Laura
1 Superstar
Notas iniciais
O barulho de seus enormes saltos ecoava no grande corredor. O sorriso, capaz de clarear um quarto escuro, estava escondido nesse mesmo lugar. O cabelo, sempre impecável, se encontrava completamente selvagem. Mas não tão selvagem quanto seus olhos, que refletiam a dor da perfeição. Ela havia se tornado um tornado um quarto escuro, apesar de tudo.
Laura, do latim laurus que significa "loureiro, louro". Na Antiguidade, o loureiro simbolizava a vitória e a imortalidade. Na Grécia, era ofertado ao Deus Apolo e com suas folhas eram elaboradas coroas, utilizadas como prêmio para atletas, heróis, gênios e sábios. Quem dava o nome Laura tinha a intenção de lhe atribuir o significado de "vitoriosa", "triunfante".
Um nome escolhido a dedo para uma pessoa moldada pelas mais delicadas mãos. Laura sempre fez jus ao nome, sendo a melhor da escola, das aulas de piano, das aulas de francês e, principalmente, das aulas de ballet. Ah, Laura era como um anjo. Seus braços viram gloriosas asas quando ela dança. Seus olhos são capazes de lhe sugar como enormes buracos negros, com um tom de azul semelhante ao céu na primavera. Seu corpo alto e magro e seu rosto assimétrico eram tão lindos quanto qualquer obra de arte Renascentista. Tudo se ilumina, apesar, no final. O tão esperado final, onde a garota voltava ao mundo real e sorria tão largamente, quase rasgando o rosto, enquanto fazia seu último passo.
No entanto, ela não vivia somente nos palcos. O som de seus saltos logo foi abafado pela música eletrônica que ecoava pelo local. Finalmente, pensou ela. Seguiu para o bar, onde foi prontamente atendida, indo para seu lugar de sempre. A garota sentou-se em um dos sofás ao canto da boate que frequentava há cerca de dois anos, tomando um gole de sua bebida enquanto escolhia sua próxima vítima. Ou o próximo trilho pelo qual passaria, como dizia sua mãe. Laura é um trem vagando por um longo trilho, colidindo e destruindo corações para que o seu, um dia, entrasse nos eixos. Sempre fora uma canção solitária tentando encontrar sua dança condizente.
“- Laura, você precisa terminar com esse garoto! – Ordenou a mãe, aumentando o tom de voz repentinamente. A garota, aos 16 anos, vivia seu primeiro amor. Ele era perfeito, ao seu ver, mas sua mãe não permitiria a filha de ser tão burra e inconsequente (como a velha mulher fora).
— M-mas eu o amo – Retrucou a bela garota. Mal sabia ela o significado de amor, pensara a mulher.
— Você não percebe todas as oportunidades que tem, minha amada filha? Tudo que está desperdiçando ao querer seguir em frente com esta bobagem?
— A senhora não entende, ele também me ama e-
Laura se espantou ao sentir os braços finos de sua mãe a apertarem. Aqueles mesmos braços que corrigiam sua postura no Grand Battement todos os dias; aqueles mesmos braços que penteavam seu cabelo meticulosamente, como se fossem fios de ouro; aqueles mesmos braços em que fora jogada com apenas um ano de vida.
— Meu belo anjo, tu és a luz na escuridão. Tu és minha luz, Laura. Tu és mais do que uma grande estrela. O mundo é um show de horrores, não se esqueça. Tu és mais do que uma grande estrela – Disse a mulher, derramando lágrimas ensaiadas, conseguindo por fim convencer sua venerada filha.”
Sua mãe teria vergonha se a visse neste lugar, mas não é como se ela tivesse outro melhor para ir. Ainda bem que estavam a horas de distância uma da outra, pensou a garota. Decidiu ir até a pista de dança, onde, mesmo com o ritmo tão diferente do qual ela estava habituada, dançou graciosamente. Nuvens sentem inveja da leveza da garota, do quão alto ela flutua. Mal sabiam que Laura era uma carregada nuvem prestes a desaguar.
Sentia diversos olhares sobre si, mas já estava acostumada. Ela era tão brilhante quanto o Sol, tão hipnotizante quanto um relógio de bolso. De repente, foi interrompida pelo seu telefone vibrando. Ao olhar o visor, se assustou ao ver a foto de sua mãe. Tratou de correr para o banheiro, onde poderia atender a inesperada ligação. Não deveria, em hipótese alguma, sair à noite um dia antes de sua grande apresentação.
— Pensei que tinha se esquecido desta velha mulher, meu anjo – Laura sentiu um frio na espinha ouvir seu antigo apelido.
— Olá, mãe. Aconteceu alguma coisa?
— Não, meu anjo. Na verdade, acabei de lembrar de uma situação muito inusitada – a mulher soltou um risinho, para enfim continuar – Seu antigo namorado, aquele loirinho, me perguntou de você. Seu nome parece estar tatuado no coração desses pobres meninos.
— A senhora fez alguma coisa com ele, não fez? – perguntou, preocupada. Laura sabia do que a mãe era capaz de fazer com aqueles que, um dia, quiseram cobrir sua luz.
— Claro que não, meu anjo. Você me deixa triste ao achar que sou tão baixa. Apenas liguei para confirmar se estava seguindo as ordens que lhe dei. Eu nunca a deixaria sozinha neste show de horrores para qual decidiu fugir.
Todos os lugares do mundo, exceto dentro dos braços finos de sua mãe, eram um show de horrores. Mas para a garota, sempre foi o contrário.
— Eu estou seguindo-as à risca, mamãe. Preciso desligar, já está tarde.
— Está bem, meu anjo. Assistirei a sua apresentação, não me envergonhe, Laura – falou seriamente, desligando em seguida. A garota, por um momento, esqueceu de respirar. Odiava essa sensação, esse poder que a mulher tinha de a desarmar completamente.
Escorou-se na pia, erguendo o rosto, e encarou sua imagem no grande espelho sujo e riscado. Nunca seria boa o bastante, forte o bastante ou poderosa o bastante quando se tratava de sua mãe.
Laura voltou ao bar, largando seu telefone em um canto qualquer da boate e seguindo em direção ao centro da pista com seu copo de vodca na mão. Ela sempre esteve no centro, seja dos palcos, das pistas ou do mundo em que sua mãe fantasiara. No fundo, ela sempre quis ficar no canto escuro, onde as luzes não a alcançariam e os olhares não seriam tão acusadores.
Quanto mais bebia, mais sentia que estava acordando de um sonho ruim. Dançou sobre mesas, chorou, beijou tantas pessoas que perdeu a conta. Laura não se apresentou no dia seguinte, causando espanto aos diretores e professores da academia de dança. Laura não atendeu ligações. Laura decidiu acordar do pálido e triste sonho em que vivia.
Ela sempre será mais famosa que todos, por mais tempo que todos. Ela sempre será a luz na escuridão. Ela sempre estará eternizada no coração daqueles que tiveram o prazer de serem seus trilhos. Ela encontrou a dança perfeita para sua canção solitária.
Laura, meu anjo, você é mais do que uma grande estrela.
When you smile is so wide
And your heels are so high
You can't cry
Get your glad rags on
And let's sing along
To that lonely song
You're the train that crashed my heart
You're the glitter in the dark
Uh, Laura, you're more than a superstar
And in this horror show
I've got to tell you so
Uh, Laura, you're more than a superstar
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