Lar
3 Três
TRÊS
Sábado, 22 de julho de 2017 – 19h52min.
Eu havia acabado de chegar em frente ao Teatro MyungJae. Meu corpo inteiro se arrepia ao ver centenas de crianças ao meu redor. Era como se tivesse aberto as portas do inferno e libertado todos os pestinhas que habitavam por lá. As crianças gritavam, corriam e choravam como um bando de animais.
No mesmo instante, pego meu celular e ligo para meu irmão. Eu só poderia estar no lugar errado. Não é possível! Era como se eu estivesse dentro de um pesadelo, cercado por moleques remelentos. No quinto ou sexto toque, Taehyung finalmente atende seu celular.
— Alô. – Atende meu irmão, com a voz entediada, enquanto ouço alguns sons de luta ao fundo. Provavelmente estava assistindo algum filme com Hoseok.
— Taehyung! Por favor, me diz que eu estou no lugar errado. – Imploro, desesperado. Na mesma hora, meu irmão abaixa o volume da televisão e ouço várias movimentações.
— Por acaso você está cercado de crianças? – Pergunta Taehyung, rindo, finalmente me respondendo.
— Sim. – Respondo, hesitante.
— Então você está no lugar certo, NamJoon. — Taehyung estava se divertindo com o meu desespero. Escuto algumas risadas ao fundo e logo percebo que o celular está no viva-voz e que além de Hoseok, Jimin e JungKook estavam ouvindo a nossa conversa.
— E como é que vocês não me avisam isso? – Pergunto indignado. Isso é o suficiente para a sala de estar da minha casa se encha de gargalhadas. – Ei! Não riam! Eu estou cercado por pestinhas de todas as idades, loucos para assistir Peter Pan. Vocês fazem ideia de quão insuportável é isso?
— Relaxa, NamJoon! Eu tenho certeza de que você vai acabar se sentindo em casa depois de um tempo. – Ironiza Hoseok, fazendo com que as gargalhadas aumentassem ainda mais.
— Vai á merda vocês quatro! – Digo, completamente revoltado com a gozações de meus amigos. Eu realmente estava desesperado.
— Eu tenho uma pergunta, NamJoon. – Começa JungKook, recuperando-se da crise de riso. – E se o SeokJin for hétero?
— É verdade. Essa possibilidade é bem alta, considerando que ele tem três filhos. – Concorda Jimin, pensativo. – E a mãe das crianças? E se ele for casado, NamJoon? O que você vai fazer?
Antes que eu pudesse responder meus amigos, meu mundo parece parar por completo assim que meus olhos se encontram com os de SeokJin. Era como se ele estivesse andando em câmera lenta. Ele usava uma calça preta de couro extremamente apertada, uma jaqueta do mesmo material e uma camiseta rosa bebê colada, com uma gola aberta o suficiente para que eu conseguisse ver sua clavícula.
“Sexy! Muito sexy!”
— Alô? NamJoon? Você ainda está ai? – Pergunta Jimin do outro lado da linha.
— Eu preciso desligar. O SeokJin chegou. Falo com vocês depois. – Aviso a meus amigos, desligando o celular em seguida, sem nem mesmo esperar uma resposta deles.
SeokJin sorri e apressa os passos, enquanto segura as mãos de dois dos trigêmeos. Ele fala alguma coisa para as crianças e guia-os para onde eu estava. Por algum motivo, começo a ficar nervoso. Meu coração passa a bater mais rápido e eu me perguntava se estava vestido bem o suficiente para acompanhar Jin e seus três filhos naquele teatro.
— Você veio! – Exclama SeokJin, parecendo realmente surpreso ao me ver. Ele sorria animado e demonstrava estar satisfeito com a minha presença. Sua atitude me faz relaxar um pouco mais. – Crianças, esse é o tio Kim NamJoon. Ele vai nos acompanhar na peça de hoje. Digam oi à ele.
— Oi. – Cumprimentam as crianças de maneira desconfiada.
— NamJoon, esse são Manse, o mais novo, Daehan, o do meio, e Minguk, o mais velho. Não tive a chance de apresenta-los naquele dia, porque estávamos atrasados para um compromisso, mas espero que se deem bem. – Apresenta SeokJin, acariciando a cabeça de cada uma das crianças enquanto revela seus nomes.
Apesar de idênticos, eles pareciam ser diferentes. Os três me encaravam curiosos e hesitantes. Talvez ainda não confiassem por completo em mim. Tento sorri o mais natural possível e me abaixo para ficar na altura deles. Acariciando suas cabeças, assim como o pai deles havia feito, cumprimento os garotos.
— Fico feliz em ver vocês novamente. – Digo, fazendo as crianças se encolherem, mas, surpreendentemente, pareciam mais relaxados com a minha presença.
SeokJin se aproxima de mim e me abraça. Surpreendo-me com seu gesto e fico estático. O moreno fica a milímetros de minha orelha e quando sua respiração bate em meu pescoço, sinto meu corpo inteiro se arrepiar. Preciso fazer um grande esforço para não o atacar ali mesmo.
— Eu sei que é quase impossível diferenciá-los, mas se tiver alguma dúvida, olhe para mim antes de chamar seus nomes e eu irei dizer qual deles é. Eles odeiam que as pessoas troquem os seus nomes. – Avisa SeokJin, gentilmente. – Eu ainda tentei fazer eles usarem roupas diferentes, mas nenhum dos três permitiu.
— Tudo bem. – Concordo com a voz rouca, ainda afetado pela aproximação repentina de SeokJin.
— Que tal irmos comprar as pipocas? – Pergunta SeokJin, fazendo as crianças se animarem.
— Oba! – Exclamam juntos, sorrindo.
— Eu quero de chocolate! – Afirma Daehan, levantando a mão.
— Eu quero de morango! – Avisa Manse, logo após o irmão mais velho.
— Eu quero de caramelo! – Exclama Minguk, repetindo os gestos dos irmãos.
— Está bem. – Concorda SeokJin, rindo da animação dos filhos. – Vamos, NamJoon?
— E quanto aos ingressos? – Pergunto, observando a grande fila que havia na bilheteria.
— Eu tomei a liberdade de comprar os ingressos pela internet. – Informa, sorrindo gentil. – Eu conheço as crianças que eu tenho. Eles não possuem nenhuma paciência para esperar em grandes filas, por isso, eu faço o possível para fugir delas.
— Bom, em uma coisa nós combinamos, garotos! Eu também detesto filas! – Comento brincalhão, fazendo SeokJin ri. Os trigêmeos correm animados para o fim da fila da bomboniere do teatro, que por sorte estava pequena, e sorriem para nós.
Apesar de odiar crianças, eu não podia negar que Minguk, Daehan e Manse eram incrivelmente adoráveis. Seus sorrisos inocentes lembravam os de SeokJin e os olhos brilhantes eram como diamantes valiosos. Talvez fosse o fato deles serem tão parecidos com SeokJin que me fazia não os odiar. Olho para o lado e vejo um sorriso orgulhoso nos lábios de SeokJin. Por algum motivo desconhecido, naquele momento, meu coração disparou.
— O que você vai querer? – Pergunta Jin, encarando-me com curiosidade. Eu nem mesmo havia notado que chegamos ao local onde os meninos estavam. Desvio meu olhar para encarar o menu.
— Não estou com tanta fome, então acho que vou comer uma pipoca pequena. E você? – Pergunto, pegando minha carteira.
— O mesmo que você. – Responde, desviando sua atenção do menu que havia no alto da bomboniere. Ele me encara confuso e nega com a cabeça. – O que pensa que está fazendo?
— O quê? – Questiono, confuso, pegando meu cartão.
— Não vou deixar você pagar a conta. — Afirma, determinado.
— Papai, podemos comer chocolate? – Pergunta Daehan, enquanto puxava a mão do pai.
— Tudo bem, filho. – Responde SeokJin, sorrindo amável para o filho.
— Não seja bobo. Fui eu que te chamei para sair. Além disso, você já pagou meu ingresso. – Discordo de SeokJin tão determinado quanto ele. – Qual chocolate você quer, Daehan?
— Esse! – O garoto aponta para uma barra grande de chocolate branco.
— Daehan! Esse aí não! – SeokJin o repreende e o garoto se encolhi, insatisfeito.
— Não seja mal, SeokJin. Pode ficar com esse sim, Daehan. E vocês, Minguk e Manse? – Questiono aos outros dois garotos que estavam ao nosso lado, encarando-nos curiosos.
— NamJoon, eles vão te levar a falência. – Alerta SeokJin, preocupado.
— Não podemos comer chocolate, tio NamJoon? – Pergunta Manse, preocupado.
— Claro que podem, Manse. – Afirmo e ele abre um lindo e grande sorriso.
— Obrigado, tio NamJoon. – Manse abraça minhas pernas e eu me assusto com sua atitude.
— Manse, você vai derrubar o tio NamJoon. – SeokJin repreende o filho, com um sorriso carinhoso em seus lábios.
Nós nos encaramos intensamente, enquanto Manse continuava abraçado a mim. Eu não sabia descrever o que estava sentindo. Era a primeira vez que eu estava cercado por crianças, mas ainda assim eu me sentia bem e confortável. Como se eu realmente pertencesse àquele lugar.
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