Lauderdale
7 Capítulo 6: Na sombra da noite
Algo despertou Davina de seu breve sono. Ela havia se deitado cedo naquela noite, mas dormira apenas duas horas depois. O relógio em cima do criado mudo ao lado da cama marcava meia noite e meia. Mesmo fechando os olhos para tentar dormir novamente, o que quer que fosse aquele ruído irritante a fez sentar entre os lençóis e travesseiros macios. Demorou alguns segundos para que sua atenção se voltasse para a janela fechada a sua direita.
A garota se levantou e cambaleou até a mesma, abrindo-a. Lá embaixo, uma silhueta arremessava pequenas pedras contra o vidro, escondido pela escuridão da noite. Com certa dificuldade de acostumar seus olhos a pouca luz da lua crescente, Davina encarou Kyle franzindo a testa, confusa e irritada por ter sido acordada apenas algumas horas depois de ter adormecido.
— O que pensa que está fazendo? – Ela perguntou cruzando os braços sobre o colo, num sussurro. Ao lado dele, uma moto preta um tanto grande estava parada com dois capacetes apoiados sobre o acento.
— Desce. – Ele pediu com a voz baixa gesticulando com a mão. – Pule! Eu pego você!
— O que? Ficou maluco?! – Davina questionou boquiaberta. – Eu não vou pular de uma janela! Tem ideia de que horas são? – Completou.
— Está bem, então sai pela porta. – Kyle insistiu se apoiando na moto.
— Não dá... Se minha tia acordar eu estou morta! – Ela argumentou.
— Vamos lá, Davina! – O garoto avançou dois passos para frente e abriu os braços como se fosse pegar algo no ar. – Confie em mim.
A garota pensou. Sim, de fato era irresponsável se jogar de um lugar alto e acreditar que existiria a mínima possibilidade de ele a segurar, além de ela saber que era errado de muitas maneiras ir para qualquer lugar com um garoto que conhecera naquele mesmo dia horas antes. Mas, mesmo assim, Davina precisava conversar com Olivia, pois, a irmã dele mencionou Claire e ela não teve a oportunidade de questiona-la sobre isso. A garota sabia que sua irmã estava viva e depois daquilo, teve certeza.
— Está bem! Mas com uma condição! – Davina disse já se arrependendo do que estaria prestes a fazer.
— E qual seria a sua condição? – Kyle perguntou com um sorriso maroto no canto dos lábios.
— Quero falar com Olivia.
— O que quer com a minha irmã? – Ele indagou franzindo a testa meio confuso.
— Você quer que eu desça ou não? – Ela retrucou arqueando as sobrancelhas.
O garoto concordou com a cabeça com um pouco de resistência. Ele não costumava fazer acordos com ninguém e nem ceder ás condições de alguém. Contudo, Kyle queria vê-la de novo e tentar descobrir um único motivo pelo qual Davina não sabia sobre o que era e o dom que possuía, e também, por que Katherine não contara ainda.
— Davina! – Ele chamou baixinho. Assim como ela, o garoto não queria acordar o resto da casa e principalmente a dona dela. A garota apareceu na janela. – Vista algo legal.
— O que? Por quê? – Ela quis saber e com o mesmo sorriso de antes Kyle respondeu:
— Temos uma festa para ir.
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Davina não pensou no momento em que teria que pular de uma janela quando colocou seus jeans, uma blusa qualquer sua jaqueta jeans preta e seu All Star vermelho. Bem, ela nunca imaginou que faria tal coisa na vida. Claire era corajosa o bastante para isso, ela não. Além do mais, Claire saberia qual roupa usar em uma festa, ela não. Por isso, preferiu apostar no que vestia sempre. Jeans combinava com tudo... Não combinava? Esperava que estivesse certa.
Sentada no parapeito da janela com as pernas balançando para fora, a garota tentava juntar forças para empurrar o próprio corpo com as mãos e cair, e ela esperava que ele realmente a segurasse, ou teria alguns arranhões e hematomas pelo corpo.
— Confie em mim! – Kyle ressaltou abrindo os braços para pegá-la.
— Por que eu deveria confiar? Só conheço você há algumas horas! – Davina respondeu olhando para baixo e calculando o tamanho de sua queda.
— Por que sou sua única opção aqui? – Ele respondeu. – Por que você não vai querer perder uma festa legal num sábado à noite? E por que quer saber mais sobre sua irmã? – Completou usando as palavras que a convenceram de uma vez por todas.
A garota engoliu em seco o medo e se jogou do parapeito, fechando os olhos para não ver o quão feio e doloroso seria se atingisse o chão e não os braços dele. Ela esperou a dor, esperou a colisão, mas não veio. Tinha caído em algo macio e seguro. Kyle a segurou e ela estava intacta.
Apesar do vento frio da noite de outono, a jaqueta e o calor do corpo dele estavam aquecendo-a. Calor demais. Tempo demais. Os poucos segundos que ambos se encaram sem nem ao menos piscar foram constrangedores o suficiente para fazê-la se afastar assim que percebeu. Kyle a colocou no chão e se virou para a moto, pegando um dos capacetes, o entregando a ela e observando o que a garota tinha vestido.
— Nada mal. – Concluiu com ele mesmo.
As roupas dele pareciam o clichê de um bad boy do colégio: Jaqueta de couro, jeans escuros, um cinto e botas, tudo em preto. O cabelo bagunçado em fios castanhos escuros na altura dos ombros e os olhos verdes brilhavam sob a luz das estrelas como grandes esmeraldas.
— Eu não vou andar... – Davina começou analisando a moto e relembrando dos inúmeros acidentes que já lera nos jornais e assistira nas matérias de TV. – Nessa coisa aí.
— Relaxe, eu dirijo bem. – Ele afirmou ainda segurando o capacete para ela.
A garota respirou profundamente depois de um sorriso forçado enquanto olhava para as mãos dele. Ela pegou o capacete e o colocou na cabeça, sentindo o peso do arrependimento de ter saído de sua cama quente e aconchegante. Kyle a esperava, sentado na moto com as mãos prontas para liga-la.
— Pode, ao menos, me dizer para onde vamos? – Davina perguntou passando uma das pernas sobre o veículo e desejando que a tia não despertasse com o ronco do motor quando fosse ligado.
Kyle ligou a moto e ela sentiu o coração acelerar. Nunca havia andado em uma moto e muito menos o faria com um garoto, querendo ou não, desconhecido. Onde ela estava com a cabeça? O que ela não fazia pela família? Davina encontraria Claire. Ela prometeu a si mesma que o faria.
— Você vai gostar. – Ele disse olhando-a por cima do ombro e estava sorrindo sob o capacete. Kyle acelerou mais uma vez para testar o motor e a garota o abraçou deixando escapar um pequeno grito agudo. Ele riu. – Pode segurar em mim se quiser.
Davina corou e agradeceu por suas bochechas vermelhas iguais a uma pimenta não aparecerem. A última coisa de que ela precisava era que ele se achasse mais confiante do que já aparentava ser.
Como se estivessem voando, eles percorreram a estrada estreita e cercada de árvores altas. Os cabelos da garota voando para trás e os braços firmes envolta dele. Ela poderia estar enlouquecendo, mas nada se comparava a sensação de liberdade de praticamente voar e deixar a tia, suas regras e aquela casa para trás. Uma vez lera que a liberdade pode ser perigosa para aqueles que foram presos por muito tempo. Katherine havia cometido o erro de prendê-la dentro da mansão sob seus olhos, mas agora, ela já não era mais prisioneira.
Ela estava livre.
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Um conjunto de vozes ecoava por entre as árvores. Eles haviam adentrado a floresta que rodeava a estrada e Kyle tinha parado a moto na entrada da mesma, um tanto escondida para não correr o risco de alguém a roubar. Com duas lanternas, ambos iluminaram a escuridão e caminharam pelas raízes e folhas. O vento estava mais gelado naquela madrugada e apenas a jaqueta da garota não a aquecia o suficiente.
— Espero que tenha uma fogueira. – Davina disse enquanto segurava a mão dele para pular uma das raízes altas e não levar um belo de um tombo.
— Em quantas festas na floresta você foi que não tinha uma fogueira? – Ele perguntou ironicamente. – Espere, eu respondo para você. – Kyle pigarreou e tentou imitar a voz da garota. – Eu nunca fui a uma festa no meio do nada por que é perigoso e é coisa de gente doida.
— Eu não falo desse jeito! – A garota protestou encarando-o após revirar os olhos. – E... Você nem me conhece!
— Fala sim. – Ele Retrucou e colocou a lanterna abaixo do queixo, fazendo sombra nos troncos e iluminando o próprio rosto. – Eu preciso conhecer?
Kyle precisou abrir caminho com os braços para que eles pudessem passar pelos últimos galhos das árvores e chegar a uma clareira circular. Davina passou por debaixo dos mesmos e se deparou com uma linda cachoeira entre pedras, uma pequena lagoa, troncos servindo como bancos para mais cinco pessoas ali – donos das vozes que ela ouvira mais cedo – e é claro, uma fogueira. O fogo crepitava, consumindo a madeira e aquecendo todos a sua volta e... marshmallows? Aquela era a festa mais clichê que a garota já havia frequentado. Está bem, ela não frequentava muitas festas, somente as quais para as que Claire a levava.
— Maninho! – Olivia falou e se aproximou deles com um copo plástico vermelho na mão. – Agora entendi por que se atrasou! – a loira sorriu para Davina e a cumprimentou com um beijo na bochecha. – Bem vinda, Davina!
— Obrigada... Eu acho. – A garota respondeu sorrindo um pouco sem graça. Olivia a conduzia pelo braço delicadamente para o meio das pessoas ali, quase tropeçando entre os bancos.
Todos pareciam amigáveis, mas a timidez de Davina a fez pensar em milhares de situações constrangedoras. Ela não era boa em fazer amigos e em parte não gostava. Era mais observadora e preferia não falar na maioria das vezes.
— Quero que você conheça nossos amigos! – A loira falou sorrindo. Davina tinha certeza de que todos ali estavam levemente alterados por conta do que quer que estivessem bebendo.
Com todos os olhares sobre a garota, ela sorriu timidamente e acenou, sentando-se ao lado de Kyle no único tronco vazio. O calor do fogo já começou a esquentá-la a partir do momento em que se acomodou em volta dele. Os amigos dos irmãos lhe dirigiram alguns cumprimentos acolhedores e sorrisos simpáticos.
— Duvido você lembrar os nossos nomes depois de beber três doses disso aqui! – Ethan, um dos meninos dali, falou enchendo e entregando um copo cheio a ela.
No primeiro segundo, Davina pensou em recusar. Porém, ela não queria ser a garotinha certa e obediente que não bebia em uma festa. Não quando seus prováveis novos amigos estavam bem diante dela. Então, ela pegou o copo e deu um gole na bebida. O liquido transparente desceu queimando sua garganta e sua careta causou risadas entre eles. Seguiu-se o segundo e o terceiro já fez sua cabeça balançar.
Davina sacudiu a cabeça, tentando se livrar da sensação atordoante da bebida e olhou para todos ali.
— Dylan, Grace, Ethan, Olivia, Amarantha e... – A garota olhou para Kyle, fingiu pensar e concluiu a lista de nomes novos: — Kyle.
— Olha ela! Memória boa a dela! – Olivia comentou em sorrindo alegre demais.
De muitas maneiras aquilo era errado. Em algum canto da mente de Davina, sua consciência dizia para parar e voltar para a casa antes que Katherine acordasse. Mas, ela não queria voltar. Estava se divertindo depois de tudo o que aconteceu e não iria embora para dormir e o melhor de tudo era que ela estava na companhia de pessoas que nunca vira na vida. Pessoas legais e bem diferentes de todos os amigos que já teve. Parecia ter mais em comum com eles do que com todos os outros, o que tornava tudo mais curioso e intrigante.
Dizem que risada contagia, e de fato, era verdade. A garota estava rindo com piadinhas e conversas jogadas fora, histórias e experiências que passavam a ser engraçadas depois de alguns goles da bebida. A noite estava maravilhosa, mesmo com todo o frio e a pouca luz. Mas, uma voz saindo do meio das árvores fez todos se calarem e observarem as sombras.
— Que novidade! Temos outra protegida de Katherine!
Um garoto saiu da floresta em passos arrogantes e continuou caminhando até a roda de amigos, exceto que somente Davina era encarada por ele. Um olhar pesado e de certa forma, pervertido.
— Já que iria se atrasar, não deveria ter vindo Elliot. – Kyle se pronunciou depois do silêncio incomodo que se seguiu.
— Kyle. – Olivia se apressou em dizer em tom de aviso. Davina não sabia o que estava acontecendo ali, apenas que Kyle e o tal de Elliot não se davam muito bem, pois o clima logo ficou tenso.
— Não se preocupe Liv. Eu estava ocupado visitando alguns primos de segundo grau. – Elliot falou com um sorriso sarcástico e um tanto amargo. Seus olhos percorreram Olivia por inteiro, parando em suas pernas e depois em seu decote. – Eu só queria conhecer a novata. – Dessa vez, analisou Davina. Ele percebeu o quanto a deixava desconfortável e deixou escapar uma pequena risada. – Sou Elliot. Apesar do que eles devem ter dito de mim, eu sou bem legal.
— Temos definições diferentes do que seria legal. – Foi Amarantha quem falou, apoiando as mãos na cintura e segurando um olhar irritado do garoto.
O mesmo sorriu amargamente consigo e balançou a cabeça de leve para um lado e para o outro. Depois, voltou os olhos para Davina encolhida atrás de Kyle.
— Que casal lindo. – ele disse alternando o olhar entre o rapaz e a garota. – Os protegidos. Os intocáveis de Katherine. Na verdade, que grupo perfeito.
— Do que ele está falando Kyle? – Davina questionou encontrando as esmeraldas verdes e brilhantes no escuro da noite. Seu semblante era confuso, mas também, preocupado. Ela sentiu o garoto respirar profundamente e contrair o maxilar.
— Não é nada. – Kyle respondeu com a voz mais calma do mundo. – Ele não sabe o que fala.
— E como sempre o louco sou eu. – Elliot retrucou as palavras dirigidas a ele. Havia mais que sarcasmo em sua voz. Algo como inveja, ciúmes e talvez, raiva? Davina não sabia identificar direito. Por fim, o garoto a olhou uma última vez e disse: — Vejo você nas aulas novata.
Então ele se foi. Acabando com a noite de todos. Levando todas as risadas e toda a diversão desde o começo da singela festa. Além, de dizer coisas que Davina não gostou nada e de lhe causar arrepios, ela não conseguira perguntar a Olivia sobre Claire, pois, Kyle a levou para casa.
Os degraus da entrada da casa nunca foram tão receptivos. A garota estava cansada, com sono e irritada com Elliot por ele ter estragado sua primeira festa. Contudo, aquela situação a fez perceber que aqueles adolescentes frequentavam o colégio para o qual a tia a levaria na manhã seguinte, pois, era domingo de madrugada e tecnicamente, a manhã seguinte seria segunda feira. Ao menos, ela não estaria sozinha no seu primeiro dia de aula.
— Então, quer dizer que eu sou sobrinha da diretora? – Davina perguntou retoricamente arqueando as sobrancelhas.
— Sem pressão. – Kyle respondeu mesmo assim, tirando um sorriso dela, o que o fez sorrir também. – Vejo você amanhã?
— Se conseguir se aproximar de mim. – A garota brincou. – Quebrou uma janela lembra?
— Verdade! Eu me esqueci desse detalhe. – O garoto olhou para o vidro quebrado em uma das janelas do segundo andar, onde o disco de brinquedo de seu cachorro atingiu. – Katherine deve estar uma fera comigo.
— E o que você queria? – Ela riu também olhando o vidro.
Os olhos de Kyle permaneceram segundos demais sobre o rosto dela e suas bochechas coraram. Ambos estavam próximos demais e o calor emanava do corpo dele, a puxando para mais perto, mesmo sem a tocar. Antes que algo a mais acontecesse ali, Davina se apressou em dizer:
— É melhor eu entrar. – O garoto deu um mínimo sorriso no canto dos lábios, um tanto triste e desapontado. O que ele achou que iria acontecer? Com certa pena, ela avançou e beijou sua bochecha. – Boa noite.
Sem olhar muito para trás, Davina fechou a porta atrás de si. No instante seguinte a luz se acendeu, revelando Katherine parada no fim da escadaria de braços cruzados e vestindo seu roupão de seda vermelho vinho.
— A filha pródiga retorna finalmente.
Revirando os olhos e suspirando, a garota só conseguia pensar em uma única resposta. Ela havia sido pega no flagra e não tinha nenhuma desculpa que se encaixasse ali a não ser a verdade.
— Eu posso explicar.
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A luz amarela da sala de estar iluminava o suficiente para que a expressão descontente da tia fosse claramente vista. Davina sabia que Katherine não estava feliz com ela e muito menos com Kyle. Sentada em uma das poltronas no centro do cômodo, a garota ouvia o sermão que já esperava.
— Eu recebi uma ligação urgente de uma velha amiga há alguns minutos. Confesso que o que ela me contou foi inesperado e chega até ser preocupante. – A mulher começou rondando a garota. – Mas, não ver a minha sobrinha na cama dela e em lugar nenhum desta casa é mais preocupante ainda, não acha? – Ela concluiu se debruçando sobre Davina, as mãos apoiadas em ambos os braços da poltrona.
— Eu sinto muito.
— Há! Você sente muito. – Katherine desdenhou com as mãos na cintura fina, indignada com a atitude da garota. – É só o que vocês sabem dizer, não é? Eu sinto muito.
Davina engoliu o bolo de palavras que estavam prestes a sair de sua boca. Ela não queria brigar mais com a tia, apesar de tudo. Discutir nunca foi saída para nada.
— Qual o meu castigo? – Perguntou suspirando logo depois de se levantar da poltrona.
— Não sou eu quem vai te castigar. – A tia respondeu. – A vida já está fazendo isso por mim, não está querida?
A forma como Katherine devolvia as perguntas para ela, a deixava cada vez mais irritada e com desejo de responder. Porém, a última frase da tia a impediu de abrir a boca. Foram como um soco em seu estomago. Palavras agressivas acompanhadas de uma lembrança da presente realidade de Davina. Tudo fora tirado dela em uma única noite, destruído pelas chamas do incêndio e agora, a tia estava jogando tudo aquilo contra ela. Uma bomba de realidade depois de poucas horas de diversão. A sensação de felicidade evaporou mais rádio do que se formou.
As lágrimas queimaram no fundo da garganta da garota e algo a retorcia e a machucava por dentro, como uma faca a rasgando de dentro para fora. A culpa voltara. O medo e a raiva. Tudo de uma vez, uma avalanche de sentimentos ruins.
— Como pode dizer isso? – Davina perguntou com os olhos marejados e a voz abalada. Por mais que tentasse controlar a respiração, os soluços foram mais fortes e as lágrimas escorreram por sua bochecha e nariz.
— Oh! Eu machuquei você? – Katherine cruzou os braços sobre o colo fuzilando a sobrinha com um olhar afiado e no mínimo cruel. – Eu sinto muito.
Destruída e em pedaços, a garota desmontou na poltrona e observou a mulher subir as escadas.
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