Lar
1 Oneshot
Notas iniciais
Estou num belo sonho. É verão. Ouço gaivotas grasnando. Quase sinto a maresia. O calor do sol na pele é agradável. Como agradável é a água do mar. Tranquila, fria, pesada, verde. Meu corpo afunda na água. Posso ver os raios do sol atravessarem a superfície e circundarem meu corpo, que balança malemolente, sob o impulso das ondas. Meus cabelos espalham-se em uma teia escura e interminável. Gosto de imaginar que eles se assemelham aos raios do sol, mas não sou loira, sou morena. Meus cabelos se emaranham e me circundam, enquanto o mar me acolhe docemente em seus braços, cantando uma suave canção de ninar. E eu, imóvel, adormeço tranquilamente. É quase como se eu fosse uma boneca. Quase como se eu estivesse sem vida.
É claro, isso é só um sonho.
Eles chegaram no fim da estação das chuvas. Eram ruidosos. Havia muitas crianças, umas três, para ser exata; uma senhora idosa, que calculei ser a avó; um jovem adulto, que poderia se passar por tio, e é claro, o pai e a mãe. Não tinham bichos de estimação, mas nem precisavam, dado o nível de burburinho e barulho daquela casa. Eles gostavam de se comunicar, não tenha dúvida quanto a isso. Conversavam no café, no almoço e na janta. Comentavam na hora da faxina, na hora de dormir, e até na hora das orações. Nunca soube de orações que se fizessem em voz alta, como se fosse em uma missa. Deviam ter parentesco com italianos, estes aí.
Uma coisa eu tive que tirar o chapéu em sinal de respeito a estes moradores, eles eram uma família. Eram muito unidos. Realmente se amavam. Quase senti inveja deles. Mas enfim, a vida não é perfeita, não é?
No meu tempo, a vida era obscura. Lembro da minha mãe, do meu pai, mas não lembro de atividades feitas juntos. Não lembro de conversas partilhadas ou de riso solto e fácil. No máximo lembro de lágrimas. Não! Nunca houve uma briga, pelo menos não na minha presença. Acho que havia algo na minha família chamado "discrição". Qual outro motivo para andarmos o tempo todo de cara amarrada, sem levantar a voz para nada? Nem mesmo pra dizer "eu te amo"? De qualquer forma era a minha família, meu pai, minha mãe, meu lar.
As pessoas costumam associar a palavra "lar" a uma estrutura com paredes, teto, cortinas nas janelas, cercas brancas e chaminé fumegante. Bem, esta visão é típica de livros para colorir. Meu lar era diferente, era cinzento, com paredes manchadas, janelas envidraçadas, e um elevador feio para o sétimo andar.
Entendam então a minha surpresa em encontrar estes estranhos barulhentos ocupando o meu lar.
– Hideo, você viu a menina da capa amarela?
– Hã?
– A menina da capa amarela. Ela vive no elevador. Eu sei que isso parece engraçado, mas não é. Toda vez que vou tomar o elevador, ela está lá. Pensei que estivesse se escondendo lá ou que saísse muito de casa, mas... qualquer hora do dia, ou da noite, ela está lá. Eu acho isso... estranho.
– Hitome, se a menina te xingasse ou tentasse roubar sua bolsa, aí sim você poderia ficar preocupada. O fato dela usar o elevador todas as horas, significa apenas uma coisa: ela não gosta de usar as escadas. Vai ver ela tem um problema nas pernas.
– Oh! Esse é o meu marido Hideo! Céus, como ele é corajoso e inteligente! Só que não. — A mulher ficou com a cara amarrada.
– E o que você quer que eu diga, Hitome? Vamos chamar a polícia pra interrogar a menina coxa? E onde ela mora? Qual é o nome dela? Ela já fez alguma outra coisa de anormal além de usar o elevador? Hein? A resposta é não. É bem capaz da polícia me multar por ocupar o tempo deles com besteiras. "Não, seu guarda, só lhe chamei aqui, porquê não vou com a cara da menina". — O marido imitou a esposa, falando em falsete.
A mulher se afastou bruscamente para não piorar a discussão. No dia seguinte foi a vez do tio fazer sua reclamação.
– Hideo, você tem que falar com o síndico. Esse apartamento está muito estragado.
– Oras! Pois não! Diga-me qual é o problema para que eu possa repassá-lo ao síndico, senhor cunhado-desocupado-que-vive-de-favor-na-casa-dos-outros.
– Eu não estou... sabe, cara, você às vezes é um grande idiota. Eu não sei o que a minha irmã viu em você. Por Deus, você só não é mais tonto, porquê nós te ajudamos.
– Estou esperando a lista de defeitos do apartamento, Takashige.
– Pois então, há um gotejamento incessante no meu quarto, na cozinha, e até no banheiro. Essa água que sai da torneira é horrível. Até encontrei cabelo nela. Além disso tem aquela menina horrível no elevador. Acho que ela deve ser doente mental, pois não sai de lá. Todas estas coisas devem ser resolvidas pelo síndico, se você achar que estão ao seu alcance.
– Ao meu alcance? Por que é que você não vai falar ao síndico? Será que só eu tenho que resolver tudo nessa casa? Hein? Bando de encostados. — O homem falou mais alto para ser ouvido pelo resto da família.
– Isso foi pra mim? — O homem que era o tio, Takashige, perguntou com o cenho franzido.
– Quando for pra você, eu direi na sua cara: "isso é pra você". Tá legal? — O marido falou alto novamente.
Todos na casa pararam de tagarelar por uns dias, mas depois voltaram à velha rotina de comunicação verbal.
– Hideo! Hideo, meu filho, eu não gosto desse apartamento.
– O que foi mamãe? Você também não gosta da menina do elevador?
– Não é só isso, Hideo. Eu me sinto... mal, aqui. Há... alguma coisa de ruim, nesse lugar. Meu reumatismo ficou pior, e a minha dentadura já caiu duas vezes da minha boca, só esta semana.
– Oh, mamãe, isso apenas significa que a senhora precisa de um protético novo. Não é o lugar que faz a chapa cair, mas sim a gravidade.
– Eu não sou idiota, nem esclerosada, mas você... não tem respeito pelos mais velhos. Eu estou lhe dizendo que há algo ou alguém neste apartamento, neste prédio. Uma criatura que não é normal, que me acompanha enquanto eu estou aqui dentro, que se movimenta como se fosse um de nós, mas não é. Às vezes quando as crianças estão na escola, eu escuto risos, soluços, passos, barulhos no quarto da crianças, mas não há ninguém lá.
– Tá, como é que a senhora consegue ouvir alguma coisa, se esta é a família mais barulhenta de todo o Japão, principalmente quando a senhora depende de um aparelho para poder ouvir normalmente?
– Por isso mesmo. Às vezes, eu sinto um calafrio me percorrendo o cangote, quando atravesso o limiar deste apartamento, como se estivesse entrando na casa de alguém, como se essa casa não nos pertencesse e houvesse uma outra pessoa aqui, o verdadeiro dono.
– Mãe! Tudo isso é fruto da sua imaginação. A senhora já se ouviu falando? Não, mamãe, a senhora não está bem. Tem algo estranho com a senhora. Amanhã vou levá-la no geriatra.
– Cale a boca, seu filho desalmado. — A velha passou a dar tapas no filho , que se defendeu como pôde, sem encostar um dedo em sua mãe.
Apesar de tudo, Hideo passou a observar com mais atenção o lugar onde morava, inclusive a famosa menina do elevador. Ele nunca a vira diretamente, apenas de soslaio, de passagem, ao longe, como se não quisesse bancar o intrometido e confrontar a menina, mas agora iria mudar seu comportamento e investigar a fundo essa estória.
Hideo, uma tarde, estava voltando do trabalho mais cedo e tomou o elevador. Ele sentiu um arrepio e virou-se para ver se havia alguém atrás de si. Não havia ninguém. Saiu do elevador no sétimo andar e foi para seu apartamento. Antes de entrar em casa, virou-se para o elevador, e foi quando a viu. A menina da capa amarela. Encostada em um canto, encharcada de chuva. Ela olhava para ele, mas aí as portas do elevador se fecharam. Resolvendo tirar essa estória a limpo, Hideo procurou o síndico.
– Gostaria de lhe falar sobre a menina da capa amarela, Senhor Nakamura.
– E o que quer falar?
– Há essa menina de capa amarela que vive o tempo todo no elevador. Gostaria que falasse com os pais dela, que orientassem sua filha a procurar outra ocupação. Ela assusta as pessoas.
– Tenho certeza que sim. A menina da capa amarela chamava-se Mitsuko Kawai. Ela morava no apartamento 7, que agora o senhor ocupa com a sua família.
– E acaso isso dá o direito a ela de ficar rondando a minha família? Não mesmo.
– Concordo! Contudo, será difícil fazer alguma coisa a esse respeito.
– E por que não? Acaso os pais dela são figurões, pessoas influentes e importantes, que estão acima dos outros?
– O problema não é este, Senhor Nakata. A menina da capa amarela morreu há dois anos. Os pais dela se mudaram do apartamento 7 na mesma época. Como vê não há a quem reclamar. A não ser que consiga falar com os mortos.
Hideo Nakata ficou sem palavras. Subitamente relembrou um a um todos os argumentos que teve com a família, e mais ainda o estranho jogo de suas filhas, de conversar com uma amiga imaginária. Ele sentiu um nó na garganta. Ao voltar para seu apartamento preferiu as escadas. Ao chegar em casa, chamou a mulher, o cunhado e a mãe. Contou-lhes tudo. Teve que ouvir "Eu bem que te avisei" diversas vezes, mas isso era o de menos. Consultou a família se eles queriam mudar de apartamento. Ficaram em silêncio. Ter um fantasma em casa era ruim, mas ter que se mudar para um lugar pior era um osso duro de roer. Resolveram se comunicar com a menina morta.
A vidente contratada encheu a casa de incensos, rezou, entoou cânticos e povoou a casa com imagens de antepassados protetores. Ao fim de tudo, decidiram por uma seance, ou sessão espírita.
A vidente recomendou que as crianças passassem a noite na casa de parentes, chamou uma médium sua amiga, arrumou a mesa onde a família sentou-se em volta, apagou as luzes e tentou falar com o além.
– Menina Mitsuko Kawai, queremos falar contigo. Por favor, apareça! Nós te invocamos.
A médium se agitou. Abaixou a cabeça e lentamente se apoiou no ombro de Hitome Nakata.
– O que querem?
– Mitsuko Kawai, é você?
– Sim. O que querem?
– Menina Mitsuko Kawai, queremos que abandone esse plano terrestre e vá para o mundo dos mortos. Seu lugar não é entre os vivos. Não deve ficar aqui.
– Este é meu lar.
– Não mais. Você morreu. Há um lugar melhor, para onde os mortos vão. Ele é cheio de luz e você será bem vinda lá. Esta família não merece sofrer com a sua presença. Eles estão infelizes por ter que conviver com um fantasma. Por favor, parta. Vá para o mundo dos mortos, que é o seu lugar.
– O meu lugar... Nunca achei um lugar que fosse meu mesmo. Vivi toda a minha vida no apartamento sete. Não sei onde mais ir. Você indica o caminho?
– O lugar dos mortos é cheio de luz. Há muito amor lá. Procure a luz com o coração sem tristeza ou rancor. Procure um lugar limpo e calmo, e você encontrará o mundo dos mortos.
– Vou procurar. Sairei deste apartamento e procurarei o mundo dos mortos. Vocês não me verão mais. Só mais uma coisa, quero lhe dizer. Não gosto das pessoas que lhe acompanham.
– Não gosta da médium ou da família?
– Eu me refiro às pessoas invisíveis. Dois homens mortos que lhe acompanham. Eles não têm um rosto bondoso. — A médium se agitou e pareceu despertar de um sono. Ficou olhando em volta como se não soubesse o que ocorrera.
A vidente ficou observando a médium com uma expressão preocupada.
– Então, deu certo? A menina foi embora? — Hideo Nakata perguntou.
– Hã? O que? Sim, sim. Creio que ela foi embora. — A vidente se abraçou com se sentisse frio, e olhou de soslaio em volta de si.
Após a seance as coisas voltaram ao normal. Nunca mais viram ninguém que não devesse estar no elevador. Nem sentiram uma presença em sua casa. As meninas voltaram a brincar de bonecas, e a tubulação hidráulica deixou de vazar. Todos voltaram a tagarelar e a discutir todas as horas.
Quanto a mim, ainda procuro o mundo dos mortos, o lugar cheio de luz. Tento tirar a tristeza e o rancor do meu coração, mas acho que ainda não foi o suficiente. Necessito de um novo lar. Não precisa mais ter paredes, teto, janelas e elevador. Basta ter um morador com um bom coração e gostar de crianças. Você conhece algum lugar assim?
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