O enterro passou como uma eternidade. Todos me olhavam como se eu fosse a culpada — inclusive os que estavam na festa. Droga, eu nem mesmo conhecia o garoto! O tempo todo tinha um maldito corvo me espreitando, então no meio daquela missa chata eu me levantei e fui até lá. Como eu esperava, ele não voou. Perguntei a ele o que ele queria, como uma retardada. Até parece que o corvo ia responder. Ele apenas coçou a asa com o bico e continuou lá. Mas, eram coincidencias demais. Peguei uma pedra e joguei nele, sem dó. Se ele não voasse, ia morrer. Que contasse com a sorte, pensei. A pedra simplesmente acertou o corvo e caiu. Nem um arranhão naquele maldito! Eu pensei que se um corvo sobrevive a uma pedrada sem um arranhão, ele merece viver, é a lógica do mundo. Então saí dali e deixei pra lá. Até porque eu tinha coisas piores pra me preocupar. É. O tal...ritual.

Cassidy disse que teriamos de ir 5, como no ritual feito no apartamento dela. Três foram de preto, amigos dela, e nós duas fomos de vermelho. Parte do ritual. E fomos lá, 5 marmanjos de 27 anos invadir um hospital psiquiatrico plenas 3h da madrugada. E, olha...eles protegem bastante pra um lugar que só guarda um bando de loucos. Felizmente conseguimos entrar — quando digo entrar, quero dizer dentro daquele imenso complexo. Estavamos no jardim da frente, e eu não deixei Cassidy passar dali. Não era necessario. Fizemos o clássico pentagrama, com cada um numa ponta. Cassidy espalhou sal em volta de cada um de nós — ela disse que demônios iriam querer sair dali, mas não poderiamos deixar.

Ela começou a recitar coisas em latim, jogar sal, agua benta em nós. Até aí tudo ok. Até que ela tirou de dentro da mochila uma garrafa e disse: "E eis aqui o sangue dele". Era o sangue do Tony! Como ela fez aquilo? Eu perguntei, mas Cassidy parecia possuida! Ela não olhava para mim, mas através de mim! Eu preferi acreditar que era só sangue de galinha, como ela fez tantas e tantas vezes na nossa adolescencia. Ela colocou a garrafinha no meio do pentagrama e começou a rodopiar como uma louca. Aquilo era demais pra mim. Tirei ela de lá.

Acidentalmente, a garrafa caiu no chão e se misturou com o sal. Aliás, o sal devia ter algo misturado, porque saiu fumaça ao misturar-se com o sangue. Cassidy entrou em estado de loucura. Me xingava, gritava comigo e dizia que eu era completamente insana por interromper o ritual, que agora o portal estava aberto. Tive que dar um tapa na cara dela e sacudi-la pra que parasse. Então ela cuspiu em mim, me chamou de amaldiçoada e desmaiou.