Lapso Paradoxal
10 Capítulo 10 - Armadilha
E mais uma vez, havia um cadáver na minha frente. Eu sabia que minha jornada seria repleta de mortes e tragédia, mas não imaginei ver uma criança assassinada de uma maneira cruel, com isso, concluí que os portadores eram pessoas não escolhidas aleatoriamente, mas todos precisam ser bem insanos como critério, afinal, acho que só pessoas assim acreditariam em algo do tipo como ‘qualquer desejo’, poderes surreais e etc, e eu também não fujo desse parâmetro, não sou diferente deles, mas no momento só podia pensar em vencer, fiquei abalada e senti vontade de chorar ao ver a imagem daquela criança espalhada no asfalto, mas não podia desperdiçar mais tempo, ele havia agido, ele começou e não vai parar até me pegar. Perto do corpo da garota, eu vi claramente a palavra escrita com sangue: “A chave no banheiro do ônibus até 00:00, ou mais coisas do tipo vão acontecer”. Sem dúvida, dessa vez, esse portador era um psicopata nato. Ele mataria sem dó para ter a chave, afinal, diante da possibilidade de realizar qualquer desejo, acho que muitos fariam isso, matariam até seus parentes. Segurei a mão de Marco e comecei a fingir que estava mal, todas as pessoas do ônibus começaram a se reunir abismadas ouvindo o grito de dor daquela mãe.
— Amor, eu não to bem, eu acho que vou desmaiar. – Me joguei nos braços de Marco fingindo estar perdendo a consciência, mentir que era sua namorada naquele momento era o que eu poderia fazer para que Carlos não ficasse na nossa cola, Heitor pareceu entender e se aproximou de Carlos enquanto Marco me segurou sem entender muito bem, mas quando olhei afiadamente para seus olhos, o rapaz sacou a posição em que eu estava e entendeu minha ideia.
— Vou te colocar deitada em algum lugar, fique calma. – Marco me pegou no colo e caminhou comigo para dentro do ônibus, todos estavam na beira da estrada tentando entender o que havia acontecido, algumas pessoas olharam para nós mas entenderam que eu estava passando mal depois de ter visto uma cena tão chocante, ninguém iria suspeitar, Marco entrou comigo no ônibus e me pôs no chão ao mesmo tempo.
— Você tá com sua arma aí, não é? – Não podia mais esperar, as circunstâncias exigiam medidas drásticas, Marco havia pego sua arma com a polícia depois de comprovada que era mesmo do seu tio, ele prometeu para os seus pais que a guardaria, mas eu implorei para ele trazê-la, eu precisava disso, sem alguma arma ali seríamos ovelhas em uma alcateia, eu tinha trazido duas facas também, mas não era o bastante.
— Não podemos fazer isso! Veja bem, se você se ‘mostrar’ agora, mesmo que pegue o portador, se sobreviver, vai ser presa ou a polícia vai ficar na sua cola, não pode chamar atenção!
— Então o que me sugere? Que eu espere e morra? Esse é um jogo de vida e morte, Marco.
— Não, isso é insanidade! Não quero que mais pessoas morram, eu me sinto culpado, afinal, estou te protegendo.... – Marco olhou para os meus olhos, ele parecia estar prestes a chorar, ele era mais sensível do que se podia imaginar.
— Pense bem, esse cara sabe quem eu sou! Ele pode aparecer a qualquer momento e me dar um tiro ou cortar minha garganta como a guria lá fora.
— Eu sei disso, mas por que acha que ele deixou a mensagem com sangue?
— Pra facilitar as coisas? Ele com certeza não quer chamar atenção.
— Ele não quer ser ‘pego’ também, ele tem medo, ele viu que você tá acompanhada, e isso prova que ele está sozinho, se não, ele não seria discreto assim e nem deixaria uma mensagem, ele não quer que sua identidade seja revelada, claramente ele se vê em desvantagem e está tentando nos ameaçar com o ‘medo’, ele matou uma e vai matar outras pessoas só pra ver se você cede.
— E se eu não ceder? – Os olhos de Marco pareciam em chamas, ele estava disposto mesmo a ir até o fim comigo, mesmo se culpando a cada segundo.
— É por isso que precisamos descobrir quem ele é antes. Ele não vai tentar te matar enquanto eu e Heitor estivermos por perto, ele vai matar pessoas que estão sozinhas pra ver se você fica mal e entrega a chave. – Marco olhou para baixo, ele parecia pensativo, tentávamos falar baixo no fundo do ônibus para que ninguém pudesse ouvir.
— Então você quer que eu entregue a chave?
— Mais pessoas vão morrer se não fizer isso.
— Eu não posso, jamais farei isso! Lúcifer me disse que o mundo vai acabar se uma dessas pessoas pegar a chave. – Eu distorci toda verdade, inverti os fatos para que Marco ficasse do meu lado, quando na verdade, se a chave ficasse comigo, é que o mundo iria acabar, mas eu tinha que fazer aquilo, por Vitor, por mim mesma, já havia jogado fora meus sentimentos, qualquer dor ou remorso não me afetavam mais.
— Eu também quero te proteger, mas não vejo como acharemos ele... – Enquanto Marco pensava em algo, eu já tive uma ideia, mas no momento em que eu ia falar com o rapaz, o motorista e Carlos haviam entrado no ônibus.
— Ei, a moça tá bem? – Fingi que estava mal e comecei a respirar de maneira ofegante enquanto Marco também fingia me abanar.
— É melhor levar ela pra fora, ela precisa de ar, a pressão deve ter caído. – Carlos se aproximava da gente, eu estava com medo, poderia ser ele o portador? O motorista? Todos? Meu Deus, podia ser qualquer um! Eu não podia baixar minha guarda, foi quando me levantei colocando a mão na cabeça.
— Eu estou bem, relaxa... – Eu ouvi gritos lá fora e Cleuza ainda chorando, o motorista e Carlos olhavam para eu e Marco com certa angústia.
— Isso não pode ser verdade... – O motorista tentava mais uma vez fazer o rádio do seu ônibus funcionar, Carlos mexia no celular tentando pegar sinal, mas tudo era em vão.
— Precisamos procurar uma saída, sabe-se lá o que pode acontecer com a gente aqui! – No momento, Kelly foi a próxima a entrar no ônibus depois de minhas palavras.
— Como assim o que pode acontecer? Alguém matou a menina! Precisamos achar quem foi o culpado, e que história era aquela de chave? Por que ele escreveu isso? – No momento todos começavam a desconfiar das circunstâncias na cena do crime, Kelly parecia astuta, e se ela for a portadora? Ela pode me ‘denunciar’, fazer com que todos revistem minhas coisas, acharem a chave e ela pode ficar com ela. Eu preciso de uma maneira de manter todos distraídos.
— Ela tem razão, precisamos achar uma saída! É impossível que estejamos presos aqui, porra motorista, vamos procurar! – Marco tentava me ajudar mas sentia o nervosismo em sua voz.
— Vamos nos dividir em dois grupos então, os idosos e a Cleuza ficam aqui, os homens foram cobrir o corpo, ninguém tá pensando direito, tá todo mundo desesperado, mas acho que você tem razão, é tudo que podemos fazer... – O motorista disse isso enquanto o resto de nós saíram do ônibus, o mesmo falou bem alto para todos que iríamos nos dividir em dois grupos para procurarmos uma saída.
— Tá louco fi? Tá louco das ideia? A mina morreu ali caralho!– João foi o próximo a ficar nervoso, ele parecia bem ameaçador, se aproximou do motorista e ficou encarando-o de perto, Gustavo se aproximou, os dois pareciam contra essa ideia.
— Veja bem, não tem alternativa. Podemos ficar aqui chorando e lamentando pela morte da guria, ou podemos evitar que mais alguém morra! – Carlos como sempre tentava parecer o líder responsável, ele sempre tomava frente em tudo, eu estava começando a desconfiar muito de sua calma.
— Ei, parem de sonhar, cacete. Temos uma situação anormal aqui. Andamos com o ônibus por muito tempo já e não vimos uma saída, pode ser que tenha uma, mas é muito improvável isso, então vamos cair na real, não estamos no nosso mundo, estamos em alguma outra dimensão, como aquele filme do King, Fenda no Tempo, ou algo assim, pode ser que haja uma saída, e se houver, não podemos perder tempo em encontrá-la. – Mariana, depois de muito tempo calada, começou a falar. Ela disse tais palavras em um ritmo calmo e com uma boa entonação, ela parecia até uma narradora, ao menos já tinha entendido nossa situação, não havia nada que pudéssemos fazer, mas eu tinha que fazer com que todos procurassem por uma saída pra mantê-los distraídos
— Mas são quase 23:00! Estamos no meio do nada, só tem duas lanternas aqui e o farol do ônibus pra nos ‘clarear’, quer que procuremos como? – Neide havia entrado em um ponto em que eu gostaria de citar, se saíssemos a essa hora em grupos, a próxima vítima seria questão de minutos se até meia noite eu não colocasse a chave no banheiro do ônibus.
— E aliás, alguém sabe dizer que porra é aquela de chave que tava escrito com sangue? – Gustavo começou a encarar todos por ali enquanto Cleuza voltou a chorar, ela estava sentada encostada em uma das rodas do ônibus enquanto Andrea tentava consola-la, o corpo de Tainá foi coberto e retirado do asfalto, mas agora que tocaram no assunto da chave, comecei a ficar ansiosa, Heitor olhou para mim como se quisesse me pedir para manter a calma, eu respirei fundo e comecei a falar primeiro.
— Gente, essa cara deve ser um lunático psicopata, deve não, pelo que ele ou ela fizeram, certamente é! Ele só quer brincar com a gente, essas palavras não fazem sentido algum. – Eu estava me expondo demais, naquele momento, o portador deve ter me achado cara de pau, foi essa minha intenção, queria ver quem me olhasse de maneira estranha, Heitor e Marco também ficaram atentos ao redor, mas todos ali, sem exceção, pareciam assustados.
— E se fizermos assim, como só temos duas lanternas, vamos em cinco procurar uma saída por aí, o restante fica aqui no ônibus, pode ser? – O motorista teve uma boa ideia, aquilo já ajudaria com meu plano, mesmo que parcialmente.
— Eu vou junto, não vo fica aqui parado não! – João foi o primeiro a se pronunciar, ele pegou a lanterna da mão de Márcio que ficou sem reação.
— Eu também vou, não quero ficar aqui perto desse... – Kelly olhava para o corpo coberto de Tainá com repulso, Cleuza fitou ela com raiva.
— Márcio, Carlos, vocês vem também. – O motorista chamou Carlos e Márcio, isso já não estava ficando bom pra mim.
— Eu também vou, eu já fui escoteiro, sei bem me virar no meio do mato. – Heitor se levantou, ele parecia entender o que eu queria, olhou para mim com atenção, como se quisesse me dizer para fazer meu ‘trabalho’.
Antes que o grupo de cinco pessoas saísse em busca de ajuda ou de uma saída que não existia, chamei Heitor e falei a sós com ele sobre o que eu pretendia. Heitor concordou e saiu junto do grupo, levando as duas lanternas. O ônibus ficou semi-ligado apenas com as lanternas clareando uma enorme rocha marrom claro na beira da estrada onde paramos, o local era coberto por capim rasteiro e algumas árvores meio secas e algumas nada uniformes que cresciam cipós ao seu redor. Ficamos reunidos, todos juntos sentados na grama com a luz dos faróis do ônibus iluminando nossos corpos.
Meu plano era descobrir sobre cada uma daquelas pessoas, sobre o passado de todos, foi então que propus uma ‘entrevista’ com todos ali pra tentar descobrir o que cada um fazia na hora da morte de Tainá, claro que aquilo era uma fachada pra descobrir sobre o passado e um pouco mais de cada pessoa, eu certamente iria descobrir quem está mentindo. Todos toparam, Gustavo reclamou bastante dizendo que isso era besteira, mas no final concordou. Eles queriam saber quem era o assassino entre nós, principalmente Cleuza. Como eu e Marco éramos álibi um do outro, as pessoas confiaram em nós para fazer o ‘interrogatório’, no momento da morte, todos os outros estavam separados, pelo que disseram, exceto por Márcio e o motorista, além de eu, Carlos, Heitor e Marco.
Entrei no ônibus junto de Marco, a primeira pessoa a entrar no mesmo foi Mariana. Comecei a fazer perguntas diversas, como o que ela fazia na hora da morte de Tainá, onde ela trabalhava, se estudava, onde morava, mas no final, eu sempre perguntava a mesma coisa para cada um.
— Ah, já que você mora perto da Luíz de Noronha, você conhece então O Albergue das Massas? Abriu a um tempo já, mas é muito boa a comida lá.
— Claro, eu adoro comer lá, mesmo sendo meio caro.
— Haha, isso é, hoje em dia tudo tá caro!
A penúltima pessoa saiu do ônibus, era Juliana, eu havia feito as mesmas perguntas para todos, Marco do meu lado ficou espantado, e quando Juliana finalmente desceu as escadas, ele olhou para mim com os olhos arregalados.
— O que diabos foi isso?
— Você quer dizer, o fato de não existir nenhum Albergue das Massas, mas todos que perguntei, responderem que já frequentaram o lugar? – Eu não podia ficar menos nervosa, eu havia feito uma pergunta falsa, aquele local não existia na verdade, eu apenas queria testar para ver se as pessoas respondiam tudo na sinceridade, de início pensei em fazer isso só com Mariana, mas como ela respondeu um ‘sim’, resolvi testar com todos os outros, e todos, sem exceção, responderam que haviam comido nesse local que não existe.
— Por que eles mentiriam!? Será que todos eles estão junto com o portador?
— Não Marco, não pode ser isso... Eu pensei na possibilidade de todos terem mentido por estarem com medo, mas isso é estranho. Um ou dois, com medo de desconfiarmos deles, diriam que conhecem tal lugar, visto que eu afirmei com tanta convicção, e como eu no momento, estou com papel de ‘detetive’, tendo um álibi, pode ser que a maioria ficou assustada diante dessa pergunta, eles podem nem saber que esse restaurante não existe, mas afirmaram porque pensaram que eu dizia a verdade, afinal, por que eles pensariam que eu iria mentir nisso? Alguém poderia chegar dizendo: ‘Você está enganada, perto de onde moro não tem nenhum restaurante assim’, mas ninguém fez isso... – Antes que eu pudesse continuar, Moacir foi o próximo a entrar no ônibus. Fiz as mesmas perguntas pra ele, era o último, ele também havia respondido que conhece o restaurante fictício. Antes de sair, Moacir pediu para usar o banheiro do ônibus e se dirigiu até o mesmo. Evitei falar com Marco naqueles minutos, não queria que Moacir ouvisse, o problema é que o homem estava demorando, já haviam se passado cinco minutos, imaginei que ele estivesse com dor de barriga, até que Andrea, sua esposa, entrou no ônibus, preocupada.
— Por que dessa demora, hein? – Atrás dela, vieram Leonardo e Juliana, eu e Marco estávamos sentados nos primeiros bancos da frente.
— Ele foi ao banheiro, mas já faz uns cinco minutos. – Marco respondeu olhando para Andrea.
— Vou ver! Ele pode ter passado mal! – Andrea correu em direção ao banheiro no corredor escuro do ônibus, quando abriu a porta, a pequena luz do local invadiu seus olhos, olhamos para trás e percebemos a expressão distorcida de Andrea, e logo em seguida, um grito alto e agudo, a mulher cambaleou para trás e imediatamente eu e Marco fomos correndo em sua direção. Chegando lá, Moacir estava com sua garganta cortada sentado no vaso sanitário, sua nuca encostada no espelho do banheiro enquanto o sangue continuava a escorrer pelo corte. Naquele momento eu finalmente percebi que eu e Marco estávamos condenados.
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