Last
3 Pain
Notas iniciais
~ Pain
Quando abri os olhos novamente para poder voltar a consciência, notei que estávamos em um ambiente diferente. Era um quarto simples, decorado com costumes vitorianos, porém cheirava a mofo e poeira e havia manchas de sangue que iam dos lençóis das camas até a pequena sacada que havia ali.
Lola estava nos braços do encapuzado com o corpo trêmulo enquanto ele sussurrava uma canção de ninar para embalar seu sono, que no caso mais parecia um pesadelo.
Victor estava perto de mim, calado e com um olhar vago. Como se seus pensamentos estivem longe de toda aquela tortura.
E eu não conseguia parar de chorar, assustada demais para agir ou ficar na minha. O sorriso de Luke, suas piadas e suas gracinhas não queriam sair da minha cabeça e eu não conformava de ter perdido ele de uma forma tão banal.
Não queria e eu nem vou me conformar com isso.
– Eu vou tirar a gente dessa. — falou Victor me puxando para perto dele e sussurrando no meu ouvido. – Não se preocupe.
– Eu estou com medo, Victor. — falei.
– Eu... eu também. — admitiu ele. E me abraçou forte.
Corei violentamente.
Aquela era a primeira vez que eu tinha mantido algum contato tão próximo com ele como agora. Enterrei meu rosto em seu peito e o abracei forte, como que com aquelas palavras e aquele abraço fossem meu refúgio para todo aquele sofrimento.
– Vocês estão quietos demais. — falou o encapuzado deixando Lola no chão e rumando na nossa direção. – Vamos começar com a nossas brincadeiras.
– Eu não vou brincar de nada! – gritou Lola correndo com um vaso prestes a acertar ele, porém ele viu e puxou seus cabelos, a fazendo ajoelhar no chão. – Eu não aguento mais, por favor, deixa a gente sair daqui. — por fim implorou Lola soluçando pelo choro.
– Eu deixo vocês saírem se brincarem comigo. — falou ele sorrindo. – Terão que disputar em duplas para sair dessa mansão, o ganhador vai.
– E o perdedor? – perguntou Victor me deixando aos poucos e se levantando.
– Morre, evidentemente.
O medo pareceu percorrer cada centímetro do meu corpo quando ouvi isso. Eu não ia suportar ter outro amigo morto nessa casa!
– Eu vou. — falou Victor. – Quero duelar com você.
– Não! – e meu impulso foi gritar para impedi-lo de cometer essa loucura. – Victor, por favor, não! – me levantei desajeitadamente e me atirei em seus braços, completamente desesperada.
O encapuzado soltou uma gargalhada sádica como se divertisse com todo aquele desespero que eu tava protagonizando e olhou para Victor.
Ele usava uma mascara de palhaço e cobria a cabeça com um manto preto de comprimento que arrastava no chão.
Era medonho.
– Você acha que eu não saquei sua estratégia? – perguntou ele. – Você sabe que somos os mais fortes daqui, daí armaria qualquer artimanha para me vencer e pouparia as duas de morrer. Porém, isso não vai rolar.
– E quem garante que esse é realmente o meu plano?
– Ninguém. — falou o encapuzado. – Porem, antes que arme um plano as duas idiotas vão lutar.
Eu teria que matar Lola para conseguir sair dali com vida? Eu não conseguiria machucá-la nem se fosse de propósito, imagine ter que matá-la?
Meu olhar rapidamente seguiu para Lola. Tinha algo em seu olhar que era estranho. Era um misto de confusão, medo e ódio que parecia querer consumi-la para sempre.
E eu não estava gostando nada daquilo.
– Isso é cruel! – gritei e ele novamente riu – Tem que haver outra maneira da gente sair daqui!
– Mate-a e veremos o quão cruel pode ser o significado dessa palavra. — falou ele. – Que o sangue de vocês derrame nesse assoalho. — por fim falou ele jogando uma faca para mim e outra para Lola.
Minhas mãos trêmulas mal conseguiam segurar aquele objeto. Olhei para Victor e o mesmo estava amarrado em uma cadeira nos olhando preocupada, porém quando olhei para Lola fiquei ainda mais preocupada.
Seus cabelos pretos estavam bagunçados e colados em seu rosto pelo suor que escorria na sua testa. Seu olhar estava sombrio enquanto me olhava, como se fosse um animal selvagem prestes a atacar uma presa inocente.
– Lola não! – gritei ao ver que ela corria na minha direção com uma navalha em mãos.
Foi nesse momento que percebi que a presa inocente era eu.
– Morra! – gritou Lola indo para depositar um golpe em meu ombro, porém me esquivei rápido o bastante para que me acertasse.
– Lola a gente é amiga, não pode nos submeter a uma situação dessa! – falei, ofegante. – Eu não vou te machucar e eu sei que você também não.
– Eu não sou sua amiga. — falou Lola segurando a faca perto da perna. – E se for para me sair desse pesadelo, não vou hesitar em te matar.
Aquelas palavras equivaleram a um soco bem-dado na ponta do meu estômago. Lola não hesitaria em me matar, ela não era minha amiga e muito menos me pouparia de algum sofrimento.
Onde fomos parar?
Até alguns instantes ela me consolou das palavras frias de Victor e agora isso.
E exatamente aí que a gente percebe que a única pessoa que você pode confiar é a si mesmo.
–... — não consegui dizer nada. E aproveitando dessa minha distração, Lola chutou minha canela e me fez cair no chão de joelhos. Logo, me puxou pelos cabelos para olhá-la e colocou sua faca no meu pescoço.
– Game over. — falou Lola apertando a faca no meu pescoço. Pude sentir uma pequena ardência ao sentir que ela me cortava. – Perdeu, amiga.
Eu estava devastada. A pessoa que eu mais confiava no mundo estava prestes a me matar se apenas perfurasse mais minha pele e eu estava deixando.
Pela primeira vez, senti uma energia diferente percorrer meu corpo. Era como se todo o ódio e maldade que estava guardado dentro de mim em algum canto secreto tivesse tomado liberdade e invadido meu coração. Era estranho.
E bom ao mesmo tempo.
Foi como se aquela energia do mal fosse o choque que faltasse para que eu pudesse reagir.
E foi exatamente assim que eu agi.
– Não Lola. — neguei, pegando minha faca disfarçadamente que estava no chão. – Quem perdeu foi você.
E quando ela menos esperava, cravei minha faca em sua coxa e rasguei sua pele, descendo até metade das suas coxas. Ela gemeu de dor e me soltou, caindo no chão.
– Argh... — gemeu Lola levando sua mão até sua perna. A calça legging que usava havia se transformado em um pedaço de pano ensanguentado. – Você me paga, Melanie.
– Cala a boca. — murmurei chutando sua barriga e ela vomitou um pouco de sangue.
– Você não é nada, sua vadia. — falou Lola se levantando, levando suas mãos ate sua barriga e mancando um pouco até mim. – Você é patética...
As palavras dela ecoaram na minha cabeça por um longo tempo enquanto se misturavam as lembranças que tinha do meu pai e as palavras frias de Victor.
Ninguém mais me chamaria assim. Nunca mais.
E foi depois dessa decisão que perdi minha consciência.
– Eu não sou patética. — murmurei, indo para cima de Lola.
Um grito de dor ecoou por todo quarto enquanto Lola caia desacordada sujando de vermelho o piso branco daquele lugar. Minhas mãos e meu rosto ficaram completamente sujos de sangue que jorrou do corte horizontal na barriga de Lola.
O grito, aquela adrenalina que eu estava sentindo naquele momento havia me deixado em êxtase. Como uma criança que havia acabado de descobrir as letras, eu estava completamente maravilhada com aquela nova sensação.
Eu havia matado minha melhor amiga.
E havia gostado disso.
– Finalmente, game over. — falou o encapuzado batendo palmas enquanto vinha na minha direção.
– Game over? – perguntei também me aproximando dele. Ele fez o mesmo e nossos corpos se colaram, me fazendo arrepiar com aquele contato.
– Sim, game over. — repetiu ele no meu ouvido seguido de uma mordida na minha orelha. Soltei uma pequena risada e ele me puxou pela cintura me trazendo para mais perto dele.
– Não, eu apenas dei restart. — e então cravei minha faca em suas costas e a rasquei. O encapuzado murmurou algo como “vadia” e caiu morto, nos meus pés.
Eu estava fora de mim. Cada milímetro do meu corpo ansiava por sentir cada vez mais daquela estranha sensação, como se finalmente eu tivesse encontrado meu lugar no mundo.
– Olá Victor. — falei me aproximando dele, ele se encolheu na pequena cadeira. – Vamos jogar?
– Melanie, para com isso. — mandou Victor, porém fingi não ouvir enquanto cortava as cordas que o prendia na pequena cadeira. E foi aí que ele me abraçou e toda aquela êxtase pareceu ter sumiu. – Se acalma, por favor.
E aos poucos toda aquela sensação parecia ter sumido de dentro de mim e finalmente me dei conta do que eu havia me tornado. Havia sangue por todos os lados do quarto, o que fez minha cabeça girar, e o encapuzado estava aos meus pés.
Porém, tudo desabou diante dos meus pés quando vi Lola.
– L-Lola? – a chamei saindo rapidamente dos braços de Victor e me atirando ao chão, porém não obtive resposta vindo dela. – Você está bem, não é mesmo?
– Melanie... Lola está morta. — falou Victor agachando do meu lado com um olhar frio sobre ela.
– Claro que não... — tentei mentir para mim mesma deixando as lágrimas rolarem do meu rosto. – Ela só está desmaiada e agora mesmo vai voltar a si.
– Não Melanie, ela está morta. — por fim falou Victor me olhando. – Você a matou.
– E-eu não seria capaz de matar ninguém. — gritei, balançando a cabeça freneticamente para os lados e levando minhas mãos a cabeça. – Não...
Senti meu corpo falhar e caí para o lado, porém Victor me segurou e me abraçou novamente.
Eu havia me transformado em um terrível monstro.
Eu havia matado pessoas, eu havia matado minha melhor amiga por apenas orgulho.
E o pior, eu havia gostado daquela sensação.
– Vamos sair daqui, aqui está começando a feder. — falou Victor me levantando, minhas pernas estavam falhas e eu poderia cair a qualquer momento.
– … — não consegui falar nada.
Senti que tudo ficou escuro e eu não sentia mais meu corpo.
Por um pequeno momento senti um pouco da escuridão que habitou meu ser por alguns minutos atrás. Não fiz questão de tentar voltar a consciência e eu também não tinha forças para isso.
Apenas deixei que aquela escuridão tomasse conta de mim.
Uma escuridão na qual eu mesmo tinha criado.
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