Last Battle
16 Só estou cuidando da minha princesa
Hailey acordou antes mesmo de o sol nascer completamente. Por alguns segundos, permaneceu imóvel, os olhos fixos no teto acima de sua cabeça, tentando vencer o sono. O quarto ainda estava mergulhado naquela penumbra azulada que antecedia o amanhecer, e o silêncio era quebrado apenas pela respiração tranquila das outras garotas. A luz que começava a atravessar as janelas altas da torre tocava timidamente as paredes de pedra, as cortinas vermelhas e douradas e o brasão da Grifinória. Hailey piscou algumas vezes, ainda presa naquele estado estranho entre o sono e a realidade, até que reconheceu cada detalhe.
Hogwarts.
Um sorriso pequeno surgiu em seus lábios.
Hailey se sentou devagar na cama, deixando os pés tocarem o chão frio, e olhou para as outras garotas, ainda adormecidas. Uma delas se mexeu sob as cobertas e murmurou alguma coisa incompreensível antes de se acomodar novamente. Hailey sorriu.
Durante alguns segundos, simplesmente permaneceu ali, observando o quarto. Tudo parecia exatamente como antes. A torre continuava ali. O castelo continuava ali. As escadas provavelmente continuavam mudando de lugar quando bem entendiam. Os quadros certamente continuavam discutindo uns com os outros pelos corredores, e as armaduras permaneciam espalhadas pelas paredes como sentinelas silenciosas.
Mas ela havia mudado.
Hailey passou uma mão pelos cabelos desarrumados e respirou fundo.
Meses atrás, acordar naquele lugar teria provocado uma sensação completamente diferente. Hogwarts havia sido sua casa durante anos. Era onde aprendera magia, fizera amigos, brigara, rira, estudara até tarde e construíra algumas das melhores lembranças de sua vida. Era também o lugar onde aprendera a existir entre mundos diferentes, carregando consigo uma identidade que nunca deixara de ser sua. Mesmo em meio à Inglaterra, às tradições britânicas e ao universo mágico, havia coisas nela que continuavam profundamente brasileiras: a espontaneidade, o jeito caloroso de demonstrar afeto, a facilidade para rir, a confiança quase instintiva com que ocupava um espaço e aquela tendência de responder com ironia quando alguém ultrapassava seus limites.
Também era onde Andrew havia morrido.
O pensamento veio sem aviso.
Hailey fechou os olhos.
Andrew.
Durante muito tempo, pensar nele significava voltar imediatamente para aquele momento. O corpo dele caindo. O sangue. A voz de Yaxley. O vazio que veio depois.
Mas naquela manhã foi diferente.
Ela simplesmente se lembrou dele.
Do sorriso. Das conversas idiotas. Das vezes em que ele implicava com ela por passar tempo demais na biblioteca. Da maneira como insistia que ela precisava sair de lá de vez em quando. Das pequenas coisas que, enquanto aconteciam, pareciam insignificantes, mas que agora eram exatamente aquilo que ela mais guardava.
E, junto das lembranças, veio uma certeza tranquila.
Onde quer que Andrew estivesse, ele ficaria feliz por vê-la seguindo em frente.
A saudade veio. Mas não veio acompanhada daquela sensação sufocante que costumava esmagar seu peito.
Hailey abriu os olhos.
— Eu ainda sinto sua falta — sussurrou.
Sua voz mal passou de um sopro Ela respirou fundo.
— Mas eu estou bem.
Dessa vez, não era uma mentira.
Hailey levantou-se e entrou no banheiro para trocar de roupa. Não pretendia começar o primeiro dia de volta a Hogwarts presa ao uniforme escolar. Afinal, era sábado. Vestiu roupas confortáveis para exercício, prendeu os cabelos numa trança e saiu silenciosamente da torre.
Era algo que fazia desde muito mais nova.
Correr pela manhã.
Quando precisava pensar, corria. Quando precisava esquecer, corria. Quando simplesmente precisava sentir o corpo funcionando, corria.
Naquela manhã, precisava das três coisas.
O castelo ainda estava quase adormecido quando Hailey atravessou os corredores e saiu para os terrenos. O ar frio da manhã inglesa atingiu seu rosto imediatamente. Ela respirou profundamente, sentindo o cheiro úmido da grama e da terra, enquanto o céu começava lentamente a clarear no horizonte.
Então começou a correr.
No início, manteve um ritmo tranquilo, permitindo que o corpo despertasse aos poucos. Seus passos ecoaram sobre o caminho de pedra antes de alcançarem a terra úmida. Passou pelo lago, pelos jardins e por algumas áreas próximas à floresta que conhecia praticamente de cor. Ao longe viu Sara correndo na direção oposta mas nenhuma das duas parou para conversar. Estavam muito concentradas em seus treinos.
A cada volta, o corpo aquecia. A respiração se tornava mais profunda. Os pensamentos, mais silenciosos.
Era familiar.
Era simples.
Era dela.
Hailey sempre gostara de correr. E os anos de disciplina haviam deixado marcas evidentes em seu corpo: a barriga definida, as pernas fortes, as coxas torneadas pelo exercício constante. Havia nela uma combinação impossível de ignorar, mesmo quando não fazia qualquer esforço para chamar atenção. A postura naturalmente confiante, a maneira espontânea de se mover e aquela beleza quente que contrastava com o frio daquela manhã inglesa faziam com que sua presença se destacasse.
Havia também algo na maneira como Hailey corria que denunciava uma energia difícil de explicar. Mesmo quando estava cansada, havia leveza em seus movimentos. Uma vivacidade que parecia fazer parte dela desde sempre. Talvez fosse simplesmente a forma como havia crescido. Talvez fosse o temperamento brasileiro que carregava consigo, aquela mistura de intensidade e espontaneidade que fazia com que até uma atividade tão solitária parecesse cheia de vida.
Depois de quase uma hora, chegou perto de uma das áreas de treino e reduziu o ritmo. Parou por alguns segundos, respirando profundamente, e passou o antebraço pela testa.
Foi então que ouviu uma voz.
— Olha só...
Hailey virou o rosto.
Dois garotos da Corvinal estavam parados próximos ao caminho. Um deles mantinha os braços cruzados, enquanto o outro a observava com um sorriso descarado demais para ser confundido com simpatia.
Hailey franziu levemente a testa.
— Bom dia?
— Não sabia que você tinha voltado — disse o primeiro.
Hailey ergueu uma sobrancelha.
— Não insulte a minha inteligência. Vocês me viram ontem.
O garoto abriu um sorriso torto.
Os olhos dele percorreram Hailey sem qualquer tentativa de disfarçar o interesse. O segundo fez exatamente a mesma coisa, trocando um olhar divertido com o amigo.
— Vimos, sim... — respondeu.
Hailey cruzou os braços.
— Difícil não ver — disse o segundo. — Você sempre foi bonita, mas parece que ficou ainda mais... interessante.
Hailey inclinou ligeiramente a cabeça.
— Defina interessante
— Seu corpo, principalmente — ele respondeu, como se estivesse comentando sobre o clima. — Você mudou bastante.
Hailey soltou uma risada curta, sem humor.
— Vocês sempre foram tão sem educação ou isso é alguma novidade que decidiram testar comigo hoje?
Os dois riram.
— Jonathan Avery — apresentou-se o primeiro, apontando para si mesmo. — E esse é Marcus Fawcett.
Hailey assentiu.
— Eu sei quem vocês são. Minha memória continua funcionando perfeitamente.
E começou a se afastar.
— Ei, espera — Marcus chamou.
Hailey parou, mas não se virou imediatamente.
— Me erra.
— Só queríamos conversar.
Ela finalmente olhou por cima do ombro.
— Então conversem entre vocês.
Jonathan deu um passo para o lado, acompanhando-a com os olhos.
— Você continua difícil.
Hailey sorriu de maneira quase educada.
— E vocês continuam inconvenientes. Fico feliz em descobrir que algumas coisas em Hogwarts realmente permanecem iguais.
Marcus se aproximou um pouco.
— Não precisa ficar tão na defensiva.
— Estou sendo perfeitamente clara.
— Talvez você só precise de uma companhia melhor.
Hailey respirou fundo.
— Eu já tenho companhia.
Jonathan arqueou uma sobrancelha.
— Ah, é? Quem?
— Meu namorado.
Os dois se entreolharam. Marcus soltou uma risada.
— O semideus?
Hailey virou o rosto lentamente para ele.
— Algum problema?
— Nenhum. Só não parece exatamente o tipo de cara que combina com você.
Hailey sorriu.
Foi um sorriso bonito.
Educado.
Quase gentil.
O que tornou a resposta seguinte ainda pior para os dois.
— Sua opinião sobre minha vida particular é tão relevante quanto Gilderoy Lockhart era como professor.
O sorriso de Marcus morreu.
Jonathan soltou uma pequena risada pelo nariz, mas Hailey percebeu.
— Você era namorada do Andrew, não era? — ele perguntou. — O que você viu naquele moleque? Porque, francamente...
A mudança em Hailey foi imediata. O sorriso desapareceu. A postura ficou rígida.
— Não fala dele.
Jonathan deu de ombros.
— Por quê? Ainda sente alguma coisa?
Hailey soltou uma risada seca.
— O ponto não é esse, imbecil. Eu não vou aceitar que a memória de uma pessoa tão querida para mim seja profanada por dois idiotas.
— Ele era nosso amigo mas passou a odiar a gente — Jonathan respondeu.
Hailey arqueou uma sobrancelha.
— Não consigo imaginar o porquê.
Marcus soltou uma risada baixa.
— E você sempre ficou do lado dele.
— Claro. Eu era namorada dele. Se fosse para ficar contra ele, eu nem teria namorado com ele. E continuo ficando.
O sorriso de Jonathan desapareceu completamente.
— Mesmo depois de morto?
Hailey deu um passo à frente. Uma sensação elétrica começou a subir lentamente por sua espinha.
— Escolha muito bem as próximas palavras.
Marcus percebeu primeiro. Segurou o braço de Jonathan.
— Cara...
Mas Jonathan ainda mantinha os olhos nela a desafiando.
E foi nesse instante que Marcus percebeu que havia algo diferente no olhar de Hailey. O castanho de suas íris começava lentamente a perder espaço para um cinza metálico, quase tempestuoso.
— Só estou dizendo que você parece ter encontrado alguém para substituir rápido demais.
Hailey ficou imóvel. A frase a atingiu exatamente o ponto que eles jamais deveriam ter tocado. Ela respirou fundo.
Uma vez.
Duas.
Controlou a eletricidade que percorria seu corpo.
Não valia a pena.
Não por eles.
— Você está querendo levar uma surra, mas não está sabendo pedir — disse ela, a voz baixa, controlada. — Você não me conhece.
— Sei o suficiente.
Hailey tentou passar novamente. Jonathan segurou seu pulso. Foi o suficiente. Hailey olhou para a mão dele. Depois para o rosto dele. Segurou o pulso de Jonathan com firmeza.
Um choque, forte o suficiente para assustá-lo, percorreu a mão do garoto.
Ele estremeceu.
— Calma.
— Eu não vou repetir. Solta.
— E eu disse que...
— Acho que ela deixou bem claro.
A voz veio atrás deles. Baixa. Firme. Sem necessidade de ser elevada.
Hailey reconheceu imediatamente.
E todo o seu corpo relaxou.
Gareth.
Os dois corvinos se viraram.
Gareth vinha caminhando na direção deles vestido com roupas de treino. O cabelo estava bagunçado, como se tivesse acabado de acordar, e havia algo diferente em sua expressão. Não era raiva descontrolada.
Era pior.
Era aquela calma perigosa de alguém que já havia decidido exatamente o que faria caso fosse necessário. Ele parou ao lado de Hailey.
Seu braço passou pela cintura dela com naturalidade, trazendo-a discretamente para junto de seu corpo.
O toque fez Hailey sentir imediatamente a diferença entre estar sozinha naquela situação e tê-lo ao lado.
Gareth olhou para Jonathan.
— Ela disse não.
Jonathan soltou o pulso dela.
— E você é...?
Gareth sorriu. Não havia humor algum naquele sorriso.
— Gareth Travers.
Marcus fez uma expressão de desagrado.
— O namorado, imagino.
— Exatamente.
Gareth baixou os olhos para a mão de Jonathan. Quando voltou a encará-lo, sua expressão havia endurecido mais ainda.
— E se vocês encostarem nela de novo sem que ela queira, essa conversa vai ficar bem menos educada.
Jonathan ergueu o queixo.
— Está ameaçando a gente?
Gareth deu um passo à frente, colocando-se naturalmente entre os dois garotos e Hailey.
— Estou prometendo.
O silêncio caiu pesado. Gareth não precisou levantar a voz.
— Vocês podem achar ela bonita. Podem querer conversar com ela. Podem até tentar impressioná-la, se isso fizer vocês se sentirem importantes. Mas, no segundo em que a tocarem, acabou a civilidade... – ele inclinou levemente a cabeça — E eu vou garantir que o recado seja bem claro.
Hailey observava Gareth em silêncio. Havia algo altamente atraente naquela segurança. Não era apenas a força física evidente nele. Era a maneira como não precisava provar nada. Ele não estava ali para parecer herói. Não estava fazendo uma cena para impressioná-la. Estava simplesmente protegendo alguém que amava.
Gareth então olhou para os dois.
— Vocês eram conhecidos do Andrew, imagino?
Os dois ficaram mais sérios.
— Em tese — Jonathan respondeu.
Gareth sustentou o olhar dele.
— Então deveriam ter o mínimo de vergonha na cara... – a voz dele ficou mais grave — Andrew foi importante para ela. Então não usem a morte dele como argumento para tentar diminuí-la ou para tentar alguma coisa com ela.
Ele olhou rapidamente para Hailey. O olhar suavizou.
— Se esse era o tipo de amizade que ele tinha, ele realmente só tinha bom gosto para mulheres.
Hailey não conseguiu evitar o sorriso.
Jonathan desviou o olhar.
Gareth voltou a encarar os dois mais alguns segundos
— Vamos – ele pousou a mão na cintura de Hailey — Você já correu o suficiente por hoje.
Hailey assentiu. Os dois começaram a se afastar.
— Ei, Cipriano! — Marcus chamou.
Hailey virou o rosto.
— Seu namorado parece bem ciumento.
Ela olhou para Gareth. Um sorriso divertido surgiu em seus lábios.
— Ele não está com ciúmes. Está?
Gareth a encarou. O canto de sua boca se ergueu.
— Só estou cuidando da minha princesa.
Hailey soltou uma risada.
— Gostei dessa resposta.
Gareth passou o braço pelos ombros dela enquanto os dois continuavam caminhando.
— Bom dia, linda. – ele disse depois de beijá-la
— Bom dia, lindo.
— Você sempre corre tão cedo?
— Sempre que posso.
— Então vou ter que começar a acordar cedo.
Hailey riu.
— Você não precisa.
— Verdade. Mas eu quero.
— Você acabou de chegar a Hogwarts. Não precisa começar a copiar minhas rotinas.
— Não estou copiando – Gareth aproximou ligeiramente o rosto do dela — Estou garantindo que ninguém mais tente dar em cima da minha mulher antes do café da manhã.
Hailey parou de andar.
— Sua mulher?
Gareth também parou.
— Com certeza.
Ela se aproximou. Por um instante, os dois ficaram simplesmente se olhando. Hailey colocou uma mão no peito dele, sentindo o calor através da roupa de treino. Gareth baixou os olhos para os lábios dela por uma fração de segundo antes de voltar aos olhos castanhos que agora o encaravam com diversão.
Ela se inclinou e deu um beijo nele. Gareth sorriu. Sua mão permaneceu firme na cintura dela por mais alguns segundos, como se não tivesse qualquer intenção de deixá-la se afastar completamente.
— Então estamos entendidos — murmurou ele – Minha mulher...
Hailey sorriu.
— Perfeitamente.
Havia algo muito brasileiro na forma espontânea como ela sorria depois de provocar alguém que amava, como se a própria alegria fosse uma resposta. Gareth parecia cada vez mais fascinado por isso. Hailey não escondia o que sentia. Quando estava feliz, era impossível não perceber. Quando estava irritada, também. E quando gostava de alguém, gostava de verdade.
Depois de se afastarem dos corvinos, Hailey voltou ao castelo para se arrumar de verdade. Quando entrou novamente na torre, as outras meninas já começavam a acordar. Ela tomou banho, vestiu roupas de trouxa junto com seu suéter de Quadribol e, diante do espelho, passou os dedos pelo brasão vermelho e dourado.
A mesma sensação voltou.
Casa.
Hailey ajeitou a roupa e olhou para o próprio reflexo. O anel de aço de Gareth brilhava discretamente em seu dedo. Ela tocou o metal com o polegar e sorriu. Era estranho pensar que, poucos meses antes, jamais imaginaria estar de volta a Hogwarts com um namorado semideus. E, principalmente, que estaria feliz. Ela pegou a varinha e saiu.
No corredor, encontrou Hermione, Gina e Neville. Hermione claramente estava esperando por ela.
— Você prometeu explicar tudo.
Hailey parou.
— Bom dia para você também.
Gina cruzou os braços.
— Não tente fugir.
Neville sorriu.
— Acho que você está cercada.
Hailey olhou para os três.
— Vocês combinaram isso?
— Sim — Hermione respondeu.
— Traidores.
Gina segurou o braço dela.
— Vamos comer. Você pode explicar no caminho.
Hailey começou a rir.
— Vocês não mudaram nada.
— E você mudou bastante — Hermione respondeu.
A frase fez Hailey diminuir o sorriso por um instante. Hermione percebeu imediatamente.
— De um jeito bom — acrescentou rapidamente.
Hailey assentiu. Os quatro começaram a caminhar pelos corredores em direção ao Salão Principal. Gareth vinha logo atrás. E, embora não dissesse uma palavra, parecia ter desenvolvido uma espécie particular de vigilância naquela manhã. Qualquer garoto que olhasse para Hailey por tempo demais recebia um olhar do semideus. Era uma ameaça explícita. Um um aviso silencioso.
Não mexa.
Hailey percebeu depois de alguns minutos e precisou morder o interior da bochecha para não rir. Havia algo extremamente sexy no jeito que ele a protegia.
— Então — Gina começou — onde você esteve? Temos o café inteiro.
— Não vai ser suficiente.
Hermione estreitou os olhos.
— E o Malfoy?
Hailey suspirou.
— É uma longa história.
— E o anel?
Hailey olhou para a própria mão.
— Essa é outra.
Gina arregalou os olhos.
— Você está me dizendo que existem várias histórias?
Hailey começou a rir.
— Talvez.
Quando chegaram ao Salão Principal, Hailey se sentou entre Gareth e Gina. Hermione sentou-se ao lado de Neville, de frente para o casal, e encarou os dois.
— Eu ainda estou tentando entender como isso aconteceu.
Gareth ergueu uma sobrancelha.
— O quê?
— Vocês dois.
Gareth olhou para Hailey. Um sorriso surgiu em seu rosto.
— Eu também estou.
Hailey deu um tapa leve no braço dele.
— Idiota.
Gareth riu.
O café da manhã começou entre perguntas, risadas e tentativas de Hailey de explicar o impossível sem revelar mais do que deveria. Hermione queria saber sobre a missão. Gina queria saber sobre Gareth. Neville estava curioso sobre os semideuses. E, inevitavelmente, todos queriam saber como Draco Malfoy havia passado de inimigo de Hailey a alguém que ela chamava de amigo.
Hailey respondia o que podia.
Contou sobre sua natureza divina. Contou sobre a profecia. Contou sobre tudo que havia acontecido na Audácia.
Bom... quase tudo.
Mas falou o suficiente para deixar claro que os últimos dois meses haviam mudado sua vida completamente.
Depois do café, Hailey e Gareth foram caminhando para a saída junto dos amigos, mas eles ficaram atrás do grupo. Entretanto, antes de chegarem ao campo, Hailey segurou o braço dele.
— Espera.
Gareth parou.
— O quê?
Ela apontou para uma escadaria.
— Quero te mostrar uma coisa.
— O quê?
— A Torre de Astronomia.
Um sorriso travesso surgiu no rosto dele.
— Você está me levando para um lugar secreto e distante da atenção pública, no nosso primeiro dia oficial em Hogwarts, onde ficaremos sozinhos? Essa manhã tá sendo maravilhosa...
Hailey tentou conter o próprio sorriso.
— Esse lugar não é exatamente secreto. Mas agora está vazio, então... sim, estou.
— Então eu aceito.
Eles se afastaram sem que os amigos percebessem e começaram a subir. Quanto mais alto chegavam, mais silencioso ficava o castelo. Hailey conhecia aquelas escadas quase de olhos fechados. Passou por corredores estreitos, virou em uma curva e finalmente empurrou a porta que levava ao alto da torre.
O vento atingiu os dois imediatamente.
Hailey sorriu.
A vista era exatamente como lembrava.
As montanhas ao longe. O lago refletindo a luz da manhã. Os terrenos de Hogwarts se estendendo abaixo deles. O céu enorme cobrindo tudo.
— Uau — Gareth murmurou.
Hailey sorriu.
— Eu sabia que você ia gostar.
Ela caminhou até a borda.
— Quando eu era mais nova, vinha aqui quando queria ficar sozinha.
Gareth se aproximou por trás e envolveu sua cintura com os braços. Hailey sentiu o peito dele encostar em suas costas.
— E agora?
Ela virou ligeiramente o rosto.
— Agora eu queria mostrar para você.
Gareth apertou suavemente a cintura dela.
— Então valeu a pena acordar cedo.
Hailey encostou a cabeça no ombro dele. Por alguns segundos, permaneceram simplesmente observando a paisagem.
O vento frio passava pelos dois, fazendo os cabelos de Hailey se moverem suavemente. Gareth afastou alguns fios do rosto dela e deixou os dedos deslizarem lentamente até sua nuca.
Hailey fechou os olhos por um instante. Era um toque simples. Mas havia intimidade nele. Aquela proximidade silenciosa que não precisava de palavras. Gareth aproximou o rosto do pescoço dela, sem beijá-la, apenas permanecendo ali por um momento.
Hailey sorriu.
— Você está fazendo isso de propósito.
— Fazendo o quê?
— Me provocando...
A voz dele veio baixa, próxima ao ouvido dela.
— Talvez.
Hailey virou-se dentro dos braços dele. Ficou de frente para Gareth, tão próxima que quase não havia espaço entre os dois. Ele olhou para ela. Depois para os lábios dela.
Hailey percebeu.
— Gareth...
— Hum?
Ela sorriu.
— Vai ficar só provocando ou vai tomar uma atitude?
Gareth sorriu também, mas dessa vez havia algo diferente em seu olhar. A provocação dela pareceu arrancar dele o último vestígio de contenção. Ele se aproximou devagar, sem pressa, como se quisesse prolongar aqueles poucos centímetros que ainda separavam os dois. A testa dele encostou na dela, e Hailey sentiu a respiração quente dele tocar seu rosto.
Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.
Hailey conseguia sentir o coração bater mais depressa. A mão que estava apoiada no peito dele fechou-se levemente sobre o tecido da roupa de treino, quase por instinto. Gareth percebeu o movimento e pousou uma das mãos pouco abaixo da cintura dela, trazendo-a para mais perto.
O olhar dele desceu lentamente até os lábios dela e voltou aos seus olhos. Havia desejo ali.
O primeiro toque dos lábios foi suave, quase uma provocação tão lenta quanto a que havia feito segundos antes. Um beijo breve, cuidadoso, que poderia ter terminado ali.
Não terminou.
Hailey mal havia se afastado quando Gareth a puxou e voltou a beijá-la. Dessa vez, com mais firmeza.
A mão dele deslizou pela lateral de sua cintura, envolvendo-a com segurança, enquanto a outra subiu até sua nuca. Hailey passou os braços ao redor dele e puxou-o para mais perto, sentindo o calor do corpo dele contra o seu apesar do vento frio que atravessava a torre.
O beijo ganhou intensidade aos poucos.
Não havia pressa, mas havia desejo.
Um desejo que os dois já conheciam e que, até aquele momento, haviam mantido sob controle. Agora, porém, parecia impossível fingir que aquela tensão não existia. O beijo se aprofundou naturalmente, e Hailey sentiu a respiração falhar por um instante quando Gareth a apertou um pouco mais contra si.
Ela sorriu contra os lábios dele.
Gareth percebeu.
— Está rindo de mim? — murmurou, ainda próximo demais para realmente se afastar.
Hailey abriu os olhos apenas o suficiente para encará-lo.
— Talvez.
— Você brinca muito, garota.
— Você gosta.
Ele voltou a beijá-la. Dessa vez, Hailey segurou a nuca dele, os dedos se perdendo entre os cabelos escuros. Gareth inclinou o rosto, aprofundando o beijo com uma intensidade que fez o mundo ao redor parecer distante. O vento, as montanhas, o castelo abaixo deles — tudo desapareceu por alguns instantes.
Restaram apenas os dois.
A boca dele sobre a dela.
A mão firme em sua cintura.
Os dedos dela em seus cabelos.
A respiração cada vez menos controlada.
E aquela sensação quase elétrica que Hailey conhecia bem demais para confundir com qualquer outra coisa.
Quando finalmente se afastaram, nenhum dos dois foi realmente para longe.
As testas continuaram encostadas.
Hailey respirou fundo, tentando recuperar o fôlego, enquanto Gareth passava o polegar lentamente pela lateral de sua cintura.
Os olhos dele permaneceram presos aos dela.
Havia desejo ali.
Muito.
Mas havia também algo mais profundo.
Gareth sabia que aquele lugar carregava lembranças. Sabia que Hogwarts carregava Andrew. E jamais tentaria ocupar o espaço de alguém que fizera parte da história dela.
E ele sabia que não precisava substituir ninguém.
Queria apenas construir o próprio lugar ao lado dela.
E Hailey sabia disso.
Talvez fosse justamente por isso que aquele beijo tivesse sido tão intenso.
Porque não havia comparação. Não havia passado sendo apagado. Não havia tentativa de substituir uma história por outra. Havia apenas o presente.
Eles.
Hailey passou os dedos pelo rosto de Gareth, ainda sorrindo.
Por alguns segundos, permaneceram assim, próximos, respirando o mesmo ar, enquanto o vento atravessava a torre.
— Sabe o que é estranho? — ela murmurou.
— O quê?
— Eu passei tanto tempo querendo voltar para cá... e agora que estou aqui, parece que estou vendo tudo pela primeira vez.
Gareth acariciou suavemente a lateral do rosto dela.
— Talvez porque você esteja vendo com outros olhos.
Hailey sorriu.
— Talvez.
Ela voltou a olhar para o horizonte. Por alguns instantes, nada aconteceu. Então um trovão distante rompeu o silêncio. Hailey ergueu as sobrancelhas com o susto. Outro trovão soou. Dessa vez, mais próximo. O vento mudou de repente.
Hailey sentiu um arrepio percorrer os braços e levantou o rosto para o céu.
As nuvens que antes estavam concentradas apenas no horizonte começavam a avançar lentamente sobre Hogwarts, formando uma faixa escura acima das torres.
— Isso não estava assim há um minuto...
Gareth havia ficado completamente imóvel. Hailey percebeu a mudança em sua expressão.
— Gareth?
Ele não respondeu. Seus olhos estavam fixos em alguma coisa atrás deles. Hailey acompanhou o olhar e se virou.
Um homem alto estava parado perto da outra extremidade da torre.
Ela não havia ouvido passos.
Não havia ouvido a porta abrir.
Era como se ele simplesmente tivesse surgido entre um trovão e outro.
Como se o próprio ar tivesse decidido lhe dar passagem.
Era imponente. Cabelos escuros. Barba bem aparada. Traços firmes. Vestia-se de maneira elegante, quase como um homem comum, mas havia algo em sua presença que tornava essa aparência comum completamente enganosa.
E havia os olhos.
Azuis.
Não simplesmente azuis.
Pareciam carregar dentro deles a própria violência de uma tempestade. Uma energia antiga e poderosa. Inquestionável.
Gareth ficou sério. Muito sério.
Hailey franziu a testa.
— Você conhece ele?
Gareth não respondeu imediatamente. O homem ergueu os olhos e encarou o semideus com firmeza. Então falou.
— Filho de Hefesto.
A voz era grave e profunda como um trovão. Carregava uma autoridade que fez o ar parecer mais pesado.
Hailey olhou para Gareth.
— Gareth?
Ele apertou discretamente a mão dela.
— Hailey... ele é...
A voz dele havia mudado. Ela nunca o ouvira falar daquele jeito. Não era medo. Era respeito. Era a reação de alguém que reconhecia diante de si uma presença muito acima de qualquer pessoa comum.
— Quem é ele? — Hailey perguntou.
Mas, no fundo, já sabia. Tinha lido livros demais pra ter dúvida. Ouvido histórias demais dos filhos de Atena. Passado tempo demais tentando compreender a mitologia que agora fazia parte de sua própria vida.
O homem sorriu. Foi quase imperceptível mas ela viu.
E, pela primeira vez naquela manhã, o céu sobre Hogwarts pareceu escurecer de verdade.
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