Lauderdale
8 Capítulo 7: A floresta de Blue Ridge
Gotas de suor escorriam por sua têmpora e seu corpo todo tremia como se uma corrente elétrica tivesse atingido-a. Respirar se tornou difícil depois do despertar violento causado pelo terrível sonho da madrugada. Davina não sabia o porquê de ter o mesmo sonho desde um tempo atrás, ela não sabia dizer exatamente quando começaram.
Ela sonhava com três silhuetas encobertas pela escuridão da noite e pelas sombras de árvores altas. Uma das tais silhuetas era um tanto maior que as outras – um garoto talvez – e as outras eram pequenas e delicadas, duas garotas e uma delas parecia estar grávida. Mesmo tendo o mesmo sonho por diversas vezes, Davina não conseguia ver seus rostos e as palavras ditas entre sussurros e algumas vezes em gritos, também não eram tão audíveis e acabavam sumindo em um eco floresta adentro. Ela sempre acordava depois dos sons das águas de um rio, de um choro de bebê e de um clarão.
— A senhorita está bem? – Flora perguntou gentilmente parada na entrada do quarto com uma bandeja nas mãos. O olhar maternal da secretária do lar fez Davina esboçar um sorriso pequeno.
— Estou sim, Flora, obrigada. Foi apenas um pesadelo. – Ela respondeu deslizando os dedos por seu cabelo, desmanchando alguns nós.
— Alguns gostam de acreditar que os pesadelos são premonições, às vezes boas, às vezes ruins. – Flora acrescentou caminhando até a menina e deixando a bandeja com seu café da manhã ao lado da cama.
— E o que acontece se for ruim? – Davina questionou olhando nos olhos dela buscando pegar tudo para si a calma que a mesma possuía.
— Vamos torcer para que não seja. – Respondeu sorrindo novamente e tocando de leve a ponta do nariz dela.
Os primeiro e escassos raios de sol surgiam aos poucos iluminando o céu da manhã de segunda-feira e abrindo as portas para o primeiro dia de aula da garota em um lugar novo. Apesar de haver sol, o céu possuía uma coloração acinzentada e grandes e carregadas nuvens de chuva prontas para despencar em uma enxurrada a qualquer minuto. Mais um dia que ela teria que encarar a tia e sorrir, fingindo estar feliz. Ao menos veria Kyle e os outros.
O café forte, as torradas com geleia e as frutas vermelhas fizeram com que o humor da garota melhorasse conforme observava o vento lá fora balançar as copas das árvores, os trovões ressoarem e os passarinhos voarem no céu nublado procurando por abrigo. Davina teve que juntar forças para se levantar da aconchegante cama e se vestir.
Uma batida na porta anunciou a volta de Flora.
— Está na hora, senhorita Davina. Sua tia a espera do lado de fora.
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A chuva forte e o vento frio acompanharam Katherine e Davina durante todo o percurso entre a mansão e um lugar chamado Lauderdale. Mais especificamente “A Fundação Lauderdale”, como estava escrito na placa em ouro a frente do enorme portão de ferro e bronze na entrada do local.
O mesmo era cercado pela mesma floresta que rodeava a casa da tia, além de uma cerca viva alta e cheia de espinhos e rosas circulando todo o terreno. A estrada asfaltada cedeu espaço para um caminho de pedras que contornava um chafariz redondo e se estendia até a entrada da construção antiga — porém bem conservada — larga e exorbitante. A garota nunca imaginou que um dia veria uma verdadeira mansão – de fato, maior e mais luxuosa que a de Katherine – de séculos atrás.
O motorista – Davina descobrira mais cedo que o nome dele era Frederic – desceu do carro e abriu a porta para ambas, segurando um guarda chuva preto acima de suas cabeças somente até estarem seguras da água debaixo da claraboia de vidro e a frente da porta dupla de madeira esculpida por mãos de trabalhadores antigos.
— Sabe onde deixa-las Frederic. – Katherine falou se dirigindo ao motorista. Ela acenou com a cabeça e segui para sua tarefa. – Impressionante, não? – Falou com a sobrinha que observava cada detalhe ao se redor.
Davina não respondeu e fechou a cara. Ela não estava nada a fim de trocar ideias com Katherine, já que a tia deixara bem claro na noite anterior que faria da vida dela um inferno se não cooperasse ou balançasse a cabeça aceitando suas ordens iguais aos empregados. Pobres pessoas. Destinadas a obedecer sem se opor e aguentar uma megera ou seriam demitidos.
— Pode me ignorar aqui Davina, mas do outro lado não. – A mulher disse parando frente à garota. – Sou autoridade lá dentro e vai ter que se acostumar com isso. – Rondando a sobrinha, parou atrás dela e repousou as mãos em seus ombros, empurrando-a para a entrada.
A porta se abriu lentamente devido ao peso e revelou um ambiente amplo e arejado por conta de inúmeros vitrais dando vista aos jardins e cheio de outras pessoas com as idades entre dezesseis e vinte anos, jovens e adolescentes carregando livros e mochilas. As conversas se misturavam no ar, risos se espalhavam aqui e ali e olhares curiosos caíram sobre elas. Cada um com suas características físicas e personalidades. Contudo, não eram diferenças comuns como em outros colégios, era algo que Davina não sabia como explicar, somente sentir. Uma escadaria de mármore extensa e larga dava acesso aos outros três andares acima delas.
— Então você vai sorrir ser educada e me obedecer. – Katherine continuou sussurrando em seus ouvidos enquanto a conduzia cada vez mais para dentro, retribuindo sorrisos e cumprimentos de alguns.
— Megera. – Davina murmurou para a tia ao mesmo tempo em que sorria e olhava seus amigos se aproximarem.
— Vou entender como um sim. – A mulher respondeu cumprimentando os estudantes com um sorriso falsamente acolhedor. – Kyle, como vai? — Ela mudou o tom de voz e olhou para cada um deles. – E vocês? Estão bem?
— Estamos sim, obrigada diretora. – Amarantha respondeu devolvendo o sorriso, assim como Kyle.
— Vejo que vai para a aula com a gente? – Falou Olivia com uma das mãos na cintura e a outra segurando livros e no braço uma bolsa.
— Na verdade, ainda não. – Katherine disse e segurou um dos braços de Kyle. – Pode mostrar a fundação para Davina, por favor? Tenho uma reunião agora e estou disposta a perdoar a minha janela quebrada. O que acha?
— Perfeito. – O garoto respondeu e sorriu para Davina.
— Ótimo! Mas, quero conversar com você ainda, Davina. Os outros para a aula! – Ela terminou e seguiu para sua sala.
Davina não se conformava com o quanto uma pessoa poderia ser falsa e com o quanto todos ao seu redor acreditavam que sua diretora era uma pessoa simpática e bondosa.
— Então... – Kyle começou com as mãos nos bolsos do jeans e a mochila nas costas. – Pronta para caminhar muito e ouvir horas de história local?
— E alguém deveria estar pronto para isso?
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Os corredores da fundação eram longos e claros, pois, eram cheios de janelas com lindas paisagens para se observar e quadros nas paredes internas. Lustres os iluminavam quando a noite caia e portas duplas de madeira levavam às salas de aula, quartos e outros cômodos. Era como uma enorme casa que abrigava centenas de pessoas.
Davina mal viu o tempo passar. As histórias que Kyle lhe contou sobre Lauderdale e como as coisas funcionavam ali a deixaram mais impressionada e focada do que nunca. Vez ou outra eles paravam em frente a quadros de antigos diretores e outros que um dia foram importantes ali e os explicava, como se os tivesse conhecido – o que era impossível, já que ele era apenas uma ano mais velho que ela.
Os dois pararam em frente a um quadro emoldurado e com uma pintura antiga. Davina se inclinou par ler as pequenas letras escritas abaixo do mesmo: “Os irmãos fundadores, 1672, Floresta de Blue Ridge”.
— Boa escolha. – Kyle comentou ao notar quando ela parou. – O século da caça ás bruxas.
— Vincent e Venna Lauderdale. – A garota disse em voz alta, observando os rostos deles. – Parecem jovens demais, até mesmo para aquela época.
Os irmãos eram realmente iguais em tudo. Gêmeos de feições, nos cabelos alaranjados e nos olhos verdes claros. A pintura quase se passava por uma fotografia real. A sensação de tê-los visto antes atingiu Davina de supetão, na mesma hora em que olhou nos olhos deles. Ela os conhecia, mas de onde? Atrás deles, a mesma construção em que ela estava agora fora pintada.
— O que foi? – O garoto perguntou um tanto preocupado com a expressão confusa no rosto dela.
— Nada, eu só achei... – Davina começou ainda olhando a pintura. – É como se eu os conhecesse.
— Impossível, por que eles morreram há mais ou menos uns trezentos e quarenta anos. – Kyle falou apontando a data. – Está vendo? E não, não é apenas a data em que a pintura foi feita, é também o ano em que eles morreram.
— Nossa! Que trágico. – Davina exclamou num suspiro, voltando os olhos para ele com pena. – O que aconteceu?
— Existem muitas versões sobre esse momento da história.
Eles voltaram a caminhar e desceram as escadas do último andar — onde ficavam todos os dormitórios para aqueles que permaneciam na fundação aos fins de semana e feriados, os que não tinham pais ou casas para voltar e sentir falta – retornando para o térreo. No segundo andar havia a biblioteca, um laboratório para as aulas de ciências e algumas salas de aula. O refeitório ficava na ala leste depois de um corredor de arcos e um pátio com mais um chafariz.
— Qual delas faz mais sentido? – A garota insistiu e viraram para a direita.
— Bem, a versão que muitos acreditam ser verdade chega a ser perturbadora, no mínimo. – Ele respondeu e esperou que ela não quisesse saber, mas, Davina o encarou inclinando um pouco a cabeça para o lado e arqueou as sobrancelhas, pedindo mais. O garoto sorriu de lado e sacudiu a própria cabeça. – Está bem! Dizem que os Lauderdale eram uma família poderosa com muito dinheiro e que a magia corria em seu sangue.
— Calma! Magia? – Davina perguntou. – Como, feitiços, poções e varinhas mágicas?
— Não. – Kyle respondeu rindo um pouco. – Como magia negra e um livro das sombras. Segundo a lenda, os pais eram cruéis e maltratavam os filhos.
— Que horror! – A garota interrompeu de novo. – Desculpe, não vou falar mais.
— Continuando... – Eles voltaram a andar pelos corredores do primeiro andar em passos lentos, para que o tempo não acabasse antes da história. – Os irmãos também não eram um exemplo. Contam que Venna amava Vincent além do mero sentimento familiar, se é que me entende. Ela era obcecada por ele. – Ele encontrou os olhos dela que imploravam por mais. – A família vivia isolada do mundo e todos acham que era por causa do dom que possuíam, por que queriam se proteger da inquisição que caçava as bruxas e a magia naquele século. Mesmo assim, a inquisição os encontrou e queimou Cora e Tiberius Lauderdale em uma fogueira. Foram tempos difíceis para os irmãos, pois, tiveram que permanecer escondidos até que tudo passasse. – Ele suspirou tentando se lembrar da lenda. – Um tempo depois, estavam cansados de fugir, então reformaram a mansão e a transformaram em um lugar que todos como eles poderiam pedir abrigo, se sentirem seguros e aprender mais sobre o que eram. Protegeram o local com uma barreira mágica, invisível aos olhos dos mortais e batizaram o lugar como “A Fundação Lauderdale”.
Um trovão ecoou pelo céu escuro e cheio de nuvens. Relâmpagos iluminaram aquela manhã e Davina levou um breve susto com o estouro. Levou algum tempo para que ela voltasse a se concentrar na história dele que ficava mais interessante a cada minuto.
— Entre todos que acolheram na Fundação, eles conheceram uma amiga, ninguém sabe o nome dela até hoje.
— Uma bruxa? – A garota zombou com um sorriso maroto no rosto.
— Talvez. Além de bruxas, outros seres eram bem vindos em Lauderdale. – Kyle disse dando de ombros e ignorando o tom de brincadeira dela. – Vincent acabou se apaixonando por ela se encontravam em segredo em uma caverna atrás da cachoeira. Meses depois, Venna descobriu e decidiu que a melhor alternativa era atirar primeiro e perguntar depois.
— Ela atirou neles?! – Chocada e boquiaberta, a garota perguntou.
— Não! – Ele falou negando com a cabeça. – Foi bem pior! Lembra que eu mencionei o amor obsessivo de Venna? – Davina confirmou com a cabeça. – Então, ela não somente descobriu o caso secreto do irmão com a melhor amiga deles, mas também, que a garota estava grávida e daria a luz naquela noite de inverno. Muito para se descobrir em uma noite, não é?
— É, de fato, a lenda mais bizarra e real que eu já ouvi. – Ela comentou com o olhar vago, pensando nas perguntas que faria a ele ao fim do conto. – E depois? O que ela fez?
— Venna era mais parecida com os pais do que imaginava. Eles cresceram ouvindo que o amor é fraqueza e qualquer outro sentimento bom te torna vulnerável e manipulável. – Kyle prosseguiu. – Ao invés de contar aos pais e lidar com a situação de uma forma aceitável, ela se sentiu traída e estava tomada por ódio.
— Ela achava que o irmão também a amava. – A garota concluiu consigo mesmo, cada vez mais intrigada. – Se Venna não podia tê-lo, ninguém mais poderia. Se ele não a amava, não amaria outra pessoa.
— Você é esperta. – O garoto sorriu de canto com apenas uma sobrancelha arqueada. Um segundo se passou de ambos quietos, respirando e recuperando o ar. – Naquela mesma madrugada, Venna e Vincent tiveram uma briga e sem que eles notassem, a bebê nasceu, mas já era tarde, a menina nascera morta. Em outra versão, acredita-se que a criança estava viva e que na briga dos irmãos, um feitiço a atingiu. Infelizmente, não importa, por que em todas as versões, ela acaba morrendo.
— Espera. – Davina estendeu a palma da mão para ele, pedindo para parar de falar. Aquela história a estava deixando enjoada e incomodada. Que pessoas horríveis! Como eram capaz daquilo? Tudo por amor? Obcessão demais causa danos demais. – Por favor, me diz que é só uma lenda?
— Sim, apenas uma lenda. Quer que eu pare?
— Não! Quero saber como termina.
— Desolada, a mãe da bebê atacou Venna com magia. Mesmo fraca e ferida, foi poderosa o suficiente para acabar com tudo aquilo. – Kyle contou e eles já estavam chegando ao mesmo lugar onde se encontraram horas antes. – Como deve imaginar, ambas morreram também. Venna por conta do feitiço e a amiga por estar fraca demais para sequer respirar. Mas, é aí que as versões mudam muito de uma para a outra. – Ele fez uma pausa e puxou ar para os pulmões. Ao seu lado, Davina mal piscava. – Uma conta que Venna realmente morreu, outra que ela apenas desmaiou e continuou viva. Mas, essa que está ouvindo, diz que a magia foi tão forte, que atingira a alma dela, trincando-a e a banindo deste mundo para sempre.
— Só isso? Acabou?! – Davina questionou desapontada. Ela queria mais. Ela precisava de mais.
— Por fim... – O garoto concluiu enquanto davam os últimos passos em direção a uma sala no fim de um corredor. Em uma placa ao lado, estava escrito: “Katherine Wallins, diretoria”. – Vincent ficou sozinho. As três pessoas que ele mais amava o deixaram. Perdera tudo, por que, quebrou a primeira e principal regra da família. Amor é fraqueza. Mas enfim... É uma só uma história.
As palavras não saiam da boca da garota. Ela queria dizer tanta coisa, mas nada conseguia passar por sua garganta. Chocada, boquiaberta, intrigada e indignada. Termos corretos para descrevê-la no instante que se seguiu após Kyle terminar de falar. Milhões de pensamentos rodavam na cabeça dela e nenhum deles fazia sentido. Era só uma história, porque ela se sentia tão incomodada?
— Você está bem, Davina? – O garoto quis saber tocando de leve o braço dela.
— Estou... Eu acho. – Respondeu recuando para longe dos dedos dele. Dedos que lhe causaram arrepios por todo o corpo.
A porta da sala de Katherine se abriu. Saltos altos estalando contra o piso de mármore recentemente encerado e uma mulher jovem em um vestido rosa pastel, longo e esvoaçante. Um colar em seu pescoço chamava atenção para o decote que se formava quando as mangas do tecido caiam delicadamente em seus ombros, deixando as clavículas sobressaltadas à mostra.
Além da beleza angelical que Davina não soube explicar, a postura incontestável, a elegância, a confiança e o olhar forte e profundo da mulher a intimidaram. Contudo, ela a fez se lembrar de Claire. O coração da garota se apertou no peito.
Os olhos cobres da mulher a encontraram por alguns segundos e depois se voltaram para Katherine e ela murmurou mais umas poucas palavras que somente Davina e Kyle ouviram, já que eram as únicas pessoas que estavam ali: “Vai ter o que é seu quando me devolver o que é meu”.
— Quem é ela? – Davina perguntou para ele em voz baixa, mas sem desviar os olhos da situação.
— Ela...
Ele mal conseguiu responder, pois, a diretora se aproximara de ambos com um sorriso simpático. A garota sabia que era um tanto forçado da parte da tia. Mesmo escutando a voz ao longe, o que mais importava a ela era a mulher misteriosa e encantadora que sumia no fim do corredor.
— Davina? – Katherine disse finalmente chamando a atenção da sobrinha. – Podemos falar agora.
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