Lapso Paradoxal

34 Capítulo 32 - Caixa


Ao abraçar Vitor, senti como se o universo próprio me abraçasse, seu calor me reconfortava, naquela praia, apenas eu e ele, o som das ondas se tornava mais baixo a cada segundo em seu leito, eu parecia imersa na areia gélida, mas aos poucos a sensação que ela me trazia também ia desaparecendo, eu não queria abrir os olhos, não queria que nada daquilo se apagasse, por mais fantasioso que fosse, era o lugar onde eu era feliz, diante de todas as dores do mundo, a garota estava no vazio completo, uma caixa onde só existia o meu eu, meus desejos e delírios, pensei que fosse mais fraca do que isso, e ao abrir os olhos, o vento fresco que batia contra meu rosto se transformou em cinzas que cobriam meu corpo, não era Vitor que me abraçava, mas...

— Você? – Eu abri meus olhos, mesmo não querendo, não havia sol, não havia areia, não havia mar, não havia nada. Escuridão total, o cheiro de sangue retornou automaticamente quando dei um salto inclinando todo meu corpo para frente e abrindo os olhos de verdade. Ao contrário do fundo do poço, aquilo ali era branco, um branco que cegava meus olhos, que antes, já foram tragados com a cor negra, eu olhei para o lado e vi várias pessoas em pé me observando, todas inquietas, contei rapidamente, eram 11, 6 homens e 5 mulheres, contando comigo, 12 pessoas, tudo era branco e não havia nada, parecia a sala do Templo em Dragon Ball, não havia som, entrada ou saída, eu estava morta e aquilo era o purgatório? Lembro bem que sofri um acidente, é claro que eu estou morta! Essas pessoas devem estar aqui para o julgamento também, o inferno me aguardaria, e pensar que um dia sonhei em ver Vitor de novo, mas de alguma forma me sentia tranquila, eu estava feliz em ir para o submundo, só assim poderia, quem sabe, curar minhas feridas internas e toda penitência necessária para o meu perdão próprio, se bem que nem mil anos poderiam tirar a corrupção impregnada em meu ser e meus pecados infinitos que farei questão de lembrar todos os dias.

— Ei, você é idiota? Por que fica olhando com a boca aberta pra gente? Estamos no mesmo ‘patamar’ que você. – A primeira pessoa que falou comigo foi uma garota de aproximadamente 18 anos, ela parecia bem nervosa e irritada, os outros eram pessoas comuns, haviam alguns jovens e alguns de idade mais adulta, mas nenhum idoso, a faixa etária deveria ser em torno dos 18 aos 30, havia um homem que parecia ter 40 anos, mas ele era exceção.

— Estamos no purgatório? Vocês também morreram? – Perguntei enquanto todos me fitavam com estranheza.

— Purgatório!? Eu não acredito nisso, eu nem me lembro de ter morrido! Eu estava dormindo até minutos atrás. – Disse um garoto ruivo de aproximadamente 20 anos, ele estava sem camisa, e só agora fui perceber, todos ali estavam de pijama ou camisola, havia duas garotas com camisola, duas de pijama (um bem infantil de ursinhos) e uma outra com roupas de festa, os homens também, dois estavam sem camisa, um apenas com uma cueca, o resto com roupas confortáveis e velhas, e já eu...

— Por que estou nua!? – Todos pareciam não ligar para isso, a situação já era estranha o suficiente para ficarem espantados ao verem uma garota nua, alguns homens me olhavam corados e com pensamentos pervertidos, mas a maioria apenas queria saber onde estavam, um deles jogou sua camisa para que eu me cobrisse, felizmente, a camisa era longa e podia cobrir minhas partes íntimas, mas eu não ligava muito para isso, depois de tudo que eu havia feito durante esses dias atrás.

— Eu também estava dormindo, não sei como vim parar aqui! Não é possível que eu esteja morto porra, consegui um emprego bom semana passada. – Disse o homem que parecia o mais velho dali, ele tinha barba um pouco grisalha e olhos aprofundados em seu rosto corado de sol.

— Acho que todos estavam dormindo, né? Por isso estamos de pijama, e você, bem, sem roupa. Devia estar boa sua noite. – A próxima a falar foi uma mulher por volta dos 30 anos, cabelos curtos e aparência bem abatida, parecia uma daquelas depressivas que se dopavam com remédio o dia todo.

— Bom, sim, eu estava na cama também! – Não pude dizer a verdade, aquilo era tudo muito estranho, se eu falasse que era a única que não estava dormindo, eles suspeitariam de mim. Aliás, isso tinha a ver com algum portador? Eu não via outra possibilidade se não essa! Eu estava naquela Ferrari e um caminhão veio de encontro comigo, era pra eu estar morta, como vim parar aqui?

— Bom dia, boa tarde, ou será que é boa noite? Bom, o tempo não importa aqui meus caros colegas, chamo-os de colegas pois espero que nesse instante, vocês possam se dar bem, afinal, vamos todos se divertir! – Uma voz surgiu do nada ecoando por aquela sala que não parecia infinita, agora que percebi mas, uma das garotas, a que parecia a mais nova do grupo, chorava ajoelhada no chão segurando sua cabeça.

— Que diabos é isso!? Quem é você porra? Você que colocou a gente aqui? – A próxima pessoa a falar foi um rapaz negro com cabelos encaracolados e temperamento bem explosivo, ele gritava olhando para cima, ele estava só de cueca.

— Acho que essa sala tem alguma ilusão de ótica! A porta deve ser toda branca também, se andarmos vamos dar de cara com uma parede e a porta. – Um rapaz gordo e careca que parecia apavorado disse olhando para todos, mas a voz misteriosa tornou a falar.

— Não tem saída, não tem entrada, só eu posso tirar vocês daí, então, acho melhor ouvirem o que eu tenho a dizer, não acham? Eu não quero enrolar ou ficar de papo furado, vocês doze foram convidados para jogar alguns jogos, mas não se preocupem, não são jogos entediantes, são jogos bem interessantes, envolvendo suas próprias vidas, haha. – Aquilo deixou todos atentos, eu tinha certeza já: Aquela maldito era um portador.

— Como assim? Isso é alguma pegadinha? – A guria loira que me enquadrou primeiro voltou a falar, mas foi repreendida por uma garota ruiva com os olhos bem frios, sua voz também demonstrava sua falta de sentimentos.

— Pegadinha? Olhe ao seu redor idiota, estávamos todos dormindo, como acha que viemos parar aqui? Nossos parentes quem nos trouxeram? Claro que não, essa situação não é normal, se não estamos mortos, então estamos lidando com algo paranormal, e é melhor aceitar logo o que ele diz. – Aquela garota já havia ganhado meu respeito, ela foi sincera e curta, só essas pessoas idiotas manipuladas todos os dias pelas mídias e que se movem através do senso comum para não entenderem a situação em que estamos.

— Sim, isso não é nenhuma pegadinha, reality show, sonho, vocês não foram abduzidos, não morreram, não estão em uma realidade virtual, isso é a vida real, e quem morrer aqui, sabe, morre mesmo! Não é divertido? Tudo que envolve apostas grandes se torna prazeroso, um jogo sem recompensas não é um jogo, é uma brincadeira, mas sabe, não estamos aqui pra brincar, afinal, todos vocês são bem crescidinhos pra isso, então, se entenderam bem, aqui estão as regras. – Aquela voz irritante começou a pegar a atenção de todos, o que ele realmente queria? Se era um portador, pra que envolver todas essas pessoas? Eu nem sabia qual era sua habilidade, mas me lembrando de todas que escrevi, essa só podia ser um ‘espaço para jogos’.

— Regra número 01: Só haverá um vencedor no final, o que quer dizer que o resto, ou seja, as pessoas que perderem, vão morrer! – Uma única palavra foi capaz de deixar todas aquelas 11 pessoas em desespero, ou quase todas elas, visto que olhei para um dos homens, o que tinha cabelo preto e repicado, e ele estava aparentemente tranquilo.

— Morrer? O que diabos é isso? Cara, já é hora de parar com essa palhaçada! – O homem bombado e com cara de quem comeu 100 limões de uma só vez começou a gritar olhando para o alto, como se o portador estivesse se importando.

— Quem me interromper novamente, eu sinto dizer mas, vai ter que ser desclassificado dos jogos antes mesmo deles começarem. Único aviso que darei. – Imediatamente, temendo que algo acontecesse, todos ali ficaram quietos, alguns cochichando, aquela voz então continuou com suas regras.

— Regra número 02: Cada rodada será um jogo de 1 contra 1, e isso será definido por sorteio, ou seja, vocês também têm que contar com a sorte.

— Regra número 03: Todo perdedor terá que ser morto pelo vencedor, e caso o vencedor se recusa a matar o perdedor, ambos serão mortos. – Mais uma vez, eu só notava espanto no rosto daquelas pessoas, diferente deles, eu estava sorrindo, pois finalmente havia achado algo para matar meu tédio, eu não me importava como havia parado ali, se tinha algum portador ou o diabo à quatro ali, eu só queria acabar com todos que pudesse, eu vi que naquela sala só haviam pessoas podres, como a maioria espalhada pelo mundo, eu faria um favor à sociedade.

— Regra número 04: Quem desistir ou se recusar a jogar também será morto, assim como quem trapacear.

— Regra número 05, na verdade, isso é mais um aviso do que uma regra: Dentre vocês 12, há uma pessoa que é a responsável por esse jogo acontecer, uma pessoa que tem uma determinada chave, caso alguém consiga essa chave ou então, saber ao menos a localização da mesma, o jogo será encerrado e ninguém precisará morrer. Bom, eu acho que é isso, darei um intervalo de vinte minutos para vocês discutirem o que quiserem, e depois disso, vamos começar os jogos! – Aquela voz que parecia de um adolescente doente realmente planejava algo, então ele queria a chave? Hahahaha, deprimente, se ele quer usar outras pessoas pra pegar a chave, vai cair do cavalo, pois eu decidi: Vou matar todos ali. Ninguém mais confiava em ninguém, todos queriam saber quem era essa pessoa que podia parar o jogo. Eu pretendia dar uma disfarçada, perguntar se eles não sabiam quem eu era, se alguém soubesse, eu acho que estaria ferrada, então, preciso primeiro eliminar quem sabe sobre mim, mas antes que eu pudesse falar, aquela rapaz que percebi estar calmo, se aproximou de mim, me puxou pelo braço e me levou para distante das outras pessoas.

— Tá maluco? – Me soltei do mesmo o olhando com repugnância.

— Sempre me dizem que sou maluco mas no momento, não estou. Precisamos trabalhar juntos. – Ele certamente queria aliados, a maioria era inteligente ali, certamente faria isso, ele deve ter me achado atraente ou essas coisas de homens com relação a outras mulheres, se ele pensava que eu iria me aliar a ele, estava totalmente equivocado.

— Precisamos? – Respondi de maneira seca e prepotente.

— Você acha que consegue vencer esse jogo, Naiara? Eu acho que sozinha será impossível. – O maldito falou meu nome, eu me afastei mais das pessoas ali da sala, e perguntei:

— Quem diabos é você? – O garoto ainda parecia tranquilo, tinha a aparência de alguém de 26 anos, mas seu sorriso me demonstrava uma enorme confiança.

— Eu sou um portador também Naiara, e precisamos vencer esse jogo.