Lauderdale
9 Capítulo 8: O segredo de Rose Malttoni
A sala de Katherine era totalmente o contrário do que Davina imaginava. Um ambiente redondo e amplo com algumas janelas altas e uma escada em espiral levando a um mezanino. O chão amadeirado estalou com o caminhar de ambas até a mesa retangular e organizada da diretora. Um tapete branco macio se estendia no centro.
Mas, o que mais impressionava a garota era a quantidade de luz e paz ali dentro. Tudo o que faltava na casa da tia, ela havia encontrado ali, inclusive os livros encapados e arrumados da mesma maneira e a bandeja com o conjunto porcelana de chá em uma mesa de canto ao lado de duas poltronas e um abajur.
Além delas, outra mulher estava presente. Ela servia o chá e não somente lembrava a governanta, mas, sim, era a própria governanta. Davina não acreditava que Katherine levava Flora com ela para qualquer lugar que fosse. Era mesmo tão dependente assim?
— Flora? – A garota chamou franzindo a testa. – O que faz aqui?
Flora sorriu maternalmente como sempre e continuou servindo três xícaras de chá de maçã e canela, o cheiro doce pairava no ar e deixava tudo mais aconchegante ao se unir com a lareira acesa e ao fogo crepitando.
— Sente-se, minha querida, por favor. – Katherine disse com a voz calma e nada parecida com a que sempre usava para falar com a sobrinha.
Desconfiada e um tanto incomodada, a garota se sentou na poltrona a frente da mesa da tia, enquanto, ela se sentava a sua frente, de trás da mesma. A plenitude daquela mulher fazia com que Davina se preocupasse um pouco além da conta, pois, Katherine nunca agiu assim com ela e qual seria o motivo de agir agora?
— Aceite o chá, é uma delícia. – A mulher continuou e bebericou o liquido quente em uma das xícaras que Flora entregara a ambas.
A governanta se sentou ao lado da garota e sorriu mais uma vez. Davina podia não saber do que se tratava tudo aquilo, contudo, não negaria um chá feito por Flora, já que, se rejeitasse, ela tinha a sensação de que a magoaria. Então, bebeu um pequeno gole que desceu queimando sua garganta e aquecendo todo seu corpo. Segundos depois, reposou a xícara sobre o pires na mesa.
— O que você quer? – Davina perguntou segurando o olhar da tia.
— Para começar educação. – A diretora respondeu mantendo seu tom sereno. A garota riu consigo mesma indignada e sabendo que tudo o que acontecesse seria perda de tempo e acabaria em uma discussão, como todas as outras.
— Você tem algum distúrbio bipolar? – Questionou cruzando os braços sobre o colo. Mediante ao olhar confuso da tia, ela explicou sem muita paciência: — Tem sido horrível comigo há dias e agora quer que eu acredite que é uma pessoa boa? Desculpe, mas, não vai acontecer.
Davina se levantou, mas uma mão delicada segurou seu pulso, fazendo-a parar no meio do caminho. A governanta a encarava e lhe dizia para sentar-se novamente. Apesar de não saber como, ela obedeceu.
— Eu sei que me odeia Davina. – Katherine continuou. – Mas, peço que me escute, pelo menos uma vez, por que, o que eu vou te contar pode ser que justifique tudo isso. Vai depender de você.
— Como assim?
Davina se inclinou para frente intrigada com as palavras da tia. Ela não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo e o porquê daquilo, mas, era a chance que tinha de perguntar sobre Claire e sobre mais algumas coisas. Por outro lado, confiar em Katherine era pedir demais e sua atitude benevolente era mais que suspeita.
— Já se perguntou se o acidente que causou a morte dos seus pais e de sua irmã, pode não ter sido... Bem, um acidente? – A tia falou apoiando os cotovelos sobre a mesa e unindo as mãos á frente.
— O que quer dizer com isso? – O que Katherine estava sugerindo fez o estomago da garota embrulhar e os pelos de seu braço se arrepiar. Ela não conseguiu respirar no tempo que se passou enquanto a diretora permaneceu em silencio.
— Quero dizer, que eu sabia que aconteceria. Soube no dia em que vocês nasceram. – A tia disse depois de um longo suspiro. Davina pensou por um segundo refletindo a informação que havia recebido. A raiva já se formava dentro dela e estava pronta para descontá-la quando Katherine ergueu a mão direita no ar. – Antes que me acuse de qualquer coisa, também quero que saiba que contei a Rose.
— Está mentindo! Como você poderia saber? – A garota quis saber apoiando as mãos nos braços da poltrona e fincando as unhas ali, para não o fazer na cara da tia.
— Não espero que compreenda Davina, mas, nossa família é especial e alguns de nós temos um dom a mais, como eu. – Katherine não se mexia e permaneceu na mesma posição, respirando e mantendo a calma.
— Não me venha com intuição...
— É bem mais forte do que isso. – A tia interrompeu e a sobrinha se calou. – Eu visitei minha irmã no mesmo dia em que descobri, mas ela não quis me ouvir. – Os olhos antes críticos de Katherine e agora acolhedor, seguraram firme os de Davina. – Eu pedi que aceitasse a minha ajuda, disse que eu poderia proteger a você e a Claire, mas mais uma vez, ela não quis me ouvir.
— Por que ela não ouviria se fosse para evitar uma tragédia? – A garota retrucou devolvendo o olhar, tentando engolir as lágrimas na garganta. – Minha mãe faria qualquer coisa por nós! Ela nos amava!
— Esse era o problema da sua mãe. Ela amava demais.
Katherine se levantou e caminhou até uma das janelas, afastando a cortina levemente para espiar o clima lá fora. A chuva continuava insistente, mais fraca e sem os raios e não pararia logo.
— Não importa! Você deveria ter feito algo! – Davina também se levantou, uma corrente elétrica a percorria carregando raiva, confusão e medo. – Tudo poderia estar bem! Meus pais estariam vivos! Claire estaria viva!
— Eu fiz! – A tia elevou o tom de voz e virou-se para a garota. — Mesmo depois de tudo o que Rose me fez fazer, mesmo depois de tudo o que ela me disse eu ainda continuei dando tudo por ela, por aquele marido mortal dela! – Ela torceu o nariz ao se referir ao senhor Malttoni e concluiu consigo mesma: — Já vai tarde!
— Não diga isso! Ele era o meu pai! A culpa não é dele! – A voz de Davina vacilou quando as lágrimas começaram a escorrer bochecha abaixo.
— Se soubesse tudo o que sei... – Katherine lamentou balançando a cabeça de um lado para o outro e abraçando o próprio corpo. Os dois passos dados por ela a sobrinha recuou. – Você idolatra o seu pai. Ainda o faria se descobrisse que ele foi o responsável pela morte do irmão da sua mãe? Sim, éramos três. – Olhou fundo nos olhos da garota. – Os mortais são todos iguais Davina! Eles dizem que nos amam – Mais um passo. – Nos usam para o que precisam – Mais outro. – E depois nos destroem!
Recuando mais uma vez, Davina foi bloqueada pela mesa da tia e precisou se apoiar sobre ela, pois, estavam tão próximas, que ela podia sentir a respiração de Katherine em seu rosto.
— Nós também somos mortais! Não deveria se sentir superior a eles! – A sobrinha murmurou abaixando os olhos para evitar o contato com os da tia.
— Mas, acontece que nós somos. – Katherine respondeu e se afastou da garota, caminhando mais para o centro da sala. – E seu pai sabia disso. – Ela esperava que nos instantes silenciosos que se seguiram, Davina dissesse algo, mas nada saia da boca dela e sua expressão era pura confusão, raiva, medo e parecia refletir sobre algo. – Mas, não importa o que eu diga... Não acredita em mim.
— O que aconteceu com o seu irmão? – A garota perguntou mais uma vez detendo as lágrimas. Nada adiantaria se estressar ou discutir quando tudo deveria ser dito. Ela precisava de algumas verdades por mais que não confiasse na tia.
Um tremor desconhecido percorria o corpo de Davina, semelhante ao desespero unido ao medo. Sentimentos que desejava poder bloquear naquele momento, por que não era conveniente demonstrá-los. Entretanto, ela se permitiu encarar Katherine novamente e ignorar as pequenas gotas salgadas em seu rosto.
A tia estendeu os braços a ela, as palmas das mãos viradas para cima, como se pedisse alguma coisa. Relutante, a garota se aproximou e hesitou antes de tocar as mãos de Katherine. De inicio, nada aconteceu, a pele dela era fria e completamente lisa e delicada. Anéis decoravam seus dedos e suas unhas eram compridas o suficiente para machucar qualquer um.
No segundo seguinte, Davina foi sugada para a inconsciência.
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A sensação era a mesma de se estar mergulhada em uma piscina com a água entupindo seus ouvidos, a diferença era que a garota podia respirar e ver claramente tudo ao seu redor. Como um filme, porém, ela estava dentro dele, apesar de não interferir na cena que estava diante dela.
Era de fato o mesmo quarto em que Davina ficou enquanto permanecera na casa de Katherine e com exatamente os mesmos móveis. Havia uma garota de vestido preto com um xale caindo nos ombros magros, uma cachoeira de cabelos negros e um livro grande e antigo nas mãos. Ela não pareceu notar Davina ali, pois, continuava entretida com o que quer que fosse que estivesse lendo e mexendo vez ou outra nas ervas, cristais e velas acima da penteadeira, além de recitar palavras em outra língua. Aquilo era Latim?
O coração de Davina chegou a parar quando a porta do quarto se abriu e mais alguém entrou. Ela sentiu ter levado um leve empurrão ao perceber quem entrara. Era sua mãe anos mais nova e a outra garota olhou por cima do ombro. Mais uma vez, outro empurrão. Era Katherine, também anos mais jovem.
— Foi ver o mortal? – Ela perguntou.
— Kat... – Rose suspirou e o sorriso alegre em seu rosto sumiu. – Eu o amo, pode ao menos fingir que aprova isso?
— Não, por que eu não aprovo e a mamãe também não. – Katherine respondeu despejando uma pitada de uma das ervas sobre o recipiente de barro ao centro. – Ele vai acabar ferindo um de nós ou pior, matando alguém. São todos iguais e quando acontecer eu vou te lembrar de que eu avisei.
— Como pode saber se a mamãe aprovaria ou não? Ela nem mesmo sabe onde estamos! Nós fugimos lembra? – Rose retrucou sentando-se na cama da irmã. – Ela não se importa com a gente, não nos procurou até agora e já faz meses!
— Eu apenas sei.
A cena evaporou aos poucos dando lugar a grama, um céu pintado em cores pastéis e ao por do sol. A colina, do lado de fora da mansão da tia. Lá estavam elas de novo. Rose ajoelhada sobre um corpo ensanguentado no chão, aos prantos, soluçando e gritando o nome de amado. Katherine, parada um pouco atrás, observava indiferente e de certa forma feliz por, finalmente, o problema ter acabado.
A toalha xadrez estava ensopada de sangue escarlate e o mesmo manchava o vestido florido de Rose e banhava as frutas levadas para aquele piquenique. O vinho se fundiu ao sangue quando, momentos antes, a taça de cristal que continha a bebida caiu das mãos de Henry e atingiu o chão.
— Henry! Não! Acorde... Por favor! – Rose gritou cercada de cacos afiados e muito, muito sangue.
— Rose. – Katherine murmurou o nome da irmã, ainda para como estátua no mesmo lugar. Ignorada, ela elevou a voz: — Roselly!
A irmã se levantou cambaleando, a bainha do vestido pesada e ensopada, as mãos vermelhas e as bochechas molhadas pelas lágrimas. Suas mãos agarraram os braços de Katherine.
— Kat... Ajude-me... Por favor! – Rose pediu sacudindo a irmã. Os olhos impassíveis dela arrepiaram a garota desolada e em sua cabeça, tudo ficou claro demais. Seu semblante triste se transformou em ódio e indignação. – Por que fez isso? Por que fez isso comigo Kat?!
— Mas, eu não fiz isso. – A irmã respondeu mantendo a expressão fria.
— Traga-o de volta! É a única que pode! Você me deve! – Roselly implorou mais uma vez.
– Se eu quisesse matá-lo já teria feito e francamente Rose, veneno? – Katherine a afastou e em seus braços estavam marcadas as mãos da irmã. Agora, ela também estava suja com o sangue do mortal.
— Kat, eu o amo! – A garota sussurrou cabisbaixa e então, procurou os olhos de Katherine. – Eu pago o preço!
— Você entende que o que está me pedindo custara caro? – A outra perguntou alternando o olhar entre a irmã e o amante inerte sobre a grama. – A magia das trevas é um caminho sem volta, ou seja, não poderá se arrepender.
— Faça! – Rose disse rapidamente.
— Está bem!
Foi então, que a cena começou a ser cortada e pular algumas partes. Davina se sentia baqueada, destruída e podia sentir a dor da mãe e o quanto a tia era cruel e fria desde jovem. Afinal, a garota não conseguia entender, o que há de errado em amar alguém? E mais uma vez, aquela palavra que a perseguia: Mortal. Qual era o significado? Magia? Veneno? O que estava acontecendo?
Respirar se tornou difícil com tantas coisas em sua mente e emoções que Davina não controlava. Loucura era pouco para descrever o que via. Elas ainda estavam na colina, porém, o sol já havia se posto e velas, incensos, pentagramas, pedras, ervas e mais um monte de coisas que a garota não sabia dizer o que eram rodeavam Katherine. Mais palavras em latim e por fim, a cor voltando ao rosto de Henry.
Davina só conseguia assistir e não se deu conta de que chorava em silêncio, assim como a mãe o fazia ao abraçar seu pai, vivo e respirando novamente. Ela notou a tia se levantando, um tanto fraca e cansada. O que tinha feito sugou toda sua força e energia.
Um grito ecoou de dentro da mansão. Agudo e infantil.
A garota seguiu as irmãs e o senhor Malttoni para o interior da casa. Subiram as escadas e entraram em outro quarto. No tapete macio, um menino de sete ou oito anos – ela não sabia dizer – se contorcia de dor e gritava. O suposto irmão.
— James! – Rose foi a primeira a cair de joelhos ao lado dele.
— Saia de perto dele! – Katherine fez o mesmo e empurrou a irmã para o lado. – Isso é culpa sua!
— Como pode ser culpa dela? – Henry questionou, envolvendo a amada nos braços e recebendo um olhar afiado e furioso da cunhada.
— Diga a ele Rose! Diga como trocou a vida do nosso irmãozinho pela dele! – Katherine falou transbordando um ódio fatal e amargo. Em seguida, voltou a atenção para James e sorriu acariciando seus cabelos castanhos. – Você vai ficar bem, eu prometo.
— Kat, eu sinto muito! Eu não queria isso! – Roselly tentou se aproximar, mas a irmã a fuzilou com os olhos fazendo-a parar.
— Esse é o preço! Eu avisei! – A outra irmã respondeu em voz baixa. Ela não queria assustar James em seus últimos minutos de vida. Não havia nada que pudesse fazer. Não mais.
Davina observou a troca de olhares entre os pais e percebeu que conversavam de alguma forma. Como era possível? Tantos acontecimentos em apenas uma noite. Mais uma noite catastrófica para sua vida e da de sua família.
— Rose. – O menino murmurou entre uma respiração e outra. Não somente ela, mas todos ali o encararam. – Eu sinto muito.
— O que? Não é culpa sua. – Rose se ajoelhou do outro lado, mesmo contra os protestos da irmã. Seus dedos se perderam nos fios macios do cabelo dele e um sorriso iluminou a face inocente e triste do garoto.
— É sim. – James insistiu e olhou para Henry e depois para Rose.
Segundos depois, todos entenderam o que ele queria dizer. Até Davina ficou boquiaberta e chocada. O veneno na taça de seu pai... Fora ele. Henry quase morrera por causa de uma criança.
— Por que fez isso, Jam? – Roselly perguntou segurando o pequeno rosto dele nas mãos.
— Eu... Eu só queria proteger a nossa família. – A voz infantil saiu mais fraca dessa vez. Ele estava partindo aos poucos. Mais um sorriso cheio de dor. – Então eu achei o seu livro Kat, me desculpe... Eu... – Uma tosse e uma longa tentativa de buscar ar para os pulmões. – Eu deveria ter obedecido.
— James! Eu disse para ficar longe dele! – Katherine repreendeu e logo se corrigiu. – Não... Não tem problema Jam. Eu perdoo você, está bem? – Pela primeira vez, Davina viu a tia deixar cair lágrimas reais e pingarem nas roupas do menino.
Jam olhou pela última vez para as irmãs e sorrindo, murmurou:
— Me perdoem. Eu amo vocês.
A cena se desfez e Davina lutou para permanecer ali. Ela queria ver mais, ver o que aconteceu depois e... Era tarde demais. Sua consciência estava votando.
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Tudo ao seu redor girava. Atordoada, Davina precisou se apoiar em alguém e demorou a reconhecer o perfume doce de Flora.
— Acho melhor levá-la para a enfermaria. – A governanta disse para a diretora.
A visão estava começando a voltar ao normal e a garota pôde ver a tia, olhando-a e esperando que se recuperasse. De certo modo, Davina compreendeu do que fazia parte. Era um mundo totalmente novo, desconhecido e escondido nas sombras. Ela lamentou o fato de ter descoberto daquela maneira e tão tardiamente. Contudo, entendeu o motivo pelo qual a mãe nunca deixou com que nem ela e nem Claire soubessem de Katherine e do dom que possuíam. Era uma realidade cruel, tentadora e perigosa.
Memórias dos contos de fadas que a mãe lhe contava quando pequena a aterrorizavam agora. Se a magia era real, se pessoas como ela eram reais, o que mais poderia ser? Todas as lendas, as histórias de terror contadas ao redor de fogueiras sequer eram mentiras?
— Agora, me diga minha querida sobrinha – A tia repousou as mãos nas bochechas da garota e as acariciou. – O nós somos?
— Bruxas. – Respondeu encarando o vazio. — Somos bruxas.
Por fim, ela deixou que a escuridão a levasse para a inconsciência novamente.
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