Last Dance

1 Não queria dividir Kazuma com ninguém.


Notas iniciais
Olá!
Essa história também faz parte do evento de drabbles e músicas do @StrayProj e também foi inspirada na música "Dancing on my own", do Calum Scott. Era pra ser uma drabble, mas acabou tendo quase 2k kkkkkk
A betagem e a capa foram feitas pela @gcattus, e essa história é o presente (com o casal certo, dessa vez) para o meu amorzinho @Archie-sama.

Boa leitura!

Eu só quero dançar a noite toda
Estou todo bagunçado, eu estou tão desalinhado [...]
Estou no canto, observando você beijá-la
E eu estou bem aqui, porque você não pode me ver?
(Calum Scott – Dancing on my own)



Yato sabia que estava sendo mesquinho.

Sabia que evitar o melhor amigo sem ele saber na noite da formatura era no mínimo imaturidade e que ficar com aquela cara horrorosa não mudaria absolutamente nada, só estragaria as próprias fotos. Mas... Pediu um drink bonito no bar e, tentando encontrar algum ânimo para voltar para a pista de dança, bebeu de uma só vez; nem toda a cachaça e aquela música alta quase estourando seus tímpanos conseguiam arrancar a voz de Kazuma de sua cabeça.

Finalmente vou pedir a Veena em casamento, o Hirano disse mais cedo, tirando a mão esquerda do volante para ajeitar os óculos, numa tentativa bem ruim de disfarçar as bochechas coradas e aquele sorrisinho bobo que sempre surgia ao falar dela. E Yato apenas comemorou, torcendo para que o amigo não reparasse no fio de desapontamento por trás dos parabéns.

A verdade era que não queria dividir Kazuma com ninguém.

Tirou o anel do bolsinho da lapela, observando o pequeno diamante cintilando sob as luzes da pista; sabia que estava agindo como uma criança mimada e possessiva, mesmo assim continuaria fingindo a noite inteira que nunca tinha encontrado o anel. Se ele desse falta, talvez até perguntasse cinicamente se não tinha esquecido em casa ou dentro do carro…. Tudo para adiar nem que fosse um pouquinho aquele pedido. Sabia que não tinha o direito de agir assim, mas sim, estava com ciúmes.

Kazuma sempre tinha sido seu. Seu melhor amigo, seu escudeiro, benfeitor, confidente. O único a estender a mão depois que o pai o espancou e o expulsou de casa por “não ser homem o suficiente”. A buscá-lo às três da manhã num fim de mundo sem fazer perguntas, a cuidar das suas feridas, rir das suas bobagens e dar conselhos muito sábios que Yato nunca conseguia seguir.

Eram o nerd e a gay, uma dupla imbatível; não estava pronto ainda para ver a sua metade se tornar a metade de outra pessoa… Ainda mais se a pessoa em questão fosse aquela mulher, que tinha passado o curso inteiro infernizando sua vida pelos motivos mais bobos possíveis e que, nos últimos dois anos, estava sempre em seu apartamento, apenas de calcinha e sutiã — às vezes nem isso —, alternando entre aturá-lo e tratá-lo como uma peste.

Esfregou os olhos marejados com a manga da camisa social e virou um shot de alguma coisa amarga demais para o seu gosto; no fundo, tinha consciência de que o problema não era Bishamon, nem as discussões esporádicas por motivos fúteis que tinha com ela. Mesmo que ela às vezes fosse uma vaca, que enchesse o ralo do banheiro com quilômetros de cabelo e sempre usasse algum golpe duvidoso para roubar o controle de suas mãos, não precisava de muito esforço para perceber o quanto ela fazia bem para ele. Kazuma ficava mais feliz quando ela estava por perto, e o mesmo parecia valer para Bisha — tinha até descoberto que Veena sabia sorrir!

Fingiu que a garganta embargada era sede, que a vista estava embaçada por causa da cachaça, e tentou afogar seus sentimentos com mais um drink; estava sendo um babaca mimado e ingrato, e se odiava por isso. Porque o certo seria ficar feliz com a felicidade dele, porém odiava os sorrisos, as cócegas no sofá da sala, a carícia na coxa por baixo da mesa, que eles sempre juravam que ninguém estava vendo mas que sempre fazia Yato perceber que estava sobrando. Odiava o jeito que eles se olhavam, porque aquilo parecia criar um universo reservado apenas aos dois em que Yato obviamente não era bem-vindo.

Odiava voltar para casa e encontrar as roupas espalhadas pela sala, e nem era só por saber que eles estavam transando, apesar de isso também ser nojento. Tinha que aturá-los no dia seguinte fazendo café da manhã juntos, com muito menos roupa que o necessário, trocando beijos e sorrindo sobre qualquer coisa absolutamente trivial. Piscou para o barman como agradecimento pelas bebidas, fingindo ser o paquerador incorrigível de sempre, e voltou para a pista de dança; odiava como eles pareciam perfeitos um para o outro, porque isso sempre lembrava Yato de que ele era um maldito invejoso.

E dessa vez não era diferente.

Porque já estava bêbado, pulando e berrando palavras desconexas no ritmo da música, mas toda vez que encontrava o casal perfeito em seu mundinho particular, dançando, brincando e trocando beijinhos, Yato só conseguia pensar: por que não podia ser eu? Sempre achou que era um espírito livre, que não gostava de amarras nem servia para relacionamentos… Mas Kazuma era seu porto seguro, suas cervejas às duas da manhã, o único digno de encher seu saco com broncas e também a experimentar as suas comidas sem reclamar. Ele era sua casa, e Yato amava voltar para lá.

Não estava pronto para ficar sozinho.

Tentou ignorar os próprios pensamentos e a música lenta que começava a tocar nos alto-falantes e continuou a dançar sozinho; provavelmente estava fazendo mais uma tempestade em copo d’água, mas…

— Yato… — Kazuma segurou de leve suas mãos, tentando imitar de um jeito esquisito seus passos; em outros momentos, o Fujisaki reclamaria, diria brincando que estava envergonhado e que pareciam dois idosos dançando daquele jeito, mas simplesmente sorriu, derrotado.

Tinha fugido a noite inteira porque sabia que jamais conseguiria mentir para ele.

— Você colocou o seu anel no terno errado — confessou, então, se aproveitando da proximidade para observar o sorrisinho de canto e as pequenas sardas espalhadas no rosto tenso.

— Eu coloquei de propósito. — o Hirano respondeu, parando de encarar os próprios pés para apontar para o bolsinho de sua lapela e sorrir, tímido; aquela com certeza era uma decisão burra considerando seu comportamento no mínimo peculiar em festas, mas… As mãos geladas agarraram com um pouco mais de força os seus pulsos e os olhos verdes o encararam, aterrorizados. — Eu… Eu estou fazendo a escolha certa, não é?

A respiração de Kazuma se tornou mais ansiosa e os passos já não muito sincronizados daquela dança se perderam completamente no tempo. Não, não, não… Quase conseguia ouvir as paranoias rondando os pensamentos dele; as inseguranças ressurgindo, novos e velhos "e se" voltando para assombrá-lo. "E se ela não me amar", “e se for cedo demais", “e se não der certo"...

Não deixaria Kazuma desistir dessa vez.

Continuava sendo um grande invejoso, mas talvez, lá no fundo, não fosse tão egoísta assim.

— Vem cá. — o Fujisaki tocou gentilmente o pescoço do amigo, trazendo-o para um abraço apertado, e, embora sua voz estivesse embargada demais para parecer bem humorada, brincou: — Preciso mesmo repetir todas as coisas bregas que você me fez ouvir enquanto ensaiava esse pedido?

Porque tinha passado as últimas semanas ouvindo planos, imaginando o cenário e dando palpites e sugestões até chegarem à declaração de amor mais sincera… Para, então, assisti-lo ajoelhar à sua frente milhares de vezes, recitando tudo o que sempre quis ouvir — e ser obrigado a inventar todo tipo de resposta possível, desde um dramático tapa na cara até ofensas verbais, em parte para preparar o amigo ansioso para o pior, mas principalmente pra esconder as próprias emoções. Porque as lágrimas, o coração acelerado, o abraço apertado…

Todos os seus sim eram reais. Mas ele jamais conseguiria perceber isso.

Manteve aquele abraço, aquele desengonçado “um pra cá, um pra lá”, por mais segundos do que era realmente necessário, tentando controlar a vontade insuportável de chorar. E, mesmo sem entender o motivo do seu apego, Kazuma retribuiu o abraço na mesma intensidade.

— Tá vendo… Foi por isso que deixei o anel com você. — ele admitiu com um sorriso, e o Fujisaki quase se viu dentro do quarto escuro do Hirano, abraçado a ele durante horas em silêncio, até que ele se acalmasse. Quase se ouviu dizendo “tá vendo, no fundo você só precisava de um abraço”. Mas dessa vez…

Respirou fundo e sorriu um pouco, tentando se forçar a desfazer aquele contato.

Para Kazuma, aquele era só mais um carinho.

Para Yato, era uma despedida.

— Já vou… — Ele deu dois tapinhas em suas costas, pegando o anel de seu bolso, e sorriu ao ver seus olhos brilhando. — Não chore dessa vez.

— Eu não vou chorar… — respondeu, mordendo involuntariamente os lábios, mas não foi o suficiente para segurar as lágrimas. Observou Kazuma acenar uma última vez e murmurar um me deseje sorte abafado pela música alta; amava aquele homem, muito mais do que ele imaginava, e, talvez porque não tivesse chance nenhuma, foi fácil demais admitir isso. — Te amo, Kazu.

— Eu sei.

Não, ele não sabia. Também não precisava saber.

Por isso, simplesmente engoliu as próprias lágrimas e, abrindo espaço entre as pessoas, pediu ao DJ a música deles. Levantou os polegares e, soltando um beijo para o ar, desejou ao melhor amigo boa sorte mais uma vez. E aceitou como prova de amor — que não era exatamente o amor que gostaria, mas que era muito mais valioso — aquele sorriso tímido e um aceno. Aquele crush, aquela inveja passageira de um romance que não era seu, nada daquilo apagaria o quanto amava Kazuma e torcia com todas as forças para que ele fosse feliz.

Por isso, mesmo que fosse extremamente doloroso assisti-lo recitando aquele pedido, Yato continuou ali. Parado na escuridão, em algum cantinho, observando os olhos de Bishamon se encherem de lágrimas e a habitual carranca se transformar naquele sorriso apaixonado que a fazia brilhar. Um óbvio sim, um beijo, uma dança; voltou para o bar e, pedindo mais um drink para o barman gostoso, escolheu deixar seus problemas para amanhã e curtir a festa.

Afogar as mágoas em música alta e cachaça era o que sabia fazer de melhor, afinal.

Mas vez ou outra seus olhos voltavam ao casal dançando entre beijos e, mesmo que adorasse festas, farra e dormir com estranhos sem compromisso, no fundo queria aquilo também. Yato sorriu sozinho, dançando e cambaleando; querer não era poder, nunca tinha sido. E, estranhamente, o amor parecia pertencer a pessoas boas, não a egoístas desajustados como ele. Mas estava cansado de ser sozinho. Não queria mais ser um espírito livre, não se isso significasse uma vida inteira de relacionamentos falidos, inveja e despedidas.

Seria muita audácia desejar que alguém o amasse?

Será que alguém teria coragem de amá-lo daquele jeito?

Notas finais
Espero que tenham gostado...
Deem amor às outras histórias do @StrayProj, lá no Spirit.
@Archie-sama, você merece todas as histórias do mundo, amiga.
Muito obrigada por lerem até aqui e até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!