Last Battle
3 Nova Chicago
Capítulo 3 — A Audácia
Nova Chicago.
Grace ainda não sabia exatamente o que esperava encontrar quando atravessaram os primeiros quarteirões da cidade.
Talvez ruínas.
Talvez soldados.
Talvez alguma coisa parecida com o Acampamento Meio-Sangue, onde todos pareciam saber que monstros existiam e ninguém questionava quando alguém aparecia carregando uma espada de bronze.
Mas Nova Chicago era diferente.
Era uma cidade viva.
Pessoas caminhavam pelas calçadas, carros atravessavam as avenidas e os prédios se erguiam dos dois lados das ruas como enormes paredes de concreto e vidro. Havia lojas abertas, restaurantes cheios e crianças correndo pelas calçadas.
À primeira vista, parecia normal.
Mas não era.
Havia algo na maneira como aquelas pessoas olhavam umas para as outras.
Uma cautela silenciosa.
Uma desconfiança que Grace reconhecia.
Era o tipo de olhar de quem havia aprendido que qualquer pessoa ao seu lado poderia esconder alguma coisa.
Gareth caminhava ao lado dela, observando tudo com atenção.
— Definitivamente não parece o Acampamento.
— Ainda bem.
— Por quê?
— Porque eu não quero passar três meses usando uma camiseta laranja.
Gareth riu.
— Você ficaria bonita.
— Eu te odeio.
— Não odeia nada
Grace ia responder quando percebeu a multidão.
Centenas de jovens caminhavam na mesma direção.
Todos vestidos de maneira semelhante. Calças escuras. Camisas simples. Jaquetas. Alguns carregavam mochilas pequenas, mas a maioria parecia estar levando apenas o necessário.
— Acho que encontramos — Gareth disse.
— A cerimônia?
— Aparentemente.
Os dois entraram no fluxo.
Não demorou para perceberem que ninguém os questionava.
Era fácil se misturar.
Talvez fácil demais e isso pareceu errado
Grace olhou ao redor.
— É estranho.
— O quê?
— Todo mundo parece saber exatamente para onde está indo.
Gareth deu de ombros.
— Nós também.
— Não sabemos nem o que estamos fazendo.
— Detalhes...
Ela respirou fundo.
— Se Quíron estiver errado...
— Ele nunca está.
— Dionísio está.
— Sempre.
Grace riu.
Continuaram andando.
Foi então que um garoto loiro surgiu ao lado deles.
Ele tinha uma postura arrogante, roupas impecáveis e um olhar que parecia analisar cada pessoa como se estivesse decidindo se ela era digna de estar no mesmo espaço que ele.
— Seus pais não explicaram como funciona?
Grace virou o rosto.
— O quê?
— A cerimônia.
Vendo que os dois ficaram quietos, o loiro continuou
— É simples. Cortamos a palma da mão e deixamos uma gota de sangue cair na tigela da facção escolhida.
Grace assentiu.
— Entendi.
O garoto pareceu surpreso.
— Só isso? Não vai dizer mais nada?
— Só isso. Não vou dizer mais nada.
— E você sabe qual vai escolher?
— Ainda não.
Ele olhou para Gareth.
— E você?
— Ainda não.
O garoto deu um pequeno sorriso de desprezo.
— Eu vou para a Erudição.
— Parabéns.
Gareth respondeu antes que Grace pudesse dizer algo pior. O garoto franziu a testa.
— Conhecimento — explicou, como se fosse óbvio. — Talvez vocês devessem tentar.
O garoto se afastou.
Grace esperou até ele estar alguns metros distante.
— Eu não gostei dele.
— Você não gosta de quase ninguém.
— Não é verdade.
— Cite três pessoas.
Grace abriu a boca para fechar sem resposta.
— Cala a boca.
Gareth riu.
— Foi o que pensei.
───
A fila avançava lentamente.
Os quatro adolescentes estavam agora separados por alguns metros de outras pessoas, mas continuavam acompanhando o fluxo mas ainda não tinham visto um ao outro.
Grace estava prestes a perguntar novamente como funcionava a escolha quando viu.
Uma rosa.
Pequena.
Perfeitamente desenhada na pele.
No interior do braço esquerdo de uma garota bronzeada que passava a mão nos longos cabelos castanhos.
Grace parou e seu coração acelerou.
— Gareth.
— O quê?
— Ali.
Ela apontou discretamente com a cabeça. A garota tinha cabelos castanhos longos, que caíam pelas costas enquanto ela conversava com um garoto de cabelos tão claros que pareciam quase brancos.
— A rosa — Grace murmurou.
Gareth olhou.
E ficou em silêncio.
Grace virou-se para ele.
— Gareth?
Nada.
— Gareth.
Ele continuava olhando. Não para a tatuagem. Para a garota. Grace percebeu e sorriu lentamente.
— Ah sim
— O quê? — disse o semideus como se estivesse saindo de um transe.
— Nada.
— Grace.
— Absolutamente nada.
Ela segurou o braço dele e o puxou.
— Vamos.
— Espera.
— Não.
— Grace.
— Você está parecendo um idiota.
— Eu não estou.
— Está.
Ela continuou andando e o puxando. E quanto mais se aproximavam, mais difícil ficava para Gareth fingir que não estava olhando.
Hailey tinha alguma coisa diferente.
Não era apenas beleza.
Ele conhecia garotas bonitas. No Acampamento, isso nunca havia sido exatamente raro principalmente entre as filhas de Afrodite.
Mas havia algo nela que o prendia.
Talvez fosse o jeito como ela permanecia ligeiramente afastada das pessoas.
Talvez fosse a postura diferente.
Os olhos. Algo naqueles olhos castanhos era incrivelmente magnético
Ou o modo como segurava os próprios braços, como se tivesse aprendido a se proteger sem perceber.
Ela parecia jovem e, ao mesmo tempo, cansada, mas mesmo assim não parecia ter mais que dezesseis anos.
Parecia alguém que havia vivido muito mais do que deveria. Gareth não sabia absolutamente nada sobre ela. E, mesmo assim, teve uma certeza estranha: Queria muito saber.
Grace finalmente parou diante da garota.
— Então você é a bruxa.
Hailey ergueu uma sobrancelha e olhou para a semideusa sem esboçar nenhuma surpresa.
— Foi bem fácil me achar.
Grace apontou para o braço.
— A rosa. E o menink de cabelos brancos
Hailey olhou para a tatuagem. Draco revirou os olhos sem falar nada.
— Ah sim. A professora Mcgonagal disse que você me identificaria assim
— Ela é muito bonita.
— Obrigada. Eu mesma fiz.
Grace ficou encantada. Gareth finalmente conseguiu falar.
— É. Linda mesmo – mas ele não estava falando da tatuagem
Hailey olhou para ele. Foi só por poucos segundos. Mas bastou.
Gareth sentiu o estômago apertar. Olhar aqueles olhos mais de perto foi como se uma faísca subisse pela sua espinha.
Hailey também pareceu surpresa consigo mesma. Havia meses que ninguém a olhava daquele jeito.
Não com pena ou com preocupação. Também não era com aquele cuidado desconfortável que as pessoas adotavam quando sabiam sobre Andrew.
Era apenas... interesse.
Natural. Ge
Quase inocente.
E aquilo a atingiu com uma força que ela não esperava.
— Prazer — ela disse, tentando manter a voz normal. — Hailey Cipriano.
Apontou para o rapaz ao lado, que permanecia quieto.
— Draco Malfoy.
— Grace Vance.
Grace indicou Gareth.
— Gareth Travers.
Hailey repetiu mentalmente o nome.
Gareth.
Ela não sabia por que fez isso.
Mas fez.
E quando seus olhos encontraram os dele outra vez, sentiu o rosto esquentar.
Gareth sorriu. Não aquele sorriso arrogante que alguns garotos usavam quando queriam impressionar alguém.
Era um sorriso genuíno. Quase tímido.
Hailey desviou o olhar.
— Então...
Grace percebeu o clima e sorriu, mas decidiu que era melhor não comentar.
Ainda.
───
A cerimônia começou pouco depois. Eles se sentaram juntos. Gareth não precisou dizer nada. Simplesmente escolheu o lugar ao lado de Hailey.
Grace percebeu. Draco também.
Hailey fingiu não perceber mas tentou esconder que ficou feliz.
Gareth começou a prestar atenção nas pequenas coisas.
Hailey segurava o cabelo atrás da orelha quando estava nervosa.
Batucava o polegar contra o indicador quando estava pensando.
Olhava para a porta sempre que alguém entrava.
E, quando alguém falava sobre algo que realmente despertava sua curiosidade, seus olhos mudavam.
Ficavam mais vivos. Mais elétricos. Era isso que o atraía. Não era apenas o rosto bonito. Era a mente. Aquela garota parecia estar sempre pensando. Sempre analisando. Sempre procurando uma explicação.
Quando Grace perguntou sobre Hogwarts, Hailey começou a explicar as casas.
E Gareth ficou olhando.
Ela falava com facilidade.
Conhecia cada detalhe.
Não precisava pensar antes de responder.
Quando mencionou a Corvinal, explicou sobre conhecimento e curiosidade e Gareth pensou que aquela fosse a casa dela. Quando falou da Sonserina, Draco ergueu o queixo com orgulho. Grace e Gareth presumiram que era a casa dele.
Quando chegou à Grifinória, seu sorriso ficou diferente.
Orgulhoso.
Gareth percebeu que aquela era a casa de Hailey.
— Então você gosta mesmo da sua casa.
— Muito.
— Faz sentido.
Hailey olhou para ele.
— Por quê?
— Você parece corajosa.
Ela ficou em silêncio. Por um instante, aquela palavra pareceu pesar.
Corajosa.
Ela não se sentia assim. Não depois de Andrew. Mas não queria explicar. Então apenas sorriu timidamente.
— Obrigada.
Gareth sorriu de volta. E Grace observou os dois. Aquilo estava ficando interessante.
– Eu só quero saber uma coisa – a voz de Draco foi ouvida pela primeira vez e os três o encararam – Como saberemos quem é a terceira semideusa? Nossa diretora disse que você — apontou para Gareth — saberia
– Uma ruiva da audácia – respondeu Gareth – Já a conheci antes em missões. Um semideus reconhece o outro. Tenho certeza
Grace e Hailey sorriram. Draco apenas aceitou a resposta e voltou ao seu silêncio
Logo depois a cerimônia começou.
Quando os nomes começaram a ser chamados, Hailey se aproximou de Draco e sussurrou
— Coloca nossos nomes na lista.
Ele assentiu. Sacudiu a varinha discretamente para garantir que os nomes dos quatro estivessem entre os iniciandos.
– Você sabe que tem permissão pra usar magia, certo? – o sonserino disse à ela – Não precisa da minha ajuda
– Tem razão, não preciso. Mas você também precisa se mexer – Hailey respondeu e Gareth, que estava ao lado dela, sorriu com a resposta
Quando chegou a vez de Hailey, ela caminhou até a tigela.
O corte em sua palma ardeu.
Uma gota de sangue caiu sobre as brasas.
O fogo se levantou.
Audácia.
Gareth veio logo depois.
E fez o mesmo.
Grace também.
Draco por último.
Quatro escolhas. Quatro destinos.
E nenhum deles sabia que aquela decisão os colocaria no centro de uma guerra que ultrapassava completamente o mundo que conheciam.
───
— Muito bem, novos integrantes da Audácia!
A voz de uma menina ruiva cortou o burburinho. Ela caminhava à frente do grupo com uma energia quase elétrica.
— Meu nome é Sara. Sou uma das líderes da Audácia.
Ela não parecia o tipo de pessoa que precisava gritar para ser obedecida. Os olhos dela bastavam. Negros como obsidiana.
— Aqui não existe espaço para covardes.
Ela virou-se.
— Corram.
E disparou.
Os iniciandos demoraram alguns segundos para reagir.
Grace não.
Correu imediatamente.
Gareth acompanhou.
Hailey sorriu.
Então correu também.
Ela amava correr.
Havia anos que usava as propriedades de Hogwarts para isso. Em dias particularmente ruins, corria até os pulmões queimarem e as pernas doerem, porque o cansaço físico era mais fácil de suportar do que determinados pensamentos.
Draco veio atrás.
— Isso é ridículo! — reclamou tentandk alcançar Gareth que era mais alto e mais rápido
Gareth riu.
— Bem-vindo à Audácia, parceiro!
Eles correram pelas ruas.
Sara saltou uma grade.
Grace passou por cima.
Gareth fez o mesmo.
Hailey apoiou uma mão no ferro e saltou com facilidade.
Draco não caiu por pouco.
O percurso parecia ter sido criado para separar os que realmente queriam estar ali daqueles que haviam escolhido a facção por impulso.
Eles subiram uma escada.
Desceram outra.
Atravessaram uma rua.
Subiram novamente.
Então ouviram.
O trem.
O barulho metálico aumentou.
Sara não diminuiu.
Saltou.
Grace foi atrás.
Gareth também.
Hailey respirou fundo.
E pulou.
Por alguns segundos, tudo pareceu silencioso.
Então ela aterrissou.
Draco chegou logo depois, quase tropeçando e ofegante
— Eu. odeio. essa. facção.
Hailey riu.
— Você que escolheu.
— Fui enganado.
Gareth deu um tapa no ombro dele.
— Você ainda nem viu a parte boa.
Draco olhou para frente.
— Existe uma?
Gareth apontou.
— Aquilo.
O telhado.
Sara estava na beirada.
— Vamos ver quem realmente pertence à Audácia.
Ela olhou para baixo.
— Vocês precisam pular. Simples assim.
Dez metros. Ela apontou para baixo como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
Grace sorriu.
Hailey também.
— Eu.
As duas falaram ao mesmo tempo. Sara abriu um sorriso.
— Par ou ímpar.
Grace venceu.
Ela correu.
Saltou.
E caiu na rede.
Um braço forte envolveu sua cintura antes que ela pudesse se levantar.
— Primeira a pular! — uma voz grossa gritou.
Grace levantou os olhos à procura do dono da voz.
Alto.
Forte.
Olhos azuis escuros.
Ele sorriu.
— Eu sou Quatro.
Grace percebeu que ainda estava nos braços dele. E ele percebeu no mesmo instante. Os dois soltaram-se.
— Desculpa. Sou a Grace
— Tudo bem.
Ele estendeu a mão.
— Quatro. – se apresentou novamente
Grace olhou para a mão. Depois para ele.
— Quatro?
O rapaz deu um sorriso de lado.
— Longa história.
Grace apertou a mão dele. Foi um simples aperto. Nada além disso. Mas, quando seus dedos se tocaram, Grace sentiu uma coisa estranha. Não era como quando alguém a encantava. Era mais sutil. Uma curiosidade imediata. Como se quisesse descobrir por que aquele homem parecia tão tranquilo diante de tudo. Quatro também demorou um pouco mais para soltar sua mão. Grace puxou a própria mão.
— Obrigada.
— De nada, Grace.
Ele disse o nome dela como se quisesse memorizá-lo. Ela percebeu. E ficou vermelha.
— Próxima chegando!
Hailey aterrissou na rede. Tentou sair mas seu pé ficou preso.
Antes que Quatro pudesse falar para o próximo novo membro eslerar para pular, Gareth já tinha saltado e caiu ao lado deHailey.
— E aí, gata? Vem sempre aqui? – ele disse e piscou
Hailey arregalou os olhos e seu rosto quase explkdiu de tão vermelho que ficou A gargalhada da Audácia explodiu ao redor. Ela tentou esconder o rosto mas Gareth viu que ela estava sorrindo assim como ele.
E, naquele instante, Hailey percebeu uma coisa que a assustou mais do que qualquer salto: Ela estava sentindo feliz. Feliz de verdade. E uma parte dela imediatamente se sentiu culpada por isso.
Porque Andrew não estava ali.
E, durante meses, Hailey acreditara que sorrir novamente seria uma espécie de traição.
Mas talvez, pela primeira vez desde a guerra, alguém estivesse conseguindo lembrá-la de que continuar vivendo não significava esquecer quem havia ficado para trás.
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