechou os olhos, o estresse começando a se formar em seu peito.

— Mas que algazarra é essa?!

Laura virou, reconhecendo a voz de modo instantâneo. Seu pai estava ao pé da porta, os X-men logo atrás dele com a mesma expressão chocada, Ororo; Jean; Scott; Erik (que como se a situação não pudesse piorar, ainda carregava um sorriso divertido no rosto); e seu avô.

Ai que vergonha, ela abaixou a cabeça enterrando o rosto nos braços.

— Gente! – Siryn exclamou, surgindo entre a equipe. – Eu não acredito! Rictor?!

O garoto se defendeu da maneira mais fácil que podia:

— Foi o Lance, ele começou!

— Lance!

— O QUE?! — Lance se ergueu, indignado. — Esse idiota acha que pode-

— Siryn, ele vai me bater!

— Lance, já chega!

— Mas eu não fiz nada!

— Eu saio por dois minutos e vocês começam a brigar, não conseguem ficar de sangue frio por um momento? — a voz da senhora era cansada e Laura quase teve pena — Não quero saber! Rebecca, querida, desça da mesa por favor.

Laura suspirou, sem se mexer enquanto ouvia o movimento ao redor de si. Siryn se desculpou com Charles, que respondia suavemente com “são só crianças”.

— Viemos apenas fazer algumas perguntas, mas parece que já há uma discussão por aqui.

— Totalmente culpa sua. — Jamaica respondeu Erik, fazendo Rictor suspirar.

— Minha?!

— Jamaica.

— Ué, é verdade!

— Chega. — Rictor sibilou, fazendo-a cruzar os braços emburrada.

— Não, um momento, agora eu quero saber, o que é culpa minha? Não me diga que...

— É, estão chateados com você por causa dos arquivos. — Rictor respondeu.

— Ah, isso de novo... Olha, não é como se fosse o fim do mundo, okay? Os militares tem informações nossas também.

— Isso é diferente.

— Diferente como, Joey?

— Vocês não são experiências, nós sim.

Houve uma pausa e Laura sentiu algo embrulhar no estômago, fazendo-a instantaneamente se arrepender de ter comido tão rápido.

Era agora.

Seu pai ia saber o que ela era agora.

Em sua realidade, ele não havia ficado muito feliz.

Isso não a impediu de ama-lo.

— ‘Tá, eu cheguei um pouco atrasado, podem me explicar? – Logan perguntou.

— Somos de outra realidade, – Siryn falou. – Uma realidade bem parecida com essa, e nela, essas crianças eram experiências. Igual você foi um dia.

Logan franziu o cenho, sem acreditar.

— Como sabe disso?

— Na nossa realidade, muitos conheciam a história do Wolverine.

— É, mas esse não é o ponto. – a equipe voltou a atenção para Rictor. – Trouxemos arquivos com a gente, com informações nossas... e agora três desses arquivos estão nas mãos dos militares.

— Se esses arquivos colocavam vocês em perigo, por que não os destruiu? — Logan indagou e Rictor riu.

— Achei que de todas as pessoas, você fosse entender. Os arquivos não colocam nósem perigo, colocam eles. O que está escrito ali, não serve para nos lembrar quem somos, serve para nos lembrar quem não devemos ser. — ele entregou os arquivos restantes a Charles, que os passou entre a equipe. Erik recusou ler de novo, preferindo ficar no canto da cozinha, quieto.

Logan desviou o olhar, focando-se em Laura. Ele tinha o arquivo dela nas mãos.

Agora ele sabia quem ela era;o que ela era.

Não seja o que fizeram de você, a voz dele ainda ecoava em sua memória, mesmo depois de tudo.

— Erik falou que os mutantes não existiam mais na sua realidade, que conseguiram suprimir o gene X. — Charles ergueu os olhos e Rictor assentiu. — Por que esse Alkali-Transigen criou vocês?

— Queriam nos transformar em armas, mas não deu muito certo. A gente lutava contra eles. Todos os dias. Quando viram que não podiam mais nos controlar... resolveram nos matar.

— E o que fizeram? – Jean perguntou, os olhos cheios de lágrimas.

— Fugimos.

— Os enfermeiros que cuidavam da gente, —Delilah adicionou, com tristeza. — eles morreram para nos proteger, para nos levar até o Éden.

— Éden?

— É só um nome, um lugar seguro; tiramos dos quadrinhos de vocês. — Rictor explicou.

— Tínhamos quadrinhos? – Logan ergueu a sobrancelha. — Essa história fica cada vez mais louca.

— Foi o que você disse. — Logan o encarou e Rictor riu. — É, conhecemos você.

— Eles te enterraram também. — Lance adicionou.

Há esse ponto, Laura nem prestava mais atenção na conversa. As memórias a engolindo, a sufocando. Perder Gabriela havia doído, Charles também, mas Logan? Há.

Lembrava-se de suas mãos acariciando os cabelos dele, enquanto ele dormia com a cabeça em seu colo; lembrava-se de suas mãos o segurando enquanto ele dava seu último suspiro; e lembrava-se daquelas mesmas mãos empilhando as pedras sobre seu corpo, girando a cruz para formar um X.

— Como chegaram aqui?

Laura ergueu os olhos. Cheguei aqui graças a você, sobrevivi porque te inventei na minha cabeça, você me ajudou a levantar mesmo com palavras duras, mesmo sem ser real...

Ela abriu a boca para responder-

— Tão curioso você, hein. Nós também estamos, diz aí, como nos encontraram? – Lance se intrometeu.

— Nosso amigo Hank McCoy detectou essa energia, achamos que fosse um mutante, mas... Eu senti vocês. — Jean revelou.

— Sentiu a gente? — Siryn franziu o cenho.

— Foi quase como um sonho...

— Que curioso.

— Pra mim é ridículo. — Lance soltou. — Você sonha? Quer dizer...

Ele riu sem graça ao notar que todos o encaravam sérios, Laura inclusa.

— Não deem atenção ao que ele diz. — Rictor suspirou. — Aí você sentiu a gente e mandou o Erik vir atrás de nós?

— Basicamente, é. A energia foi detectada por todo tipo de satélite, os militares não iriam deixar um mutante tão poderoso a solta assim.

— Me surpreenderia se eles deixassem.

— Sim, você tem razão. – Lance falou mais uma vez. – Eu sou bem poderoso. Causei uma avalanche enorme quando eles nos encontraram pela primeira vez, e vou ser bem sincero, se não fosse por mim, nem sei como esses pirralhos teriam-

Chega. Laura pensou, e antes que pudesse se controlar,

— Se você não calar a boca agora, eu vou enfiar as minhas garras no seu crânio.

As palavras escaparam de seus lábios.

O silêncio que se seguiu poderia ter sido cômico – os olhos de Lance se arregalando enquanto ele abria os braços, quase que ofendido; o sorriso de Jamaica surgindo pela primeira vez desde que se reencontraram; Jonah parando subitamente de encher seu copo d’água –, mas a dúvida entre o grupo de heróis era séria. Laura sentia os olhares sobre si e não pode deixar de culpar-se, principalmente sabendo que um dos olhares incertos era de seu pai.

Não seja o que fizeram de você.

Quer dizer, ela ficou mesmo apenas os observando durante todo aquele tempo? E a primeira coisa que saía de sua boca era uma ameaça?

Colocando a mão em seu ombro, Rictor forçou uma risada:

— Relaxa, gente. A Laura é brincalhona assim mesmo.

Erik foi o primeiro a acompanhar – apesar de que ele realmente parecia ter achado engraçado–, sendo seguido por Jean, que contornou o momento perguntando:

— Então vocês viviam fugindo? Foi assim que vieram pra cá?

— Naaah, achamos um acampamento perto da fronteira do Canadá. Grace e Erik, eles eram os pais da Megan, eles nos aceitaram bem. Era aonde a Siryn vivia, – Rictor apontou com o queixo. – Era muito bom.

As crianças assentiram, nostálgicas.

— É... era bom mesmo. – Tomás suspirou. – Aí os militares nos acharam e...

— É, não vamos entrar em detalhes. — Rictor fez careta, recusando-se a tocar no assunto traição-bem-debaixo-do-nosso-nariz. — Fugimos de novo. Foi quando viemos pra cá.

Os X-men assentiram, acompanhando a história com atenção.

— Como exatamente chegaram aqui? — Scott falou pela primeira vez.

— Eu não entendo muito disso, mas... pra chegar nessa realidade, a gente uniu três poderes ao mesmo tempo. – Siryn explicou. – A Grace, ela... Ela conseguia enxergar através do tecido da realidade, passados diferentes; futuros diferentes; muitas Terras; muitas versões de cada um de nós... mas não podia atravessa-lo, não havia como.

O líder dos X-men franziu o cenho, trocando um breve olhar com Jean, ambos pensando o mesmo; era como os sonhos que ela costumava ter.

— Até a chegada dos irmãos Maximoff.

— Maximoff? – Scott indagou.

— Pietro e Wanda. A Grace viu na Wanda uma oportunidade, mas... Ela nunca ia forçar nada para uma criança, principalmente com todos aqueles riscos.

— Espera, o que? – Erik interrompeu. – O que você está falando?

Siryn apertou os lábios, lembrando-se que não mencionou ao homem aquele fato.

— A Wanda pode alterar a realidade, ela que abriu a passagem pra cá.

— Isso é uma demonstração e tanto de poder. – Charles falou admirado. – Quantos anos ela tem? Oito? É... quase impossível.

— Por isso eu tive que ajudar. – Rebecca falou timidamente. – Eu fiz a Wanda conseguir usar o máximo do poder dela.

— Como conseguiu?

— Eu não sei, mas... as vezes quando eu peço para as pessoas fazerem algo... elas fazem. Eu não sei controlar muito bem.

— Interessante. Essas influências atingem não apenas as ações, mas os poderes dos mutantes também...

Erik encarou o amigo, preocupado:

— Você acha que ela potencializou o poder da Wanda?

— É possível, mas a pergunta é: é permanente?

— Por que estão tão preocupados? Isso é bom. – diante do olhar deles, Lance explicou-se: – Ela vai ter mais chances contra os Carniceiros quando vierem atrás dela.

— Não vão vir atrás de ninguém! – Erik falou entredentes.

— Eles não sabem sobre ela. – Siryn concordou.

— Calma gente, ele até que ‘tá certo. – Jamaica deu de ombros. – E não é como se ela tivesse que matá-los sozinha.

A equipe X-men parou, se entreolhando sem entender.

— Matá-los? – Scott ergueu a sobrancelha.

— Relaxa, já lidamos com eles antes. – Delilah deu de ombros.

— Sim, mas... – Tempestade sorriu, cautelosa. – Não precisam.

Laura franziu o cenho, sentindo como se estivesse perdendo algo. Fitou Gideon de modo questionador e o amigo tinha a mesma expressão no rosto, ambos confusos.

— Não precisam? — Delilah repetiu, refletindo o pensamento dos amigos.

— É, quer dizer, nós lutamos contra os Carniceiros há algum tempo, os mantemos longe-

— Sim, mas eles continuam, não continuam?

— ...o que procuramos fazer é salvar os mutantes deles.

— Os Carniceiros são perigosos! — Delilah exclamou, como se quisesse encerrar a discussão.

— Esse não é o ponto, querida.

— Então qual é?!

Laura desviou o olhar para Erik, que havia achado um repentino interesse no chão. Será que ele havia previsto aquela conversa?

— O que Tempestade quer dizer, é que procuramos não matar ninguém. – Charles disse. – Eles são assassinos, podemos nos mostrar melhores que eles.

— Por deixar eles soltos? — Delilah continuou a rebater.

— Por deixar que as autoridades humanas cuidem deles. Eu sei que é uma coisa complicada-

— Eu não sou burra!

— Eu não disse isso. — o telepata continuava calmo. — Mas se atacamos para ferir, estaremos atacando como mutantes. E tudo que a sociedade precisa é de uma faísca. Há tanto a ser perdido, minha querida, eu sei que entende disso.

A garota se calou, trocando olhares com os amigos. Realmente, eles sabiam bem o que era perder.

Mas ainda eram os Carniceiros... eles continuavam sendo a mesma equipe que os continha com socos e torturas, sem piedade alguma quando choravam ou imploravam que parassem. A palavra prisão parecia... pouco.

— Então, vocês vão nos manter escondidos. — Rictor desvendou.

— A salvo. — Charles garantiu. — Aqui no Instituto vocês poderão ter uma vida normal, estar numa sala de aula, brincar, vocês são crianças. Merecem isso. E um dia, quando estiverem maiores, podem escolher se vão ficar ou ir embora.

Laura franziu o cenho, quase sorrindo. Era isso que ela queria. Promessas não ditas de uma vida que nunca aconteceu com seu pai, uma vida que agora ela poderia recomeçar.

— Parece um bom plano. — Bobby expressou seus pensamentos.

E por um instante, tudo pareceu estar certo.

Mas então Rictor abriu a boca:

— Seria perfeito, se eles não fossem nos achar.

Em defesa dele, Laura poderia dizer que a presença de Lance estava afetando seus neurônios.

— Eles não vão, não tem nossa localização. — Charles voltou a garantir.

— Eu acho que já ouvi isso em algum lugar. – Jonah murmurou irônico, e Scott falou:

— A mansão é bem protegida, não vamos deixar nada acontecer com vocês.

— E você diz isso por...?

— Porque somos X-men.

Rictor soltou uma risada irônica.

— É quadrinhos demais pra mim.

— Rictor. — Siryn chamou em tom de alerta. — Chega.

— Não, não, você não tem se intrometer nisso, foi você mesma que me aconselhou a vê-los como pessoas e é isso que estou fazendo.

Laura arregalou os olhos, sentindo-se suar frio. O que raios seu amigo estava dizendo?

— A gente foi rato de laboratório por anos, todos os dias eles nos derrubavam e todos os dias a gente se levantava até conseguir, finalmente!, fugir daquele lugar; e então achamos um acampamento no meio do nada e ficamos lá por três meses; eu não vou nem entrar em detalhes sobre a nossa saúde mental, porque cada um lida com o trauma de um jeito, né? Professor, sem ofensas, quer nos colocar na sua escola para nos proteger, nós, que não temos qualquer habilidade social. Nós, que fomos criados para atacar. Me diz, vai nos colocar junto dos seus alunos antes ou depois que a gente perder o controle?

— Guri, reconheço um animal quando vejo um. — Logan deu um passo à frente. — Vocês têm problemas, mas não são animais.

— Logan, com todo respeito que eu tenho por este rosto, – Rictor não se intimidou. – mas você não nos conhece ainda.

Erik finalmente se aproximou novamente, tocando no ombro do garoto.

— Rictor, ouça de um cara que já fez coisas horríveis, que já traiu os amigos mais vezes que poderia contar, um supervilão de verdade: eu. – Erik falou. – Vocês não estão além da salvação. Vocês são crianças e o que quer que forem passar, nós vamos dar um jeito nisso.

— Crianças? Você sabe que a gente pode fazer coisas horríveis, mas sabe o que é pior? É que a gente vai fazer.

O ar pesou. Laura olhou ao redor, vendo os amigos acompanharem a discussão em silêncio. Se perguntou se eles também sentiam algo vibrar no peito, uma vontade de se levantar e discordar? Eles eram armas. Laura não queria ser... Isso não a impedia de agir como uma.

Lembrou-se de Logan e o sentimento em seu peito se apertou, forçando-a a ficar sentada.

— Então a única coisa que podemos fazer no momento é, prevenir isso de acontecer. — a voz de Charles quebrou o silêncio.

— O que? — Rictor piscou.

— Você disse que os arquivos servem para lembra-los de quem não ser.

— É, mas-

— Não controla seus poderes, eu sei. Todos nós já cometemos erros e aprendemos com eles, vocês também podem. Vamos ajuda-lo a controlar, porque é isso que fazemos. Foram criados para serem armas? Entendemos, mas vamos mostrar que ainda podem ser crianças. Vocês ainda têm tempo.

— Como pode ter tanta certeza disso?

— É o meu dom mais poderoso. Esperança.

A equipe assentiu, Erik incluso, e... seu pai também.

Laura abaixou a cabeça, sentindo-se lacrimejar por alguma razão. Percebeu que o sentimento em seu peito havia se transformado para a mesma coisa que havia sentido quando abraçou seu pai pela primeira vez. Era triste e feliz; tragicamente bonito; e agora ela sabia o que era.

Esperança.

Ela fechou os olhos, e sentiu.

Jean falou algo sobre todos estarem cansados e que deveriam ir conhecer seus novos quartos, ao que Siryn os animou com “só há uma cama do lado da janela, quem será o sortudo?”

Bobby foi o primeiro a se erguer, gordinho, Lance se xingou arrependido por tê-lo subestimado; ele corria bastante! Jonah e Tomás gargalhavam apostando corrida com as garotas.

Charles chamou Scott para conversar e Ororo os acompanhou.

Enquanto a cozinha esvaziava, o olhar de Laura se encontrou com o de Rictor. Como ela, ele não se importava com escolhas de cama, preferindo ficar para trás.

Ele a fitou com um olhar questionador.

O que foi? Ela desafiou arqueando a sobrancelha.

Ele apenas apertou os olhos com um sorriso cínico, balançando a cabeça enquanto saía.

— Vocês precisam parar com isso, é sério. — Erik falou, tendo observado a conversa silenciosa dos dois. — É assustador.

Laura rolou os olhos, levantando-se para segui-lo, quando-

— E você?

Logan perguntou.

A garota prendeu a respiração, se virando lentamente. Apenas os dois estavam na cozinha agora, e ele lhe falava diretamente.

— Quer matá-los também?

Os Carniceiros? Os militares? Todos que ela via como ameaça? Não era uma pergunta justa, mas Laura entendia o que ele queria dizer, e tal entendimento era sufocante.

Ódio era uma coisa engraçada. Quanto mais tempo você se dedica a odiar, mais seu ódio é intenso, mais ele te faz atacar... e menor é a razão para todo aquele sentimento. Chega o dia em que você esquece o porquê.

Não seja o que fizeram de você.

Laura se livrou do ódio há muito tempo.

— Não.

Gabriela; Xavier; Caliban; A família Munson; Logan; Pietro; Julie; Jackson; Stephen; April;Mira; Erik; Grace... ela lembrava deles.

Ela lembrava de todos eles.

Sinto muito, papai.

— Mas se eu os ver, eu vou.

•

Sowefoundourwayback home,

let ourcutsandbruisesheal

While a brand—new warbegan,

onethat no oneelsecouldfeel

Notas finais
If you wanna go, then I'd be so lonely, but if you're leaving baby LET ME DOWN SLOWLYYY A vontade de colocar o tema do Xavier "Hope" (de X-men: Dias de um Futuro Esquecido) é grande. Let Me Down Slowly também. Mas nada supera o elefante de ouro, A BANDA SUPREMA, senhoras & senhores, Sleeping At Last. esse capítulo foi TÃO difícil de escrever, eu juro. ainda não estou feliz com ele, mas espero vocês sim :) ♥ Eu sei que o Rictor pode parecer meio trouble-maker aqui, mas lembram da famosa cena da Laura roubando a loja de conveniência? Ela quase matou o atendente por literalmente N.A.D.A!??!! Esse comportamento não é só dela, imagina se um estudante tentar dar uma de espertinho pra cima de um deles? Achei muito importante levantar esse ponto pros X-men ficarem espertos, o Rictor sendo o mais velho tem consciência da falta de controle, essas crianças são nível LOGAN de violência rapaz, não vem com papinho de X-MEN ORIGINS WOLVERINE aqui não, tá doido KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK Não tenho data prevista pro próximo capítulo, mas não se preocupem, ainda estarei aqui. Qualquer coisa podem enviar mensagem, eu amo responder vocês :D Obrigada a todos os leitores fantasmas, eu vejo vocês *o* Boa semana para todos!! Playlist de LAURA: https://www.youtube.com/playlist?list=PLRDqKW8M7-nFVTTtn4E-vvVPq4dypbePZ