Last Breath
8 Capítulo 8.
Notas iniciais
Festa. Lily odiava admitir que adorava uma boa festa. Não que ela fosse a muitas, mas quando ia, ela não podia deixar de admitir que era incrível. Naquela noite eles iriam a uma festa da universidade, Domi havia convidado Hugo. Ela não sabia que havia convidado o Hugo, mas quando se chama a irmã mais linda do mundo para ir sem perceber quem está ao redor, você convida quem ouvir.
E Hugo ouviu. E Lily sabia que aquela era a ocasião perfeita para eles riscarem mais um número da lista, tudo para conseguir completar aquela lista o mais rápido que pudessem. Por mais que Lily quisesse se prender àquela lista para não deixar que seu primo lhe escapasse mais uma vez.
Talvez fosse melhor se apegar àquela lista de coisas a se fazer antes de morrer, do que se apegar a lista de formas de morrer. Essa ideia a assustava agora.
Hugo entrou no quarto dela pela janela. Ela já estava começando a se irritar com essa mania do ruivo, simplesmente pelo fato de que ela não possuía privacidade se ele fazia isso. Mas ela não se importou, Hugo havia trazido consigo uma mala, e sorria presunçosamente.
— Você não me trouxe uma roupa roubada do guarda roupa da sua irmã, trouxe? – Hugo sorriu mais ainda negando com a cabeça.
— Da minha irmã não. Mas da Molly. – Lily bufou ao saber disso, sua prima Molly possuía o pior estilo para roupas, pior até do que o estilo de Domi, que era cheio de frufrus, pois as roupas daquela eram extremamente curtas e chamativas.
— Não entendo como Molly se veste desse jeito tendo os pais que tem. – ele revirou os olhos concordando, ele sabia exatamente o motivo.
O tio Percy (não o Jackson, pior) era o maior pé no saco que havia na família, enquanto todos os tios deles eram legais, ele era o senhor certinho. Usava ternos. Todos os dias. Lily podia jurar que ele até dormia de terno. Ele era extremamente chato, não entendia de piadas, quando faziam uma piada de duplo sentido ao seu lado, ele dava sermão. Era pastor em uma igreja do bairro, e jurava que todos iriam morrer por seus pecados, e iriam queimar no fogo do inferno.
Ele falava isso principalmente de Lily.
Entretanto, Molly Weasley II é o tipo de garota vulgar para se vingar do pai certinho. Lucy, sua irmã mais nova, era a filha perfeita, o que só fazia a mais velha se rebelar por duas. Usava roupas justas demais e curtas demais. E além do fato de a ruiva ser extremamente curvilínea e bonita, os meninos se matavam para conseguir sair com ela.
A família Weasley tinha muitas ovelhas negras, Hugo devia admitir isso. Lily era uma, Molly II outra, Fred nem se comenta, puxou seu tio, George também, sim estranhamente os irmãos se homenagearam nos filhos, e eles eram copias dos pais em termos de comportamento. E Rose era uma ovelha negra por se envolver com o maior inimigo da família. “Como ela pode se envolver com um Malfoy sabendo que há gerações eles vêm destruindo os Weasley?” Tia Bisavó Tessy sempre falava isso quando Malfoy participava das reuniões familiares.
Ele também queria fazer parte dessa parte da família, mas não sabia se teria tempo.
Tempo era sempre uma questão que o machucava.
— Eu não vou vestir isso. – Hugo disse esbravejando, Lily queria que ele vestisse umas roupas góticas, pintasse as unhas de preto, e usasse maquiagem. Era estranho o fato dele aceitar usar maquiagem e pintar as unhas, mas brigar de usar um coturno e um sobretudo?
— Por que não? Se eu vou vestir isso. – Lily apontou para a roupa sobre a cama.
— Porque é horrível, eu quero pegar alguém, não espíritos. – ele ralhou.
— Eu vou parecer uma prostituta.
— Que bom, pois isso mostra que você não é uma. – Hugo riu. E por fim acabou vestindo a roupa. A roupa era uma das quais Albus havia usado durante um curto período em que foi gótico. Mais emo do que gótico, mas isso não vem ao caso. Foi um período de dois meses, e foram os piores.
Ginny chamava isso de “fase de descobrimento”, era comum em irmãos do meio, nunca se era o mais velho, o desbravador, nem o mais novo, o fofinho. Era só o irmão do meio. E ele demorou até se encontrar estranhamente entre os jogadores de futebol nerds. Uma raça diferente dos jogadores de futebol normais (assim como o Malfoy) que são brutamontes quase sem personalidade e cérebro. Apesar do Malfoy ser inteligente e possuir personalidade suficiente para conquistar a inconquistável Rose.
— Lembre-se – Lily falou enquanto olhava diretamente nos olhos do primo, ela havia montado um personagem muito sólido, e seu primo não poderia fugir dele – Você é um garoto gótico, que lê poemas obscuros no cemitério ao meio dia, mas que tem medo do escuro. Seu nome será Dylan Benson, e você é americano, que passou a infância na África do Sul, com pais canadenses. E você é apaixonado por mim, mas obscuramente só pela minha aura.
— Fácil. – Ele brincou de maneira divertida com uma mecha de cabelo dela que ela havia enrolado – Você é Annabel Higgins, e é uma garota promiscua que foi exportada de um pais da américa latina, por isso terá que puxar no sotaque, você odeia o clima daqui e vai passar a festa toda reclamando da falta do sol sobre sua pele bronzeada. Se falarem que você é pálida como um vampiro, você vai se assumir como uma vampira.
— Mamão com açúcar. – Lily riu. E foi até o banheiro para colocar a roupa que Hugo havia separado. Enquanto ele colocava a sua também.
Ele se divertia com a forma desengonçada com a qual Lily andava na rua, ela estava com um salto grande demais, e por isso quase torcia o pé, além da saia que mal cobria a sua bunda inteira. Por sorte, havia uma meia calça arrastão cobrindo as alvas pernas dela, ou ela iria congelar no frio do outono.
— Um dia eu irei te matar, Hugo. – ela ralhou.
— Quem é Hugo, Annabel?
— Um dia eu irei te matar, Dylan. –ela consertou com a maior cara de poucos amigos que possuía.
— Eu iria adorar isso. – ele brincou enquanto a ajudava a andar pela rua cheia de pedrinhas.
Eles estavam ouvindo a batida da festa ao longe, sabiam que era em um dos dormitórios da faculdade, e era isso que deixava os dois mais animados, pois poderiam agir como se tivessem idade o suficiente.
— Preparado? – ela sorriu, os lábios vermelhos eram destacados quando a luz batia.
— Mais preparado que nunca. – ele sorriu a abraçando antes de entrar no mar de pessoas que ali havia.
Era divertido ver todas aquelas pessoas. Bebendo e dançando como se não houvesse amanhã. E se não houvesse, como eles reagiriam?
Hugo logo encontrou umas pessoas com quem conversar, e não fugia de seu personagem estranho, e até se divertia ao inventar histórias obscuras e absurdas sobre o tal Dylan. “Fui adotado depois que meu pai matou a minha mãe na minha frente”, “Eu tinha um irmão gêmeo que morreu antes de nascer, eu convivi com aquele feto por três meses”, “Tenho uns amigos estranhos que cultuam animais mortos, quer conhecer?” Ele ria cada vez que alguém o deixava sozinho após uma de suas histórias assustarem a pessoa.
Lily estava presa ao seu personagem de modo que se atirava a pessoas de qualquer sexo. Estava se divertindo ao ser outra pessoa. Não tinha histórias macabras, exceto a daquele gótico que ficava a observando na escola, no trabalho, em casa, em todos os lugares, e que certa vez havia colocado um pássaro morto na janela do quarto dela como presente de aniversário. Ela se divertia de verdade, e bebia de verdade.
Ele também bebia de verdade, mesmo sabendo que na manhã seguinte não seria Dylan que teria uma dor de cabeça infernal, mas sim o próprio Hugo. Ele viu a prima se aproximar com a maior cara de bacanal que ela sabia.
— Ei, o que você acha de conseguirmos riscar mais um dos elementos da lista? – Lily propôs, ela já tinha em mente que ali conseguiriam pegar alguém, mesmo que fosse do mesmo sexo.
— Por mim será divertido. Mas lembre-se de que não pode sair do personagem até o fim da noite.
— Sim, senhor capitão gancho.
Lily não demorou a conseguir uma menina para ficar. Na verdade toda aquela produção que ela havia feito para si mesma havia ajudado em muito, o que faltava era confiança para beijar uma total desconhecida na boca como se aquilo fosse normal.
Foco no personagem. A personagem faria isso, Lilian. E ela perdeu a vergonha na cara. Annabel Higgins não teria vergonha. E simplesmente quebrou a barreira que havia entre ela e a menina morena a sua frente. Não foi muito diferente de beijar outra pessoa. Não houve fogos de artificio, nem o gosto de cereja. Droga, Katy Perry, enganou uma geração.
Elas beijaram intensamente, mas não mudara o fato de que era um beijo comum, sem grandes mudanças na vida da Lily. Foi um beijo tão comum que Lily assim que terminou se separou, e disse um “valeu” e seguiu a procurar seu primo. Ele bebia e conversava com um garoto loiro.
O ruivo parecia muito desconfortável com a proximidade do outro, que não se importou em beijar aqueles lábios. E o pior foi que Lily sentiu um desconforto no seu estomago. Ah, ela iria vomitar.
Lily esperou até que o beijo terminasse para se aproximar, e fazer um barraco. Ela andou lentamente como em uma cena de filme romântico de colegial, e jogou sua bebida no ruivo dramaticamente (por sorte tudo que havia no copo era água).
— Eu viro as costas por um instante e você já tá beijando um cara? Eu pensei que você me amava.
— Mas você não me amava. – Hugo entrou no jogo, sem fugir do personagem.
— Como vou amar um cara que coloca um pássaro morto na minha janela?
— Era um presente.
— Ah, que presente. Você gostaria de ganhar esse presente? – ela questionou o cara que Hugo a pouco tinha beijado.
— N-Não. – ele respondeu rapidamente.
— Então corra de perto desse maníaco. – ela respondeu e então deu as costas para o primo e o cara.
Hugo esperou alguns minutos antes de ir para o mesmo lado que há pouco ela tinha ido. E a encontrou no ponto de encontro. Ela com um sorriso enorme em seus lábios, e ele com uma cara parecida.
— Dois pontos a menos para cumprir na lista. – ele sussurrou sorrindo. – Pelo menos aquele beijo horrível valeu para algo.
— Não gostou?
— Não, ele babou toda a minha cara. E a língua dele parecia um tentáculo. – então ele parou olhando para um ponto atrás de Lily. – Será que eu também beijo assim?
— Provavelmente. Todos beijam assim.
— Lilian? Hugo? – eles ouviram uma voz familiar atrás de si, e encontraram uma morena incrivelmente linda os encarando.
— Rox?
— O que vocês dois tão fazendo aqui? E com essas roupas?
— Festa à fantasia. Disseram que era aqui, mas parece que mentiram. – Lily mentiu rapidamente para sua prima. – Sabia que não podia confiar naquele cara.
Rox os acompanhou por um tempo e depois os levou para casa. Hugo não foi diretamente para sua casa, ficou na de Lily. Seu pai havia sido avisado por mensagem. E bom, eles liberaram, então não tinham com que se preocupar.
Eles estavam no quarto da ruiva, os dois deitados na pequena cama de solteiro. Lily com a cabeça nos travesseiros e Hugo aos pés da cama. Ambos olhando para o teto como se lá estivesse a chave do universo.
— E o seu beijo como foi? – ele perguntou quebrando o silencio.
— Sei lá, estranhamente normal. – ela disse ainda encarando o teto – Katy Perry mentiu. – o ruivo só pode soltar um riso pelo nariz com a afirmação da prima. – Não senti nada, foi como beijar a uma das minhas primas.
— Eu beijei uma lesma. Você ganhou.
— Sabe que eu nunca senti nada com nenhum beijo. Será que o problema sou eu? – ela se levantou rapidamente encarando o primo, havia um grande problema em suas mãos.
— Provavelmente. – Hugo riu. – Esperava o que? Fogos de artificio, borboletas no estomago, cada vez que beijasse alguém?
— É como os autores nos mostram.
— Eles mentem. Quer ver como não se sente nada? – ele propôs puxando a prima pelo pescoço e aproximando lentamente sua boca da dela. Ele a beijou para provar que não era possível sentir nada.
Mas ambos sentiram.
Lily estava com o coração disparado. Hugo estava com o coração na boca. Ela não sentiu borboletas no estomago, mas aquela reviravolta que nos deixa nervosos. Ele sentiu borboletas, vagalumes, pombas, sentiu tudo no estomago naquela hora.
Mas nenhum queria se separar, na verdade, Lily segurou a nuca de seu primo e aprofundou o beijo. Quando se separaram por perceberem o que estavam fazendo eles não se olharam. Hugo voltou a deitar em sua posição e Lily também.
— Não senti nada. – Lily mentiu, os olhos presos no teto.
— Eu também não. – Hugo acompanhou a mentira pensando em como havia se sentido maravilhoso com apenas um beijo.
E pelo resto da noite ficaram calados.
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