Last Hope
2 Expostos
Notas iniciais
Não me sinto vivo. A sensação de nostalgia misturada à sinestesia afeta a minha essência. As últimas palavras que minha mãe me dissera antes do começo de nossa preparação, recorrem a minha mente “A vida que conheceste não é a vida que já lhe foi de direito. Agora você terá o direito de lutar”. Percebo então que tudo isso tem um sentido.
Cores, formas e expressões inimagináveis refletem em meus olhos. Isso é a Terra. A Terra que todos temem. Todos nós estamos maravilhados e impressionados com tanta informação. Sinto-me em contradição com a minha existência, em um local externo ao que conhecíamos como realidade.
Pousamos dentro de um campo, onde se pode avistar uma floresta (algo ainda surreal para todos) ao lado e, um longo riacho com água cristalina. Água. Nossa água na espaçonave era escassa e, agora a temos em demasia.
— Pessoal, olhem isso! – diz Jake, uma das pessoas que mais se saia bem durante o treinamento. Ele traz consigo uma maleta, que percebo eu, encontrou dentro da espaçonave. – Também tem algumas mochilas com lanternas, facas e outras coisas que não pude identificar.
Bella e Matt são os primeiros a se aproximar, eles ajudam Jake a abrir a maleta. Tento alcança-los.
— São mapas e... Alguns dispositivos semelhantes a um tablet – Ela diz segurando-os e com a ajuda de Matt contabiliza 25 no total, igual ao numero de pessoas de nosso setor.
— Acho que temos que distribuí-los – diz Matt. Todos concordam e eles começam a distribuir os dispositivos. Bella entrega o meu. Nós já conversamos antes, ela não era muito receptiva.
Observo a estrutura do equipamento e o ligo. As siglas “ROE” aparecem na tela e, após alguns segundos a área de trabalho é mostrada. Nela observamos diversos livros e um vídeo, abro um dos livros por curiosidade e nele percebo uma espécie nunca antes vista. Lisa aperta o play no vídeo e todos nós nos reunimos em volta para escutar. Um amplo barulho, porém distante, nos impedem de escutar o vídeo. Todos se direcionam para tentar ver o que era.
— Vamos ver o vídeo antes de tomar decisões impensadas – John, que sempre foi como eu e não falava muito com as pessoas, diz com certo tom de prepotência.
Todos se voltam para o vídeo. Nele, a mulher que já nos deu algumas explicações diz:
“Se vocês estão vendo esse vídeo, chegaram a salvo na Terra. Há 97 anos, como já contado a vocês, uma guerra nuclear destruiu e devastou todo o planeta, a utilização de compostos químicos e radioativos pode – ela se corrige – desculpem, deve ter deixado marcas permanentes. Cuidado, tudo isso pode ser tóxico. O ar, a água, os alimentos, vocês foram enviados para checar. Sempre tomem cuidado. Na luta para a sobrevivência vale tudo, boa sorte.”
O barulho antes escutado se torna ainda mais evidente.
— Fogo. – falo com a voz ainda instável. Fogo é observado e sua origem aparenta ser adentro da floresta.
— Temos que nos dividir – Emma fala em tom sugestivo. Ela sempre foi simpática e amiga de todo mundo. Sua companhia sempre me deixava bem.
— Formaremos três grupos, um grupo checará a origem do fogo, os outros se dividirão na procura por alimentos e abrigo. – diz John.
— Nunca foi decidido que você tomaria as decisões, John. – diz Drake. – Nós temos que votar, eu me candidato.
— Eu voto para o John. – afirmo.
— Eu também. – diz Andrew, que ao contrário de mim, possui muitos amigos que o acompanham em seu voto. Jenny vota em Drake e junto com mais dez pessoas, contra quinze a favor de John, que agora vitorioso, fala:
— Faremos como eu já havia dito. Quem quer liderar a equipe que irá procurar a origem do fogo?
Algo estranho ascende no interior do meu corpo, sinto que preciso fazer isso. É a minha hora de começar a existir. Então, digo com convicção:
— Eu vou – Ouço pequenas relutâncias.
— Ok. – Jake diz com um sorriso desafiador. – Você irá mais seis pessoas, a maioria ficará aqui por motivos de isso ser perigoso. Já as escolha.
— Tudo bem. – digo. – Eu vou com Andrew, Jenny, Emma, Thalia, Matt e... Drake.
John apenas acena com a cabeça. Bella é escolhida para liderar a equipe que irá procurar alimento e John diz que será o da equipe que procurará ou construir abrigo. Começo a sentir medo, eu queria começar a existir, agora tenho que encarar as consequências.
***
— Vamos – digo, indo em direção à floresta. Todos que foram escolhidos por mim me seguem.
Árvores de grande porte, flores coloridas e espécies de insetos (como constado nos livros do dispositivo) nos dão caminho a uma pequena trilha. À medida que seguimos percebe-se que o clima fica cada vez mais denso. Mesmo avançando parece que a origem do fogo apenas se distancia. Avistamos uma árvore com frutos.
— Ei pessoas, olhem isso. – Drake diz, segurando uma fruta bem vermelha com pequenas saliências marrons.
Todos se agrupam em volta da árvore e começam a observa-las. Alguns as pegam e examinam.
— Esperem, não comam isso, pode ser tóxico! – digo, relembrando do vídeo, cujo assistimos.
— Que isso, você deveria parar de ser paranoico. – Matt, pegando uma das frutas diz, ele a morde. – Viu?
Thalia repete a ação de Matt, as outras pessoas ainda em relutância pelo que eu disse, seguem meu conselho.
— Não comam. – sussurro para Jenny e Andrew.
Observo que Emma me escuta e aceno para ela não comer. Ela apenas faz um sinal de sim. Jenny avisa a Drake, que mesmo com hesitação, ouve meu conselho. Começo a recolher algumas e as coloco dentro da mochila.
— Levaremos algumas na mochila até decidirmos se é seguro, pois o efeito pode ser demorado. – digo. – Lembrem que vocês foram avisados.
Continuamos seguindo em direção ao fogo, Matt e Thalia ainda comem as frutas. A noite está chegando. São muitos ruídos, grandes, pequenos, minúsculos. Todos estão bem atentos e, não conseguimos identifica-los com facilidade.
***
Após uma longa caminhada, chegamos à origem do barulho. Pedaços de metal no chão, e árvores queimadas nos recebem e... O que aparentam ser corpos. Começamos a vasculhar o local, os galhos e as cinzas atrapalham nossa passagem.
Após um tempo com todos ainda chocados, descobrimos que uma das naves não conseguiu pousar com sucesso. E... Aparentemente estão todos mortos.
Ficamos agitados e com uma sensação de vazio. Apesar de ninguém ter escolhido participar da missão, todos queriam completá-la e isso significa menos uma oportunidade, menos uma chance. 25 pessoas estão mortas. Mas ainda não termina por aí, avistamos animais. Mas não são animais comuns.
— Olhem! – diz Matt. Ele aponta em direção à criatura que não conseguimos identificar com coesão. Todos abrem o dispositivo, é algo nunca visto, não é normal. Consigo contar seis olhos, garras afiadas e orelhas pontudas, a calda aparenta ser áspera e os pelos negros caem de uma forma ondular, semelhante à de um lobo.
Ficamos eufóricos e indecisos a respeito de nossas ações, o próximos segundo podem definir a nossa vida. Mais “animais“ chegam, parece que a criatura não é solitária. Começo a pensar em um plano, eu quis ser o líder. Eu serei o líder.
— Eu vou distraí-los. Vocês voltem para o acampamento. – digo em voz abafada para não ativar a fúria das criaturas.
— Cara, nós não vamos sem você. – diz Andrew.
— Vão sim, eles precisam de vocês. Eu vou conseguir – digo tentando demonstrar confiança. – Andrew, cuide da Jenny, por mim. – falo em menor tom.
— Eu vou ficar e ajudar – diz Emma.
— Mas... Não você irá com eles. – afirmo.
— Não, você vai precisar de ajuda e eu estou aqui para isso. – ela diz.
— Eu também irei ficar – diz Matt. – Vocês precisarão de alguma força.
Antes que outras pessoas pudessem se oferecer, lhes dou uma ordem.
— Todos os outros voltem agora para o acampamento! – falo com a mesma prepotência que Jake usara – Vão, Drake abrirá caminho. – olho para Drake e ele acena em concordância.
Eles dão passos calmos e silenciosos em direção à trilha pela qual viemos. Percebo que nós precisaremos de equipamentos, ainda temos as facas, mas acredito que não sejam suficientes e, em uma luta de forças, as criaturas se sairiam vitoriosas. Avisto pedaços lineares dos estilhaços da espaçonave. Precisamos pegá-los, mas antes alguém terá que distraí-los. Penso na lanterna que pode nos ajudar em algo. É hora de formar nossos planos, pois o tempo nunca foi tão precioso.
— Matt, tente distraí-los com essa lanterna. – jogo-a para ele – A luz pode fazer um efeito de desatenção nas criaturas. Emma você vem comigo, temos que tentar alcançar os estilhaços pontudos da nave, nós podemos utiliza-los como armas!
Matt acende a lanterna. A luz demonstra certa funcionalidade, dando tempo para eu e Emma nos abaixarmos. Nós vamos seguindo em direção aos destroços da nave enquanto Matt distrai as criaturas. Emma alcança um e o pega, é um pedaço médio, afiado de metal. O fogo atrapalha nosso movimento, e o ar que nos parecera agradável no inicio, não é tão atrativo agora. Passo através dos corpos, o cheiro, a terra misturada ao sangue me dão náuseas, preciso sair logo daqui. Consigo pegar outro fragmento afiado da nave, agora preciso voltar.
Observo que Matt largou a lanterna, ele aparenta estar tonto e se desequilibra caindo na terra. Levanto-me e faço um movimento rápido para chegar até ele, que esta pálido e tremendo... A fruta. A fruta era tóxica, uma felicidade indevida me contagia, eu estava certo! Mas não deveria estar alegre por isso, é doentio. Jogo a lanterna para Emma, ela acena. Percebo que as criaturas estão se aproximando.
— Matt, fale comigo – digo olhando fixamente para seu rosto. Não ouço respostas – Matt! Fale alguma coisa!
— Eu... Eu vou ajudar vocês a saírem daqui. – Matt diz com a voz rouca e volátil – Me ajude a levantar.
— Mas... Não, todos nós sairemos vivos daqui.
— Você sabe que isso não é verdade. – ele diz – Austin, eu já fiz muitas coisas erradas em minha vida, essa é a chance de obter a minha absolvição, de fazer algo bom. Não me impeça, eu realmente acredito que a missão se completará e eu quero ter uma participação nisso. Agora, ajude-me a levantar! Preciso chegar até aquela placa de metal, me leve até onde eu achar que é seguro.
Apenas assinto com a cabeça e tento levanta-lo com dificuldade. As criaturas já estão muito perto de Emma. Arrasto-o pela terra com certa dificuldade. Eu sei o que ele irá fazer,ele vai se sacrificar. E eu o entendo, ele esta fazendo isso para o bem comum, ele vai nos salvar.
— Agora se afaste, pegue Emma e a tire daqui. – ele diz com a voz em forma de sussurro.
— Obrigado. – digo.
Matt começa a rastejar entre os destroços, até que ele da apenas um grito alto e grave. As criaturas se voltam para ele. Escuto o movimento das garras se voltando para ele, o atrito com o solo e o cheiro da terra misturada às cinzas que oscilam no ar me deixam perplexo. As feras alcançam Matt.
As garras cortando sua carne me dão nojo, o sangue que suja o chão e, as feras amontoadas tornam a cena insana e doentia. Emma observa desnorteada, ela aparenta compreensão na referida atitude dele. Não aguento ficar observando isso nem mas um segundo e, nós precisamos correr o mais rápido que pudermos. Grito para ela:
— Vamos! Por aqui – aponto em direção a nossa trilha.
Guardamos os estilhaços que conseguimos pegar e Emma me segue, até certo ponto.
— Então, é tarde – ela diz. – O que faremos agora?
— Ele morreu. Isso é tudo culpa minha, eu não deveria ter me indicado para liderar... Thalia que também comeu a fruta, ela... Eu poderia ter impedido-os – falo ainda em estado de choque, a antipatia misturada ao desgosto se tornam evidentes.
— Você fica ainda mais lindo e apaixonante quando está triste e depressivo – ela diz.
— Eu sei, por isso estou assim a maior parte do tempo – é claro o sarcasmo em minha voz. – Como você consegue está conseguindo ficar tão calma nessa situação?
— Eu sempre preferi ver o lado bom das coisas, ele fez o que tinha que fazer. – fala – Nós precisamos arranjar um lugar para acampar, já está escuro e como aprendemos, a floresta é perigosa.
— Sim, precisamos comer alguma coisa – digo, com uma improvável duvida: O quê?
— Aqui, são frutas que colhi perto do riacho antes de explorarmos a origem do fogo. – diz – Precisamos arriscar.
Tenho que assentir, é a única maneira. Colocamos as frutas na boca, e as comemos. Agora é esperar para ver o efeito.
***
Seguimos caminhando pela trilha, procurando um lugar que nos sirva de abrigo. Cortamos o caminho em direção ao lago que foi encontrado. Escutamos um alto grunhido, e um animal eufórico começa a correr em nossa direção. Parece que essa noite nos aguardava mais do que esperávamos. A incrível semelhança com um urso e o pelo fosco abrangem nossos olhos, agora o animal é bem maior do que o bando antes encontrado.
— Aparentemente, usaremos nossas armas improvisadas mais cedo do que gostaríamos – digo com uma estranha ironia na voz.
— É “aparentemente”. – ela diz.
O animal corre mais rápido em nossa direção. E os gritos começam.
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