Last One Standin

3 Running out of time


Tic Tac. Seu pai o olhava. Quando de novo Light poderia dizer tudo que se negava a dizer e obter o perdão da família dele? Tic tac. O barulho ia castigando o orgulho. Tic tac. Última chance. Light não era burro. Sabia que a única parte dele que nunca poderia racionalizar era seu coração. Seu coração era — além do poder — sua única fraqueza. E ele começava a pesar. Tic tac. Há quanto tempo ele andava ignorando o próprio coração? Seguramente, desde o death note ter aparecido. Talvez até antes disso.

Ele não iria mais aguentar. Sua teimosia não conseguiria mantê-lo, ainda mais sozinho, como supunha que ficaria. Gostasse ou não — e de fato não gostava —, teria que admitir. Admitir que se arrependia. Pigarreou e tentou formar uma frase. Não, não soava bem. As palavras pareciam se negar a formar uma frase convincente, ou até mesmo coerente. Olhou para os demais e abriu a boca. Travou. Talvez seu ego fosse maior do que pensava.

— E-eu não sei como dizer — acabou a optar pela realidade, dando-se por vencido. – É-é difícil admitir. — Soltou um longo suspiro de frustração. Seria tão mais fácil mentir. Dizer a verdade... parecia estar tão... enferrujado.

— Me arrependo de ter demorado tanto a ver que as pessoas valiam à pena. Que elas mereciam proteção. Nunca pensei que poderia me preocupar com as outras pessoas. Não achei que muita gente pudesse ligar pra mim. Afinal, fui largado num orfanato. Arrependo-me de não ter voltado lá e visitado quem era como eu. Talvez eu pudesse ter ajudado — L disse, claramente tentando ajudar, porém mantinha seu olhar distante. Não parecia saber lidar ainda tão bem com as pessoas. Mas ao menos ele agora sabia que se importava com elas.

— Me dói ter trabalhado tanto. Tentei tanto fazer um mundo melhor pra você, que de fato me esqueci de te ensinar que o mundo melhor começa na gente, no que a gente ensina para os outros. Ensinar de que dos pequenos eventos, grandes coisas surgem. Que só de ser um bom homem e contagiar os demais com isso... isso já fazia o mundo melhor... Tentei tanto te preparar pro lado mais feio da vida que... acho que esqueci de te preparar para o mais bonito também — Seu pai o fitou, algumas lágrimas nos olhos, um sorriso triste. Um pedido de desculpa nos olhos e nada mais.

Os olhos de L, Soichiro e Matt se viraram para o loiro que permanecia de cabeça baixa, disfarçando e fingindo que não era com ele. Light engolia em seco e digeria as palavras. Sempre entendera tudo rápido demais, mas hoje pareciam estar, pela primeira vez, realmente testando o intelecto dele.

— Mello... — O ruivo levantou uma sobrancelha. — Sua vez.

— Eu me arrependo de ter perdido tanto a cabeça e de ter perseguido tanto o albino querendo ser o número um — Mello suspirou, falando tudo de uma vez, e franziu a testa. — E você, besouro? Não vai falar nada, não?

— Ok, ok — riu o ruivo. — Me arrependo de ter ficado tanto tempo no gameboy. Poderia ter visto mais coisas. Conhecido mais gente.

— Por que soou fácil pra você? — Mello cerrou os punhos, irritado.

— Ah, sim, e me arrependo de não ter mantido esse loiro preso durante a TPM, podia ter salvado vidas — Matt brincou, logo se encolhendo para o amigo que pulou em suas costas e começou a dar uma chave de braço falsa no ruivo, o que realmente só acabou com os dois rindo descabelados, mas, ainda assim, rindo.

Light sorriu. Não sabia como, mas de certa forma, eles haviam ajudado. Fechou os olhos e respirou algumas vezes, não acreditava no que ia fazer. Depois de tanto tempo, dizer a verdade lhe parecia irreal. Pigarreou e estranhamente constatou que as palavras não soavam mais tão incoerentes. Talvez valesse realmente a pena dizer a verdade.

— Me arrependo de ter deixado o poder me levar. De ter esquecido meu coração. De ter machucado quem eu amava no meio do caminho. Ainda quero um mundo melhor... Mas eu quero isso do lado de vocês — Abaixou as vistas. Light sempre fora acostumado a ser centro das atenções por nota ou aparência, mas nunca havia ficado de fato, envergonhado. Gostava, até. Mas dizer o que sentia por dentro, isso realmente o assustou. Mas sentia-se bem. Pela primeira vez em anos podia dizer. Podia dizer que era, com todas as letras, Light Yagami.

Light estava sendo abraçado pelo pai quando a morena chegou batendo palmas. Ela sorria. Mas Light tremia. O tempo dele acabara? Já? Queria mais um tempo. Queria ser Light mais um pouco. Nunca temera a morte, e continuaria sem temer, se ele pudesse continuar ali, com seus amigos. Mas seu contrato dizia coisa diferente. Ryuuku lhe avisara isso. E agora aquela frase ficava rodando na cabeça dele, de novo e de novo.

Entretanto, não houve um show de luzes, nem nada. Na verdade ela nada fizera. “Ao menos por enquanto”, acrescentou Light mentalmente. Ela se aproximara, sorrindo calmamente com uma expressão quase orgulhosa na face. A essa altura, Light não tentava mais entender. Já fora muita coisa para a cabeça dele. Fora o dia — terá sido um dia? Um mês? Talvez tenham sido horas ou até mesmo, questão de segundos, ele não fazia a menor ideia – mais exaustivo que ele já tivera.

— Vocês todos aprenderam muito hoje! Estou orgulhosa — sorria a morte, agora abraçada em Misa, que observava tudo impressionada e inacreditavelmente quieta, e que, por causa disso, havia sido até esquecida pelos demais. — E você, Misa, o que aprendeu?

— Ela não se lembra de nada, melhor deixá-la em paz... — Light começou, sendo cortado pela própria Misa.

— Não...Yagami-san? — Ela balançou a cabeça. — Misa... Misa acha que aprendeu algo... Acha.

—Diga, Misa. — A morena sorria, se divertindo com a cara de surpresa dos demais.

— Misa... tem que tentar... ser feliz... Não é isso?

L arregalou os olhos, incrédulo. Levantou a mão direita e levantou o dedo indicador, fazendo círculos com ele, o que Light logo entendeu, com um olhar tão atônito quanto o detetive que, pelo susto, acabara até por parar em pé normalmente, descurvando suas costas já tão naturalmente curvadas.

— Ela nos deu a volta.

— A gente demorou tanto... — L disse, concordando.

— Às vezes o coração fala mais que o intelecto, e ensina mais também. Vocês deviam saber que o coração é sempre um bom caminho — a morena riu.

Light deu uma risada melodiosa. Quase como a de uma criança. Mas não em tom de chacota. Ele de fato entendera. E agora ria de sua própria inabilidade de aprender coisas que não eram lógicas. Ria de sua própria ironia, ria de estar feliz por só contar a verdade. Ria como não ria há tempos, e tentava falar com L com esforço, já que seu riso já começava a atrapalhar a comunicação.

— E, haha, sabe quem também já sabia desse lance? — Light ria e olhava pra L, que devolveu um olhar desentendido. – Quem a gente cismou em chamar de idiota! Deu-nos a volta também!

— Matsuda! — L ria também agora. — Formaram complô e não nos avisaram, sabiam das coisas e se fingiram de desentendidos, e quem de fato não entendia era a gente! — L revirou os olhos, rindo. Ele ainda tinha muito o que aprender. E, agora, achava que aprenderia com gosto. Com mais gosto do que nunca.

— Mas agora eu tenho resolver o que faço com vocês. — A morena sorriu, cortando as risadas dos dois amigos. Light queria mais uma vez ouvir o tic tac irritante. Mas ele havia parado. Seu tempo havia terminado. Só que ainda nem sabia o que isso significava.