Lapso Paradoxal

22 Capítulo 21 - Demitido


Aquilo era um sonho, certo? Como podia ser verdade, Heitor e Marco... mortos? Quando cheguei na casa novamente, depois de vir correndo, me deparei com os dois enforcados pendurados em cordas, do mesmo tipo da que eu havia matado o primeiro portador, Elias sorria segurando uma arma na frente dos dois, a camareira estava baleada no chão, sangrando feito um porco abatido, assim como o policial que havia trazido Marco e Heitor, ele tomou um tiro na cabeça, seu crânio estava aberto e seu cérebro havia se espalhado pelo chão sujo daquela casa.

— Calma, isso é apenas uma brincadeira! – Elias tirou uma faca do seu bolso e cortou as duas cordas que seguravam Heitor e Marco, eles caíram no chão desacordados.

— O que...?

— Eu dopei os dois e depois pendurei eles, não faz nem 1 minuto, estão vivos ainda, se morrerem em menos de um minuto asfixiado não é culpa minha por serem tão fracos! – Aquele cara, eu queria mata-lo da pior maneira possível, nunca senti tanto ódio em minha vida, mais do que a garota que queria matar Vitor, ele havia tentado enforcar meus dois amigos, meus dois preciosos companheiros que estavam arriscando suas vidas sem saber que eu destruiria o mundo, as duas únicas pessoas fora meus pais e Vitor que confio no mundo, eu não iria perder ali, de jeito nenhum.

— Você quer a chave, não quer? Eu disse que ela não está comigo! Mas eu não vou dizer muito menos te levar ao local enquanto os dois estiverem aqui! – Eu gritei olhando fervorosamente para os olhos cínicos de Elias, que parecia bem confiante.

— Acha mesmo que acreditarei? Como eu disse, você pode inventar um lugar, só quer vencer, todos querem vencer, querida, mas sabe, a vida é assim, quem está por CIMA, vence, quem tem o poder de controlar os outros. Você nunca poderá ir contra seu chefe, nunca poderá lutar sendo uma subordinada, e nesse momento, Marco e Heitor são a garantia de que você é uma peça de xadrez pra mim, posso te usar o quanto você quiser, um deles vai morrer e isso é decidido. Eu vou matar um deles e você vai me levar até a chave, e se eu não achar a chave, o outro morre, é isso que vai acontecer. – Ele estava falando sério mesmo, eu só tinha uma única chance naquele momento.

— Quer que eu escolha um dos dois? – Disse enquanto esperava pela ‘ligação’.

— Sim, você pode escolher. – Elias apontou a arma para ambos, ele apontava para Marco e em seguida para Heitor, revezando seus movimentos de mira.

— Não vou escolher nenhum, ao invés disso, eu vou morrer.

— Oi? Como assim? Se morrer, sabe que acabou, não é? Digo, eu pretendia te deixar viver se me desse a chave, eu fiz uma promessa com uma pessoa aí, ele te quer viva. – Quem me queria viva? Que promessa? Eu precisava enrolar, precisava fazer os segundos passarem naquele pequeno quarto com cheiro de sangue e pólvora.

— Foi isso que falei, Heitor e Marco, eles sabem onde está a chave, se deixar eles viverem eles contarão pra sobreviver, afinal, se eu estiver morta, não tem porque eles lutarem, tem? E eles não iriam morrer por nada, é isso, eu me rendo. – Elias parecia desconfiar de todo aquele meu papo, mas eu não tinha o que fazer, foi quando o meu celular tocou, meu coração disparou, era tudo ou nada.

— Que merda é essa? Quem é? – Elias apontou a arma para minha cabeça.

— Eu encontrei o filho da camareira... Ele só queria falar com ela, antes dela morrer. Eu disse que faria esse favor, ele já fugiu, tá bem longe, mas eu sei onde ele está indo, eu te falo depois, sei que você não deixaria ele fugir e que iria me torturar pra saber a localização do mesmo, então só deixe ele falar com ela, é um filho desesperado querendo falar com a mãe antes de ambos morrerem. – Ele tinha que acreditar nisso, ele tinha que cair nessa, eu não podia deixar meus amigos morrerem, mas a camareira estava quase morta, porra, ela era um zumbi, não podia ficar gemendo no chão por um tiro na barriga, se levante!

— Ah, que triste não é? Mas olha, eu não sou tão sem coração assim, como CHEFE, como pessoa com poder aqui, eu deixarei meus lacaios terem seus últimos momentos, passa o celular pra essa nordestina de merda, eu vou matá-la assim que ele desligar, eu deixei ela agonizando só por ter me traído! – Esse cara era louco, mais doente do que Carlos ou qualquer outra pessoa que conheci, foi ele que matou aquelas pessoas no ônibus, ele matou tantos já, tudo por conta de uma chave? Ok que eu não tinha moral pra falar isso, mas não podia perdoar tamanha crueldade.

— Atenda senhora... – Agora era o momento crucial, eu estava contando com ela, se não desse certo, eu acho que seria meu fim.

— Alô? – Dei o celular nas mãos da camareira que se levantou com suas últimas forças, acho que ela queria mesmo ouvir a voz do seu filho pela última vez, e me senti um demônio por enganá-la.

— O quê? – Os olhos da mulher, naquele mesmo instante, se arregalaram, ela ficou em pé, ereta, Elias, sem entender, apontou a arma para a mesma, agora era minha chance, acho que ‘havia acontecido’, mas não contava com Elias armado assim apontando pra ela, foi quando a camareira caiu dura no chão com os olhos abertos.

— Hahahahahaha! Acho que ela não aguentou e morreu de tristeza! Mas que bom, porque só tenho duas balas aqui, uma pra um amigo seu, e a outra pra você, Naiara. – Que droga, eu havia falhado? Estava prestes a morrer? Não, não é isso! Olhei para o corpo do policial no chão, ele estava com a arma em sua cintura ainda, eu precisava fazer Elias se afastar dali, o policial estava a poucos metros do corpo da camareira.

— Elias, posso te pedir um último favor? – Comecei a chorar, fingindo é claro, pois naquele momento só raiva e medo tomavam conta de mim.

— Aceitou sua morte já?

— Eu vou te dar a chave, mas por favor, deixe os dois viverem, só peço isso, depois você me mata.

— Olha, eu pretendia deixar eles viverem, sabe, então tudo bem, mesmo que ele fique decepcionado depois por eu ter te matado, eu não disse que sou alguém que cumpre promessas, e com o desejo que penso em ter, bom, eles vivos ou mortos não farão diferença!

— E qual é seu desejo? – Fui até a janela daquele quarto e olhei para o céu, assim como previ, Elias veio atrás de mim e apontou o cano do seu revólver para minha nuca.

— Me fale a localização da chave, Naiara.

— Me fale o seu desejo antes.

— Eu só quero ter o controle, só isso! Não queria mais nada na vida, apenas ser alguém, eu queria mandar, queria que as pessoas trabalhassem pra mim, porque cansei de ser um peão! Então farei todos me servirem, a humanidade toda ser minha escrava, não é algo tão cruel, todos ficarão vivos, eu criarei um mundo onde eu serei Deus, mas sem destruição nem nada, sou um Deus benevolente, quero todos felizes, no fundo. – Ele é mais do que um megalomaníaco, é um doente sem cura.

— E acha mesmo que isso será possível? – Eu ri enquanto balançava minha cabeça negativamente, ele apertou ainda mais o cano da arma contra minha cabeça.

— Claro que é! Eu não estou fazendo isso agora? Controlei várias pessoas, todos me serviam, eu quero estar acima de todos, eu sou digno disso depois de tudo que passei! – Eu estava começando a ter pena de uma pessoa tão miserável como ele, e ao mesmo tempo, meu coração acelerado me dizia que eu podia morrer a qualquer instante, o que ela estava esperando?

— De tudo que passou? Cara, todos temos passados ruins, não foi só você que sofreu. Só porque foi um maldito empregado a vida toda agora fica com isso? Sabe, já vi muitas pessoas como você, que nasceram em família pobre, é verdade que a maioria delas teve dificuldade no mercado de trabalho, mas existem aquelas que foram além, se superaram e conseguiram vencer na vida, conheço um rapaz que hoje ganha mais que qualquer um que mora em seu prédio, ele nasceu em um sítio, seu pai criava umas 8 vacas apenas e vendia o leite e queijos, e hoje eu posso dizer que ele ganha mais de 15 mil reais por mês tranquilamente, eu sei disso porque ele é meu pai, ele também era como você, não tinha uma boa aparência, não tinha contatos, não tinha nada, mas lutou arduamente por um lugar no mundo, depois de 30 anos ele finalmente conseguiu algo bom, 30 anos, e você com 40 achando que só vai conseguir se salvar com uma merda de desejo concebido por essa chave maldita, você nem sabe se isso vai se concretizar, nem sabe se isso é real! Cara, podemos estar sendo enganados, já pensou nisso? Você é fraco, deprimente e patético, Carlos ao menos me parecia uma pessoa sensata, ele só queria vencer, como eu, como você, mas você é um lixo humano da pior espécie, suas motivações são as piores, o primeiro portador queria o mesmo que eu, eu entendo ele, eu só quero o bem das pessoas que eu amo, mas você não pensa em mais ninguém, só em si mesmo, quer estar acima de todos, mas sabe de uma coisa seu lixo? Você sempre esteve sozinho, e é por isso que sabe que mesmo com esse desejo vai viver sozinho pra sempre, nada vai mudar, você vai mandar em todos? Vai ser Deus? Do que adianta? Vai continuar sozinho e sem amor, porque ninguém é capaz de amar um verme como você. – Eu assinei minha sentença de morte, mas eu estava feliz, eu havia sido sincera, eu não queria viver com arrependimentos, eu precisava falar aquilo, estava preso em minha garganta, senti que ele estava ofegante e trêmulo, o cano do revólver tremia roçando minha pele, eu acho que eu fiz besteira, me desculpa Vitor, Heitor, Marco, mãe, pai... eu acho que fui longe demais já. Antes que pudesse fechar meus olhos para esperar minha cabeça se abrir com a bala, eu ouvi um som vindo um pouco mais de trás, foi um disparo, eu senti líquido viscoso pelo meu rosto, pensei que ele havia atirado, mas por que não senti nada? Senti algo encostando em meu corpo, era Elias, ele se escorregou pelo meu corpo e caiu no chão, olhei para trás e vi ele de bruços com os braços esticados, havia um buraco em suas costas em volto com sangue, ele ainda estava vivo mas incapaz de se mexer, via seus lábios tentando se mexer para falar algo, suas pálpebras pulsavam enquanto mais sangue saía do ferimento causado pela bala que felizmente não atravessou seu corpo, ele estava atrás de mim, a bala deve ter parado em sua carne ou em alguma costela, se não teria me atingido, droga, mais uma vez eu escapei da morte, eu olhei para frente e vi a camareira com o revólver do policial em suas mãos, ela estava em pé mas toda torta, seus olhos virados, ela não estava viva, foi então que ela soltou a arma e foi de boca no chão, corri para sentir seu pulso, mas ela estava morta, acho que ela estava morta já quando caiu antes no chão, eu nunca imaginei que poderia ser salva por um portador.

— Eu vi tudo isso, Nai. – Heitor havia se levantado, ele estava olhando para mim com os olhos semi-abertos, parecia dopado ainda.

— Desde quando está acordado?

— Eu estava esperando uma brecha pra agarrar o Elias, mas quando vi a camareira pegando sorrateiramente a arma do corpo do policial ali, já sabia o que aconteceria, mas Nai, o que realmente aconteceu? – Heitor era astuto, sabia que algo estava errado mesmo depois de acordar, mesmo depois de ter sido quase enforcado.

— A mulher... a que está no hospital em Americana, foi ela que fez isso. – Heitor arregalou seus olhos, uma das primeiras vezes que o vi espantado. – Ela tem o poder de controlar qualquer pessoa pelo uso da voz, ela disse que pode controlar todos, menos a mim, eu expliquei minha situação pra ela quando estava lá fora, disse que se eu morresse ela não teria a chave nunca, então ela decidiu me ajudar a acabar com Elias, eu pensei na camareira, se ela estivesse morta, eu iria perder, afinal, precisava dela viva pro meu plano, Elias provavelmente deixaria ela falar com seu filho pela última vez, ou não, foi igual o primeiro portador, joguei com a sorte, eu arrisquei, felizmente, parece que esse jogo está ao meu favor, ela também disse que não pode dar ordens para os outros portadores, com exceção de mim e dos outros portadores, ela pode controlar qualquer pessoa, agora não sei COMO, se tem alguma regra pra isso, mas quando passei o celular pra ela, não era o seu filho, era a portadora, ela ordenou que a camareira matasse todos naquela sala com exceção de Marco, Heitor e Naiara, eu fiz ela fazer isso, porque se fosse uma ordem direta para matar Elias, ela não poderia cumprir, já que os portadores não podem se matar. Heitor, acho que esse jogo está encaminhado pra gente vencer. – Respirei fundo e soltei um suspiro de alivio, eu havia passado de mais um estágio daquela droga, mas agora, tinha um adversário ainda mais difícil para lidar.

— E quanto a ela?

— Eu disse que em menos de 24 horas estaria lá com a chave. Ela não está brincando, ela vai matar Vitor se eu não fizer isso. – Antes que eu pudesse terminar minha frase, um homem apareceu em nossa frente, vindo da porta daquele quarto, ele apenas me olhava fixamente, sem expressão alguma, rapidamente, ele tirou uma arma da sua cintura e mirou em minha direção, mas antes que ele pudesse disparar, vi sua barriga ficar vermelha, uma faca havia sido cravada em seu estômago por trás, era um homem com uma farda policial, ele soltou a faca e o homem com a arma caiu no chão, peguei a arma rapidamente e fitei o policial em minha frente.

— Acho que vou precisar ouvir alguma história. – Disse ele enquanto me olhava com preocupação. O homem caído no chão olhou para mim também enquanto agonizava.

— Você... como conseguiu vencer? – Eu sabia que era Elias. Ele devia ter ‘entrado’ no corpo de alguma outra pessoa que estava naquela casa, felizmente, mais uma vez a SORTE me salvou. Será que aquilo tudo... era sorte mesmo? O que aquele policial fazia ali?

— Eu sempre vou vencer, meu amigo. – Sorri para o corpo no chão e finalmente, Elias fechou os olhos. Não havia mais ninguém naquela casa, assim eu esperava, esse filho da mãe tinha uma habilidade bem apelativa mesmo, mas mediante a isso, estávamos com a polícia em nossa frente agora, Marco estava acordando também, eu precisava pensar em algo antes que fossemos presos, foi quando Heitor se levantou sorrindo e se dirigiu ao policial.

— Tio, você demorou demais!

— Desculpa Heitor, eu não tava conseguindo encontrar o lugar, felizmente cheguei a tempo, pelo que parece.