Lapso Paradoxal

4 Capítulo 04 - Não Há Volta


“Eu tive aquele sonho novamente, aquele maldito sonho. Eu estava embriagado, todo molhado pela chuva que caía fortemente sobre meu corpo flácido, sentia a água gélida arrepiar minha pele já enrugada, isso teria que ser o suficiente pra me deixar um pouco mais são, mas a raiva que eu sentia no momento só podia ser contida com sangue, a mente de alguém tomado pela bebida não pode ser compreendida facilmente, aquela mulher, ela me irritava todos os dias com suas reclamações, dizendo que não tínhamos dinheiro pra educar nosso filho, que não tínhamos condições psicológicas pra lhe dar uma boa vida, e eu só fiquei com vontade de estrangulá-la, a cada dia em que acordava, porque sabia que aquilo era a mais pura e cruel realidade. Éramos uma família de merda, eu, um mero funcionário de uma fábrica de panelas, não ganhava nem 2 salários mínimos por mês e trabalhava 8 horas por dia, ela nem emprego tinha, cuidava da casa e do nosso filho, Giulio, mas mesmo assim, mesmo eu me esforçando pra dar o melhor para o moleque, ela sempre queria mais, porra, eu estava fazendo tudo que podia! Eu não tinha formação, não era uma pessoa tão inteligente, na verdade, me considerava bem esperto, eu era um dos melhores alunos na escola em matemática, mas devido aos meus pais serem bem pobres, não tive tantas oportunidades na vida, e por conta da bebida e do meu comportamento agressivo, deixei tudo ir pro ralo, agora eu era um rapaz de 34 anos que ia para o bar todos os dias gastar o que já não tinha com a cachaça mais barata que era vendida, voltava para casa e brigava com minha esposa, sempre me segurando para não espanca-la, ouvia o moleque chorar berrando enquanto eu gritava e quebrava os cômodos, algum dia, esses ataques teriam que parar, mas eu sabia que não seria eu a ‘ceder’. Até aquela noite, em que a vi pendurada em uma corda no nosso quarto, o moleque foi jogado na cama, ele chorava enquanto a sombra do cadáver da minha mulher se movia pela parede iluminada por uma fraca luz que a refletia, sua expressão não parecia de dor, quando fitei seu rosto pálido com as veias quase saltando do seu pescoço, sua língua pra fora da boca e os olhos esbugalhados me fizeram deixar cair a garrafa de vodka que eu carregava comigo, mesmo bêbado eu compreendia que aquilo era o inferno, quando toquei em seu corpo frio, senti que minha vida estava arruinada, ela já havia sido, a muito tempo, mas eu finalmente tinha encontrado o clímax da tragédia, eu olhei para Giulio, um pobre garotinho de um ano e meio que não tinha nada a ver com isso, ele estava embaixo do cadáver de sua mãe, e em sua frente, seu pai bêbado chorava enquanto soluçava, me ajoelhei, bati a cabeça contra o pé da cama, até rachá-la, eu me afundei até não poder mais sair da lama. Sabia o que me esperava em seguida, a justiça tirando meu filho de mim, eu perdendo o emprego que tanto sofri para conseguir, sendo despachado daquela casa alugada em um beco fedorento. Estava morando com minha mãe, sem emprego, sem amigos, sem nada. Eu era uma casca vazia vagando por aí, assistia televisão todos os dias e lia a bíblia, as pessoas desesperadas tendem a procurar ‘Deus’ para sua salvação, e mesmo sendo um cético filho da puta, eu mergulhava na ilusão que me machucava ainda mais, até o dia em que ele apareceu.

De início pensei que era um sonho, eu havia parado com a bebida, não tomava nada desde aquele dia, a três anos, então não podia estar dopado com álcool, ele apareceu em frente à minha cama, me dizendo aquelas merdas de portadores, de um vírus que mataria vários, de uma chave dourada. Eu não entendi nada no começo, ele queria que eu acreditasse que ele me daria o poder de voltar dez minutos no tempo, três vezes ao dia, se eu aceitasse tentar pegar a chave de uma determinada pessoa. Eu estava fodido, estava na merda, pra mim, aquela alucinação era o começo da minha loucura, e dando um empurrão a ela, decidi me apoiar na insanidade e acabar logo de vez com minha alma que jazia em meu corpo apodrecido. Foi quando percebi, que não era uma ilusão. Acordei no outro dia pensando naquilo tudo, principalmente no desejo que eu poderia ter se conseguisse a chave. Ele me deu um relógio dourado, daqueles de mão, bem antigos, nele havia só um botão, ele me explicou como usar, eu poderia voltar no tempo por 10 minutos, durante três vezes ao dia, apertando o botão vermelho em seu centro traseiro. Meu corpo permaneceria no mesmo local onde eu me encontrasse ano momento da ‘viagem’, mas por exemplo, suponhamos que das 14:00 às 14:03 eu tenha matado uma pessoa e me sentado em uma cama, se eu voltasse das 14:04 até às 13:55, em um lugar diferente do quarto onde eu teria cometido o assassinato, quilômetros de distância, o assassinato, em questão, teria acontecido? Um paradoxo que só pessoas que gostam de matemática poderiam compreender, mas ele me explicou que não, que qualquer ato cometido por mim seria anulado, mas somente isso, as outras coisas permaneceriam como ficaram no passado. Então, se eu tivesse voltado para 13:55, dois andares abaixo do quarto em que o assassinato fora cometido no futuro, eu nem teria chegado a entrar no quarto, caso eu, no futuro em que voltei, já estivesse no mesmo, suponhamos, desde às 13:50. Então eu teria a chance de matar a tal pessoa, ou não, mas eu permaneceria no lugar onde fiz a ‘viagem’. Ele também me disse sobre o vírus, se aquela pessoa ficasse com a chave por 90 dias, o mundo estaria bem fodido. Eu tinha a chance de ser o salvador da humanidade? Eu? Um verme rastejante às custas de minha mãe, sem sonhos, sem dignidade? Que piada era aquela? Mas foi quando testei aquele meu poder, que percebi que eu realmente, fui um dos escolhidos.

Não entendi o porquê, não entendi como aconteceu, mas eu tinha mesmo aquela porra de poder. Aquele relógio era real. Aquela história era real e o mundo estava correndo risco. Pelo que eu entendi da explicação dele, os dez portadores não iriam ter conhecimento do dono da chave, mas eles saberiam, quando ele recebesse a mesma, o número 90 iria aparecer na palma da mão direita de cada um, e a cada dia que se passasse, o número iria diminuir, até chegar no 0. Ele também nos deu dicas valiosas, disse que o dono da chave seria alguém daquela cidade, aquele era o ‘local’ da disputa, isso já facilitaria muito visto que não é uma cidade grande, mas, como eu iria descobrir quem seria tal pessoa? O número 90 poderia aparecer em minha mão, mas mesmo assim, eu não saberia quem tem a chave, não foi nos dado dicas sobre isso, foi então que comecei a supor os movimentos do tal dono da chave. Eu me tranquei em meu quarto por dias, esperando o 90 aparecer, comecei a pensar sem parar, eu mal comia, finalmente, depois de 3 anos sofrendo, tinha um motivo para viver, eu não ligava mais de ser um ser sozinho e desempregado morando com a mãe reumática, eu era um dos escolhidos para salvar o mundo! Eu...podia voltar no tempo. Eu não podia voltar no momento em que realmente queria, aquele dia... mas essa habilidade poderia ser útil se eu a usasse corretamente. Depois de fazer várias análises e levantamentos, o movimento mais provável do keymaster (como o denominei) seria, depois de receber a chave, ir até a delegacia. Ele poderia até acreditar na história toda que lhe fora contada, mas duvido que ele não iria procurar ajuda, eu mesmo faria isso, levaria a chave até a delegacia com medo, 99% das pessoas não acreditaria nessa história toda, isso era o senso comum, as pessoas são condicionadas a pensarem somente no óbvio, a agirem com acontecimentos cotidianos e naturais, se algo assim acontecesse, a pessoa pensaria que era uma pegadinha ou algum tipo de golpe, se eu não tivesse provado meu poder, eu jamais acreditaria, mas no caso do keymaster, não tinha como ele provar que aquilo era real, portanto, ele iria procurar a polícia.

Prevendo isso como 50% de chances de acontecer, eu não podia esperar até o 90 aparecer, afinal, ele me disse que haviam outros 9 portadores com poderes diferentes, poderia existir alguém com um poder mais eficaz do que o meu, e ele me disse também que só quem pegasse a chave, poderia ter um único desejo realizado, mas que os portadores não poderiam lutar entre si, e que quem matasse um dos portadores teria seus poderes abdicados, era proibido matar tanto por si só ou por terceiros, portanto, venceria quem fosse mais rápido, eu duvidei que seria o único a pensar na delegacia, era um pensamento óbvio, mas duvido que todos eles teriam a sorte que eu tive. Felizmente, minha irmã mora na frente da delegacia. Eu só tinha que dizer que havia aborrecido minha mãe e queria ficar lá alguns dias, ela morava sozinha com seu filho de 7 anos depois que se separou do seu marido, outro bêbado de merda, parece que nossa família nunca teve sorte nesse quesito, no entanto, eu sabia que ela não iria querer que um fracassado inútil como eu ficasse em sua casa, por isso eu tive que usar todo meu dinheiro, afinal, eu estava crente que aquela história era real, mesmo se eu ficasse sem nada (como eu já quase era) não faria diferença, porque aquela chave poderia me conceder qualquer desejo. Á partir do momento que decidi me entregar a esse objetivo esqueci toda minha humanidade, todas as regras impostas pela sociedade para me manter um cidadão vivendo dentro do ‘padrão’, eu estava preparado para matar ou morrer, aquela, eu tinha certeza, era a única chance de mudar minha vida.

Oferecendo tudo que eu tinha para minha irmã, ela me deixou ficar em sua casa por 1 mês no máximo, e eu duvidava que o tempo para escolher o candidato a guardar a chave seria maior do que isso, pelo que ele disse. Ficava todos os dias olhando através da janela do quarto onde eu fiquei, que por sorte, era bem na frente da delegacia, não exatamente na frente pra ser preciso, mas era na casa do lado da casa que ficara bem na frente, e da minha visão, dava pra ver muito bem quem entrava e saía de lá. No começo minha irmã começou a pensar que eu já tinha perdido todos os parafusos quando ela me viu espiando pela janela, mas na maioria das vezes trancava a porta do quarto e ela nem se importava com minha presença ali, desde que eu não enchesse ela ou nem sujasse a casa. Passei a observar a delegacia daquela janela por duas semanas, eu já estava angustiado, pensando que teria que ficar mais de um mês ali. Duvido que alguém estava fazendo aqui, como eu, e mesmo se alguém tivesse tido a ideia da delegacia, duvido muito que eles fariam isso! Eu era o único no momento preparado pra dar o bote, talvez eu tenha sido escolhido desde o começo para derrotar quem quer que seja que apareça com a chave, eu sentia que era especial, desde pequeno, todos os professores diziam que eu tinha um potencial enorme, mas as pessoas não acreditaram em mim, me deixaram de lado por minha aparência, mas agora era minha ascensão, a hora em que o mundo girava, eu iria esfregar na cara de todos que desacreditaram em mim, salvarei o mundo e nunca mais vou ser julgado, quem sabe, ela até volte pra mim... é claro que voltará! Eu não estava nem aí pra salvar o mundo na verdade, via a maioria dos lixos por ali como descartáveis, se pudesse botaria fogo na maioria, tudo que me importava era ser notado por ela, queria que ela me desse a segunda chance que nunca tive, e eis a oportunidade, eu ficaria dias e noites olhando por aquela janela se possível, pensei comigo, e foi o que fiz, mal dormia, comecei a tomar vários remédios para me manter acordado, ficava impaciente olhando para a palma de minha mão e para a delegacia, até que naquele domingo, finalmente aconteceu.

Quando o 90 apareceu na palma da minha mão eu fiquei mais atento do que nunca, tomei vários energéticos, eu precisava descobrir quem era o keymaster, várias pessoas entravam todos os dias naquela delegacia, não seria fácil distinguir, mas certamente, pelo que calculei, a pessoa não iria sozinha, ela correria risco demais, depois de saber sobre os portadores, mas não era uma certeza, e mais, ela estaria com medo, uma pessoa inquieta e paranoica, e isso eu poderia notar facilmente usando um binóculo que havia comprado em uma loja de 1,99. Horas depois da marca ter aparecido em minha mão, notei a figura de uma mulher, junto de um homem, na frente da delegacia. Até então haviam entrado duas pessoas lá, mas uma era uma senhora de idade, e a outra pessoa parecia ser um juiz, então descartei esses dois, com a chance de estar errado fazendo um julgamento pelas aparências, afinal, eu não sabia qual o critério que usaram para escolher o keymaster, mas eu tinha certeza que não seria alguém poderoso nem uma senhora com um pé na cova, mas quando ela chegou, percebi logo que aquele era meu algo. Uma garota com cabelos louros um pouco acastanhados, ela parecia ter entre 20 e 25 anos, estava claramente abalada e apática, assim como o rapaz ao seu lado, também parecendo ter a mesma idade dela, logo notei que os dois olhavam para todos os lados antes de entrar, e foi aí que tive certeza que esses dois estavam com a chave.

Meu pensamento inicial foi o de voltar no tempo e armar uma emboscada quando eles parassem o carro a poucos metros da delegacia, mas isso seria arriscado, eu não poderia assaltar duas pessoas na frente de policiais, por esse lado, eu estava em desvantagem, acho que, se não fosse pelo meu poder, qualquer outro portador não poderia fazer nada diante de uma situação dessas, lidando com policiais, por mais que seus poderes sejam excepcionais, mas o meu poder era capaz de mudar o rumo das coisas, foi então que pensei em um modo mais seguro de agir, eu não iria ter a chave logo de início, isso seria um tanto impossível, visto que eles podem nem tê-la trazido, então pensei em voltar 10 minutos antes deles terem entrado na delegacia e denunciá-los. Inventei a desculpa de que eles eram dois drogados que estavam me perseguindo e ameaçando, dei a descrição completa deles, até a roupa que estavam vestindo, com isso, os policiais não poderiam nem sonhar em desconfiar de mim. Fiz isso para mantê-los na delegacia e impossibilitá-los de futuramente, chamarem a polícia, pois eles estariam sob suspeita, e não havia meios de saírem dessa situação. Não obstante a isso, minhas ações não poderiam parar por aí, eu ainda não tinha total certeza de que um desses dois era o keymaster, então precisava confirmar, se eu abordasse dois inocentes, eu poderia voltar no tempo, é claro, para me safar, mas isso desperdiçaria meu poder, e o 90 já havia aparecido, eu não tinha tempo a perder, os outros portadores agiriam, eu não podia errar nem se quer uma vez, foi então que fiz algo que havia pensado bem antes deles terem chegado na delegacia. Na madrugada, dias antes deles chegarem, quando o movimento nas ruas estavam calmo e eu podia ouvir com clareza qualquer carro ou pessoa que se aproximasse da delegacia, criei uma peça de metal que remetia àquelas bombas usadas em filmes americanos pra se colocar embaixo de carros e explodi-los assim que alguém girar a chave de ignição, essa era uma ação necessária, coloquei um rastreador que comprei dias antes com todo dinheiro que havia sobrado, onde quer que eles fossem, eu estaria na cola e confirmaria se a pessoa era o keymaster, ou melhor, eu poderia simplesmente ir até a delegacia quando eles fossem embora e perguntar simplesmente se eles haviam ido até lá inventando uma história sobre mim, mas nem foi necessário, quando vi a garota indo embaixo do carro e tirando a peça fake que montei por lá, tive a certeza de que era ELA a keymaster. Até então eu havia usado uma viagem no tempo naquele dia, consegui com sorte colocar o dispositivo embaixo daquele corola rapidamente enquanto eles estavam na delegacia, se ela soubesse de mim ou do meu poder, ela presumiria que eu usei ele duas vezes, uma para avisar os policiais, e a outra para colocar a ‘bomba’ embaixo do carro. Mas com ela descobrindo a peça, meus planos foram apenas aprimorados. Quando os dois foram até o shopping, percebi que estavam querendo se esconder. Eu devia agir agora ou algum outro pegaria meu lugar, tinha que conseguir a chave mesmo que eu tivesse que tomar ações que me colocariam em risco, foi então que usei a viagem no tempo pela segunda vez naquele shopping, esperei para ver se eles iriam comer ou beber algo, e quando vi que eles pediram bebidas no Starbucks, voltei no tempo e consegui colocar um sonífero potente que minha irmã tinha em sua casa, nessa, eu dei sorte, dei sorte também porque quando a atendente chamou pelos dois nomes, eles estavam tão desatentos que nem perceberam que eu mesmo peguei suas bebidas e levei até suas mesas, eles apenas olhavam um no outro, eu estava vestido formalmente com uma camisa social e calças pretas, eles pensaram que se tratava de um atendente de lá ou então de um cliente fazendo uma boa ação, e no meio do percurso até sua mesa, coloquei o sonífero em pó no café da garota, afinal, ela era meu alvo, seu nome era Naiara. Feito isso, ela desmaiaria em poucos minutos depois de um gole, e antes mesmo de voltar no tempo no shopping, eu já tinha pensado em tudo, peguei uma faca de cozinha na casa da minha irmã assim como meu revólver, e observei antes de entrar, o local onde as ambulâncias paravam no estacionamento, se ela desmaiasse com o sonífero, certamente uma ambulância iria conduzi-la até o hospital, e essa era minha chance. Quando vi que quem havia desmaiado era o seu amigo ou seja lá o que fosse, percebi rapidamente que ela havia notado a situação, ela usou ele pra se safar, e naquele instante, tive medo. Eu não estava lidando com qualquer um por aí. Corri até o estacionamento esperando a ambulância chegar, felizmente, havia apenas um motorista e uma enfermeira no veículo, os bombeiros do shopping iriam conduzir o rapaz para dentro da ambulância, e pelo que previ, depois de saber tudo, a garota iria acompanha-lo, afinal, ela também queria me pegar. Eu entrei na ambulância e cortei a garganta do motorista sem que ele pudesse reagir, joguei seu corpo embaixo do banco e vesti seu boné, se me notassem, eu estaria encrencado, mas ainda tinha uma viagem no tempo na manga. Quando os bombeiros colocaram o rapaz na ambulância, vi pelo retrovisor do meio que a garota estava indo também, ela, a enfermeira e o rapaz. Essa era minha chance perfeita, eu não podia desperdiçar! Eu parti com a ambulância para o fim da cidade, iria leva-la até um local afastado e tortura-la até ela me dar a chave, eu também estava com meu revólver, como sempre andava com ele, mesmo quando ia até o bar, não tinha como ela me parar naquele momento, se ela estava desconfiada e pretendesse fazer algo, eu apenas voltaria no tempo, e em todo caso, como precaução, fiz uma carta antes de sair de casa, dizendo para ela me entregar a chave no determinado endereço escrito no papel. Depois de ter matado a enfermeira, uma ação necessária e que não me deixou mal de alguma forma, percebi que a polícia estava atrás da ambulância. A garota havia mesmo previsto meus movimentos. Eu havia perdido naquele dia, mas ainda tinha minha última carta na manga, aquela carta ameaçando os familiares dela. Eu não pretendia usar mais uma viagem no tempo, eu iria fugir, ou tentar, porque se eu fizesse a viagem, a carta não seria entregue para ela, e minhas ações só iriam ser em vão, visto que eu não poderia mais usar a viagem naquele dia! Então resolvi arriscar, depois de bater a ambulância no meio de um matagal, corri para fora o mais rápido que podia, felizmente, ninguém tinha me visto. Eu tirei a camisa social que tinha e coloquei uma regata que havia em minha bolsa, saí andando na outra vicinal como se fosse apenas um pedestre. Agora tudo que me restava era esperar que ela caísse naquela falsa ameaça, afinal, eu nem conhecia seus pais ou sabia quem ela era, a não ser seu nome, mas se ela for alguém que ama os pais, vai levar a chave até o endereço que dei, que na verdade nada mais é do que a casa da minha ex esposa. Eu iria ter dois desejos em um só dia."