Lapso Paradoxal
8 Capítulo 08 - Rodovia 188
Nem parecia que o mundo ainda estava ‘lá fora’. Eu observava aquelas rochas avermelhadas pelo brilho do sol através daquele vidro gelado com a consequência do ar condicionado de dentro do ônibus, meus olhos fissurados no horizonte que se desfazia com o passar dos segundos, a cada momento, uma visão diferente penetrava meu glóbulo ocular cansado que buscava por repouso em um local distante daquela zona de guerra, mas eu sabia que, mesmo partindo dali onde a devastação já ocorrera, a tempestade ainda iria me perseguir sem repúdios, e eu percebi isso ao sair da cidade.
— Acho que a polícia ainda vai mandar alguém atrás de você, Nai, você devia não agir tão suspeita assim parecendo preocupada e ansiosa, aliás, aposto que já deve ter algum policial disfarçado aqui no ônibus. – Ao meu lado estava Heitor, ele havia insistido em ir junto para Minas, assim como Marco, que estava dormindo no banco de trás, ele havia acabado de ler um romance policial e como sempre, cochilava antes de completar dez páginas, esse costume não era algo a ser quebrado tão rapidamente. Eu havia decidido deixar São Paulo e ir direto para Minas Gerais, ao contrário do que tinha planejado, iria ficar em uma pousada, tudo isso graças ao dinheiro que Marco recebeu do Starbucks pelo ocorrido, mesmo que aquilo tenha sido provado como sendo obra de Lourenço, aliás, havia se passado uma semana desde que eu o matei, ainda abalada pelo trauma de ter tirado uma vida humana, mas não o bastante para me fazer chorar todas as noites, eu apenas me mantinha mais apática e fria em relação às coisas ao meu redor, mas não podia baixar minha guarda, pois ainda haviam vários inimigos que iriam, certamente, me procurar. A polícia não fez muito estardalhaço a respeito do caso, apenas foi informado que Lourenço se suicidou, mas à suposta perseguição à mim e o acontecimento com a ambulância foram encobertos pela mídia, claro que em alguns meios, isso não teve como ser deixado de lado, consegui proteção à vítima junto de Marco e nossos nomes não foram revelados, claro que vários jornalistas, de maneira ilícita ou com ajuda de alguns policiais sacanas descobriram meu nome e vieram atrás de mim, o trabalho de me esquivar desses seres foi a tarefa mais difícil nesse processo de tentar levar uma vida normal por trás das poças de sangue espalhadas, mas nenhum deles sabia da minha ida para Belo Horizonte, nem mesmo os policiais, eu decidi isso com meus pais, eles acharam favorável, depois de tudo que passei, tirar um descanso em outro lugar, e é claro que eu não estou apenas fugindo, sei que isso é uma situação hipotética e dado tudo que aconteceu, não havia uma rota ou estrada que me levasse para longe desse infortúnio que me meti, eu sabia que eles viriam atrás de mim, de um jeito ou de outro, portanto, se acontecer algo, tem que ser em outra cidade, distante dos meus pais, distante da polícia que já desconfia em partes de mim e do Marco, enfim, só quero encobrir o caos que estará por vir, tive que abrir mão até do Vitor... e isso era o que mais me machucava. Não me importava em ter que lutar contra ‘x-mens’ ou seja lá o que forem, mas parar de ver o Vitor, sabendo que ele pode morrer a qualquer momento, destroçava meu coração, mas em seguida, eu logo pensava na possibilidade de uma vida feliz com ele novamente, e isso reestruturava meu coração debulhado, eu só precisava fazer minha parte e cumprir minha missão, é claro que durante uma semana tive que ficar em casa fingindo que estava traumatizada e com medo, eu também sinto ambas as coisas, mas minha vontade de vencer é ainda maior, e quanto mais os dias se passavam, mas eu sabia que estava em vantagem, eu só precisava esperar, agora, faltavam apenas 81 dias, se eu sobrevivesse e mantivesse a chave comigo até lá, eu poderia andar novamente de mãos dadas com o Vitor. Pensei na possibilidade de enterrar a chave em algum local, mas isso é arriscado demais, pode haver algum portador com o poder de ler mentes ou detectar a chave, eu nunca sabia o que esperar deles, aliás, haviam se passado seis dias e não havia nenhum movimento de outro portador, algo que me assustava ainda mais, mas é claro que nesse período eu mantive a discrição, não saí de casa e como uma precaução boba, meus pais pediram para alguns guardas fazerem vigia em nosso bairro durante 24 horas, felizmente o poder aquisitivo dos meus pais permitiu isso, com a polícia fazendo ronda pelas ruas, duvido que mesmo algum portador se aproximaria, com isso meio que descartei a ideia de ter algum com poder de invisibilidade, eu até poderia ficar nisso por 81 dias, meus pais aceitariam devido a tudo que passei, mas eu não podia colocar eles em risco, eu não sou tão egoísta ao ponto, sabia que cedo ou tarde, iriam fazer algum movimento.
— Para de ser criança e ficar viajando, se tivesse algum policial ele já teria me repreendido. – Respondi Heitor enquanto continuava a me focar na paisagem lá fora.
— Mas eles não fariam um movimento direto, assim como os portadores. Por que acha que até agora, nenhum agiu ainda?
— Por que eles não sabem ainda quem ‘eu sou’?
— Hm, pode ser que alguns não saibam, mas depois de tudo que aconteceu, e considerando que todos eles são de Americana... acha mesmo que nenhum saberia? Seu nome foi ocultado das notícias mas, ainda há aquelas pessoas que estavam no shopping no dia, também tem jornalistas que sabem disso, além da polícia toda quase, acha mesmo que em uma cidade do interior, isso não se espalharia? Naiara, a maioria já sabe que o Lourenço foi atrás de você, se você não tivesse pego o relógio dele, poderia ter dado merda pois algum dos portadores iria ver isso e associar à você, mas nem precisa disso pra saberem, foi um acontecimento bem improvável, claro que tem milhões de casos de stalkers, estupradores e etc por aí, mas um maníaco ir tão longe ao ponto de entrar no Starbucks, roubar uma ambulância e ir até a delegacia te denunciar, não é algo que soe normal, e qualquer ser humano que raciocine, e, sendo os portadores, pessoas com conhecimento de todo esse ‘jogo’, eles logo identificarão que esse problema é algo associado com a chave, e nisso, vão até você. – De alguma forma, na verdade, Heitor estava certo.
— Eu sei disso, mas talvez eles não possam agir, porque estive sempre em meu quarto, e agora estamos rodeados de pessoas, escolhi vir de ônibus porque de avião as chances deles provocarem um acidente são maiores, foi um pensamento ingênuo mas tenho que tomar as precauções. – Falava baixo para que ninguém pudesse nos ouvir, me certifiquei de pegar o penúltimo banco, sem ninguém nos acentos da frente e só com Marco no acento de trás, mas eu também iria evitar de ficar falando disso com pessoas ao nosso redor, Heitor devia saber!
— Marco parece bem relaxado, sabe, ele se preocupa demais com você, mesmo pegando no seu pé, dá um descanso pra ele ok? – Heitor se virou para o outro lado e encostou a cabeça no banco inclinado do ônibus, eu era a única que não conseguia dormir, e como poderia? Se eu fechasse os olhos alguém poderia me apunhalar, essa era uma situação que me deixava preocupada a cada segundo, eu ainda não tinha ciência da verdadeira ameaça que me cercava.
Restavam apenas trinta minutos pra chegar no estado de Minas Gerais, Marco já havia acordado, mas ele, assim como nos dias anteriores, estava mais calado que o normal, Heitor jogava o seu PSP, enquanto eu, me perdia em pensamentos olhando a terra vermelha nas ribanceiras dos últimos trechos de rodovia paulista. Passamos por uma placa com o número 188, a vegetação ao redor daquela região era bem seca, me perguntei se estávamos indo pra Minas ou pro Norte, eu precisava parar de pensar um pouco e relaxar, meu estômago doía de tanto nervoso, será que em Belo Horizonte eu poderia me sentir mais segura? Deitei a cabeça no banco do ônibus e senti o ar condicionado bem gelado tocando levemente meu rosto, aquilo me deu uma sensação de leveza, pela primeira vez, me senti relaxada, não tinha ninguém no ônibus que fosse uma ameaça, já haviam se passado 4 horas de viagem e nada aconteceu, acho que eles não sabiam mesmo do meu paradeiro, eu nunca quis tanto que os dias passassem.
— Parece que você finalmente se acalmou. – Marco se inclinou para frente, ele fitava meu rosto como uma criança curiosa.
— Não adianta ficar atenta o tempo todo, se alguém tiver que fazer algo, fará a qualquer momento.
— Pensando bem, essa situação é tão surreal. Já imaginou algum dia que isso aconteceria Marco? – Heitor desligou seu vídeo-game portátil e adentrou à conversa sem ser convidado.
— Isso é mesmo insano, eu ainda não consigo acreditar totalmente, mesmo com tudo que aconteceu.
— Não tem explicação lógica pra aquelas ‘viagens’ no tempo! – Eu dizia isso mas também não tinha como provar que eram reais.
— Bom, pode até ter. Pense bem, tudo aquilo pode ter sido algo inventado por Lourenço. Ele pode ter um informante, por exemplo, suponhamos que hipoteticamente, Marco é um informante, e que ele criou esse ‘jogo’, ele então informaria os supostos portadores, no caso de Lourenço, ele tinha um relógio mas nada pode comprovar que aquilo volta no tempo, o caso da delegacia, ele pode ter sido informado por Marco, e ido lá antes. Assim como o vídeo pode ter sido forjado, assim como o seu plano, Nai. Pense bem, as possibilidades do plano dar certo se ele podia mesmo voltar no tempo eram as piores! Se ele tivesse mesmo esse poder, ele nunca se deixaria ser pego, pra mim parece mais uma invenção, algo pra te colocar medo. – Marco fitava Heitor com uma intenção assassina que me arrepiou a espinha.
— Por que você me usou nessa ‘hipótese’?
— Ah, calma lá cara, foi um exemplo! Assim como você, poderia ser eu também o tal informante, mas, vejamos, pra tudo isso ser algo ‘real’, fora do meta-mundo fantasioso de viagens no tempo, portadores e fim do mundo, alguém tem que estar vigiando a Nai pra saber das coisas, mesmo uma câmera no quarto dela seria capaz de obter muita informação já, por isso eu não consigo acreditar Nai, me desculpa, mas só quando aparecer outro portador com um poder mais incrível ainda, que levarei isso a sério. Foi por isso que decidi vir com vocês, afinal, sei que não vai dar nada! – Heitor me fez ficar espantada, eu pensei que ele estava acreditando em tudo, mas pelo visto, tanto ele como Marco ainda achavam isso uma piada. O fato é que tentaram me matar, assim como Marco, e essas pessoas não estão brincando.
— Ok mas, por que o Lourenço fez isso então?
— Será que eles, ou sei lá quem, está atrás dessa sua chave mesmo? – Marco olhou para o lado direito por um segundo, ele pareceu intrigado.
— Por exemplo, essa chave pode ser banhada a ouro puro e valer uns 20 mil reais, isso é uma possibilidade, por isso o tal cara lá falou que iriam vir atrás de você, pode ser um louco que deu ouro pra uma guria estranha e deu o nome dessa guria com pra 10 caras loucos por dinheiro e loucos em personalidade também, eles iriam inventar poderes pra assustar a guria e conseguir a chave. Seria um bom reality show! – Heitor estava começando a me irritar, mesmo com sua lógica fazendo sentido. Olhei rapidamente para a janela lá fora e percebi alguma coisa que havia chamado minha atenção mas logo em seguida, Marco me chamou novamente.
— Eu acredito no que o Heitor disse, estão brincando com a gente! Deveríamos entregar essa chave pra polícia logo, Naiara. – Lá vem ele com essa merda de papo de novo? Considerava demais Marco, mas ele estava começando a me fazer perder a paciência com esse espírito justo em excesso que ele tem.
— Vamos esperar, ok? Se nada acontecer daqui uns dez dias, então poderemos considerar isso. Mas por enquanto vamos aproveitar, vamos fazer disso nossas ‘férias’, se tudo ocorrer bem. E espero que você não seja mesmo o informante Marco. – Olhei sarcasticamente para os olhos de Marco, o rapaz voltou para o seu banco resmunando, Heitor voltou a ligar seu vídeo-game, e eu, olhei para meu relógio de pulso. Faltava menos de 20 minutos... Eu no fundo não queria acreditar na teoria do Heitor, aquilo tinha que ser real, precisava, caso contrário, eu havia matado alguém sem muita justificativa, e Vitor não poderia viver.... Meu nervosismo voltou à tona, mas quando notei algo diferente lá fora, meus instintos se ativaram novamente.
— Marco, você viu aquela placa que passamos? – Perguntei enquanto virava meu pescoço para trás para encarar o rapaz.
— Qual das? Tem placa por toda estrada Naiara.
— A que passamos agora!
— Rodovia 188? É a rodovia que estamos, oras.
— Rodovia 188? Você leu certo mesmo?
— Sim, o que tem demais? – Voltei minha atenção para a janela ao lado. Comecei a prestar muita atenção na paisagem lá fora, ok que na maior parte do nosso trajeto, todo aquele ambiente parecia igual, vegetação rasteira meio seca, era assim desde uma hora atrás até então, algumas árvores no horizonte, pedras pome na beira das estradas, havia também uma barraca de cocô que havíamos passado, pensando bem, lembro de ter visto duas. A rodovia 188 era tão grande assim? Encostei novamente minha cabeça no banco e mantive meus olhos focados lá fora. O ônibus se movimentava enquanto os minutos passavam, a viagem parecia estar mais longa do que era pra ser. Depois de alguns minutos, vi algo que fez meus olhos se arregalarem, e no mesmo instante, chamei Heitor e Marco.
— Acordem! Vocês não repararam?
— Eu estava acordado, só pra você saber. Mas reparamos no que?
— Eu vi a mesma placa três vezes! Como isso é possível?
— O quê? Tá dizendo que o ônibus tá andando em círculos? Naiara, há várias placas na estrada, você tá paranoica demais.
— Cara, eu to dizendo que vi a mesma placa! A da rodovia 188! Eram idênticas.
— E o que quer dizer com isso? Acha que alguém agiu? – Heitor começou a prestar atenção no ambiente lá fora, parece que uma senhora de uns bancos a nossa frente começou a prestar atenção em nós também.
— Eu não sei mas, por favor, fiquem olhando pra fora! – Eu, Marco e Heitor ficamos com os olhos vidrados na paisagem de fora do ônibus, alguns minutos se passaram, eu vi aquela mesma barraca de água de cocô, e mais pra frente, a placa com o número 188.
— Viram? – Heitor, pela primeira vez na viagem, ficou sério.
— Você tem aquele seu bloco de notas aí ainda? – Heitor perguntou enquanto Marco parecia já entender. Abri o bloco de notas e fui ver minhas anotações, as anotações dos poderes dos portadores.
“Gaiola do Vácuo” – Habilidade de criar um espaço sem saída
“Essa habilidade pode ser usada somente uma vez ao dia, e ela só poderá ser quebrada, caso o usuário seja descoberto e morto, ou seja, é uma habilidade de um único uso, onde o usuário é obrigado a estar presente nesse espaço.”
— Isso é impossível... – Marco olho para o seu relógio e viu que o tempo havia se passado, e com o horário atual, já éramos pra ter chegado a um bom tempo.
— Acha que fomos presos nessa ‘gaiola’? – Heitor olhou para frente.
— Se for assim quer dizer que... – Antes de Marco completar sua frase, eu já sabia o que pensar.
— Sim, o filho da puta tá aqui nesse ônibus, e estamos presos em um loop eterno, só esperando para sermos pegos.
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