Lauderdale

10 Capítulo 9: O lugar seguro e perfeito


O sol já estava se pondo quando Claire seguiu Afrodite floresta adentro. Ela nunca imaginou que algum dia deixaria o calor das praias de Los Angeles por árvores altas e a terra úmida da Carolina do Norte, que faria um acordo com uma bruxa da corte das fadas – elas realmente existiam e ela própria era uma bruxa, apesar de ainda não ter usado sua magia e sequer saber como fazer isso – ou, que chegaria a esquecer por algumas horas a falta de seus pais e principalmente de Davina.

A chuva havia parado, mas a grama ainda estava molhava e escorregadia. Afrodite não parecia estar incomodada com aquilo e nem mesmo escorregava vez ou outra como Claire fazia. A Guardiã do Norte conhecia o terreno, ela não. Era ainda mais complicado para a loira devido às roupas um tanto apertadas que vestia. Afrodite era um pouco menor e a garota não podia sair de vestido e salto alto para a floresta.

— Aqui já está bom. – A ruiva falou pela primeira vez depois de três horas em pleno silêncio enquanto caminhavam.

— Porque paramos? – Claire perguntou e instantes depois percebeu o quanto estava cansada.

— Estamos longe o suficiente para ninguém nos ver. – Ela respondeu e arrancou um dos galhos da árvore ao seu lado, transformando em um longo e arredondado bastão de madeira.

— O que está fazendo? – A loira a encarou confusa.

— Cumprindo minha parte do acordo e não posso arriscar que alguém da corte me veja passando os ensinamentos para você. – Afrodite disse e olhou da garota para a mesma árvore. – Sua vez.

— Mas, eu não sei como...

— É magia Claire. Está dentro de você. – A ruiva retrucou um tanto impaciente.

A loira cruzou os braços e a olhou com as sobrancelhas arqueadas, deixando claro que não seguiria sua ordem e não, por que não queria, mas sim, por que não sabia por onde começar a transformar um simples galho em uma arma. A guardiã suspirou e deixou o bastão de lado.

— Talvez, algo mais básico primeiro. – Afrodite concordou e foi para o lado da garota. – Pegue-o. – Claire deu um passo em direção ao objeto e ela a parou com a mão em seu ombro franzindo a testa e negando com a cabeça. – Não assim!

A loira continuava encarando-a, sem saber o fazer. Claire não tinha ideia de como Afrodite esperava que ela pegasse o bastão sem ir até ele. Foi então, que se deu conta. Bruxas não iam até as coisas para pegá-las, elas traziam as coisas até elas. Porém, a garota ainda não entendia como poderia levitar algo se nunca o fizera. Ela observou a ruiva estender a mão a frente do corpo e concentrar o olhar no objeto na grama. Logo, o mesmo subia pelo ar, como se alguém o estivesse erguendo, uma força invisível e mágica. Claire podia sentir o poder fluir de Afrodite e estava praticamente hipnotizada com o que acontecia que chegou a se assustar quando a magia deixou o bastão e o derrubou novamente.

— Agora, feche os olhos e limpe sua mente. – Afrodite falou olhando-a. Com certa hesitação, a garota o fez, respirou profundamente, tentando esquecer tudo ao seu redor e ergueu a mão. – Se concentre, deseje que o bastão venha até você. Tudo é energia e a magia não é diferente.

A voz de Afrodite era simplesmente a mais aveludada e indiferente que Claire já ouvira, mas, foi a única vez que o tom não a incomodou ou a deixou desconfortável. Pelo contrário, lhe deu força. Como se todo o poder e toda a energia que fluía da ruiva, estivesse sendo passadas a ela. Seu braço formigava e ela sentiu o estalo dentro dela. A porta foi aberta e a barreira que bloqueava sua magia fora destruída. A sensação era incrível e a fez sorrir. Se usar seus poderes sempre trouxesse aquele sentimento, Claire nunca mais conseguiria parar com eles. A madeira tocou a palma de sua mão ao mesmo tempo em que seus olhos se abriram.

— Viu? Não é tão difícil. – A guardiã concluiu e voltou a pegar o bastão. – O principio é o mesmo para quase tudo.

— Quase tudo? – Claire questionou e se arrependeu segundos depois.

A ruiva havia passado o bastão pelos pés da garota, derrubando-a de costas no chão. Ao menos, a queda tinha doído um pouco menos, pois a grama era macia. Mesmo com a dor, ela deixou escapar um pequeno riso, nada tiraria os poucos instantes de felicidade causados pela magia. Claire encontrou os olhos acobreados de Afrodite e um sorriso no canto do lábio. Era bom que uma delas estivesse se divertindo.

— É. Quase tudo.

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A primeira coisa que Davina viu ao acordar foi o rosto delicado e os cabelos rosa de Amarantha a observando de cima. Ao se sentar bruscamente, suas cabeças colidiram e a dor a fez levar a mão ao local.

— Ai! – Amarantha reclamou. – Vai com calma!

— Ninguém mandou você ficar me olhando enquanto eu durmo. – Davina retrucou. – Além de ser estranho.

— Desculpa é que... É uma coisa minha. – Ela respondeu e sorriu dando de ombros. – Esquece. Katherine trouxe você para cá e disse que tinha desmaiado. Acho que somos colegas de quarto agora. – Continuou e foi em direção do guarda-roupa.

Eu estou bem, obrigada! Davina pensou e se sentou com o corpo reclamando. Sua cabeça doía e ela sabia que a causa disso fora a invasão da tia. Magia. A ideia era interessante, mas completamente nova e desconhecida para ela. As pessoas geralmente não gostam do desconhecido e ela também não.

O quarto era quadrado, com duas camas, um guarda-roupa, uma lareira que estava acesa, um espelho de chão e uma segunda porta que levava ao banheiro, ela imaginou. Era tudo muito branco e as únicas cores que se destacavam eram os lençóis e o cabelo em tom pastel de Amarantha. As coisas aconteceram rápido demais e Davina percebeu somente naquela hora que não havia reparado bem nos seus amigos antes, ou, teria notado os fios rosados e compridos da colega de quarto que remexia suas roupas penduradas em cabides de veludo rosa.

— Vamos ver o que eu posso fazer por você. – Amarantha disse procurando algo nas roupas. Davina reconheceu algumas delas, as suas também estavam ali e ela não queria nem pensar em como.

— O que? – A garota perguntou ainda sonolenta. Um leve atordoamento tomou conta dela e precisou esperar algum tempo para se levantar.

— Aqui! Vista isso! – Falou Amarantha jogando um par de calças pretas e uma regata da mesma cor.

— Posso perguntar? – Davina arqueou as sobrancelhas e sacudiu as roupas.

— Quero veja algo hoje à noite. O resto do pessoal também vai estar lá, não se preocupe. – Ela respondeu. – Além disso, tem alguém lá fora querendo ver você. – Amarantha respondeu

Com certa lentidão, Davina se levantou da cama e seus pés tocaram o carpete branco e macio do chão do quarto e ela se dirigiu ao banheiro, vestindo as roupas que Amarantha tinha dado a ela. A garota nunca se sentiu tão apertada em uma regata.

— Eu não vou usar isso! Está apertado! – Davina reclamou voltando ao quarto e antes que pudesse protestar, Amarantha começou a prender os longos fios escuros de seu cabelo e amarrá-los com um elástico.

— Pare de reclamar, está perfeito! – Amarantha concluiu e sorriu para a garota pelo espelho. – Agora vamos, estamos atrasadas!

Davina não fazia ideia do que estava acontecendo, como sempre. Apenas, seguiu a amiga até a porta. Kyle sorriu ao vê-las.

— Não vai bater a porta na minha cara de novo, não é? – Ele perguntou e Amarantha revirou os olhos.

— Eu não bati a porta na sua cara, eu só a fechei com pressa. – Ela respondeu dando de ombros.

— Alguém me explica o que está acontecendo? – Davina pediu cruzando os braços sobre o colo.

— O que acha de dar uma volta? – Kyle perguntou ignorando a outra e sorrindo para Davina.

— A última vez que dei uma volta com você eu acabei de castigo e depois eu descobri que eu sou uma bruxa. – Davina respondeu e em seguida se calou. Ela não sabia que poderia dizer certas coisas, apesar de já ter dito e ser tarde demais para voltar atrás. Porém, tanto Kyle quanto sua colega de quarto não pareciam chocados ou achando que ela estava louca. – Espere... Por que eu sinto que vocês já sabiam disso? – Questionou cruzando os braços e franzindo a testa. – Não vão tentar negar?

— Eu nunca disse que não sabia! – O garoto respondeu dando de ombros.

— Além do mais, você nunca perguntou! – Foi a vez de Amarantha.

— Claro que não! Não é normal as pessoas saírem por ai perguntando se são bruxas ou se tem poderes mágicos! – Ela retrucou.

— Então? Você vem ou não? – Kyle insistiu.

— Vou me arrepender? – Ela perguntou suspirando mesmo já sabendo a resposta. Provavelmente, não era uma boa ideia sair à noite com qualquer um por um lugar novo. Os conhecimentos de Davina sobre Lauderdale ainda eram mínimos, mesmo depois do pequeno tour naquela manhã e de certa forma, sua cabeça doía e seu corpo precisava descansar. Contudo, a curiosidade a convenceu. – Está bem! — Davina revirou os olhos e fechou a porta atrás de si.

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Os corredores estavam vazios e a maioria das luzes apagadas, já que todos estavam – ou deveriam estar – dormindo. Eles estavam andando lentamente, como se não houvesse a possibilidade de serem pegos depois do toque de recolher. Kyle explicou que depois das dez, todos deveriam estar em seus devidos quartos, mas, alguns davam um jeito de escapar ou passarem despercebidos pelos olhos de Katherine.

— Para onde exatamente estão me levando? – Davina perguntou enquanto atravessavam o corredor de arcos que levava ao refeitório. Os arcos deixavam a vista uma parte do campus que a garota ainda não tivera a oportunidade de conhecer, uma enorme área com um grupo consideravelmente grande. Todos com roupas justas e pretas iguais as dela, descalços e os cabelos amarrados.

— Agora que sabe o que realmente é... – Kyle a olhou com um sorriso maroto.

— Vamos descobrir do que é capaz. – Amarantha finalizou sorrindo da mesma forma e antes que Davina pudesse se pronunciar de alguma forma, um homem muito alto, negro e cheio de músculos se aproximou deles. A garota não se lembrava de ver um homem tão forte e de certa forma, bonito como aquele antes. Deveria ter a mesma idade que seu pai – mesmo sendo completamente diferente em aparência — e a pequena recordação fez seu coração se encolher.

Kyle o chamou de treinador segundos depois enquanto trocavam cumprimentos. Suas vestes eram parecidas e o homem segurava uma prancheta com uma caneta nas mãos, os cabelos escuros foram cortados recentemente e o sorriso branco refletia a luz da lua.

— Você deve ser Davina, não é? – O treinador estendeu a mão grande e apertou firme a de Davina. – Eu sou Marcus Cole, seu professor de defesa e combate. Não esperava vê-la em minha aula hoje.

— Eu também não. – A garota respondeu e sorriu minimamente estralando os dedos das mãos, era o que fazia quando ficava nervosa.

— Bom, seja bem-vinda! – Ele concluiu e os acompanhou até os outros.

Um círculo foi formado ao redor de Marcus para que todos pudesse ouvir sua voz com clareza. A maioria dos adolescentes pareciam animados e excitados para o que quer que fosse acontecer ali. Davina apenas estava lá, acenando e sorrindo para os outros que conhecia. Sua vontade era voltar e dormir, mas, já que estava ali, não poderia deixar a aula sem mais nem menos.

— Quero duplas hoje! Façam seu melhor! – O treinador gritou suas ordens. – E lembrem-se das regras!

— Que regras? – Davina murmurou para Kyle.

— São regras de defesa. – O garoto explicou com a voz baixa. – Primeira, o equilíbrio importa; segunda, nunca dê as costas ao seu inimigo; terceira, tente não morrer.

Davina suspirou e não estava aliviada. Não morrer, para ela seria impossível, pois, nunca na vida tinha lutado com alguém e nunca imaginou que algum dia precisaria de tal coisa. Marcus se aproximou dela novamente com um sorriso animado e divertido no rosto.

— Kyle, eu quero você com o Dylan e Davina – Ele se voltou para a garota, porém foi interrompido.

Kyle torceu o nariz e se aproximou mais de Davina, como que para protegê-la quando avistou Elliot chegando. Mas, ela não queria e não precisava ser protegida. Elliot não era ameaça naquele momento e nunca foi. Ele somente era um tanto inadequado, infantil e talvez, gostasse de causar uma discórdia. Fora isso, a garota não tinha nada contra ele, apesar de não ter nada a favor também.

— Desculpe o atraso eu estava... – Elliot começou e seus olhos se demoraram um pouco mais em Davina, como da primeira vez.

— Não me interessa onde estava, Elliot. – Marcus respondeu o encarando irritado. – Se atrasar novamente será suspenso da minha aula, entendeu? – O garoto concordou e engoliu em seco. – Você ajuda a Davina?

— O que? Não! – Kyle protestou incrédulo. – De jeito nenhum! É a primeira aula dela, quer que ela morra?

— Eu admiro sua preocupação com a vida da senhoria Malttoni... – O treinador olhou dele para a garota com um sorriso malicioso. – Mas, o que ainda está fazendo aqui? Eu não mandei você começar?

— Se machucar ela... – Kyle avançou para Elliot, mas foi bloqueado por Marcus.

— Relaxe, Kyle! Vou cuidar bem dela.

Indignado e negando varias vezes com a cabeça, Kyle engoliu o sorriso vitorioso e amargo de Elliot para ele e saiu à procura de Dylan para começar o treinamento. Marcus se afastou para observar seus alunos e Davina encarou seu parceiro de luta, que retribuiu com um sorriso de canto.

— Eu disse que nos veríamos, não disse? – Ele falou.

A garota revirou os olhos e suspirou. Seria uma noite longa.

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A floresta estava calma como sempre. O silencio que não era um completo silencio por conta dos grilos cantando e do vento balançando de leve as copas das árvores. Em algum lugar, havia uma cachoeira, pois, Afrodite se deixou levar pelo barulho das águas e quase pegara no sono minutos depois de Claire que, apesar de reclamar, acabou adormecendo sobre a grama perto da fogueira improvisada. Elas concordaram em fazer turnos, para que ambas pudesse dormir um pouco.

As nuvens de chuva haviam sumido e as estrelas estavam de volta iluminando o céu noturno junto com a lua crescente. A lua em que a magia se torna mais forte. Afrodite adorava observar tudo aquilo e imaginar o que teria acima dela e o quão o universo poderia ser infinito, se é que era infinito ou se ninguém nunca descobrira seu fim.

Tudo estava bem, até que um grito agudo ecoou por entre as árvores e Claire se sentou, despertando violentamente de seu sono, assustada, trêmula e suando frio. Seus olhos encaravam o vazio enquanto ela repassava o horrível pesadelo na mente. O coração acelerado parecendo que sairia pela boca a qualquer minuto, calafrios a percorrendo e seus dedos se fechando em torno do cabo da adaga ao lado do corpo por precaução.

— Shhh! Está tudo bem, você está bem! – Afrodite se apressou em dizer e segurou a mão da garota com a adaga antes que algo acontecesse. – Claire, olhe para mim! — Os olhos de Claire encontraram os dela e aos poucos, sua respiração voltava ao normal. – Agora, já pode soltar... – Afrodite conseguiu tirar a arma afiada das mãos da loira e a colocou atrás de si. Pegou a pequena garrafa com água e estendeu a garota. – Aqui!

Claire aceitou e bebeu um pouco. Os tremores ainda estavam presentes e suas mãos demonstravam isso mais que tudo. Além, algo estava errado e ela sentia nas veias, como uma corrente de adrenalina e eletricidade percorrendo todo seu corpo. Uma energia que fluía para cima, como se o ar estivesse sugando-a dela. Claire olhou para a lua e depois para Afrodite.

— Sente isso também? – Perguntou devolvendo a garrafa a ela.

— Sim. – A ruiva respondeu. – A lua crescente faz a magia aflorar. Você fica mais forte e seus poderes e emoções ficam mais intensos. Antigamente, as ancestrais faziam os feitiços apenas nessa lua. Bem, algumas eram rebeldes e conjuravam na lua cheia. Mas, é como dizem, a lua cheia é dos lobos.

Lobos? Lobisomens! É claro! Eles existem! Claire pensou consigo e respirou profundamente. O coração batia normal de novo e a tremedeira passava conforme se esquecia dela. Ela não se lembrava do que havia sonhado, mas, por mais estranho que parecesse, sua consciência dizia que fora algo muito ruim. Sempre se lembrou dos pesadelos, por que desse não se lembrava?

— Pode dormir se quiser, eu fico até amanhecer. – Claire falou penteando os cabelos com os dedos e desmanchando os nós nas ondas, desta vez, em tom de areia devido à luz das estrelas.

— Tenho uma ideia melhor. – Afrodite respondeu e se aproximou da garota, estendendo as mãos com as palmas viradas para cima. As pernas cruzadas e a postura ereta. Claire não parecia entender, então, a ruiva revirou os olhos e suspirou. – Me de as mãos. Quero mostrar uma coisa.

A loira se aproximou e se sentou a frente Afrodite, unindo suas mãos com as dela. No mesmo instante, Claire sentiu uma onda de energia tomando conta de cada parte de seu corpo e a sensação era de se estar flutuando. Em algum momento, ela fechara os olhos e apenas os abriu segundos depois.

Fora em apenas um piscar de olhos e elas já não estavam mais na mesma floresta. Pelo contrário, era dia e o sol brilhava entre as nuvens de algodão no céu azul. Passarinhos voavam, uma cachoeira pequena corria suas águas por entre pedras para uma lagoa e a brisa do vento era fresca quando a atingiu balançando os cabelos de ambas. Três borboletas passaram entre elas e uma delas fez cócegas nas bochechas de Claire com suas asas amarelas e delicadas.

— Que lugar esse? – A loira perguntou sorrindo boquiaberta e impressionada com a beleza da natureza. Ela nunca havia parado para observar como o mundo lá fora poderia ser magnífico. Arbustos de flores de diversos, e alguns com uma frutinha que Claire pensou serem amoras davam mais cor ao ambiente.

— Eu chamo de “O lugar seguro e perfeito”. – Afrodite fez aspas com os dedos. – Venho aqui quando quero fugir da realidade.

Claire se levantou e deu alguns passos a frente, até que sentiu a água morna da lagoa molhar os pés... Descalços? Quando tinha tirado as botas que Afrodite lhe emprestara? A garota olhou confusa para a ruiva, perguntando com os olhos.

— Tudo o que desejar vai acontecer. – A ruiva explicou e se levantou em seguida, ficando a uma distancia considerável da água. – Estamos na minha inconsciência. Como eu disse antes, a magia é energia.

— Então, criou tudo isso com magia? Estamos na sua mente? – Claire questionou cada vez mais curiosa e encantada com tudo.

— Parecia menos estranho, até você dizer isso em voz alta. – Afrodite respondeu respirando profundamente e sentindo a luz e o calor do sol aquecer seu corpo. Mesmo com os olhos fechados, ela sabia que a garota a encarava. Ao abri-los, a olhou de volta. – O que foi?

— Nada é que... – A pausa durou alguns segundos. Claire observou a sua volta. Pela primeira vez, ela estava sorrindo de verdade. Pela primeira vez, ela se sentia feliz, como se a pior tristeza do mundo não pudesse atingi-la ali e de fato não podia. Ela se permitiu se esquecer dos pais, da irmã, dos pesadelos horríveis que tinha e da reviravolta que sua vida teve. Poucos e raros momentos de paz. – Acho que eu poderia ficar para sempre.

— Infelizmente não. – Afrodite falou um tanto triste. – Nós estamos aqui, mas nossos corpos estão lá, do outro lado. Podemos ficar sem comer e dormir por alguns dias, mas não para sempre, ou...

— Morreremos. – A loira completou e a ruiva concordou com a cabeça. Sorrindo novamente para descontrair, Claire continuou: — As pessoas devem amar esse lugar!

— Eu nunca trouxe ninguém aqui. – A guardiã admitiu com certa hesitação. Os olhos verdes de Claire encontraram os de Afrodite por poucos instantes e eles brilhavam como grandes esmeraldas. Desviando o olhar para os próprios pés, ela continuou: — Além disso, nenhuma bruxa consegue criar algo parecido, é um dom a mais que eu tenho, eu acho.

Minutos, talvez horas se passaram e ainda permaneciam ali comendo amoras e esperando o sol se por. Metade de todo o tempo, Clair refletiu sobre o mesmo e acabou concluindo que Afrodite o nomeou assim, pois, ela o criara, era seguro por que, não haveria perigo ou ameaça alguma e perfeito por que, existiam ali, apenas as coisas de que ela mais gostava. Perfeito e seguro são palavras com significados diferentes para as pessoas. Contudo, para a loira, o lugar honrava o nome.

— Por que eu? – A garota questionou após um tempo enquanto brincava com as folinhas da grama macia. Porém, Afrodite pareceu não compreender. – Disse que nunca trouxe ninguém aqui. Por que eu?

— Temos que ir, Claire. – Afrodite falou se levantando e deixando de lado as últimas amoras que estavam em suas mãos, que ficaram roxas devido às frutinhas.

— Como sempre, você foge das minhas perguntas! – A loira comentou em um suspiro, ficando em pé e indo até a ruiva.

— Achei que você precisava dar um tempo da realidade. – A guardiã respondeu depois de ambas as mãos se tocarem, como fizeram para chegar ali. – Acertei?

Claire respondeu com um repuxar nos cantos dos lábios e no segundo seguinte, como se alguém tivesse apagado as luzes do mundo, elas estavam de volta á floresta escura e a fogueira improvisada, quase se apagando.

Sem entender como, Afrodite permaneceu senta frente á Claire, acompanhando sua respiração, sentindo o calor da pele dela na sua, os olhos de certo modo, encantadores e a forma como os longos e loiros cílios da garota faziam sombras ao piscar dos olhos.

Diferentemente dos últimos dias, Claire parecia livre, não parecia sentir medo ou todas aquelas sensações ruins, o que era curioso para a ruiva. Afrodite sempre corria para sua inconsciência quando as coisas desmoronavam e quando voltava, não sentia como se elas tivessem melhorado ou até mesmo, passado de vez. Mas, para a outra era como se tudo estivesse bem novamente. Ela não conseguia compreender e isso a intrigava.

Afrodite apenas a olhava e não notou que estava se aproximando aos poucos de Claire. Nenhuma delas pareceu notar, na verdade. Foi quando seus lábios tocaram os da loira, um beijo delicado – o que não fazia sentido se tratando de Afrodite, pois, ela não era delicada e nem beijava qualquer um facilmente assim – porém tenso. Claire estava tensa e fora pega de surpresa, o que a fez recuar.

— O que foi? – Afrodite indagou abrindo os olhos.

— Nada, eu só... Eu nunca... – Claire começou, mas as palavras quase não saiam de sua boca. Ela abaixou a cabeça tentando esconder as bochechas coras.

— Tinha beijado uma menina? – A ruiva completou procurando os olhos da outra, mas falhando.

Afrodite deu de ombros e engoliu, pois, não sabia por que ela — a bruxa que cresceu rodeada de fadas insensíveis e fora criada em um mundo onde sentir algo te torna fraca – fizera aquilo.

— Quer saber, esquece! – A guardiã disse ficando em pé.

— Não, espera! – Claire pediu fazendo o mesmo. – A onde você vai?

— Pegar lenha, o fogo está apagando. – Afrodite respondeu sem olhar para trás. – Grite se acontecer alguma coisa.

As últimas palavras sumiam conforme ela adentrava as árvores.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.